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Livro do Mês

LISBOA, Livro de Bordo

José Cardoso Pires
Círculo de Leitores

Pode parecer estranho, num jornal do concelho de Silves, falar de Lisboa, mais precisamente de "Lisboa, Livro de Bordo" de José Cardoso Pires; mas esta aparente contradição que nos desvia da nossa cidade para aquela cidade capital é apenas o reflexo duma leitura sobre Lisboa com os olhos, o cérebro e a memória na cidade de Silves.

Não se conhece uma cidade, apenas visitando os seus monumentos, por mais numerosos e importantes que sejam, ou comendo e bebendo os alimentos quotidianos desses cidadãos, porque nos falta cumplicidade, �e sem cumplicidade com a imagem, com os saberes, os gostos e os defeitos dum mundo tão privado como o teu ninguém aprende a vivê-lo�.

Este Livro de Bordo, com vozes, olhares e memorações, é sobre Lisboa mas podia ser sobre qualquer cidade, porque ao lê-lo divaguei constantemente pela cidade de Silves, tentando rescrever este mesmo livro com as vozes, os largos, os cafés, o castelo e o rio Arade desassoreado espelhando a imagem da nossa cidade.

Num leitura entrecortada pelas setenta páginas de sentimento do autor e as divagações pela memória do leitor, reconstruindo aquilo que é lido numa nova forma de leitura, este pequeno livro, mas grande no saber e na vivência, é uma boa leitura para tempo de férias, para tempo de reflexão sobre o passado e a reformulação do futuro, numa praia do nosso concelho tentando sorver a felicidade do autor sentado em cima do Tejo:
�Tal como estou tenho a cidade pelas costas. Comércio, multidão, Europa, fica tudo para trás. Lá as pessoas andam todas a perguntar as horas umas às outras, enquanto neste reduto para aqui esquecido sabe-se do correr do dia pelo mudar de cor do Tejo, e não me digam que não é uma felicidade estar-se assim, à mesa sobre as águas, com gaivotas a saírem-nos de baixo dos pés e a passarem-nos a dois palmos dos olhos num bailado de gritaria�.

António Manuel Guerreiro


José Cardoso Pires nasceu, em 1925, em São João do Peso, Castelo Branco. Fez a instrução primária e secundária em Lisboa tendo ingressado em Matemáticas Superiores na Faculdade de Ciências de Lisboa, sem todavia concluir o curso. Depois de uma curta passagem pela Marinha Mercante, cumpre o serviço militar em Vendas Novas e Figueira da Foz, em 1947. Nos anos cinquenta e sessenta publica algumas das suas primeiras obras e envolve-se em diferentes projectos culturais. Ainda, em 1972, publica Dinossauro Excelentíssimo, livro de literatura infantil/juvenil onde crítica o salazarismo e a mentalidade provinciana de Salazar. Após a Revolução de 25 de Abril e consequente queda da Ditadura interessa-se pela análise da actividade da polícia política (PIDE/DGS), da qual resultam vários romances, nomeadamente, em 1983, a Balada da Praia dos Cães. Os seus últimos livros são sobre Lisboa e sobre o acidente Vascular-Cerebral de que é vítima. Morre em 1998.

Os Caminheiros e outros contos (conto - 1949)
Histórias de Amor (conto - 1952)
O Anjo Ancorado (romance - 1958)
O Render dos Heróis (teatro - 1960)
A Cartilha do Marialva (ensaio - 1960)
Jogos de Azar (conto - 1963)
O Hóspede de Job (romance - 1963)
O Delfim (romance - 1968)
Dinossauro Excelentíssimo (fábula - 1972)
E Agora, José? (ensaio - 1977)
O Burro em Pé (conto - 1979)
Corpo Delito - na Sala de Espelhos (teatro - 1980)
Balada da Praia dos Cães (romance - 1982)
Alexandra Alpha (romance - 1987)
A República dos Corvos (crónica - 1988)
A Cavalo no Diabo (crónica - 1994)
De Profundis, Valsa lenta (memória - 1997)
Lisboa, Livro de Bordo (crónica - 1997)

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