CORD�IS

 

Estudos

 

 

Universidad Privada de Santa Cruz de la Sierra

ALAIC – Associaci�n Latinoamericana de Investigadores de la Comunicaci�n

ABOIC – Associaci�n Boliviana de Investigadores de la Comunicaci�n

VI Congreso Latinoamericano de Ciencias de la Comunicaci�n

del 5 al 8 de Junio de 2002

Santa Cruz de la Sierra, Bolivia 

  (GT – Folkcomunicaci�n)

     O Folheto de circunst�ncia:11de setembro em cordel

 
Maria Alice Amorim
Jornalista,com especializa��o em
Teoria da Literatura pela UFPE
Membro da Comiss�o Pernambucana de Folclore
l[email protected]
 
Resumo - Embora estudiosos vaticinassem o desaparecimento do folheto de “acontecido” ante o avan�o tecnol�gico dos meios de comunica��o de massa, a literatura de cordel n�o perdeu o vigor tamb�m nesse tipo de tem�tica. Uma prova � a quantidade de t�tulos surgidos, em todo o pa�s, a partir dos fatos e desdobramentos do tr�gico 11 de setembro, e a conseq�ente aceita��o do p�blico, apesar de toda a m�dia ter explorado o assunto � exaust�o. Tal realidade faz pensar sobre os motivos que levariam tanto o autor, quanto os leitores e ouvintes de cordel a procurar esta forma de express�o liter�ria, mesmo quando n�o h� mais novidade jornal�stica no acontecimento registrado.
 
          � na oralidade, h�bito entranhado nas diversas culturas folk, que repousa o tra�o ancestral das literaturas populares. Por isso, e por outras raz�es que adiante apresento, n�o podemos dizer que os meios de comunica��o de massa vieram suprir, com exclusivismo, a necessidade do povo em abastecer-se de not�cias, tampouco ocupar o espa�o de frui��o dessas mesmas not�cias, quando transmitidas por meios de comunica��o produzidos pelo povo, e para consumo pr�prio, mesmo se o tema � algum assunto que envolva o imediatismo do enfoque jornal�stico ou a prem�ncia do calor da hora, t�o bem facilitados hoje gra�as � velocidade e sofistica��o das novas tecnologias, cada vez mais acess�veis aos extratos sociais pobres. Foi exatamente o que ocorreu com os folhetos escritos sobre os atentados de 11 de setembro de 2001, cometidos nos Estados Unidos. Embora fadado a fenecer sob o imp�rio dos mass media, segundo o vatic�nio de especialistas na morte do cordel, foi exatamente a� que o folheto de circunst�ncia provou que agrada, sim, aos leitores e ouvintes porque, perante eles, exerce um fasc�nio.
        Justamente no fasc�nio encontra-se a cadeia de explica��es. Todos os t�tulos pesquisados, os quais encontram-se listados no final deste texto, fazem men��o � barbaridade dos ataques e contra-ataques que desmantelaram a “ordem mundial”, al�m de apresentar, deliberadamente ou n�o, o posicionamento ideol�gico do escritor, que, em parte dos folhetos pesquisados, lan�a m�o do humor e da ironia para apimentar a discuss�o sobre o assunto. A partir de um estudo comparativo da abordagem escolhida pelos poetas para tratar o tema, o objetivo do trabalho consistiu em descobrir os elementos (jornal�sticos, hist�ricos, sociol�gicos, filos�ficos, liter�rios) que tornam atraente o folheto de circunst�ncia, num momento em que os meios de comunica��o t�m poder de penetra��o no meio popular muito maior do que o cordel escrito at� os anos 70 do s�culo XX. Sem d�vida nenhuma, o formato tradicional, a rima, o ritmo, o metro, a ilustra��o da capa, a opini�o do autor e a maneira particular de abordagem e interpreta��o do fato, tudo se transforma numa mistura fina, temperada ao sabor das met�foras e originalidade de cada poeta, cujo resultado � o deleite est�tico, o prazer do texto.
        “Exercendo plenamente uma fun��o de comunica��o intermedi�ria, o folhetos n�o s�o apenas informativos, mas tamb�m interpretativos, opinativos e de entretenimento”, � o que diz o folkcomunicador Roberto Benjamin. Evidentemente, a tem�tica era por demais apelativa; ali�s, a como��o mundial � um territ�rio movedi�o que suga a todos. Nesse rastro, intermedi�rios entre os processos formais de comunica��o e o audit�rio/leitorado, os poetas tinham mesmo que ati�ar-se a criar, a reescrever a hist�ria, ainda que repisada de todos os modos pelos MM. Afinal, era a dic��o po�tica, al�m dos recursos estil�sticos poss�veis na literatura de cordel, que deveria falar mais alto do que George W. Bush, quando empunhou o megafone, ante os escombros do World Trade Center, para encorajar a equipe de resgate, conforme vemos no desenho de capa do folheto de Arievaldo e Kl�visson Viana. O formato tradicional do livrinho �, sem d�vida, um elemento de atra��o, sobretudo pelo apego �s viv�ncias de inf�ncia, freq�ente entre os leitores de cordel. Contribuiu no chamamento a apresenta��o da capa, oferecida em diversas cores (predominaram as suaves: branco, amarelo, rosa, verde azul, creme), e com variedade de ilustra��es (xilogravura, fotografia, fotomontagem, desenho com bico de pena e t�cnica mista).
        As “f�rmas” po�ticas, t�o do agrado de consumidores de folheto, aliam-se � rima, ritmo e metro, quase completando o c�rculo de apelos – digo quase porque o tom com que o poeta trata o tema confere � obra o status de obra singular, atraente justo por peculiaridades impostas pelo criador, ou seja, pelo estilo do criador, associado � quantidade e qualidade de informa��es que det�m. No �mbito da aceita��o popular, as formas fixas propiciam a declama��o, a memoriza��o e a transmiss�o oral. � uma linguagem a que o povo est� habituado a apreciar e, por isso mesmo, favorece o ato de apreens�o da realidade. A maior parte dos folhetos analisados utilizou sextilha e septilha. A d�cima apareceu esporadicamente e uma oitava, apenas uma, foi feita por St�nio Diniz, em meio a estrofes de seis e sete linhas, com inabituais rimas cruzadas nas sextilhas. Os t�tulos indicam o maior ou menor esfor�o interpretativo dos fatos. Eis o que predominou: a rela��o dos atentados com o desencadeamento de uma terceira guerra mundial, e a polariza��o entre terrorismo talib� e americanismo.
        As li��es de hist�ria frutificaram. Quem j� conhecia ou teve oportunidade de pesquisar sobre as rela��es dos Estados Unidos com o mundo �rabe islamizado p�de elaborar um trabalho mais rico em informa��es hist�ricas e em an�lise interpretativa. Foi o caso de Allan Sales, no folheto O imp�rio contra-ataca, que come�a, veemente, com uma retrospectiva de massacres protagonizados pelos EUA, como a guerra do Vietnam, de Ir�/Iraque, e a bomba at�mica em Hiroshima. Segue descrevendo o terrorismo de estado, a hipocrisia de “jogar bomba e jogar p�o”, para lan�ar perguntas sobre os m�todos norte-americanos de domina��o, para lan�ar um libelo de paz e, sobretudo, de rep�dio a toda sorte de anti-humanismo. M�sico e compositor do Crato, Cear�, radicado no Recife desde 1969, Allan recorre a tradi��o que n�o anda muito em voga para grande parte dos poetas populares: pega na deixa em todas as catorze estrofes (septilhas rimadas em ABCBDDB) para fazer, conforme pr�prio depoimento na contracapa do folheto, “uma reflex�o sobre a resposta dos EUA aos atentados de 11 de setembro. O imp�rio mais uma vez imp�e a todos sua ‘pax romana’, com conseq��ncias imprevis�veis”. O autor faz uma leitura sociol�gica dos fatos, relaciona dados hist�ricos, exp�e e condena a ideologia da domina��o americana sobre o mundo. � um folheto extremamente politizado.
           O poeta Pedro Am�rico, igualmente interessado em politizar o debate, analisa os fatos a partir de dois personagens emblem�ticos: Osama e Bush. Exp�e as rela��es escusas entre Osama bin Laden e a fam�lia Bush, desde a �poca em que Laden foi treinado pela CIA para defender os interesses americanos no Oriente M�dio, durante o per�odo de domina��o da Uni�o Sovi�tica naqueles territ�rios, em plena Guerra Fria: Tio Sam criou Osama / para combater o comunismo. A partir desse enredo de cobras de mesma ninhada, e de feiti�o vertido contra o feiticeiro, o poeta critica as pol�ticas de domina��o americana e sai em defesa do humano e das rela��es sociais justas. S�o quinze estrofes, doze em septilhas (rima em ABCBDDB) e tr�s d�cimas (ABBAACCDDC), em que tamb�m sobressai a den�ncia do terrorismo de estado, apontada como t�o ou mais grave que o terrorismo de grupos religiosos manipulados por interesses de lideran�as esp�rias. As d�cimas, utilizadas normalmente em fict�cias pelejas de cordel, s�o usadas para finalizar a hist�ria cujo t�tulo, um mote setiss�labo em duas linhas (A dolorosa peleja de Osama bin contra Bush), poderia sugerir a possibilidade de haver glosa, principalmente pela presen�a dos versos de dez linhas. O t�tulo �, ainda, sugestivo, dentro dessa argumenta��o, porque usa a palavra peleja, entretanto n�o a oferece no sentido estrito da palavra. Assim, h� a ocorr�ncia deliberada de tr�s indicativos de um g�nero de cordel que, afinal, n�o se concretiza. Entretanto, o recurso � um jogo de palavras extremamente elaborado e l�dico.
         � em tradicionais sextilhas rimadas em ABCBDB e metrificadas com esmero nas 59 estrofes distribu�das por 16 p�ginas que os irm�os Arievaldo e Kl�visson Viana, do Cear�, apresentam o folheto publicado dois dias ap�s a trag�dia, numa clara convic��o de que o assunto merecia ser explorado por cordelistas e, mais, que seria muito bem aceito pelos leitores e ouvintes. � um apelo � paz, n�o sem antes discorrer sobre as guerras no Oriente M�dio e as responsabilidades do Ocidente nesses conflitos; sobre a bomba at�mica lan�ada pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki; sobre a prepot�ncia dos imp�rios, a exemplo do romano, otomano e, claro!, o americano; sobre a intelig�ncia humana dirigida para as guerras, para o mal. Por ter sido publicado logo depois dos fatos, o folheto exp�e as hip�teses de autoria dos atentados veiculadas nos jornais – talib�s, direita americana, Ku-Klux-Klan. Lan�a-as, por�m sem querer induzir a nenhuma delas.
        O poeta Oleg�rio Fernandes, de Caruaru, infelizmente falecido na semana passada (03/04/2002), condena a fome, seca, carestia e, por cima de tudo isso, alarma-se com a imin�ncia de uma guerra mundial, creditando ao americano forte, rico e potentado / e a metade do mundo / por ele � dominado a dura constata��o de colher no presente / o que plantou no passado. Guaipuan Vieira tamb�m exorta: quem planta o mal colhe o mal / � a lei da recompensa. St�nio Diniz alerta, j� no t�tulo, para os perigos de uma terceira guerra, e n�o se ilude acerca das causas: os modelos econ�micos / precisam ser repensados / n�o se pode admitir / universo de explorados / � tempo de refletir / ou seremos arrasados. Marcelo Soares, que herdou do pai, o poeta-rep�rter Jos� Soares, o gosto pelos folhetos de circunst�ncia, alerta para uma prov�vel guerra do fim do mundo, protagonizada pelos talib�s e os Estados Unidos, “o grande Sat�”.
       Um outro fasc�nio causado pelo livrinho noticioso � o rep�rter cordelista Paulo de Tarso quem resume na �ltima estrofe do folheto Da fic��o � realidade: Nova York em chamas. Diz a sextilha: Aqui foi outro resgate / do poeta cordelista / que tamb�m � um rep�rter / igual a um jornalista / mas narrando diferente / do jornal e da revista. � exatamente pela diversidade de linguagens que os diferentes meios de comunica��o n�o engolem uns aos outros. Para cada m�dia, � necess�rio um tratamento espec�fico da not�cia. Assim, o fato jornal�stico em cordel ganha contornos pr�prios com a versifica��o, acrescido do charme da linguagem po�tica, que, para ser identificada como tal, exige a constru��o de imagens. � necess�rio ressaltar que, se um lead bem elaborado segundo a resposta �quelas cinco quest�es cruciais, t�o caras ao registro do fato jornal�stico (que, quem, quando, como, onde e por qu�) � fundamental na captura do receptor, no folheto s�o as met�foras que iniciam e permeiam o texto o que mais cativa o consumidor de cordel. Nenhum poeta come�a um bom folheto indo direto ao assunto, sem acrescer um charme estil�stico. Faz parte do enfeiti�amento invocar as musas, pedir inspira��o aos deuses, ressaltar sentimentos de dor ou alegria, valer-se de li��es b�blicas e sabedoria popular.
         � a fun��o est�tica do folheto um elemento de atra��o, da qual um dos resultados � o ludismo, o entretenimento. Da� a import�ncia do modo como o poeta inicia os versos. Que Al� seja por mim / concedendo inspira��o / como deu a Maom� / no momento do Cor�o / para que meus toscos versos / n�o tenham fins t�o perversos / e nem causem como��o. Assim come�a Jos� Hon�rio, em tom solene, invocando a prote��o religiosa, os nomes de Al� e Maom�, a sapi�ncia do Alcor�o. Tudo passa nesta vida, / nada � novo sob o sol. / Nos diz o Eclesiastes / o maior livro do rol, / do Antigo Testamento / lindo como o arrebol. Assim come�am Arievaldo e Kl�visson Viana, exaltando a sabedoria b�blica, na tentativa de comover pelo argumento religioso, um forte argumento em situa��o de imin�ncia de guerra. A for�a do mal ataca / outra vez este planeta / a chama da viol�ncia / traz uma luz violeta / que se apaga a cada instante / pelo som horripilante / surgida duma corneta. Assim come�a Guaipuan Vieira, numa franca alus�o �s trevas do Apocalipse e � trombeta anunciadora do final dos tempos. Uma vez mais, o argumento religioso ecoa; o que n�o � novidade, gra�as � religiosidade dos autores e p�blico de cordel. O destino � uma curva / fechada na contram�o / filho de gato � gatinho / e quando cresce � gat�o / m�e e pai azunha e mata / nem Al� que � Deus empata / fanatismo e obsess�o. Assim come�a o poeta Pedro Am�rico, contra-invocando a divindade, porque, embora a prerrogativa de onipot�ncia, n�o livra a humanidade do fatalismo do destino em contram�o, nem dos sentimentos impuros de “fanatismo e obsess�o”.
       Gra�as � imin�ncia de uma guerra devastadora, e sob forte apelo � religiosidade popular, � recorrente o tom de admoesta��o, de invoca��o de preceitos morais, de alus�o aos ensinamentos b�blicos e � sabedoria proverbial. � solene o tom de advert�ncia. Para n�o perder a oportunidade de escrever sobre o tema, Jos� Hon�rio publica o folheto um m�s ap�s os atentados e, por isso, solicita a Al� que tamb�m receba os halos / do esp�rito picaresco para escrever uma hist�ria bem-humorada, ap�s repassar os t�picos da trag�dia de setembro. Ao terminar a narrativa da hist�ria do portugu�s que planeja um atentado contra o Congresso Nacional, em Bras�lia, exatamente por repudiar as piadas discriminat�rias contra os lusitanos, o poeta retoma o discurso antibelicoso, antifanatismo, e em favor da democracia, da justi�a e da paz. � importante ressaltar que o posicionamento do autor do folheto � sempre importante para marcar a diferen�a e, o que � melhor, o cordelista pode discorrer livremente sobre o assunto, expondo as pr�prias opini�es, cr�tica e an�lise, com a liberdade que os MM n�o t�m, com a isen��o que os MM n�o podem oferecer.
        Longe de ser um m�todo ineficaz de comunica��o, ou um objeto de cria��o desprovido de valor liter�rio, os folhetos publicados sobre o fat�dico 11 de setembro atra�ram, para si, n�o s� as aten��es de leitores e ouvintes, tamb�m as aten��es da m�dia impressa e eletr�nica, levando � produ��o de diversas mat�rias, artigos e reportagens. Os canais de televis�o levaram o assunto � cadeia nacional, inclusive a outras partes do mundo por meio do sistema de TV a cabo. Os peri�dicos do Rio de Janeiro, S�o Paulo, Bras�lia, a exemplo do Correio Brasiliense, O Globo, Jornal do Brasil, Folha de S�o Paulo, entrevistaram poetas e pesquisadores, reproduziram trechos de folhetos, a capa de folhetos, fotografaram poetas. Num franco exemplo de metajornalismo ou metacomunica��o, jornais de outras regi�es e todos os jornais do Recife divulgaram a vitalidade do cordel de acontecido.
 
O que � um folheto de acontecido – Os estudiosos que se preocuparam em elaborar classifica��es tem�ticas dos folhetos de cordel catalogaram uma modalidade usada com freq��ncia por determinados autores. � a que registra as not�cias, como a morte de Get�lio Vargas, o menino que foi comido pelo le�o do circo Vostok, um desastre de �nibus em Tacaimb�, as cheias do Capibaribe e as secas do sert�o; enfim, acontecimentos que, mesmo apresentados em versos, s�o vistos sob a perspectiva do jornalismo. Com grande aceita��o popular, alguns dos tais folhetos chegaram a surpreender pelo tamanho das tiragens. Conforme o pesquisador Roberto Benjamin, “Jo�o Jos� da Silva chegou a produzir 200 milheiros de um �nico folheto de atualidade, sobre a morte do presidente Get�lio Vargas. Oleg�rio Fernandes da Silva disse ter feito 24 milheiros d’A morte do coronel Ludugero”. Um poeta, ao identificar-se intuitiva e plenamente com essa modalidade, passou a auto-denominar-se “poeta-rep�rter”. Foi o paraibano Jos� Francisco Soares (1914 – 1981), radicado em Pernambuco desde1949, quem publicou, dentre outros t�tulos, Ludugero, morto ou vivo?, A cheia do Capibaribe, A gripe inglesa passeando no Brasil, O homem na lua, A morte de Juscelino Kubistchek.
            Na classifica��o popular, coletada por Li�do Maranh�o, encontramos o folheto de acontecidos ou de �poca, cuja caracter�stica “� o seu aspecto jornal�stico” e os poetas mais representativos s�o “Joaquim Batista de Sena, do Cear�; Rodolfo Coelho Cavalcanti, da Bahia; Jos� Soares, do Recife; e Francisco de Paula”, conforme registra Li�do. Nos ciclos definidos por Ariano Suassuna, situados a partir de dois grandes grupos por ele propostos (o tradicional e o de “acontecido”), h� o ciclo hist�rico e circunstancial. Para Roberto Benjamin, os fatos de �poca ou de acontecido s�o classificados como folhetos informativos. Na classifica��o de Manuel Di�gues J�nior, os fatos circunstanciais ou acontecidos subdividem-se naqueles de natureza f�sica, repercuss�o social, cidade e vida urbana, cr�tica e s�tira, elemento humano. Or�genes Lessa considera os casos de �poca dentre os temas ef�meros que n�o sobrevivem a reedi��es. No cat�logo de literatura popular da Casa de Rui Barbosa, basicamente elaborado por Cavalcanti Proen�a, tais folhetos encaixam-se na categoria “reportagem”.
            Verificando a carga de tradi��o oral, o volume de informa��es, a familiaridade do poeta com esquemas de rima, ritmo e metro, a for�a po�tica das met�foras criadas por aqueles que s�o considerados, erroneamente, de poetas menores, n�o � poss�vel render-se ao argumento simplista de que essa � uma literatura de produ��o pobre, sem complexidade. Al�m da import�ncia comunicacional, que n�o se intimidou com a r�pida evolu��o das tecnologias, � indiscut�vel a liter�ria. Est�o em jogo valores est�tico, pedag�gico, ling��stico, sociol�gico, hist�rico, psicol�gico e filos�fico, que n�o podem ser absolutamente desprezados, embora os comp�ndios continuem com o mesmo erro, ao consider�-la de pouca ou nenhuma import�ncia. “No fim de contas, o desprezo ou esquecimento da literatura popular representar� sempre o esquecimento e o desprezo do homem popular. E n�o se pense que isso � apenas um problema pol�tico, porque � tamb�m um problema cient�fico e um problema est�tico”, adverte o professor e ensa�sta portugu�s Arnaldo Saraiva. Ao inv�s de engolido pelos meios de comunica��o de massa e novas tecnologias, e contra toda sorte de desprezo, o folheto vem interagindo, assimilando as mudan�as, transformando os media em tema das narrativas e recursos favorecedores da continuidade, sem deixar desaparecer, felizmente, tamb�m os folhetos de acontecido ou de circunst�ncia.
 
Bibliografia
1. Folhetos pesquisados:
DINIZ, St�nio. Terror nos Estados Unidos “Os perigos de uma 3� guerra mundial”. Juazeiro: ed. autor, 2001.
FARIAS, Pedro Am�rico de. A dolorosa peleja de Osama bin contra Bush. Timba�ba: Folhetaria Cordel, 2001.
SALES, Allan. O imp�rio contra-ataca. Recife: ed. autor, 2001.
SILVA, Jos� Hon�rio da. O atentado terrorista e o desmantelo da guerra. Timba�ba: Folhetaria Cordel, 2001.
SILVA, Oleg�rio Fernandes da. O atentado terrorista e o nosso sofrimento. Caruaru: ed. autor, 2001.
SOARES, Marcelo. A guerra do fim do mundo entre o povo talib� e os Estados Unidos que para eles s�o tidos como o “Grande Sat�”. Timba�ba: Folhetaria Cordel, 2001.
TARSO, Paulo de. Da fic��o � realidade “Nova York em chamas”. Fortaleza: ed. autor, 2001.
VIANA, Arievaldo e Kl�visson. O sangrento ataque terrorista que abalou os EUA. Fortaleza: Tupynanquim, 2001.
VIEIRA, Guaipuan. Estados Unidos em chamas (um aviso para o mundo). Fortaleza: ed. autor, 2001.
 
2. Livros consultados:
 BENJAMIN, Roberto. Folkcomunica��o no contexto de massa. Jo�o Pessoa: ed.Universit�ria, 2000. 150 p.
_______. “Os folhetos populares e os meios de comunica��o social”. Symposium: Revista da Universidade Cat�lica de Pernambuco. Recife, ano XI, n� 1, set./69.
CAMPOS, Geir. Pequeno dicion�rio de arte po�tica. Rio de Janeiro: Ouro, 1965.
DI�GUES J�NIOR, Manuel. Ciclos tem�ticos na literatura de cordel. In: Literatura popular em verso. Rio de Janeiro: Funda��o Casa de Rui Barbosa, 1973. Estudos, tomo I. p. 1-151. (Col. de textos da l�ngua portuguesa moderna, vol. 4)
SARAIVA, Arnaldo. Literatura marginal-izada. Porto: Roca Ares Gr�fica, 1975. 172 p.
SOUZA, Li�do Maranh�o de. Classifica��o popular da literatura de cordel. Petr�polis: Vozes, 1977. 104 p.

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LITERATURA DE CORDEL

COM JORNALISMO POPULAR

M�dulo I

MONOGRAFIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEAR�
CURSO: COMUNICA��O SOCIAL (Jornalismo)
DISCIPLINA: SISTEMA BRASILEIRO DE COMUNICA��O
PROF. GILMAR DE CARVALHO
ALUNO: Gerardo Carvalho Frota (Pardal)    (*)
TEMA: LITERATURA DE CORDEL COMO JORNALISMO POPULAR
(Este estudo ser� feito por fasc�culos, devido o seu tamanho.
Este � o primeiro m�dulo).

 

Fortaleza, novembro de 1988.                         

                                                     DEDICAT�RIA:

                                                                       Este trabalho eu dedico
                                                                       Ao poeta popular
                                                                       Cordelista cantador
                                                                       Que com seu vate exemplar
                                                                       V�o marcando este nordeste
                                                                       Com uma cultura inconteste
                                                                       Que nunca vai se acabar!
 
                                                                       A todo pesquisador
                                                                       Da cultura popular
                                                                       Que nela valor descobre
                                                                       E bem sabe conservar
                                                                       O cordel como jornal
                                                                       Do campo e da capital
                                                                       Das terras do al�m-mar!

INTRODU��O:

Tratar da Literatura de Cordel, como Meio de comunica��o social, enquanto jornalismo popular requer, antes de tudo, uma considera��o desta produ��o humana como Literatura. Neste sentido, a produ��o de cordel � a representa��o de uma sociedade em todo os seus aspectos. Neste trabalho, daremos especial acento � literatura de cordel pelo fato de ela surgir e ser sustentada pela base. E ainda por ter como autor e destinat�rio principal o povo, a base. Referimo-nos �s camadas sociologicamente pobres.

Pela estreita liga��o com a sociedade e como o homem, esta literatura aparece como a express�o resultante do poder criador do homem condicionado pelo poder modelador da sociedade. Todavia, a hist�ria nacional nos testemunha a tenacidade e a for�a do cordel, superando o poder modelador, gra�as � sua �ndole de Meio de Comunica��o Social.

Pelo car�ter comunicador da literatura de cordel, esta produ��o cultural (e jornal�stica) est� presente em todas as partes do pa�s e nas mais diferentes camadas da sociedade. Apesar de n�o se desvincular de suas bases, seio de comunica��o popular, a literatura de cordel est� sendo usada para veicular uma s�rie de mensagens, geralmente aquelas que encerram conte�do jornal�stico.

Em plena mudan�a de s�culo e mil�nio a necessidade de comunica��o vem sendo suprida pelo sistema de informa��o da Idade M�dia europ�ia. Hoje, centenas de cantadores, poetas de bancadas (cordelistas)e folheteiros, exatamente como os antigos menestr�is, informam �s popula��es marginalizadas, rurais e perif�ricas, de tudo o que lhes possa interessar. Este potencial comunicador, que atinge a massa, o indiv�duo e, hoje, o mundo intelectual, se faz, em termos de comunica��o, ao lado da imprensa oficial e canonizada pelo poder modelador da sociedade e das express�es liter�rias.

Para facilitar o seu desenvolvimento, o presente trabalho ser� dividido em tr�s partes

Na primeira parte, veremos a tentativa de defini��o do que seja jornalismo popular. Colocaremos sem discuss�o os tipos e caracter�sticas do jornalismo popular e, a partir da�, situaremos a literatura de cordel.

Na segunda parte, abordaremos o cordel como jornal noticioso, a partir da conceitua��o mais satisfat�ria de "not�cia", formulada por F. Fraser Bond, onde tentaremos localizar o cordel dentro das propriedades aplicadas aos Folhetos Noticiosos.

Na terceira e �ltima parte, falaremos da influ�ncia sobre e a partir da literatura de cordel, envolvendo o r�dio, a televis�o e a grande imprensa.

Enfim, tentaremos deixar o leitor convencido de que a literatura de cordel foi o Meio de Comunica��o Social primeiro a veicular, sobretudo nas zonas rurais e com o passar dos tempos invadiu o meio urbano. Foi o primeiro e o � ainda hoje. Se n�o o convencermos disso, tentaremos deixar, pelo menos, o interesse por um aprofundamento maior no assunto.

PARTE 1

JORNALISMO POPULAR

H� muitas tentativas de definir o que seja Jornalismo Popular. Contudo, em seu artigo " A Comunica��o dos Bispos, C. Eduardo Lins da Silva coloca tr�s tipos diferentes de Jornalismo Popular.

1."Publica��es que defendem os interesses das classes trabalhadoras, mas n�o as t�m nem como produtoras nem como destinat�rias".

2."Publica��es que defendem os interesses das classes trabalhadoras e que, embora n�o sejam produzidas por elas, s�o a elas destinadas preferencialmente".

3."Publica��es que defendem os interesses das classes trabalhadoras e as t�m como autoras e destinat�rias principais". (Ver. Comunica��o e Sociedade, n. 12, p. 30)

Diante desta classifica��o onde situamos a literatura de cordel, como jornalismo popular? O cordel satisfaz � defini��o constate no item "3".Muito embora n�o se possa d� total �nfase concreta ao que Lins da Silva considera como "defender os interesses das classes trabalhadoras". Isto porque os autores(poetas e cantadores), embora sendo da classe trabalhadora, do povo, n�o defendam explicitamente os seus interesses. Porque n�o s�o politicamente conscientizados No sert�o, estes autores normalmente s�o conhecidos, amigos, vizinhos das autoridades civis e religiosas do local. Portanto, as suas posi��es geralmente n�o s�o antag�nicas � situa��o estabelecida. Isto �, n�o colocam, pelo menos de maneira clara, os anseios de mudan�a da situa��o de opress�o existente. Apesar disso, � bom lembrar que o poeta arranja uma sa�da para denunciar a opress�o vivida pelo trabalhador. Tal sa�da consiste no uso de termos figurados(met�foras) "que possam dar vaz�o a eventuais formas de reclama��o"(Josefh M. Luyten, 1984).

Quando, por�m, o poeta se desloca para os centros urbanos ou neles surgem, fica livre destas amarras locais e passam a se expressar com mais liberdade. Deste modo, � mais expl�cita sua forma de contesta��o.

Com exemplo, podemos citar a den�ncia do poeta Ot�vio Menezes ao p�ssimo sal�rio do policial militar. Quando de uma visita � cadeia, o comandante provoca o seguinte di�logo:

 

                                                                    " – Veja o que voc� fez
                                                                    Com isso soldado Jo�o
                                                                    Colocou nossa Pol�cia
                                                                    Numa p�ssima situa��o
                                                                    Nos levando ao rid�culo
                                                                    Perante toda a Na��o.

 

                                                                    Jo�o nisso lhe responde:
                                                                    Sem sentido pra o senhor
                                                                    Filho de boa fam�lia
                                                                    Precis�o nunca passou
                                                                    E agora � um comandante
                                                                    Com um soldo de valor.
 
                                                                    O que ganho da Pol�cia
                                                                    N�o d� nem pra mim viver
                                                                    A n�o ser que eu fizesse
                                                                    Como eu vi gente fazer
                                                                    Pescar o roubo depois
                                                                    Para um amigo vender."
                                                        ( A est�ria do Soldado que foi detido
                                                          porque pediu esmolas fardado, 05/86).

    Entretanto, o poeta n�o fica totalmente livre para expressar o seu pensamento. Ele se depara como o poder da pol�cia. Tem que ter muito cuidado com as palavras. Exemplo disso, tivemos recentemente a pris�o em Juazeiro do Norte de poetas populares por haverem falado contra o governo da situa��o.

 

    Portanto, embora, n�o se possa "exigir do povo maturidade e atua��o pol�tica" (J. Luyten, 1984), a literatura de cordel est� cada vez mais conquistando espa�os no desempenho da sua fun��o de defensora da classe oprimida.

Quanto �s caracter�sticas, o Jornalismo Popular deve ser "uma publica��o de uma ou v�rias folhas, ter certa regularidade, formato estabelecido, apresenta��o pr�pria, povo gerador e ator de informa��es e destino das massas"(J. Luyten, 1984). Aplicando cada uma destas caracter�sticas � literatura de cordel, podemos afirmar que:

1.    Quanto � "certa regularidade", o cordel n�o a possui, visto que n�o existe previs�o de tiragem futura, isto �, n�o existe uma periodicidade estabelecida.

2.     Quanto ao formato, a literatura de cordel possui j� estabelecida um formato padr�o: 1/4 de folha de papel of�cio com n�meros pares de p�ginas. "Os que cont�m apenas oito p�ginas s�o chamados folhetos. de 16 p�ginas em diante(24,32,48,64) denominam-se     romances"
                          (Antologia de Literatura de Cordel, 1983).

3.     A literatura de cordel possui uma apresenta��o pr�pria.

4.     O cordel tem como gerador e ator o pr�prio povo (representado por algu�m do seu meio), embora com todas as limita��es j� mencionadas anteriormente.

5. Por �ltimo, a literatura de cordel tem como destinat�rio principal povo, a classe o primida. Portanto, segundo, Josefh Luyten, por faltar o car�ter da publicidade, o cordel � preferencialmente noticioso, em vez de jornal�stico. Embora, conforme sua defini��o de jornalismo popular, Lins da Silva inclua o cordel noticioso nesta �rea. O que ainda dever� demorar algum tempo para que esta literatura se converta numa incondicional defesa dos desejos do povo.

1988.(*) – Poeta, cordelista, escritor, autor do livro "Francisco do Povo, ontem e hoje, editado  pela  editora Vozes.  Estudante  de Comunica��o Social, habilita��o  em  Jornalismo.  Formado  em Filosofia,p�s-graduado (lato sensu) em Tecnologia Educacional. Autor de v�rios   folhetos  e  romances  de  cordel.  Secret�rio do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste –CECORDEL.
 
                CORDEL: "JORNAL NOTICIOSO"  - M�DULO  II 
 
Tomando como satisfat�rias as caracter�sticas de"not�cia, sublinhada
por F. Fraser Bond em sua defini��o, podemos considerar como Jornal Noticioso. Sen�o vejamos: Fraser Bond define not�cia como sendo "reportagem oportuna (grifo nosso) sobre as coisas de interesse para a humanidade e a melhor not�cia � a interessa ao maior n�mero de leitores" (J. Luyten,1984). Nesta defini��o, Fraser coloca 4 elementos que valorizam a not�cia :
1.  OPORTUNIDADE :  a Literatura de Cordel n�o tem a atualiza��o do fato relatado como um elemento sempre presente, com  exce��o de alguns como o relato do Tricapeonato da Sele��o Brasileira em 1970 de Jos� Soares. O "poeta-rep�rter" j� estava � venda meia hora depois que terminou o �ltimo jogo. Apesar disso, o Cordel serve como reafirma��o no meio do povo do fato divulgado antes por outros meios. Muitas vezes, o povo da zona rural, sobretudo, acredita mais no que � noticiado pelo poeta ou pelo folheteiro de feira do que no que a pequena ou grande imprensa divulga.
2. PROXIMIDADE : neste caso, a Literatura de Cordel noticiosa se identifica com o jornalismo Popular. Aqueles acontecimentos que est�o mais ligados ao homem do povo s�o os que mais a ele interessam. Exemplos disso temos: "As Cheias de Recife e os Lamentos do Povo", de Jos� Soares; "O Inferno no BANFORT","
Mainha,o maior pistoleiro do Nordeste", de Guaipuan Vieira; A Hist�ria do desastre do Avi�o na Serra de Aratanha", de Gerardo T. dos Santos; "Novos ataques do Negr�o Corta- bunda" no conjunto J. Walter, de Ot�vio Menezes; entre outros.
3. TAMANHO : aqui, � muito relativo no cordel. Vai depeder da extens�o do acontecimento.
4. IMPORT�NCIA: este aspecto se limita aos leitores/ouvintes. � certo que o poeta de ter em mente que valer� a pena escrever mais uma "edi��o do seu jornal" se o fato realmente tiver import�ncia para o seu p�blico. � sempre o que acontece quanto aos folhetos circunstanciais.
Enfim, no folheto noticioso est�o sempre presente alguns aspectos do interesse na not�cia, referidos por F. Fraser. Dentre eles podemos citar: " dinheiro, sexo,conflito, expectativa, crime, culto,culto do her�i e da fama (...)" (J. Luyten, 1984. Dir�amos mais: tragicidade, entretenimento etc.
Portanto,consciente ou n�o o poeta popular, como porta-voz do povo, coloca todos estes elementos nos seus folhetos e assim dosar� bem o seu relato para que o seu p�blico espec�fico fique satisfeito.
 

Literatura de Cordel como Jornalismo Popular

M�dulo III]

 

INFL�NCIA SOBRE E A PARTIR DA LITERATURA DE CORDEL

  1. Influ�ncia do r�dio sobre a Literatura de Cordel

O r�dio, pela sua penetra��o nos pontos mais long�nquos do sert�o, foi "o primeiro ‘mas m�dia’ a abalar os dom�nios exclusivos da Literatura de Cordel"" (M. Marta G. Hussein in J. Luyten, 1984). N�o resta d�vida que o r�dio tem muito mais audi�ncia que o cordel escrito pelos poetas ou cantado pelos violeiros.

No campo da not�cia ou informa��o, o r�dio n�o chega a concorrer com o cordel. O que ocorre sempre � que o cordel tem no r�dio uma segura fonte para suas not�cias.

Podemos citar o caso contado por Pe. Matusal�m: o poeta Jo�o Alexandre estando nos est�dios de uma r�dio com seu programa de viola, foi interrompido pelo rep�rter que noticiava em car�ter extraordin�rio a morte do Papa Jo�o XXIII. T�o logo a not�cia acabou, o poeta repetiu o relato em linguagem popular, acrescentando nos seus ouvintes uma opini�o, nos seguintes versos:

"�s tr�s horas da tarde, tr�s de junho".
Morreu Jo�o vinte e Tr�s no Vaticano
O maior instrumento italiano
Um Ap�stolo de Deus e testemunho
Tendo papa no nome como alcunho
Conservamos seu nome na mem�ria...
Sendo Papa da Paz, teve a Hist�ria
O maior conselheiro mundial
No Conc�lio Ecum�nico Universal
Trouxe, �s seitas do mundo, a sua gl�ria"( J. Luyten, 1984).
 
         
                       

B) Influ�ncia da Literatura de Cordel sobre o r�dio

Neste caso, temos constatado que cresce o n�mero de programas de r�dio que incluem apresenta��es de cantadores e repentistas ou cantorias de folhetos de cordel. � certo que o Cordel n�o influencia o r�dio a ponto de alterar a sua ess�ncia. Contudo, gra�as, inclusive ao cordel, o r�dio est� cada vez mais se regionalizando. Como exemplo, tivemos um "Curso de Cantoria Popular" (aulas radiof�nicas) promovido pelo ent�o MEB (Movimento de Educa��o de Base) da Arquidiocese de Fortaleza, emitido pela R�dio Assun��o Cearense no per�odo de 23 de fevereiro a 28 de dezembro de 1979 (aulas semanais, nas sextas-feiras das 18h �s 19h). Certamente foi uma experi�ncia pioneira e �nica em termos de divulga��o espec�fica da Literatura de Cordel atrav�s da emiss�o de 21 aulas abordando os diversos estilos do cordel bem como a origem da poesia, do cantador e da viola emiss�o de
21 aulas abordando os diversos estilos do cordel bem como a origem da poesia, do cantador e da viola entrai outros assuntos. "O curso foi de modalidade indireta, caracterizado pelo orientador em est�dio, utilizando-se do r�dio como ve�culo de comunica��o � dist�ncia" (Poesia, Cantador e Viola, 1980). Como exemplo mais pr�ximo, temos os casos de algumas r�dios do interior (como assim faz a R�dio Vale do Jaguaribe de Limoeiro do Norte(CE), - onde tivemos a oportunidade de participarmos com um recital de cordel – e tantas outras at� mesmo nas capitais que veiculam diariamente programas com cantadores e repentistas. Aqui em fortaleza, temos na Cear� R�dio Clube um programa de viola di�rio das 18 horas �s 19 horas, com o repentista Rubens Ferreira. Em Paju�ara – Maracana� – o poeta Cezanildo tem um programa di�rio de viola � tarde. Em Teresina (PI) o poeta Pedro Mendes Ribeiro h� mais de vinte anos faz um programa de viola "Sert�o por dentro e por fora", na r�dio Pioneira de Teresina. Como estes h� v�rios programas por este Brasil a fora, onde a poesia do cantador e do cordelista tem um espa�o.

 

C) Influ�ncia da TV sobre a Literatura de Cordel (e vice-versa)

Embora a televis�o n�o tenha tanta penetra��o nas regi�es rurais, como o r�dio, neste �ltimos anos, gra�as � eletrifica��o e a migra��o (�xodo rural) o povo est� engrossando a fileira dos telespectadores.

     Motivada por isto, a TV exerce e recebe influ�ncia cada vez maior sobre a Literatura de Cordel. Basta verificar a tend�ncia crescente de produ��es de programas sertanejos como "m�sicas caipiras" e com apresenta��o ao vivo (ou gravadas) de cantadores e poetas de cordel. Como exemplo citamos, a n�vel nacional "Violas da Minha Terra", que sempre est� aberto � exibi��o do trabalho dos repentistas e violeiros e a n�vel local, o Programa "Cear� Caboclo", com D�lson Pinheiro, aos domingos pela TV Cear�, canal 5, onde o cordelista tem um quadro exclusivo para as suas apresenta��es. E outros como, "Nordeste Caboclo", com Carneiro Portela na TV Di�rios, e na Tv Jangadeiro o repentista Geraldo Am�ncio apresenta todo s�bado �s 8 horas.

     Como no r�dio, o poeta popular encontra na TV subs�dios para seu trabalho noticioso ou jornal�stico. Ele decodifica a mensagem da TV e passa em linguagem popular para o povo. Tal linguagem � que "vai importar em �ltima inst�ncia para o leitor espec�fico de seus folhetos" (Josefh Luyten, 1984, no quais colocam sua cresdbilidade em primeiro lugar).

     Quando � influ�ncia do cordel sobre a Televis�o, Maria Marte G. Husseini afirma, em seu trabalho, que aquele n�o chega a exercer influ�ncia sobre esta. Todavia, como dissemos anteriormente, a TV nos �ltimos anos tem dado maior aten��o � exist�ncia do cordel como fator de audi�ncia, sobretudo quando produz programas sertanejos, abrindo, assim, espa�os para a literatura de cordel.

    D) Influ�ncia da Imprensa sobre o Cordel

� diferen�a dos Mass M�dia analisados anteriormente, a Imprensa � que mais exerce sobre a literatura de cordel uma forte influ�ncia. O jornal, como meio tradicional mais antigo que o r�dio, foi o grande respons�vel ( e o � ainda hoje) pela inspira��o do poeta popular para a feitura do folheto de cordel (ou do cantador para a elabora��o dos eu repente).

Segundo Maria Marta G. Husseini, a imprensa influencia o cordel obedecendo tr�s linhas:

"a) influ�ncia estil�stica;

b) transcri��o jornal�stica e

c) influ�ncia quanto � fonte" (J. Luyten, 1984)

Na primeira linha, o poeta � o pr�prio rep�rter. O folheto ou "romance" � o pr�prio jornal. Caracteriza-se pelo estilo jornal�stico, abund�ncia de detalhes e precis�o das datas e locais. Podemos exemplificar com estes versos do poeta Guaipuan Vieira, atual presidente do Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste – CECORDEL:

"Este fato teve in�cio
Por volta das onze e trinta
Num dia de quinta feira
No ver�o que se requinta
Do ano 87
De grande seca faminta.

 

    Duma agencia do BANFORT
No centro da Ca�pital!
                              Os vinte irm�os assaltantes
Provocaram um vendaval!
                              O crime que mais marcou!
                                 Na �rea policial"
 
                                Guaipuan,"Inferno no BANFORT
cinco horas de terror, 1987).

E assim a precis�o de detalhes e localiza��o geogr�fica nos folhetos noticiosos � bastante clara. Vejamos:

“Hospedei-me em Pimenteira!
 Depois em Alagoinha
 Cantei em Campo Maior
 No Angico e na Baixinha!
De l� tive um convite!
 Para cantar na Varzinha”
 
                              Quando cheguei na Varzinha
Foi de manh� bem cedinho
Ent�o o dono da casa
Me perguntou com carinho
Cego, voc� n�o tem medo!

Da fama de Z� Pretinho?”(Firmino T. do Amaral, “peleja do Cego Aderaldo Com Z� Pretinho”, 05/82).

Quanto segunda linha de influ�ncia, h� poeta, mesmo sem abandonar os versos e a rima, que consegue tirar da not�cia veiculada no Jornal a sua vers�o em linguagem popular. Eis um exemplo:                                  A not�cia divulgada!

 Foi num jornal de Turim
Uma cidade de Roma
Num conhecido Pasquim
Chamado de ‘La Stampa’!
Que narrou o fato assim:
 
‘Hoje um padre deu fim
 Ao seu sexo natural
Era um homem e operou
A sua parte sexual
Como quis virou mulher /
No resultado final”           

    (F. Ot�vio de Menezes, “O Padre que virou mulher -depoimento completo, 1988)

              Na terceira linha, o poeta encontra no Jornal, na Imprensa todos os detalhes da not�cia. Todavia, ele, recriando esta mesma noticia, elabora-a na linguagem universal dos seus leitores:

“Na entrevista coletiva
Que deu a todos jornalistas!
Alguns internacionais
De Tvs e de revistas!
Tancredo deu seu programa
Deixou a todos otimistas”.
 
                                       “Com todo apoio nas m�os
Tancredo vai atacar
Os problemas mais prementes
Que est�o a nos abalar!
Depois de muito combate
Tudo vai se equilibrar”       
 
(S� de Jo�o Pessoa, “A Vit�ria de Tancredo Neves
     01/85)

 E)  Influ�ncia da Literatura de Cordel sobre a Imprensa

       Neste aspecto, o Cordel n�o influencia a Imprensa quanto ao estilo. Mas do ponto de vista do interesse do Jornal, notamos a freq��ncia de cita��es sobre certos assuntos escritos em Cordel. Exemplo disso tivemos, h� cerca de um ano, a am�pla  divulga��o por todos os jornais desta cidade do livro escrito em cordel sobre S�o Francisco de Assis, de minha autoria. Talvez tenha sido causa desta ampla divulga��o dois fatores: a) ter sido o primeiro livro sobre o Santo do Nordeste brasileiro escrito em cordel e b) ter sido editado por uma Editora de proje��o nacional como a VOZES. O que  � bastante raro um escritor cearense logo como estreante conseguir editar seu livro fora do �mbito da “prov�ncia”. Verdade ou n�o tivemos um exemplo cabal da influ�ncia do cordel sobre a Im�prensa. Al�m deste exemplo local, tivemos no final de 1986 e in�cio de 1987, a publica��o de 10 entrevistas com poetas populares e cantadores ao jornalista Gilmar de Carvalho, pesquisador e professor da Universidade Federal do Ceara. Todas veiculadas pelo Jornal da Manh� sediado em Teresina (PI).

         Em suma, podemos concluir que existe nitidamente um crescente interesse de parte dos Jornais pela divulga��o da Literatura de Cordel. N�o s� isso. Os jornais tradicionais tendem a “se utilizarem da Literatura de Cordel como referencial e fonte de informa��o” (J. Luyten, 1984).

                                                CONCLUS�O 

Este meu trabalho teve
Por real finalidade
Mostrar que a Literatura
De Cordel � na verdade
Jornalismo Popular
De cunho bem singular
Que atinge � comunidade.
 
N�s vimos que � preciso
Pra ser Jornal Popular
Ter o povo como autor
E a ele se destinar.
E o Cordel bem satisfaz
Esta exig6ncia demais
Por isso dele exemplar.
 
Da not�cia Fraser Bond
Deu grande defini��o
E disto a Literatura
De Cordel n�o foge n�o:
Tem tamanho proximidade
Import�ncia e novidade
Mesmo sem atualiza��o.
 
Mostramos as influ�ncias
Que o Cordel recebe e d�
Da Imprensa, r�dio e TV.
E tudo que vem de l�
fonte para o poeta
Que nu’a linguagem discreta
Sempre ao povo falara.

                Fortaleza, 17/11/88 com atualiza��es em mar�o de 2001

 BIBLIOGRAFIA

 LUYTEN, Josefh M. A NOTICIA NA LITERATURA DE CORDEL (Tese apre�sentada ao Departamento de Jornalismo e Editora��o da Escola de Comunica��es e Artes da Universidade de S�o Paulo), S�o Paulo, 1984.
 VV.AA. POESIA, CANTADOR E VIOLA, (Curso de Cantoria Popular), Im�prensa Universit�ria da Universidade Federal do Cear�,1980.
 
BEZERRA DE MENEZES, Eduardo D., PARA UMA LEITURA SOCIOL�GICA DA LITERATURA DE CORDEL, in Rev. de Ci�ncias Sociais, Vol. III, nos. 1 e 2,Imprensa Universit�ria da Universidade Federal do Cear�, 1977.
 
SOUZA, Manoel Matusal�m, Pe.. A IGREJA E O POVO NA LITERATURA DE CORDEL, Edi��es Paulinas, S�o Paulo, 1984.
 
LOPES, Jos� Ribamar - org. LITERATURA  DE CORDEL; antologia. 2.ed. Fortaleza, BNB, 1983.
 
MENEZES, Fco. Ot�vio. O PADRE DE VIROU MULHER - depoimento completo. (folheto de cordel), edi��o do autor, 1988.
 
 
PESSOA, S� de Jo�o. A VIT�RIA DE TANCREDO NEVES. - folheto de Cordel, edi��o do autor, 1985.
 
VIEIRA, Guaipuan. INFERNO NO BANFORT - cinco horas de terror, cole��o CE�CORDEL-9, .(folheto de Cordel), ed. do autor, l987.

                           

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