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Exposição de desenhos de Rosália Lourenço

Retrospectivas/Percursos

Em pé, de frente aos desenhos que vagarosamente vou descobrindo, dou por mim a cogitar, em voz alta, sobre a presente Exposição de Rosália Lourenço. Alguém, a meu lado, não me presta a mínima atenção. Tem razão. Afinal, quem sou eu para tecer tais comentários? No entanto, apesar da indiferença e, como amante do Belo, continuo o meu solilóquio.

A Pintora, nestas RETROSPECTIVAS/PERCURSOS apresenta--nos uma colecção de desenhos, integrados em quatro séries - Nús; Desporto e Lazer; Anónimos e Sós; Cartas Portuguesas - utilizando técnicas diversas, tais como, grafite; carvão e aguarela; colagem, acrílico e grafite; mista; etc., num conjunto de 18 quadros.

Inteligentemente, começa por sugerir-nos algumas pistas dum determinado percurso temporal, consubstanciado em corpos que se simulam, caso dos desenhos da Série Nús.

Em outros conjuntos, a emoção prevalece sobre a razão, num idêntico jogo de simulacros, na Série Desporto e Lazer, apresentado através de máscaras e atletas... em repouso. E falo em simulacro, porque, em princípio, um atleta pressupõe movimento, mas, a Pintora prefere apresentá-los a contrario sensu.

Quase somos tentados a acompanhar, em cumplicidade, a Rosália Lourenço, quando ela "brinca" com as suas próprias vivências e/ou com as nossas, (re)conduzindo-nos, em alguns estudos para pintura, às "esperanças", quais vivências-memórias, dos seus/nossos "verdes anos" - Série Anónimos e Sós.

Nestes percursos retrospectivos, intencionalmente orientados, a Autora acaba por confundir-nos, de todo, quando baralhando de novo as cartas/desenhos, foge à regra do estabelecido e, na última Série Cartas Portuguesas, remete-nos "no dia seguinte" (nas cartas portuguesas) para as "delícias francesas"... Através da presença/ausência induzida na metáfora de soror Mariana Alcoforado, somos conduzidos, inconscientemente, ao jogo do amor proibido.

...É insinuante e feliz a dialéctica entre a palavra e a obra. Entre os títulos (escritos) e os quadros (desenhados)...

A exposição - esteve presente ao público de 3 a 29 de Junho de 2000, na Sala Polivalente da Casa Museu João de Deus, em São Bartolomeu de Messines - fruto duma experiência/percurso que se adivinha muito pessoal e intimista, revela e esconde, de uma forma natural e inteligente, a complexidade duma MULHER que, apesar dos jogos e das metáforas, sabe traçar caminhos e percorrê-los, pintando e/ou desenhando.

Gabriela Rocha Martins

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