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Livro do Mês

Exortação aos Crocodilos

Como já alguém referiu, o que António Lobo Antunes faz é uma "literatura das emoções".

Neste seu último romance, "Exortação aos Crocodilos", o autor, de uma forma complexa, mas naturalmente sua, dá-nos a conhecer a história de quatro mulheres e suas ligações com chefes terroristas que conheceram em Lisboa, ligados ao General Spínola. Lobo Antunes retrata uma sociedade pós 25 de Abril, utilizando para isso uma narrativa desconcertante, por vezes impiedosa, repleta de imagens e metáforas.

Através de quatro personagens femininas antagónicas, densas, monstruosas por vezes e ao mesmo tempo tocantes, Lobo Antunes aborda temas pertinentes e tão pouco dissociados de si mesmos. O adultério, o assassínio, o incesto, a doença, a morte e a não-vida criam o contexto a envolvência da própria história.

Mas é sobretudo o estilo quase sublime, perfeito até, que nos faz agarrar o enredo, vermo-nos envolvidos numa viagem alucinatória, visceral, contada por uma forma inconsciente que nos permite identificar, habitar as personagens de modo intenso e surpreendente à medida que vamos caminhando pelas páginas. São os mais pequenos sentimentos, emoções e estados de espírito (que todos vivemos) que os faz sentir vivos, porque pela sua pequenez têm o privilégio de os rejeitar, aceitar ou apenas ignorar. A pequena loucura humana, a ausência ou não de amor, a dúvida, a incerteza, o querer e não querer, estão reconditamente presentes na voz inconsciente que nos acompanha ao longo do texto e que o autor interpela no seio das personagens.

Poderá ser ou não pré-determinado, mas nestas intervenções, o autor apresenta-nos uma inovação no estilo, na forma de escrever. Se por um lado nos mantém alerta e faz-nos pensar, torna-se por vezes factor de dispersão e até alienação relativamente ao desenrolar do percurso das personagens.

Utilizando um espólio sociológico de toda uma geração, nos seus medos, crises, contradições e traumas� quererá o autor advertir ou estimular todos os "crocodilos" que somos e que temos? Romance de leitura por vezes custosa, mas fascinante, interessará ao leitor que identifique a vida apenas como um fio condutor em direcção ao destino fatal que temos e que não encare os seus vícios e temores como fraquezas.

O Autor e a Obra

António Lobo Antunes nasceu em 1942 na cidade de Lisboa (Benfica), onde cresceu. Médico especializado "por acaso" em Psiquiatria e antigo combatente da guerra colonial, é sem dúvida uma das figuras sonantes da literatura Portuguesa contemporânea, sendo igualmente uma das mais controversas. O seu estilo quase sempre irónico e polémico, gera alguma discussão em torno da sua obra que já foi agraciada com quatro prémios literários. Actualmente e apesar da unanimidade, parecendo reunir todas as críticas a favor de "um grande escritor", tem sido lá fora que Lobo Antunes tem visto reconhecida a sua obra, situação que não o surpreende nem pretende mudar, pois, �parecem existir muitos equívocos ao nível da literatura neste país�, diz.

Os seus romances encontram-se largamente traduzidos e é um dos autores com maior projecção internacional. Entre as suas obras de ficção encontram-se:

- Memória de Elefante (1979)
- Os Cus de Judas (1979)
- Conhecimento do Inferno (1980)
- Explicação dos Pássaros (1981)
- Fado Alexandrino (1983)
- Auto dos Danados (1985)
- As Naus (1988)
- Tratado das Paixões da Alma (1990)
- A Ordem Natural das Coisas (1992)
- A Morte de Carlos Gardel (1994)
- O Manual dos Inquisidores (1996)
- O Esplendor de Portugal (1997)
- Livro de Crónicas (1999)
- Exortação aos crocodilos (1999)

Prémios Literários

Prémio Franco-Português, 1987 ("Cus de Judas")
Grande Prémio de Romance e Novela da Associação de Portuguesa de Escritores, 1985 ("Auto dos Danados")
Prémio Melhor Livro Estrangeiro publicado em França, 1997 ("Manual dos Inquisidores")
France-Culture ("A Morte de Carlos Gardel")

Jorge Freitas
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