Bruno Fortunato - Linguagem Pop

Quando o assunto é guitarra pop, o nome de Bruno Fortunato é imediatamente lembrado.
A bordo do Kid Abelha, o guitarrista elaborou grudentas melodias, surpreendentes por seu encanto e simplicidade, além de mostrar ser possível o uso do instrumento na elaboração de temas extremamente radiofônicos
por Regis Tadeu
fotos: Tatyana Alves

Bruno Fortunato é um caso à parte quando falamos da guitarra como ferramenta de expressão pop. Surfista, ar de eterno garotão que almeja a serenidade como pano de fundo para sua existência, ele optou por abrir mão de sua invejável técnica - comprovada por inúmeros artistas em jam sessions descompromissadas - em função de uma preciosa atividade: trabalhar seu instrumento em favor da valorização da composição em si.
Em agradável bate-papo telefônico, Bruno demonstrou suas concepções com clareza invejável, explicando os motivos que o levaram a se tornar uma grande referência para aqueles que privilegiam a veia pop como um caminho bacana em busca da canção perfeita.

Não me lembro de ter ouvido um disco do Kid Abelha em que seus violões e guitarras estivessem tão na frente do arranjo. O fato de você ter composto sozinho, em casa, influiu nesse aspecto?

Bruno Fortunato - Provavelmente. Trabalhando com mais tranqüilidade, num ambiente confortável como sua própria casa, você tem maior produtividade. Outro aspecto legal de trabalhar sozinho é que fico mais à vontade para repetir as idéias quantas vezes forem necessárias.

Você é um cara exigente consigo mesmo nesse aspecto?
Bruno - Sou perfeccionista, mas com o tempo melhorei um pouco. No começo de uma banda, você luta com unhas e dentes por uma boa idéia. Depois, aprende a ser mais flexível, até deixando de lado um caminho que estava muito legal para partir em direção a uma coisa nova.

Você sempre foi um guitarrista que trabalhou muito mais em função da canção do que valorizando algum estilo que fosse o seu preferido. Determinadas composições, em estado bruto, pedem certos elementos?

Bruno - Sim. No caso do Kid Abelha, temos essa característica bastante exacerbada por tocarmos música pop, com diversas caras e propostas diferentes. Quando uma banda tem um estilo mais definido, o guitarrista vai se aprimorar e aperfeiçoar naquela praia.

Isso pode ser um pensamento limitante?.

Bruno - Nunca parei para pensar nisso. Não sei se o cara sente uma certa insatisfação ou se gostaria de experimentar outras coisas. Há muitos ídolos meus que têm um estilo definido, que são aquilo mesmo, e eu os adoro.

Quem são eles?

Bruno - São tantos. Gosto de jazz, blues, rock tradicional... Um cara que vi quando era moleque, no começo dos anos 70, e fiquei maluco, foi o Lani Gordin, um mago em termos de harmonia, garra e pegada nervosa. Gosto também do Frejat, do Herbert Viana, do Lulu Santos, do Wes Montgomery, Miles Davis... Sou inspirado pelos estilos de música, tenho uma fixação obsessiva pelo meu instrumento. Ouvi muita coisa de metal farofa dos anos 80, tipo Malsmteen e George Lynch, e quando vejo o Edu Ardanuy tocando, fico babando (risos).

No mais recente disco do Kid Abelha, Surf, aconteceram mudanças durante o processo de composição e de elaboração das linhas de guitarra que nortearam a sonoridade do trabalho inteiro?

Bruno - Ainda estou num estágio rústico, pois gravo as bases num MD de quatro canais. O que acabou me fazendo usar isso como gravação foi perceber que não sentia perda de qualidade em comparação com outros métodos. Gravei quase tudo com POD, mas microfonei algumas coisas. Para nossa proposta, não precisa de mais nada. Talvez um dia eu tenha o privilégio de ter muito tempo e um orçamento grande para ficar experimentando diferentes amplificadores, gastar uma hora só para tirar um som ou para gravar uma linha de guitarra.

 

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