BIZZ, AGOSTO/87.

 
KID ABELHA - ENFIM, NA METRÓPOLE


Frequentar o mesmo estúdio que Smiths, Elvis Costello e Peter Gabriel é só um sonho para muitos músicos. Para os abelhas, tudo começou como uma brincadeira de praia, mas eles foram de fato para Londres mixar o seu último LP, Tomate.


BIZZ - Por que mixar o LP aqui em Londres?

PAULA - A gente veio ver qual era a diferença dos estúdios daqui, quais os equipamentos usados e porque o tipo de som é tão diferente, inclusive do americano. Também a gente sempre gostou mais daqui em termos de rock.

GEORGE - E também porque esse disco é um disco especial para a gente, é o primeiro depois das mudanças. Essa viagem foi um prêmio, um presente pra gente curtir junto.


BIZZ - De quem foi a idéia de vir para cá?

GEORGE - A Paula teve a idéia na praia, por acaso, e achamos que seria legal.


BIZZ - Como a gravadora reagiu?

PAULA - Mais ou menos, tivemos que negociar.


BIZZ - Contem como está sendo o trabalho.

PAULA - A gente não sabia o que ia acontecer, ficamos com medo das pessoas não darem atenção. Mas foi ótimo, porque o estúdio aqui é meio casa, é como se estivéssemos lá no Rio, no estúdio Nas Nuvens. Foi um clima bom e bastante relaxado. Nos EUA, por exemplo, o trabalho é excelente mas a relação é muito mais fria. Aqui a gente conversa com todo mundo, as pessoas são super atenciosas.


BIZZ - Quem já gravou aqui no Edens?

PAULA - Smiths, Scritti Politti, Elvis Costello, Duran Duran e Peter Gabriel. Só que aqui é comum gravar em vários estúdios.

GEORGE - É engraçado, as pessoas gravam umas faixas aqui, depois mudam de estúdio e gravam mais outras, às vezes, fazem só os teclados num, voz no outro.


BIZZ - Como está sendo o entrosamento com o técnico inglês?

GEORGE - Está sendo bom porque viemos com o nosso engenheiro, o Paulo Junqueiro e o nosso produtor Liminha, então está tudo sendo legal, porque tem a referência do Brasil, ao mesmo tempo que Mike, o técnico fica operando mas também dando uns toques, dando a direção.


BIZZ - Vocês trouxeram algum trabalho antigo? O que eles acharam?

PAULA - Trouxemos, inclusive a mixagem que fizemos no Brasil da música "Amanhã é 23", que já está tocando na novela das oito, para comparar. Mas só mostramos para eles quando a mixagem daqui ficou pronta. E a que fizemos no Brasil ficou tão boa quanto.

BRUNO - Mas aqui tem mais facilidades, a mesa de som é toda computadorizada, tem "oitocentos mil" canais. Dá para fazer experiências com entradas e saída de instrumentos e mixagens que ficariam impossíveis de fazer manualmente.

PAULA - A mesa daqui do estúdio é um absurdo.


BIZZ - O que eles acharam dos trabalhos antigos?

PAULA - O Mike gostou do fato de termos bateria de "verdade" porque agora só se trabalha com bateria eletrônica. Achou nosso som de bateria bem gravado. Ficou impressionado.

BRUNO - Até o U2 agora simula o som da bateria do Led Zeppelin... pega leve!


BIZZ - Como é?

CLÁUDIO - Traduzindo é o seguinte: eles pegam o som da bateria do Led Zeppelin e armazenam num computador. Aí toda vez que o baterista ataca na sua própria bateria, sai aquele som que era do John Bonham.


BIZZ - Eu, particularmente, acho que virou moda dizer que todo mundo imita todo mundo, que o som do Cult parece o Led Zeppelin...

PAULA - Mas acho que parece mesmo...


BIZZ - Queria que vocês explicassem o nome do LP.

PAULA - É tirado de um texto de um poeta mineiro Murilo Mendes, meio surrealista e com muito humor - é uma brincadeira com a crítica, ele mesmo se criticando. E a letra foi feita em cima disso. Vai ser um prato cheio para a crítica, é uma provocação mas ao mesmo tempo é séria. A gente fala na música em vez de dar entrevistas.


BIZZ - As vendagens dos LPs têm sido boas?

GEORGE - A do Educação Sentimental foi duzentos mil, e de Ao Vivo, cento e trinta mil. Mas não teve muito trabalho em cima, porque a idéia inicial era para ser um clip de uma música ao vivo mas não deu certo, aí resolvemos lançar o disco, que continha uma música inédita.

PAULA - Ficou bem diferente dos LPs pois o clima dos shows é outro, muda tudo do estúdio para o show.

GEORGE - Foi um disco-documento, um disco para os fãs.


BIZZ - Vocês preferem tocar ao vivo ou em estúdio?

PAULA - É diferente. Um disco fica gravado para sempre, a responsabilidade é muito maior, tem mais nervosismo. Nos shows o começo é que é difícil, as pessoas não conhecem as músicas, você fica tentando imitar o disco, fica tudo muito rígido, até conseguir se soltar.

BRUNO - Agora estamos tendo mais prazer em gravar, essa operação ficou mais familiar. Temos cada um gravador de 4 canais em casa, com um mini-estúdio. Ficamos experimentando mais.


BIZZ - Como é o público de vocês?

PAULA - Nosso público é bom em qualquer lugar.

GEORGE - São Paulo nos surpreendeu, as bandas cariocas sempre tiveram uma briguinha com as de São Paulo.

PAULA - A gente achava que São Paulo era a Folha de São Paulo e não tem nada a ver. É só a crítica. Fomos lá e foi ótimo.


BIZZ - Então falem da relação de vocês com a imprensa.

BRUNO - Melhorou para burro.


BIZZ - Mas por que a crítica sempre fala mal de vocês?

PAULA - Porque a crítica brasileira não está preparada para o nosso tipo de som, só gosta das coisas estrangeiras. Chegando aqui você vê claramente, tem tanta coisa ruim e as pessoas lá acham bom porque é inglês. O nosso som não é político em termos de letras, não é engajado, é um som pop - o que não quer dizer nada de ruim.

GEORGE - Não quer dizer que seja armação, cada um tem o direito de experimentar. Nosso trabalho é feito com o maior carinho e convicção, é o que gostamos de fazer.

PAULA - Somos a única banda no Brasil que assume ser uma banda pop. As pessoas acham que é comercial, bobo, mas todo mundo é comercial. Não temos esse lance de querermos ser malditos.


BIZZ - Como vai o rock no Brasil?

PAULA - Lá não tem essa coisa de movimento, cada banda é uma coisa diferente.

CLÁUDIO - O som do pessoal de Brasília tem uma coisa mais parecida entre si.


BIZZ - Vocês têm bandas favoritas?

PAULA - Cada um tem suas preferências.

GEORGE - Não temos o grupo que todo mundo gosta e isso é bom porque nosso som varia.

CLÁUDIO - Acho que conseguimos uma unidade em torno de uma só pessoa até agora, que é o Prince.

PAULA - Mas mais pela ousadia em termos de tudo: som ruim que parece demo, como o som de "Kiss". Ele coloca coisas esquisitas.

GEORGE - Não vamos atrás da música, mas atrás do conceito.

PAULA - Da falta de vergonha dele, sem padrões estabelecidos. O fato dele poder inverter tudo, botar um som ruim e ficar bom.


BIZZ - Mas pra isso tem que ser...

GEORGE - Mas é um toque para as bandas do Brasil não irem atrás do som de fora.


BIZZ - É difícil... O Robert Smith falou numa recente entrevista que os grupos brasileiros que ele ouviu (Capital Inicial, Titãs e RPM) eram puras cópias de grupos como Simple Minds ou U2. Ele ficou a fim de ouvir bossa nova e até salsa!

PAULA - Mas é uma coisa da juventude que é ligada nessas coisas. A gente não pode também ficar tocando samba ou ir para uma tribo batucar. Somos pessoas da cidade, e essas nossas influências são muito internacionais, não adianta ficar folclórico ou ficarmos num gueto. Tem que haver uma mistura, uma troca. Mas agora que o rock deu certo, todo mundo resolve fazer.

GEORGE - Os grupos que eu gosto no Brasil são os que tem letras que transmitem algo.


BIZZ - Não tem nada a ver, estamos falando de originalidade.

PAULA - Mas no começo cada um procura um pouco e é claro que tem imitações, mas depois começa a se criar.

BRUNO - O Metrô por exemplo está fazendo um som bastante diferente e pesquisaram outros tipos de som, os Paralamas também deram uma guinada para o reggae e ska. Está todo mundo procurando.


BIZZ - Como foi o começo de vocês?

PAULA - Fora o Cláudio que é músico desde os 6 anos, todos nós começamos por acaso naquela época em que todo mundo estava formando uma banda. Agora que virou moda todo mundo aceita facilmente. Na nossa época os nossos pais eram contra a idéia de sermos músicos.

GEORGE - Quando começamos a única referência que tínhamos era de fracasso.

PAULA - Só MPB dava certo. Até os grupos mais chocantes como os Mutantes, eram considerados malditos. O som daquela época não fez vender muitos discos.


BIZZ - Mas naquela época os grupos experimentavam mais... o que mudou em vocês agora?

PAULA - Estamos mais tranquilos em relação ao que as pessoas estão pensando. Estamos a fim de experimentar.


BIZZ - Dá para ganhar dinheiro com rock no Brasil?

PAULA - Dá, somos todos independentes, dá para viajar, mas isso em termos de salário brasileiro.


BIZZ - Vocês estão com algum projeto de tocar no exterior?

GEORGE - Vamos talvez tocar em Portugal onde nosso disco ao vivo já foi lançado, e também para Nova York no SOB onde os Paralamas tocaram. Mas também queremos fazer uma longa temporada no Rio.


BIZZ - Como vocês compõem?

PAULA - Faço as letras e os rapazes as músicas. Antigamente escrevia coisas muito pessoais, de relacionamento. Agora está mudando, nesse disco tem mais coisas de rua, tipo a música "Leão" que fala sobre um leão de chácara. As letras surgiram a partir das músicas. O lema desse disco era "estranho", tentar coisas que a gente talvez não tivesse coragem. Já que temos o sucesso, acho que devemos aproveitar para experimentar e não fazer coisas iguais o tempo todo. Não tem essa de dizer que as pessoas não acompanham as mudanças.


BIZZ - As mudanças do grupo afetaram vocês? Foi traumático?

PAULA - A saída do baterista Beni foi difícil. No lugar do Leoni entrou a Claudia Niemeyer que tocou nos shows e o Nilo Romero baixista do Cazuza, que está tocando no disco. A gente já se acostumou, se cada ano tem uma mudança, é porque já estávamos querendo. Também mudamos de empresário. Acho saudável.

GEORGE - Esse disco é um recomeço depois das brigas.


BIZZ - Vocês viram muitos shows?

TODOS - Peter Gabriel, Youssouf N'Dour, Prince, Iggy Pop, Bowie e Tina Turner.

PAULA - Saindo dos shows, ficamos impressionados com a pobreza da gente, não temos nada. Eles tem uma infra-estrutura incrível. Mas rola dinheiro, até as bandas menores têm mais facilidades. A gente sua para conseguir as coisas lá no Brasil, as condições são péssimas e as pessoas não têm dinheiro para gastar.

GEORGE - Mas o importante é a troca com o público. O show do Bowie, por exemplo, foi frio, muito ensaiado.


BIZZ - É difícil ser cantora de rock no Brasil?

PAULA - Primeiro porque não tem muitas, tem mais cantoras solo, como a Marina. Teve a Virginie no Metrô, têm as Mercenárias que é só de mulheres. O rock é muito machista, mas isso é em todo lugar. Tem de resolver encarar, quanto mais mulheres tocando, compondo e cantando, melhor. Mas também não precisa lutar com as mesmas armas que os homens, se embrutecer. O lance é ser mulher mesmo.


BIZZ - Estão levando muita novidade em termos de disco?

GEORGE - Da última vez que viemos tinha mais coisas acontecendo. Agora está super estável, as novidades são coisas de fora, salsa, soul, os africanos. Sinto um cansaço por aqui, no Brasil fico mais excitado ouvindo as bandas daqui.


BIZZ - Algum recado?

PAULA - O que sentimos por aqui, nessa viagem, é que a gente não está tão distante do mundo. Não devemos ter complexo de inferioridade, a única diferença é dinheiro. Não tocamos pior.


 

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