Carlos Ratton
![]() |
|
professor-doutor Aziz Nacib Ab'Saber |
Depois da aula, que contou com a participação de técnicos
ambientais da Universidade de São Paulo (USP) e de empresas da região,
além de biólogos e professores, os alunos percorreram de
barco o Canal de Bertioga até o laboratório do Proagua, onde
os houve um rápido debate sobre tudo que observaram no percurso.
Antes de conversar com as crianças, Aziz Saber, em entrevista exclusiva a A Tribuna, manifestou o seu descontentamento com a falta de iniciativa dos governos — municipal,estadual e federal — para minimizar o impacto que a falta de infra-estrutura urbana, motivada pela ocupação descontrolada e sem fiscalização, causa ao meio ambiente e à saúde das pessoas.
A Tribuna — Não é a primeira vez que o senhor visita o Sítio Conceiçãozinha, em Guarujá. Além da palestra para as crianças, o senhor veio com algum outro objetivo?
Aziz Nacib Ab’Saber — Em primeiro lugar, eu acho que estamos na época em que os cientistas precisam ser mais participativos. Aqui (Conceiçãozinha) é o pior sítio urbano do País. O bairro nasceu em cima do mangue e uma parte fica na beira de uma gamboa (pequena lagoa formada próximo do mangue), com circulação dupla, que aumenta e diminui seu volume conforme a maré.
AT — E isso é problemático?
Saber — É muito sério. A poluição das gamboas, em virtude da falta de saneamento básico e ocupações irregulares, vai para a maré, matando o mangue, que é de fundamental importância para o meio ambiente. Essa população que mora ao lado das indústrias do estuário não teve opção e o resultado é muito ruim. O Sítio é plano demais e é difícil organizar o sistema de esgoto. As águas com os dejetos passam pela beira das casas. As fezes ficam, às vezes, espalhadas pelas ruas e vielas, contaminando as pessoas, principalmente as crianças que brincam descalças. Todas as vezes que vim aqui eu voltei doente para casa, em virtude do que observei.
AT — Então não deveriam morar pessoas aqui?
Saber — O mangue não é sítio urbano. As autoridades deveriam promover melhorias aqui, cuidar das crianças e das famílias. É preciso um projeto voltado à saúde pública e à cultura. Além da poluição ambiental, também não existe mercado de trabalho no bairro e isso é uma porta aberta ao narcotráfico. Ambiente pouco sadio, falta de emprego e grande número de crianças são ingredientes complicados.
AT — Qual seria a saída então?
Saber — Um governante que tivesse vergonha nesse Estado deveria vir ao Sítio Conceiçãozinha e compará-lo com os bairros ricos. É preciso reverter essa situação. Ninguém escolhe o lugar e as condições sócio-econômica e cultural para nascer. O Governo precisa ter inteligência, equipes interdiciplinares, para atuarem no ambiente, inclusive ecológico e social. Me parece que os governantes atuais, desde Brasília até São Paulo, não têm noção de que Ciência é descoberta e observação, podendo ser potencializado por métodos, técnicas e equipamentos sociais. Enfim, por políticas públicas eficientes.
AT — É preciso, então, uma ação direta nesse bairro?
Saber — Sem dúvida alguma. Eu acho que, ao invés de ficarem falando eleitoreiramente, as autoridades deveriam vir aqui e sentir o ambiente em todos os seus espaços. É preciso uma solução integrada e múltipla, envolvendo os setores de Saúde Pública, Educação, Lazer e Mercado de Trabalho.