A nova onda do Kid Abelha

MARCOS GOMES DE AZEVEDO
Rádio JB FM

Perto de completar 20 anos de praia, o Kid Abelha resolveu lançar um CD que não poderia ter um título mais coerente: Surf. Afinal, foi com a gravação de um show que fizeram numa praia carioca que o grupo lançou-se no mercado fonográfico. Tudo aconteceu no memorável verão de 1982, no período em que o Circo Voador fincou suas estacas nas areias do Arpoador.

No final da estação, os administradores do Circo descolaram uma verba e produziram um histórico LP chamado "Rock Voador", hoje uma verdadeira relíquia, no qual estavam incluídas as faixas, Distração e Vida de cão é ruim prá cachorro (que, por sinal, foram logo entregues ao anonimato). Dali em diante, o Kid embarcou numa gigantesca onda de sucesso, sem jamais navegar em maré de modismos. E no álbum atual, Paula Toller, Bruno Fortunatto e George Israel mostram que o vento anda soprando a favor da banda.

Além de uma nova e inspirada fornada de composições próprias (o suficiente para dispensar o recurso das releituras), a turma reedita a memorável dobradinha com o DJ Memê (um dos principais responsáveis pela decolagem do disco anterior, Autolove) e inaugura uma parceira com o multi-intrumentista Max de Castro que tem tudo para render boas manobras. E apenas dois compositores que não fazem parte do Kid Abelha ajudaram a dropar as 11 faixas de "Surf": o 'barão' Roberto Frejat e a revelação da MPB Cris Braun.

Por que a escolha do "Surf" como conceito desse novo álbum?

Eu tenho a fantasia de que o surfista é um cara feliz, ainda que solitário. Como as músicas do disco falam de solidão, usei o surf como imagem da felicidade. Além disso, surf e música sempre foram muito ligados.

Porque vocês decidiram fazer um disco somente com músicas autorais?

Fazer discos autorais é a nossa profissão desde 1982. Ao longo desse tempo descobrimos e desenvolvemos um mundo musical próprio e queremos continuar nesse caminho, senão viraríamos 'banda de baile'.

Essa fornada de músicas inéditas que fazem parte de "Surf" era material antigo ou foi composto especialmente para o álbum?

Com exceção de Solidão, bom dia! e Ressaca 99, todas as canções foram feitas em 2000.

Apenas dois compositores que não são do Kid Abelha ajudaram a fazer as 11 faixas do CD: Roberto Frejat e Cris Braun. Como surgiram essas duas parcerias?

Frejat é parceiro do George em várias músicas; nós o chamamos para 3 garotas porque a letra era sobre a vida na estrada, e o Barão é a banda mais 'roquenrol' do Brasil. A Cris já havia feito conosco Como é que eu vou embora e Deve ser amor. Além de ser excelente cantora, ela escreve muito bem, por isso vamos continuar a trabalhar juntas.

Antes de gravar esse disco, vocês chegaram a receber um convite para fazer outro álbum acústico?


Pintou, mas não acho nem um pouco interessante.

Vocês não acham que essa onda de regravação (disfarçada de 'songbooks, unpluggeds e tributos') que assola o pop e a MPB está passando dos limites?

Cada caso é um caso, mas a culpa é, em grande parte, das rádios, que não lançam mais nada e só querem tocar sucessos. Também não podemos esquecer do jabá, que é o câncer dessa indústria.

O que foi preponderante para vocês desfazerem um casamento de 18 anos com a antiga gravadora?

Cansamos de ver nossos discos mal divulgados.

Foi idéia de vocês ou decisão da 'ex-gravadora' incluir as versões originais de Distração e Vida de cão é ruim pra cachorro (extraídas do histórico LP Rock Voador, de 1982) na coletânea E-Collection, lançada ano passado?

Elas têm sua graça como 'memorabilia', apenas.

No ano que vem, o álbum Rock Voador faz 20 anos. Vocês pretendem comemorar essa data de forma especial?

A gente nunca planeja muito essas coisas. Se o Circo Voador reabrir, já será uma grande comemoração, e iremos lá brindar.

Os primeiros shows do Kid Abelha foram nos extintos Circo Voador e Noites Cariocas. As bandas novas têm hoje algum espaço com importância semelhante ao que foram o Circo e o Noites para a geração 80?

Os que mais se assemelham são o Espaço Sérgio Porto e os clubes da periferia.

Como foi a experiência de voltar a se apresentar no palco do Rock in Rio, quinze anos depois da primeira edição do festival?

Foi sensacional, porque dessa vez nós vencemos e convencemos. Além disso, também tivemos o gostinho de ver o 'filho' (o rock pop brasileiro) crescido e bem criado, dando de dez nos estrangeiros (sem ufanismo, por favor!).

Depois de uma bem-sucedida dobradinha em Autolove, o DJ Memê volta a trabalhar com o Kid Abelha. Qual foi a sua participação em Surf?

Memê traz para nós uma barulheira da noite que a gente gosta de ter em algumas músicas. Além disso, é um cara muito divertido e amigo.

E o Max de Castro, como surgiu a idéia de convidá-lo e o que ele faz no disco?

Max produziu 10 minutos e Solidão, bom dia!, as músicas com acento mais soul. Gostamos da produção do seu álbum de estréia Samba raro, e convidamos, pois queríamos 'sangue novo' no estúdio.

O lançamento de um disco de inéditas irá implicar numa modificação muito radical no repertório e na estética do show atual?

O repertório é sempre equilibrado, pois há pessoas que nunca viram um show do Kid e outras que o vêem regularmente. Vamos tocar sete músicas do Surf num cenário grandioso e profundo. No Rio, estaremos dia 18 de agosto, no ATL Hall, e em São Paulo, dias 31 e 1º e 2 de setembro, no Directv Music Hall (Palace).

 

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