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Habito em Silves há pouco mais de um ano. �E tinha logo que ser Silves!?� - disse eu para mim próprio, quando fui informado da obrigatoriedade da minha presença nesta cidade. Silves nunca esteve no meu roteiro turístico, sempre mais orientado para a orla costeira da região algarvia, por via da atracção pelo mar e na qualidade de noctívago, como profissão e vocação, Albufeira, Faro, Praia da Rocha sempre foram os meus alvos preferenciais por serem, por excelência, locais privilegiados de aglomeração da minha tribo. Natural de Lisboa, dada a minha profissão (promotor de espectáculos), que me obrigava a constantes, embora sazonais, deslocações ao Algarve, passava várias vezes relativamente perto desta cidade. Aliás, tenho presente na minha memória a seta sinalizadora que se encontra no IP 1 a indicar o cruzamento para Silves. Pensei várias vezes para comigo: �Hei-de ir visitar este Castelo, talvez tenha condições para a organização de um evento musical.� ... Mas tal visita nunca sucedeu... Horários demasiado apertados, uma certa dose de comodismo (vir a Silves implicava um desvio considerável/ da minha trajectória), que contrastava com a minha paixão pelos cenários idílicos que estas fortificações proporcionam (tenho mesmo fortes e boas recordações de outros castelos: S. Jorge, Montemor, Óbidos, Beja, Serpa ...). Alguns amigos residentes no Algarve por várias vezes e por altura da famosa "Festa da Cerveja", dirigiram-me convites no sentido de os acompanhar à dita festa, mas. ..obra do acaso, ou talvez por não simpatizar em especial com esta bebida, sempre declinei os convites! No entanto, não posso dizer que esta cidade me fosse totalmente desconhecida. Embora nunca a tivesse visto, a cidade, Silves fazia parte do meu imaginário e esteve presente na minha educação. Silves... motivo de guerras e disputas... antiga capital do reino dos Algarves, a sua imponência Histórica, Cultural, o seu papel defensivo durante tantos séculos ao longo de tantos reinados... Silves, aliás Xilb, bastião histórico que remonta ao passado Islâmico desta parte do território, deveria ter sido alvo de uma visita voluntária da minha pessoa. Mas tal não veio a acontecer... pelo menos de uma forma voluntária. Todavia, quis o destino e antes do Verão de 1999, que eu viesse habitar a simpática cidade de Silves. Digo simpática, pois para esta terra e as suas gentes outro adjectivo não tenho. Com efeito, o carácter hermético do edifício onde habito, com os seus altos muros brancos, impede-me de ver mais além do que um exíguo rectângulo de céu. Encontro-me tão protegido com grades de ferro e betão que, aqui dentro... dentro destes muros altos, apenas chegam alguns ecos distantes daquilo que será a cidade, as suas gentes, o seu fervilhar, os seus ruídos característicos, os seus costumes peculiares. Sendo assim, a minha aculturação face à cidade onde me encontro tem sido feita de uma forma lenta e restrita. Agora, decorrido mais de um ano após a minha chegada, sei muito mais sobre a cidade e os seus habitantes, do que algum dia pressupus vir a saber. Mas devo salientar que esta minha aprendizagem não se efectua dentro dos parâmetros normais que qualquer outro nosso vizinho recém chegado à cidade pode usufruir. A "ponte" para lá destes muros tem sido feita essencialmente por contactos com docentes da Escola Secundária de Silves que aqui leccionam e funcionários deste Estabelecimento Prisional, alguns deles residentes nesta cidade. Daí a conclusão que as minhas relações interpessoais sejam muito limitadas no que concerne a habitantes de Silves. No entanto, se me fosse posta a pergunta, eu voltaria a reafirmar: simpáticas e prestativas, é como se me afiguram estas gentes. Mais recentemente, fruto de uma abertura para o exterior que foi concedida pela Direcção deste Estabelecimento, tive finalmente a oportunidade de conhecer o castelo de Silves numa visita guiada tipo "vulgo turista". Aí sim: passeando pelas muralhas, desfrutando da magnífica vista, pude apreciar, ainda que parcialmente, a dimensão e topologia da cidade onde habito há já tanto tempo. Devo dizer que fiquei impressionado pela singularidade dos materiais empregues na construção deste edifício, outrora com tão grande importância defensiva e agora pólo de atracção turística para toda esta região. Em excelente estado de conservação e com um atraente espaço verde no seu interior, peca, na minha óptica, o conjunto, pelo ar de abandono a que me parece terem sido largadas as escavações arqueológicas que decorrem no seu interior, mas como não disponho de informação suficiente para me pronunciar a este respeito e correndo o risco de cometer alguma barbárie opinativa, mais não direi. Deixo, contudo, este assunto em aberto para outros leitores, cujos interesses e sapiência sobre o assunto em questão sejam, sem dúvida, superiores aos meus. Chamei a este texto "Boa Vizinhança", o que à partida poderá parecer desconexo com o sentido tomado pela narrativa. No entanto, este título pretende e tão só, chamar à atenção para o óbvio: que dois mundos tão distintos como o meu e o vosso coexistem na mesma cidade, dentro do mesmo espaço geográfico sem, aparentemente, se tocarem. Duas realidades distintas imiscuídas no mesmo éter, em aparente boa vizinhança. Pena é que, pelo menos a nós, que fomos enviados para aqui habitar convosco, não nos seja dada a oportunidade de recebermos um pouco mais daquilo que Silves tem para dar. R.L.
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