Sexo e natureza temperam novo CD do Kid Abelha
[ 09/05 - 00:02 ]
Paula Toller sempre foi chegada a uma provocação
usando linguagem direta. Foi assim que o Kid Abelha ganhou
popularidade, a partir de 'Como Eu Quero' (1984), mesmo que isso custasse acusações
de reacionarismo na época.
Em seu único disco-solo, ela apimentou um clássico de Assis Valente
dos anos 1930, capaz de escandalizar as
vovozinhas. Agora, há quem ache que foi ousada ao escrever a letra de
'Poligamia', uma das 11 canções inéditas
da parceria com George Israel que compõem o novo CD da banda, 'Pega Vida'
(Universal), que tem produção do
galês Paul Ralphes e belo projeto gráfico de Fernanda Villa-Lobos,
com desenhos de Mari Stockler.
Maduro, com sonoridade mais roqueira, depois do fenômeno
'Acústico MTV', e tratando de temas mais adultos do
que o habitual, o Kid Abelha se equilibra entre o sexo e a natureza, sem deixar
de ser urbano. 'Poligamia' já
vem sendo chamada de "melô da galinha" pelas más línguas.
Estaria Paula defendendo a liberdade de as mulheres
serem tão promíscuas quanto os homens sem ser discriminadas por
isso? Não é bem por aí. "A chave da letra está
nos versos 'abaixo o enguiço dos neurônios/ abaixo o desperdício
de hormônios'. A sexualidade é apenas um dos
temas do disco, é o que chama mais a atenção, mas tem também
a proximidade com a natureza. É tudo parte de uma
chamada para vida", explica Paula.
Na faixa-título, uma das boas baladas do CD, há
outro componente que converge para esse eixo vital: a dedicação
ao outro. "Não é tão complicado ter prazer em dar
prazer", diz trecho da letra. "Sempre procurei ser muito
direta, falando na primeira pessoa e sem ficar relativizando as coisas. Entre
as coisas que proponho é ser
clara, provocar e esperar para entender o que as pessoas acham disso",
diz a cantora.
Outra característica retomada
pelo grupo é a de trazer para sua linguagem canções alheias.
Desta vez Paula,
George e Bruno Fortunato reavivam 'Será Que Eu Pus um Grilo na Sua Cabeça?'
(Guilherme Lamounier/Tibério
Gaspar), de 1973, nos moldes de 'Na Rua, na Chuva, na Fazenda' (Hyldon), do
álbum 'Meu Mundo Gira em Torno de
Você', de 1996. Ambas são de temática rural e foram vertidas
para o reggae.
Única não inédita do disco
'Grilo' serviu de base para a melancólica 'Mãe
Natureza (Querência)', que reflete sobre a distância que as
pessoas urbanas sentem da vida campestre. "Não é tão
flower power quanto a outra, mas é uma outra geração do
mesmo assunto", observa Paula. O sexo reaparece em 'Eutransoelatransa'
e 'Strip-Tease'.
Como essas, outras canções estão
coligadas pela temática. A autobiográfica 'Duas Casas' trata das
dúvidas de
filhos de pais separados, em busca de um ponto de referência. É
próxima de 'Órion', que disserta sobre as
ambigüidades da saudade. Dúvidas, incompatibilidades e ambigüidades
também surgem em letras como as de 'Eu Tou
Tentando', 'Porque Eu não Desisto de Vc' e 'Eutransoelatransa'.
Em algumas, Paula brinca com a grafia das palavras usando
linguagem de chat virtual. "Acho importante saber a
linguagem formal, mas isso está na moda, é divertido, é
um código como em qualquer tribo. Só não acho que deve
ser usado por ignorância. Em outras letras eu grafei 'porque' e não
'pq', para saberem que eu sei escrever
direito", ironiza.
Com 'Pega Vida', a despeito de correntes contrárias,
o grupo se mantém como um dos poucos expoentes da geração
revelada nos anos 1980 a produzir algo atraente no pop nacional, com canções
redondas e sonoridade vitaminada.
E também porque, além de cunhar letras atrevidas, Paula continua
cantando deliciosamente agridoce.
Por Lauro Lisboa Garcia