Nelson Gobbi
Embalado pelo êxito comercial do CD/DVD Acústico
MTV (2002), em 2004 o Kid Abelha bateu a poeira da estrada acumulada em mais
de dois anos de turnê e começou a pensar em um novo disco de inéditas.
Seguindo o antigo e sábio preceito de que não se mexe em time
que está ganhando, o grupo volta a escalar Paul Ralphes, responsável
pelo projeto anterior, para produzir o novo CD. Ficou a cargo do galês
radicado no Rio trabalhar no estúdio as composições da
dupla de Paula Toller e George Israel, que assinam dez das 11 faixas do álbum
Pega vida.
O produtor e o grupo optaram por registrar tudo em sessões ao vivo ao
invés de recorrer às bases pré-gravadas, o que manteve
a sintonia do CD com o trabalho anterior. Mas esta é única ligação
entre os dois discos, já que Pega vida evita qualquer resquício
acústico e se aproxima mais dos álbuns lançados pelo grupo
no início de carreira e na década de 90. As faixas inéditas
injetam algum frescor ao repertório da banda, que estava totalmente voltado
a seu passado musical, mas o resultado final fica aquém do último
bom disco de carreira do Kid Abelha, Meu mundo gira em torno de você,
de 1996.
Talvez o disco agrade aos fãs incondicionais do grupo, já que
nele estão registrados algumas de suas marcas inconfundíveis,
como a voz derramada de Paula Toller e a bem dosada mistura de pop-rock e baladas.
Contudo, o CD pouco acrescenta à carreira da banda, principalmente pela
ausência de uma música com apelo para tornar-se hit, como tantos
outros que o Kid Abelha emplacou desde a década de 80.
Canções como Eu tou tentando, Poligamia, eutransoelatransa, Strip-tease
e a faixa-título se perdem entre críticas ingênuas e versos
apelativos que não conseguem conjugar as idéias de vitalidade,
amor e sexo, como pretendiam Paula Toller, George Israel e Bruno Fortunato.
A regravação de Será que eu pus um grilo na sua cabeça?,
que resgata a utopia da música rural setentista de Guilherme Lamounier
e Tibério Gaspar, não repete o êxito de Na rua, na chuva,
na fazenda, de Hyldon. Apenas Eu não desisto de você, Peito aberto
e Fala meu nome trazem a referência do pop-rock de qualidade feito pela
banda em seus melhores anos.
Os tropeços de Pega vida deixam uma incômoda sensação
que a fonte pop do Kid Abelha possa ter secado, pelo menos momentaneamente.
A decepção aumenta em comparação à interessante
estréia solo de George Israel, Quatro letras (2004), que sugeria um lançamento
promissor do grupo neste ano. Para quem acompanhou a trajetória de sucesso
da banda, resta a esperança para que ela volte à antiga forma
em um trabalho futuro, quando não estará mais sujeita às
pressões de substituir um acústico recheado de sucessos.
[29/04/2005]