| Com jeito
de virada
Tomo um
ônibus e vou para Ipanema entrevistar o Kid Abelha. De repente
entro em êxtase quando a voz de Paula, a cantora do grupo, mistura-se
com a
velocidade do ônibus fazendo com que em minha memória vazem
cenas, filmes,
fotos, quadros, toda minha pintura íntima. O ônibus pára
e eu desço meio
seco, meio molhado, entro no edifício, no elevador, no apartamento.
A conversa
começa com Leoni (baixo). George (sax), Bruno (guitarras),
Paula e Beni (bateria) chegam depois. O grupo esteve em Canela, no Rio
Grande do Sul, participando da Feira do Disco 83, uma espécie de
vitrine
armada das gravadoras para mostrar seus lançamentos, as tendências
musicais,
mil badalos. Pergunto alguma coisa a respeito da manipulação
por parte das
gravadoras, se o grupo foi embrulhado numa embalagem de marketing, se
existe
um esquema de fabricar conjuntos de rock descartáveis
tipo-uma-música-e-some. Paula desmente total: "Não
tem essa transa de
marionete não. As gravadoras só manipulam quem elas inventam.
Quem chega com
uma transa pronta, algo estruturado, não sofre esse tipo de pressão.
Eles só
pedem pra você dizer, situar, definir a imagem". Enquanto no
morro em frente
um incêndio começa a se alastrar a conversa gira em torno
de declarações
cheias de ressentimento, atitudes fascistas, papos brabos como os de Lobão
acusando Chico Buarque de bobão ou Arrigo Barnabé diminuindo
o trabalho de
outras pessoas. Mas o que preocupa Leoni é outro papo mais pesado,
o da
paranóia gerada por preconceitos: "Me preocupa o ufanismo,
certo preconceito
contra eletrônica, tecnologia e tal. Nós queremos fazer sucesso
como MPB e
existe um público que não fala inglês e tá
a fim de informação musical nova.
O espaço tá aberto e nós queremos um lugar nele".
No metiê
pop do chiclete radiofônico algo de novo, algo charmoso. O Kid
Abelha não limita seu trabalho com vulgares sonhos heavy-metais,
progressivos ou punks preferindo enriquecer a fantasia do seu rock com
outros elementos, outras artes: "O que distingue, o que nos distingue
é o
fato de termos informação intelectual, trabalhamos com vários
enfoques. O
que tem por aí é muito músculo musical e cabeça
pequena", fala Beni e Leoni
completa: "estamos começando a filtrar nossas informações".
Esse é o grande
barato do grupo, filtrar várias informações liquidificando
tudo, refinando o
que vier, da engenharia aos namoros, do surfe à literatura passando
pelo
estudo de línguas e balé. Essas influências extra-musicais
ficam nítidas em
Paula que, estudando Comunicação Visual na PUC, vive às
voltas com desenho,
pintura, gravura, trabalhos gráficos e audiovisuais. Essa experiência
acaba
refletida nas letras que, geralmente, injetam um cineminha na cabeça
das
pessoas ? "quando ela cai no sofá/so far away/vinha à
beça na cabeça/eu que
sei". Paula fala: "A gente tem muito cuidado com as letras.
Com tudo.
Nenhuma música sai assim de um dia para o outro. As letras são
trabalhadas,
são estudadas as combinações com a música,
a melhor maneira de encaixar,
esse tipo de cuidado. Apurando total, refinando".
O incêndio
tá firme e a janela parece uma lareira flutuante, uma parede
negra com grafitis em brasa: "Fazer amor de madrugada/amor com jeito
de
virada/tá ficando tarde no meu edredom/larga as contas que no fim
das
contas/o que interessa pra nós é.../fazer amor de madrugada/amor
com jeito
de virada. A paisagem urbana é muito misturada, estilhaçada.
Temos que viver
com fragmentos, pedaços de cenas, de objetos, de filmes, de pessoas.
As
emoções estilhaçadas, barato razante quando se capta
um detalhe nalguma
menina, um beijo, um gesto, um brilho, qualquer coisa. É bom ligar
o rádio e
ouvir uma música que te põe em sintonia com essa coisa urbana,
energia de
estilhaços, vibrações atômicas das ruas, dos
apartamentos, de gente se
misturando em amores efêmeros. Como diz Leoni: "Procuramos
transar
impressões próprias do mundo. Inspiração cotidiana
de televisão, violência,
namoro, o que rola por aí. Flashes desse cotidiano, pequenos detalhes.
Interessa a atuação dos sentimentos". Algo de novo,
charmoso, outro sabor na
marcação viciada das rádios. Do baú de influências
musicais saem Pretendens
? unanimidade no grupo -, Men at Work e Police. Algumas preferências
íntimas
como o poeta americano Ezra Pound e o filme Mephisto. Paula adora fotos
de
moda, gosta de Escher, um holandês que gravava na pedra figuras
em
metamorfose pirando a nossa noção de perspectiva. Ela também
gosta do
trabalho de Ricardo Nauemberg. Ele transou a capa do primeiro compacto
do
grupo e também criou as belas aberturas das novelas Final Feliz
e Louco
Amor, além de ter trabalhado na nova abertura do Fantástico.
Um grupo de
inspiração visual mexendo com várias formas, movimentando
um arsenal de
linguagens pra oferecer em disco o êxtase dos sentidos. Edredons
pintados, a
voz de Paula sugerindo mil mentiras, o sax envolvendo musas
cinematográficas, logotipos misturados, letras injetando cineminha,
atualizando os sentimentos. O grupo sobe pro estúdio, brisa morna,
o
incêndio parou, Paula toca Police no piano, as torres no Sumaré
piscam, vem
amor que a hora é essa. Kid Abelha, rock visual, êxtase dos
sentidos.
FAUSTO
FAWCETT, Rio de Janeiro, 83.
|