Escola Secundária do Fundão

Departamento de Ciências Sociais e Humanas

Introdução à Filosofia 10º Ano

 

Banco de Questões

 

Tema: O Problema da Filosofia e da sua História

 

I

Assinala, numa folha de teste, utilizando V (verdadeiro) ou F (falso), as afirmações que se seguem conforme as consideres verdadeiras ou falsas: ( 30 * 2 pontos = 60 pontos)

  1. Interpretar miticamente a realidade é recorrer à actividade de forças/seres sobrenaturais.

  2. O mito é, não um conjunto de normas organizadoras da vida individual e colectiva, mas uma explicação do mundo.

  3. O mito é um conjunto de normas organizadoras da vida individual e colectiva e uma explicação causal do mundo.

  4. Um mito da origem do mundo denomina-se cosmologia.

  5. O pensamento racional surgiu e desenvolveu-se na Grécia por vontade do homem grego.

  6. O pensamento racional surgiu e desenvolveu-se na Grécia continental num contexto de democracia.

  7. O primeiro objecto da Filosofia foi o homem.

  8. As questões colocadas pelos filósofos da Grécia Antiga apenas dizem respeito ao funcionamento e fundamento da natureza.

  9. A pesquisa do arqué permitiu, de forma racional e respeitando os dados da observação, interpretar naturalisticamente a diversidade, a multiplicidade e a transformação das coisas.

  10. Todos os filósofos que se indicam a seguir foram filósofos gregos: Tales, Anaximandro, Anaxágoras, Empédocles, Demócrito, Protágoras de Abdera, Sócrates, Platão e Agostinho de Hipona.

  11. Os sofistas defenderam o relativismo e o cepticismo.

  12. Os sofistas, ao basearem o seu método de acção no diálogo, contribuíram para que os jovens gregos pudessem alcançar o conhecimento verdadeiro.

  13. Os sofistas estão ligados às investigações das artes da palavra.

  14. A tese ‘conhecimento é virtude’ é uma tese sofista.

  15. A revolução intelectual de Sócrates consistiu na criação de um método racional, o diálogo, que permite mostrar o carácter relativo da verdade.

  16. Sócrates foi o maior filósofo naturalista grego.

  17. A revolução intelectual de Sócrates consistiu na criação de um método racional, o diálogo, que permite validar o cepticismo.

  18. A teoria da reminiscência é de Platão.

  19. Em linguagem contemporânea podemos afirmar que a Física e a Biologia foram consideradas por Platão como saber de opinião.

  20. Platão é um dualista gnoseológico, porque defendeu a existência de dois mundos.

  21. Platão é gnoseologicamente um intelectualista e Aristóteles um empirista.

  22. Para Tertuliano, a Fé deve subordinar-se à Razão.

  23. Em Agostinho de Hipona a Filosofia manteve uma atitude independente e condicionou a nova religião.

  24. A Filosofia Escolástica, toda ela de fundo aristotélico, deveu a sua evolução ao surgimento das Universidades e de novas Ordens Religiosas.

  25. O platonismo verificou-se na Europa nesta abreviada sequência: Platão, Plotino, S. Agostinho, S. Anselmo, S. Boaventura.

  26. A Filosofia Escolástica deve a sua evolução ao surgimento das Universidades e de Ordens Religiosas.

  27. O mérito de Tomás de Aquino foi o de cristianizar o platonismo.

  28. Tal como Tertuliano, Tomás de Aquino considera que, por natureza, a razão demonstra ideias opostas ao Cristianismo.

  29. Guilherme de Ockam foi, no século XVI, o grande crítico da Escolástica.

  30. O Renascimento foi uma época histórica em que se defendeu o naturalismo, o humanismo e se indiciou o moderno método experimental.

 
II

Atenta no texto que se segue:

“O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico – poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia, pela primeira vez, libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego.”

Vernant, J.-P. – Do Mito à Razão, in V. Magalhães Vilhena, Panorama do Pensamento Filosófico, vol. 1, Lisboa, Cosmos, 1956.

31.  Partindo do texto, avalia a importância da procura pelo arqué relativamente à  passagem do pensamento mítico ao pensamento racional. (30 pontos)

32.  Indica a tese fundamental de Parménides e de Heraclito sobre o real. (10 pontos)

33.  Clarifica em que medida Sócrates se opôs ao conceito sofista de verdade. (10 + 20 pontos = 30 pontos)

34.  Apresenta três razões que justifiquem a seguinte afirmação: “Com Sócrates deu-se uma revolução na História da Filosofia”.(15 pontos)

35.  Esclarece a tarefa fundamental dos sofistas e a respectiva pedagogia. (25 pontos)

36.  Explicita o método socrático. (30 pontos)

37.  Explicita a ética socrática. (25 pontos)

38.  Esclarece as teorias platónicas da reminiscência e do corpo como obstáculo epistemológico. (40 pontos)

39.  Esclarece o modo  como Platão perspectivou o problema do conhecimento. (30 pontos)

40.  Estabelece as diferenças entre Platão e Aristóteles no que concerne ao problema da origem do conhecimento. (20 + 10 pontos = 30 pontos)

III

 

41.  Enuncia 4 (quatro) questões/ideias em que se manifeste o contraste entre paganismo e cristianismo. (30 pontos)

42.  Evidencia as diferenças entre Tertuliano, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino no que concerne às relações entre fé e razão. (5 +10 + 15 = 30 pontos)

43.  Indica 4 elementos diferenciadores da mentalidade renascentista em relação à Idade Média. (30 pontos)

 

PROPOSTA DE RESOLUÇÃO

 

  1. v

  2. f

  3. f

  4. f

  5. f

  6. f

  7. f

  8. f

  9. v

  10. f

  11. v

  12. f

  13. v

  14. f

  15. f

  16. f

  17. f

  18. v

  19. v

  20. f

  21. f

  22. f

  23. f

  24. f

  25. v

  26. v

  27. f

  28. f

  29. f

  30. v

 

  1. Ideias do Texto: o nascimento da filosofia marca o começo do pensamento científico + o logos liberta-se do mito. Considerando a pergunta ‘avalia a importância da procura pelo arqué relativamente à passagem do pensamento mítico ao pensamento racional’, temos o seguinte contexto: solicita-se como é que pesquisando o arqué, os primeiros filósofos se separaram do pensamento mítico e iniciaram a investigação científica. Arqué: substância primordial, substância de que tudo é feito (essência) que permite explicar de forma racional a realidade mutável: a diversidade, multiplicidade e a transformação dos seres. A pesquisa deste arqué faz-se recorrendo à razão (argumentação), como por exemplo o caso de Tales que justificou o arquè = água com 4 argumentos. A escolha da água, por sua vez, mostra a importância do papel da observação. Ora isto significa que a explicação filosófica alia a observação à razão, características do pensamento científico. Por sua vez, as explicações dos fenómenos naturais faz-se recorrendo a elementos naturais. Por exemplo, a explicação naturalista dada por Tales de um tremor de terra. Se averiguarmos agora o que é um mito, temos: explicação de todas as coisas pelas origens (explicar é saber as origens) e nas narrativas das origens surgem sempre a actividade de deuses. Ora isto permite-nos concluir que o pensamento filosófico (científico) está em ruptura (embora parcial) com o pensamento anterior.

  1. Heráclito: a essência das coisas é o devir – tudo está em mudança. Parménides: o real é o ser e o que é, é e não pode deixar de ser; o que não-é não existe e nunca pode vir a ser – o real é estático.

  1. Noção sofista de verdade: a) a verdade é relativa (relativismo – definição); b) cepticismo (definição); verdade = opinião; opinião mais verdadeira = opinião melhor argumentada. Inexistência de interesse pela procura da verdade. Sócrates: uso da razão e de um método próprio (referências ao diálogo: ironia e maiêutica) para alcançar a verdade. Papel da indução (definição) na aquisição do conceito. O conceito expressa-se na definição que é uma verdade universal, necessária, isto é, absoluta.

  1. a) Sócrates deixou bem claro que mais importante do que a dedicação do homem à reflexão cosmológica, onde, aliás, ninguém se entendia nas respostas, era a dedicação ao homem, concretamente o ser moral; b) só a razão, e exclusivamente a razão, com um determinado método, pode mostrar a falsidade das aparentes verdades e alcançar a VERDADE; c) o homem é um ser racional, e a razão é uma faculdade universal: consequentemente, é possível atingir valores morais universais, isto é, definir uma ética de valor universal.

  1. Os sofistas foram homens que, provenientes de toda a Grécia, vieram para Atenas solucionar um problema fundamental posto pela instauração da Democracia: ensinar os mancebos a vencer, convencendo as multidões, levando avante os seus projectos políticos. Isto é necessário porque  não havia escolas que ensinassem este tipo de arte (areté) política e somente os jovens aristocratas estavam preparados para as tarefas políticas. Neste contexto, como fazer política implica saber falar, os sofistas ensinavam os seus jovens, a troco de dinheiro, a falar bem, a bem falar e a argumentar, sem que a argumentação fosse necessariamente correcta. Por isso, a sua pedagogia era: oratória, retórica, enciclopedismo e erística.

  1. O método socrático é o diálogo (método dialógico ou dialéctico) com dois momentos: a ironia e a maiêutica. Ironia: apresentação junto do interlocutor de forma irónica (parecendo não saber de nada) e solicitar ao interlocutor, que julga que tudo sabe, que lhe dê uma definição de algo. A resposta é-lhe fornecida. Sócrates, num interrogatório argumentativo e de exemplos e contra-exemplos, mostra a inadequação ou a falsidade dessa definição. O processo repete-se até o interlocutor reconhecer a sua ignorância (fase negativa: o interlocutor reconhece que afinal nada sabe). O interlocutor está neste momento despojado dos seus preconceitos, ideias feitas e falso saber. Maiêutica: continuação do diálogo tendo em vista a auto-descoberta da verdade. Sócrates faz de parteiro: ajuda a dar à luz a verdade, não a transmite: é o interlocutor que, com a ajuda de Sócrates, vai descobrir por si e em si mesmo (na alma) a verdade, o conceito universal.

  1. Ética racional: a razão pode descobrir as verdades morais, as noções universais de bem, justiça, coragem, etc. Ideias éticas: conhecer equivale a virtude (só pode ser virtuoso quem sabe o que é a virtude); ignorância = erro/pecado (não se peca, não se erra por querer: ninguém faz o mal voluntariamente).

  2. Teoria da reminiscência: a alma, primitivamente, ao contemplar as ideias, tudo conhecia. Um erro levou à sua precipitação no corpo, formando, assim, o homem. Consequência: a alma esqueceu-se de tudo. Vivendo neste mundo que é o nosso, os sentidos são o trampolim para que a alma desperte novamente para a verdade (os sentidos não são fonte de conhecimento, mas apenas o pontapé de saída para o relembrar da sabedoria que sempre teve). Conhecer = recordar; ensinar = ajudar a recordar e não a transmitir saber. Teoria do ‘corpo como obstáculo epistemológico’: A alma, prisioneira num corpo, já que primitivamente contemplava as Ideias no Mundo Inteligível, mas, tendo cometido um erro, foi castigada a nele incarnar, formando assim o homem, sente intrínseca necessidade de procurar a verdade. No entanto, o corpo impede-na, dificulta-a nessa pesquisa, eliminando-lhe o tempo necessário para se dedicar à investigação (paixões, guerras, aquisição de bens materiais, tempo dedicado em excesso à comida, bebida, sexo, etc.). Assim, neste mundo a alma só pode vir a conhecer, se minimizar os interesses corporais e a vida material. Só conhecerá  (reconhecerá) toda a verdade após a morte, já que esta é a libertação do corpo.

  1. Platão é um dualista gnoseológico, porque defende dois tipos/níveis de conhecimento: o conhecimento sensível e o conhecimento racional. O conhecimento sensorial das coisas (que são sombras, cópias das ideias) do mundo sensível é apenas um conhecimento de opinião – não é ciência. Ciência é conhecimento de ideias que existem no mundo inteligível. Este mundo é acessível apenas à razão: a origem do conhecimento científico está na razão (racionalismo). Como há diversos tipos de ideias, então, Platão desdobrou o conhecimento racional em dois tipos: o conhecimento discursivo (dianoia) de carácter hipotético-dedutivo e o conhecimento noético (intuitivo, contemplativo) que é a Filosofia.

  1. Platão: o conhecimento sensorial das coisas (sombras, cópias) do mundo sensível é apenas um conhecimento de opinião – não é ciência. Ciência é conhecimento de ideias que existem no mundo inteligível. Este mundo é acessível apenas à razão: a origem do conhecimento científico está na razão (racionalismo). Como há diversos tipos de ideias, então, Platão desdobra o conhecimento racional em dois tipos: o conhecimento discursivo/dianoia (hipotético-dedutivo) e o conhecimento noético (intuitivo) ou Filosofia. Aristóteles: o conhecimento tem origem em duas faculdades: os sentidos e o intelecto. Os sentidos dão a matéria do conhecimento e o intelecto descobre a essência dos objectos dados aos sentidos (as ideias ou formas não são transcendentes, como defendia Platão, mas inerentes aos objectos (intelectualismo).

  1. Deus ordenador versus Deus pessoal e providente; alma geralmente considerada como mortal versus alma imortal; a verdade como obra do homem versus verdade absoluta revelada por Deus; carácter cíclico do tempo versus carácter linear do tempo.

  1. As tarefas das Filosofias Patrística e Escolástica são as de conciliar a fé com a razão e a de justificar a fé. Tertuliano: a razão é fonte de heresia, a única verdade é a verdade revelada.

S. Agostinho: razão e fé formam uma unidade: a razão permite esclarecer a fé e a fé orientar a razão. Assim se concilia de uma forma original o cristianismo com a filosofia greco-romana, sem incompatibilidades e uma ao serviço da doutra: crer para compreender e compreender para crer. (teosofia)

Tomás de Aquino: razão e fé são ciências autónomas, embora com métodos distintos. Há verdades racionais e verdades puramente de fé (por exemplo: a Santíssima Trindade). A razão ajuda a fé (demonstrações de verdades de fé – a razão é serva da fé); o facto da razão alcançar conhecimentos contrários à fé é sinal de o homem ter usado mal o raciocínio (a fé impõe-se à razão).

 

  1. No pensamento medieval domina o princípio de autoridade, enquanto que no Renascimento o homem luta contra o princípio de autoridade; o pensamento medieval é teocêntrico, enquanto que o renascentista é antropocêntrico (humanismo); na Idade Média o homem é um ser contemplativo, enquanto que no Renascimento se define como ser activo: observa, experimenta e transforma (naturalismo). Ao nível do conhecimento, no Renasciemento valoriza-se mais a experiência e a razão, enquanto que na Idade Média se apelava fundamentalmente para a autoridade de Aristóteles e da Igreja. O pensamento crítico manifesta-se na pluralidade das filosofias renascentistas ao inverso do dogmatismo escolástico da Idade Média.

 

ÓGrupo de Filosofia, 2000/2001, E.S.F.

 

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