Fila indiana: as letras, as sílabas, as palavras, as frases, os parágrafos, o texto. Comportas abertas em graus; filetes acumulando lagos.
Mas o dique? Dos trabalhos diários de recuperação, revolta-se. É incapaz, mas finge. As fissuras são suas testemunhas.
A comunicação é para dois níveis: O que se sabia e se queria dizer. O que não se sabia (e não se queria dizer). E ambas as correntes não são
puras (correntes: elos d'água).
Aqui o pensamento extroverte sua cápsula de incompreensível.
A máquinadenãoescrever é meticulosa. Extrema concentração para manter a ordem das peças do discurso fora de sua natural imantação. Porque se
seu destino maior seria traduzir o jorro ininterrupto, e se é na verdade seu dique fissurado, o que melhor que dissolver-se-catarata?
As palavras antes de serem, inchadas de possibilidades.
Se há comunicação sem palavras, porque elas existem? Elas têm sua própria missão, Mercúrio de mundos.
A matéria-tinta transborda as letras. O caleidoscópio cego espalha-se. O poema a Picabia amontoa-se sobre si mesmo, num acúmulo que faz
silêncio. Todos acúmulos que subtraem.
O branco sobre o branco, as palavras escritas sobre as palavras, os desenhos sobre os desenhos, os sons superpostos em zumbido/música. As
unidades do discurso decompondo uma fala possível, por uma massa que retorna do que ainda pode ser.
Helena chega à opacidade através de inúmeras membranas transparentes. Seus fonemas, palavras e formas, de portadores de significados, passam a
coisas e, nesse estado de densidade, em que estão a "olhos vistos", é que recuperam a mudez do texto misterioso que o mundo inscreve no corpo.
Cyríaco Lopes / 1999