Discomania
A filosofia pop do Kid Abelha
(Hagamenon Brito)
Kid Abelha lança o CD
`Pega vida´: letras de Paula Toller foram
influenciadas pelos escritores Pedro Juan Gutiérrez e Michel
Houellebecq
Vinte e quatro anos de carreira
bem-sucedida no raquítico mercado pop
nacional nos ensinaram algumas lições sobre o Kid Abelha - entre
elas, a de que a banda liderada por Paula Toller criou um estilo
personal e competente o suficiente para atravessar incólume as
variações da cena e cativar novos fãs.
Então, depois de Surf/2001
(80 mil cópias), um dos melhores álbuns do
grupo, e do projeto Acústico MTV/2002 (575 mil CDs e 125 mil DVDs), o
Kid Abelha segue o seu caminho pop rock com Pega vida (Universal),
trabalho produzido pelo galês Paul Ralphes e que atesta a maturidade
de Paula Toller como autora.
A influência britânica
de Ralphes, há anos radicado no Rio, aparece
em pequenos detalhes (acentos folk, indie pop) dos arranjos, mas as
letras de Paula - sobre energia sexual (Poligamia,
eutransoelatransa), natureza (Mãe natureza, Órion) e busca
existencial (Eu vou tentando, Pega vida) - se destacam.
Em Surf, Paula cantava o ideal
surfista (e utópico) de felicidade. As
letras mais realistas e prazerosas de Pega vida "foram influenciadas
pela leitura do escritor Pedro Juan Gutiérrez e do filósofo Michel
Houellebecq", revela por telefone. Além disso, ela, o filho Gabriel
e
o marido (e cineasta) Lui Farias mudaram para uma casa cercada de
mata, na Gávea.
Autor de Trilogia suja de Havana
e O Rei de Havana, o cubano
Gutiérrez tempera suas crônicas outsiders com fortes cenas de sexo.
Já o francês Houellebecq, de Plataforma e Partículas elementares,
acredita que o valor do homem na sociedade atual é medido por sua
eficiência econômica e por seu potencial erótico.
Parodiando a afirmação
de Gutiérrez de que "um escritor nunca é
inocente", Paula Toller é uma bela jovem senhora que, a cada novo
álbum, faz um pequeno strip-tease da sua alma pop. Em junho, sai o
DDV de Pega Vida: gravado ao vivo em São Paulo, traz a participação
do cantor e surfista americano Donavon.
"Nós mandamos o clipe
de O rei do salão, ele gostou e veio ao Brasil
apenas com o violão. Gravamos a participação em estúdio:
uma versão
em inglês de O rei do salão e It don´t matter, dele. Donavon
é como
se fosse um personagem do nosso disco anterior. Vive tocando e
surfando pelo mundo. Ele é um freerider, é pago para surfar sem
precisar competir", explica a vocalista.
Fonte: Correio da Bahia, 04 de
maio de 2005, Seção "Discomania"