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Tirar cortiça, profissão extinta ou a renascer?

Este vai ser o primeiro dos vários artigos sobre profissões à "beira da extinção" ou pouco conhecidas. Para começar, escolhemos o tirador de cortiça, uma profissão pouco falada, mas que outrora e com a importância que este material já teve para o concelho de Silves, já foi sobejamente (re)conhecida.

Com a época de tirar cortiça dos sobreiros já quase a terminar, O GRÉS foi falar com um tirador de cortiça, uma profissão sazonal e que, se não fossem os altos preços pagos por um dia de trabalho (entre 14 e 18 mil escudos), já estaria, provavelmente, extinta.

Manuel Fernando Guerreiro Fernando, mais conhecido no sitio onde mora como Fernando "Bom Dia", é um homem de 35 anos, magro, com bigode e uma voz grave, brincalhona e com um carregado sotaque alentejano misturado com algarvio. Começou a tirar cortiça há já vários anos e aprendeu sozinho, ao ver os outros fazerem, como nos contou: �De inicio ia só para carregar, mas depois, por brincadeira, comecei a tirar cortiça de vez em quando e foi assim que tudo começou�.

A cortiça é retirada do sobreiro de nove em nove anos, a partir do dia 15 de Maio até, normalmente, ao dia 15 de Agosto, pois é quando, nas palavras de Fernando, �a árvore está viçosa� porque, diz, �se a árvore ou a cortiça estiverem secas já não dá para tirar�.

Com a prática que já tem, este homem não leva muito tempo a tirar cortiça a um sobreiro. A primeira machadada e as seguintes ao mesmo ritmo e bem dadas; a partir daí é �como quem descasca uma peça de fruta�. Normalmente, são necessários dois tiradores e um carregador e, ao contrário do que se pensa, ainda há muitos tiradores de cortiça. Questionado sobre isso, Fernando responde: �Cada vez há mais!�. Há até homens que deixam o trabalho que têm durante o resto do ano, ou tiram férias durante esta época para tirar cortiça. Isto deve-se, claro, aos altos valores pagos por um dia de trabalho.

Em média, uma arroba (15 Kg) de cortiça ronda os dez mil escudos no mercado e uma árvore (dependendo da sua idade e saúde) pode dar bem mais do que uma só arroba, o que, como é claro, permite pagar tão bem aos que vivem desta profissão. Apesar de ter este factor em consideração, Fernando diz que gosta de tirar cortiça.

Quando lhe perguntamos se era fácil tirar cortiça, ele respondeu que sim e que �qualquer pessoa pode aprender, não é preciso muita força� e acrescentou: �Até mesmo você pode aprender!�. O truque, na sua opinião, está no pulso, no jeito e na habilidade de cada um para manejar o machado, que é a única ferramenta utilizada. Se se tem força ou não é irrelevante.

No concelho de Silves, as freguesias que produzem mais cortiça são as freguesias de São Marcos da Serra, São Bartolomeu de Messines e Silves. No Algarve, segundo Fernando, que se desloca várias vezes para longe para tirar cortiça (sobretudo para o Alentejo), a zona mais rica em cortiça é o Barranco do Velho.

Lúcia Vieira

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