Esta é a integra da entrevista que o Cauê
Muraro fez comigo para poder escrever a matéria "As 50 maiories
personalidades do skate brasileiro" publicada na Revista 100% Skate
Especial, de junho de 2004.
Cesinha Chaves
Idade e tempo de skate
48 anos (49 em julho) ando de skate desde 1968. Caí mesmo dentro
no
final dos anos 70, mais precisamente em 1977.
Num cálculo por cima dá por volta de umas 3 décadas...
Pra começar, como que é que rolou seu primeiro
interesse pelo skate e
quando isso aconteceu? Por que você optou por viver uma cultura,
a do skate, que ainda engatinhava no Brasil?
Meu primeiro interesse foi em 1968, quando comecei a surfar. Devorava
as (poucas) revistas de surf, e nelas havia anúncios de skates.
Naquela época a gente fazia o nosso “surfinho” da maneira
que dava, cortávamos compensados e tábuas com formas de
pranchinhas e pregávamos patins com rodas de borracha, que usávamos
com a regulagem do eixo super solto, pra fazer as curvas de surf no asfalto.
Nessa época fui com meus pais pra Petrópolis, que é
serra e não tem praia. Eu fissurado no surf, levei meu skate. Fui
andar num rink de patinação que tinha perto do Quitandinha,
e me lembro do impacto que o skate causou naquele pessoal que patinava
prá lá e prá. Um cara maluco com uma prancha com
rodinhas, fazendo viradas raspando com a bunda no chão e fingindo
que estava pegando onda... Vi que aquilo era diferente. E gostei.
Mais tarde, já em 76/77, morando em Saquarema e trabalhando com
surf - fazia laminação de pranchas, houve 3 fatos que foram
definitivos para que eu trocasse, de vez o surf, pelo skate: 1†
a revista Skateboarder, com Greg Weaver fazendo um carving descalço
numa piscina, que tinha uma matéria sobre pistas de skate (com
pistas incríveis), indagando se este seria o futuro do skate; 2†
a introdução do Vórtex no Brasil. Era um skate feito
por uns amigos que tinham casa em Saquá. As novidades eram os eixos,
que eram cópias do Tracker Trucks, e as rodas Road Rider que tinham
RO-LA-MEN-TOS!!! Até então os eixos eram de patins e as
rodas tinham bilhas soltas! 3† um dia fui comprar resina e fibra
de vidro numa loja do subúrbio do Rio e vi num jornal uma matéria
sobre uma pista de skate em Nova Iguaçu. Fui conferir e pirei!!!
Paredes perfeitas para um “surf no concreto”! E o melhor,
lisinho sem crowd e quebrando perfeito pros dois lados, 24 horas por dia!
A partir daí, com a Surfcraft (madeiras para skate, shapes, que
eu fazia e que contava uma equipe de peso) comecei a promover eventos,
campeonatos e a construir rampas. Pintou a revista Brasil Skate, da qual
fui chamado para ser editor, pois já escrevia sobre skate para
a Brasil Surf. Já nos anos 80 montei a base editorial da Revista
Visual esportivo e viajei prá California por quase um ano. Acabei
trabalhando na Marina Del Rey Skatepark, fiquei amigo de muitos pros,
corri o circuito Aspo (fiquei em 4† lugar na categoria open) e conheci
de perto o “mundo das revistas”.
Voltei pro Brasil com idéia de agitar. Fundei, com uma galera a
SUAT (Skatistas Unidos Anarquia Total) e fizemos um campeonato em Búzios.
Lancei o Skate Manifesto, com a intenção de unificar o skate
brasileiro através de um circuito sólido. Ou seja, aos poucos
fui me envolvendo cada vez mais com o skate, que passou a ser o reflexo
do estilo de vida
pelo qual optei.
Após um certo tempo de envolvimento com skate,
logo em 1977, você começou a trabalhar profissionalmente
com o skate. Como isso aconteceu?
Com a Surfraft, das pranchas de surf, passei a fazer shapes pra skate.
Frequentando a pista de Nova Iguaçu direto (principalmente de noite/madrugada),
comecei a imaginar com seria um campeonato lá. Consegui o patrocínio
do Brasas English Course e fiz o primeiro campeonato de pista do Brasil,
onde criei as regras, que eram adaptadas dos campeonatos de surf. No embalo
fiz a 1 demo de skate do Brasil, no clube de Regatas do Flamengo.
E segui com a Surfcraft. Mais tarde, arranjei patrocínio da Company,
e assim, junto com Marcelo Neiva e Ernesto Tello, nos tornamos os primeiros
profissionais do Rio de Janeiro.
Depois, no início dos 80, você começou
a se envolver com a televisão, a partir do Realce, na TV Record
Rio. Por que motivo você decidiu ser o pioneiro nessa iniciativa
de levar o skate à televisão?
Decidir ser pioneiro? Não bem é assim que funciona... Sempre
gostei de ficar minhas bandeiras em terrenos inexplorados é verdade...
Mas, as coisas aconteceram “naturalmente”. Na época
dos campeonatos de Guará (1983) pintou a chance na TV, primeiro
no Realce e depois no Vibração, e aí fui direto com
skate na TV sem parar. O lance na TV era simplesmente mostrar o estilo
de vida que vivíamos. Eu vivia o skate e gostava muito de música,
então mostrava na TV skate e as músicas que curtia na época.
Apenas isso. Acontece que ninguém fazia isso. Não havia
MTV. Chegou até a se falar que jovem não via televisão...
o que eu até concordava, pois não havia programas sobre
o universo jovem na TV antes do Realce e Vibração.
O Tuca me lembrou que uma vez você disse que durante
muito tempo, numa fase muito ruim do skate, você fazia questão
de colocar o skate na TV uma vez por semana. Por que essa insistência?
(esse ponto é, na verdade, um dos principais de a gente falar para
os leitores, essa coisa de você nunca ter desistido).
Como desistir de viver? Skate sempre foi e é a minha vida. Se sempre
tive a oportunidade de mostrar skate na TV, por que não fazê-lo?
Só pararia de mostrar skate na TV se parasse de andar ou curtir
skate, ou por falta de oportunidade, como acontece nos dias de hoje. Gostaria
de estar mais ativo na TV, com um programa mostrando o skate longe das
competições, como foi o caso do Sk8 e Pool Sessions, mas
parece que o país ainda está parado, pois, no momento, ninguém
está investindo em nada.
O que você está fazendo atualmente ligado
ao skate? Em que pé está essa relação de três
décadas?
Estou fazendo o site da CBSk, algumas clínicas de skate, alguns
comentários para a TV Globo, uma vez por ano realizo o Rio Skate
Jam junto com a RM Sports, e tenho alguns projetos engatilhados, como
lançar os meus 5 vídeos em DVD (Bob, Jen & Lotus (2002),
Conexão Europa (1997), Skateboards (1996), Sk8tour (1995) e Hellride
(1994)).
Como é andar de skate ainda nos dias atuais?
Caralho! Ano que vem vou fazer 50 anos, meio século de vida!!!
Dureza! Na cabeça ainda rola na boa, mas o corpo não acompanha...
É o velho problema de PVC (porra da velhice chegando) Curto muito
andar em bowls, com pouca altura como o banks da Lagoa. Gosto de velocidade
e de fazer linhas.
Como o skate, de formas diversas, influenciou para que
você se tornasse o que é hoje?
Praticamente o que sou hoje foi devido aos “moldes” do skate.
Com o skate aprendi muito, como dar valor a pequenas coisas e momentos
que normalmente nos passam despercebidos. Aprendi o sentido puro da diversão
e da amizade. Através do skate achei a minha identidade. Normalmente,
na “sociedade” você não é encorajado a
ousar e tentar coisas novas. Os erros serão punidos e só
o “campeão” será admirado. No skate você
aprende uma lição de vida, que é necessário
se ousar, tentar coisa novas, não focando nos erros e sim, nos
acertos, que nos empurram para frente. O fato de ser uma expressão
individual e única para cada skatista de ser algo que ninguém
pode tirar de você, não tem preço.
Qual a maior, a principal
lembrança que você tem do skate nesses anos todos de convivência?
Sei que é meio complicado – e chato – falar de apenas
uma, mas é que de repente há um fato que talvez seja legal
de citar no texto.
Um dos fatos mais marcantes no skate para mim foi o que deslanchou a minha
carreira na TV: o The Bones Brigade Show, um vídeo (o primeiro
video de skate!!!), com Steve Caballero e Mike MgGill andando no Bowl
de Lakewood, Rodney Mullen estraçalhando no freestyle por uns quatro
minutos e Mike MgGill e Tony Hawk em debulhando manobras em Del Mar. O
VHS estava começando ainda... Achei uma loucura aquele vídeo
mostrando o que antes só via em revistas. Consegui um gravador
VHS e uma câmera e fiz minha primeira produção para
TV: uma session no banks de Guará, antes da inauguração
oficial, isso em abril de 1983! Deste então passei a me interessar
por captação e edição de vídeos, procurando
ver tudo que era feito a respeito. Graças ao meu trabalho com skate
e vídeo/tv tive oportunidade de viajar por dez países, conhecer
pessoas e lugares incríveis, tudo graças à inspiração/piração
de um vídeo!
FONTE: 100%
Skate
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