I
Assinala, numa folha de teste, utilizando V (verdadeiro) ou F (falso), as afirmações que se seguem conforme as consideres verdadeiras ou falsas: ( 30 * 2 pontos = 60 pontos)
Interpretar
miticamente a realidade é recorrer à actividade de forças/seres
sobrenaturais.
O
mito é, não um conjunto de normas organizadoras da vida individual e
colectiva, mas uma explicação do mundo.
O
mito é um conjunto de normas organizadoras da vida individual e colectiva e
uma explicação causal do mundo.
Um
mito da origem do mundo denomina-se cosmologia.
O
pensamento racional surgiu e desenvolveu-se na Grécia por vontade do homem
grego.
O
pensamento racional surgiu e desenvolveu-se na Grécia continental num
contexto de democracia.
O
primeiro objecto da Filosofia foi o homem.
As
questões colocadas pelos filósofos da Grécia Antiga apenas dizem respeito
ao funcionamento e fundamento da natureza.
A
pesquisa do arqué permitiu, de forma racional e respeitando os dados da
observação, interpretar naturalisticamente a diversidade, a multiplicidade
e a transformação das coisas.
Todos
os filósofos que se indicam a seguir foram filósofos gregos: Tales,
Anaximandro, Anaxágoras, Empédocles, Demócrito, Protágoras de Abdera, Sócrates,
Platão e Agostinho de Hipona.
Os
sofistas defenderam o relativismo e o cepticismo.
Os
sofistas, ao basearem o seu método de acção no diálogo, contribuíram
para que os jovens gregos pudessem alcançar o conhecimento verdadeiro.
Os
sofistas estão ligados às investigações das artes da palavra.
A
tese ‘conhecimento é virtude’ é uma tese sofista.
A
revolução intelectual de Sócrates consistiu na criação de um método
racional, o diálogo, que permite mostrar o carácter relativo da verdade.
Sócrates
foi o maior filósofo naturalista grego.
A
revolução intelectual de Sócrates consistiu na criação de um método
racional, o diálogo, que permite validar o cepticismo.
A
teoria da reminiscência é de Platão.
Em
linguagem contemporânea podemos afirmar que a Física e a Biologia foram
consideradas por Platão como saber de opinião.
Platão
é um dualista gnoseológico, porque defendeu a existência de dois mundos.
Platão
é gnoseologicamente um intelectualista e Aristóteles um empirista.
Para
Tertuliano, a Fé deve subordinar-se à Razão.
Em
Agostinho de Hipona a Filosofia manteve uma atitude independente e
condicionou a nova religião.
A
Filosofia Escolástica, toda ela de fundo aristotélico, deveu a sua evolução
ao surgimento das Universidades e de novas Ordens Religiosas.
O
platonismo verificou-se na Europa nesta abreviada sequência: Platão,
Plotino, S. Agostinho, S. Anselmo, S. Boaventura.
A
Filosofia Escolástica deve a sua evolução ao surgimento das Universidades
e de Ordens Religiosas.
O
mérito de Tomás de Aquino foi o de cristianizar o platonismo.
Tal
como Tertuliano, Tomás de Aquino considera que, por natureza, a razão
demonstra ideias opostas ao Cristianismo.
Guilherme
de Ockam foi, no século XVI, o grande crítico da Escolástica.
O
Renascimento foi uma época histórica em que se defendeu o naturalismo, o
humanismo e se indiciou o moderno método experimental.
Atenta
no texto que se segue:
“O nascimento da filosofia, na Grécia, marcaria assim o começo do pensamento científico – poder-se-ia dizer simplesmente: do pensamento. Na Escola de Mileto, o logos ter-se-ia, pela primeira vez, libertado do mito como as escaras caem dos olhos do cego.”
Vernant, J.-P. – Do Mito à Razão, in V. Magalhães Vilhena, Panorama do Pensamento Filosófico, vol. 1, Lisboa, Cosmos, 1956.
31. Partindo
do texto, avalia a importância da procura pelo arqué relativamente à
passagem do pensamento mítico ao pensamento racional. (30 pontos)
32. Indica
a tese fundamental de Parménides e de Heraclito sobre o real. (10 pontos)
33. Clarifica
em que medida Sócrates se opôs ao conceito sofista de verdade. (10 + 20 pontos
= 30 pontos)
34. Apresenta
três razões que justifiquem a seguinte afirmação: “Com Sócrates deu-se
uma revolução na História da Filosofia”.(15 pontos)
35. Esclarece
a tarefa fundamental dos sofistas e a respectiva pedagogia. (25 pontos)
36. Explicita
o método socrático. (30 pontos)
37. Explicita
a ética socrática. (25 pontos)
38. Esclarece
as teorias platónicas da reminiscência e do corpo como obstáculo epistemológico.
(40 pontos)
39. Esclarece
o modo como Platão perspectivou o problema do conhecimento. (30
pontos)
40. Estabelece as diferenças entre Platão e Aristóteles no que concerne ao problema da origem do conhecimento. (20 + 10 pontos = 30 pontos)
41. Enuncia
4 (quatro) questões/ideias em que se manifeste o contraste entre paganismo e
cristianismo. (30 pontos)
42. Evidencia
as diferenças entre Tertuliano, Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino no que
concerne às relações entre fé e razão. (5 +10 + 15 = 30 pontos)
43. Indica
4 elementos diferenciadores da mentalidade renascentista em relação à Idade Média.
(30 pontos)
PROPOSTA
DE RESOLUÇÃO
v
f
f
f
f
f
f
f
v
f
v
f
v
f
f
f
f
v
v
f
f
f
f
f
v
v
f
f
f
v
Ideias
do Texto: o nascimento da filosofia marca o começo do pensamento científico
+ o logos liberta-se do mito. Considerando a pergunta ‘avalia a importância
da procura pelo arqué relativamente à passagem do pensamento mítico ao
pensamento racional’, temos o seguinte contexto: solicita-se como é que
pesquisando o arqué, os primeiros filósofos se separaram do pensamento mítico
e iniciaram a investigação científica. Arqué: substância primordial,
substância de que tudo é feito (essência) que permite explicar de forma
racional a realidade mutável: a diversidade, multiplicidade e a transformação
dos seres. A pesquisa deste arqué faz-se recorrendo à razão (argumentação),
como por exemplo o caso de Tales que justificou o arquè = água com 4
argumentos. A escolha da água, por sua vez, mostra a importância do papel
da observação. Ora isto significa que a explicação filosófica alia a
observação à razão, características do pensamento científico. Por sua
vez, as explicações dos fenómenos naturais faz-se recorrendo a elementos
naturais. Por exemplo, a explicação naturalista dada por Tales de um
tremor de terra. Se averiguarmos agora o que é um mito, temos: explicação
de todas as coisas pelas origens (explicar é saber as origens) e nas
narrativas das origens surgem sempre a actividade de deuses. Ora isto
permite-nos concluir que o pensamento filosófico (científico) está em
ruptura (embora parcial) com o pensamento anterior.
Heráclito: a essência das coisas é o devir – tudo está em mudança. Parménides: o real é o ser e o que é, é e não pode deixar de ser; o que não-é não existe e nunca pode vir a ser – o real é estático.
Noção
sofista de verdade: a) a verdade é relativa (relativismo – definição);
b) cepticismo (definição); verdade = opinião; opinião mais verdadeira =
opinião melhor argumentada. Inexistência de interesse pela procura da
verdade. Sócrates: uso da razão e de um método próprio (referências ao
diálogo: ironia e maiêutica) para alcançar a verdade. Papel da indução
(definição) na aquisição do conceito. O conceito expressa-se na definição
que é uma verdade universal, necessária, isto é, absoluta.
a)
Sócrates deixou bem claro que mais importante do que a dedicação do homem
à reflexão cosmológica, onde, aliás, ninguém se entendia nas respostas,
era a dedicação ao homem, concretamente o ser moral; b) só a razão, e
exclusivamente a razão, com um determinado método, pode mostrar a
falsidade das aparentes verdades e alcançar a VERDADE; c) o homem é um ser
racional, e a razão é uma faculdade universal: consequentemente, é possível
atingir valores morais universais, isto é, definir uma ética de valor
universal.
Os
sofistas foram homens que, provenientes de toda a Grécia, vieram para
Atenas solucionar um problema fundamental posto pela instauração da
Democracia: ensinar os mancebos a vencer, convencendo as multidões, levando
avante os seus projectos políticos. Isto é necessário porque
não havia escolas que ensinassem este tipo de arte (areté) política
e somente os jovens aristocratas estavam preparados para as tarefas políticas.
Neste contexto, como fazer política implica saber falar, os sofistas
ensinavam os seus jovens, a troco de dinheiro, a falar bem, a bem falar e a
argumentar, sem que a argumentação fosse necessariamente correcta. Por
isso, a sua pedagogia era: oratória, retórica, enciclopedismo e erística.
O método socrático é o diálogo (método dialógico ou dialéctico) com dois momentos: a ironia e a maiêutica. Ironia: apresentação junto do interlocutor de forma irónica (parecendo não saber de nada) e solicitar ao interlocutor, que julga que tudo sabe, que lhe dê uma definição de algo. A resposta é-lhe fornecida. Sócrates, num interrogatório argumentativo e de exemplos e contra-exemplos, mostra a inadequação ou a falsidade dessa definição. O processo repete-se até o interlocutor reconhecer a sua ignorância (fase negativa: o interlocutor reconhece que afinal nada sabe). O interlocutor está neste momento despojado dos seus preconceitos, ideias feitas e falso saber. Maiêutica: continuação do diálogo tendo em vista a auto-descoberta da verdade. Sócrates faz de parteiro: ajuda a dar à luz a verdade, não a transmite: é o interlocutor que, com a ajuda de Sócrates, vai descobrir por si e em si mesmo (na alma) a verdade, o conceito universal.
Ética
racional: a razão pode descobrir as verdades morais, as noções universais
de bem, justiça, coragem, etc. Ideias éticas: conhecer equivale a virtude
(só pode ser virtuoso quem sabe o que é a virtude); ignorância =
erro/pecado (não se peca, não se erra por querer: ninguém faz o mal
voluntariamente).
Teoria
da reminiscência: a alma,
primitivamente, ao contemplar as ideias, tudo conhecia. Um erro levou à sua
precipitação no corpo, formando, assim, o homem. Consequência: a alma
esqueceu-se de tudo. Vivendo neste mundo que é o nosso, os sentidos são o
trampolim para que a alma desperte novamente para a verdade (os sentidos não
são fonte de conhecimento, mas apenas o pontapé de saída para o relembrar
da sabedoria que sempre teve). Conhecer = recordar; ensinar = ajudar a
recordar e não a transmitir saber. Teoria do ‘corpo como obstáculo epistemológico’:
A alma, prisioneira num corpo, já que primitivamente contemplava as Ideias
no Mundo Inteligível, mas, tendo cometido um erro, foi castigada a nele
incarnar, formando assim o homem, sente intrínseca necessidade de procurar
a verdade. No entanto, o corpo impede-na, dificulta-a nessa pesquisa,
eliminando-lhe o tempo necessário para se dedicar à investigação (paixões,
guerras, aquisição de bens materiais, tempo dedicado em excesso à comida,
bebida, sexo, etc.). Assim, neste mundo a alma só pode vir a conhecer, se
minimizar os interesses corporais e a vida material. Só conhecerá
(reconhecerá) toda a verdade após a morte, já que esta é a
libertação do corpo.
Platão é um dualista gnoseológico, porque defende dois tipos/níveis de conhecimento: o conhecimento sensível e o conhecimento racional. O conhecimento sensorial das coisas (que são sombras, cópias das ideias) do mundo sensível é apenas um conhecimento de opinião – não é ciência. Ciência é conhecimento de ideias que existem no mundo inteligível. Este mundo é acessível apenas à razão: a origem do conhecimento científico está na razão (racionalismo). Como há diversos tipos de ideias, então, Platão desdobrou o conhecimento racional em dois tipos: o conhecimento discursivo (dianoia) de carácter hipotético-dedutivo e o conhecimento noético (intuitivo, contemplativo) que é a Filosofia.
Platão:
o conhecimento sensorial das coisas (sombras, cópias) do mundo sensível é
apenas um conhecimento de opinião – não é ciência. Ciência é
conhecimento de ideias que existem no mundo inteligível. Este mundo é
acessível apenas à razão: a origem do conhecimento científico está na
razão (racionalismo). Como há diversos tipos de ideias, então, Platão
desdobra o conhecimento racional em dois tipos: o conhecimento discursivo/dianoia
(hipotético-dedutivo) e o conhecimento noético (intuitivo) ou Filosofia. Aristóteles: o
conhecimento tem origem em duas faculdades: os sentidos e o intelecto. Os
sentidos dão a matéria do conhecimento e o intelecto descobre a essência
dos objectos dados aos sentidos (as ideias ou formas não são
transcendentes, como defendia Platão, mas inerentes aos objectos
(intelectualismo).
Deus ordenador versus Deus pessoal e providente; alma geralmente considerada como mortal versus alma imortal; a verdade como obra do homem versus verdade absoluta revelada por Deus; carácter cíclico do tempo versus carácter linear do tempo.
As
tarefas das Filosofias Patrística e Escolástica são as de conciliar a fé
com a razão e a de justificar a fé. Tertuliano:
a razão é fonte de heresia, a única verdade é a verdade revelada.
S.
Agostinho: razão e fé formam uma unidade: a razão permite esclarecer a fé e a fé
orientar a razão. Assim se concilia de uma forma original o cristianismo com a
filosofia greco-romana, sem incompatibilidades e uma ao serviço da doutra: crer
para compreender e compreender para crer. (teosofia)
Tomás
de Aquino: razão e fé são ciências autónomas, embora com métodos distintos. Há
verdades racionais e verdades puramente de fé (por exemplo: a Santíssima
Trindade). A razão ajuda a fé (demonstrações de verdades de fé – a razão
é serva da fé); o facto da razão alcançar conhecimentos contrários à fé
é sinal de o homem ter usado mal o raciocínio (a fé impõe-se à razão).
No
pensamento medieval domina o princípio de autoridade, enquanto que no
Renascimento o homem luta contra o princípio de autoridade; o pensamento
medieval é teocêntrico, enquanto que o renascentista é antropocêntrico
(humanismo); na Idade Média o homem é um ser contemplativo, enquanto que
no Renascimento se define como ser activo: observa, experimenta e transforma
(naturalismo). Ao nível do conhecimento, no Renasciemento valoriza-se mais
a experiência e a razão, enquanto que na Idade Média se apelava
fundamentalmente para a autoridade de Aristóteles e da Igreja. O pensamento
crítico manifesta-se na pluralidade das filosofias renascentistas ao
inverso do dogmatismo escolástico da Idade Média.
ÓGrupo
de Filosofia, 2000/2001, E.S.F.