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As feiras são um dos aspectos mais importantes da organização económica da Idade Média. Nascidas da necessidade de promover a troca de produtos entre o homem do campo e o da cidade, vila ou burgo, elas representam o ponto de contacto entre produtor e consumidor, o ponto onde se concentrou a vida mercantil de uma época em que a circulação das pessoas e das mercadorias era dificultada pela falta de comunicações, pela pouca segurança das jornadas e pelo excesso de portagens e peagens. As feiras da Idade Média surgiram quando o mundo ocidental saiu do entorpecimento e da estagnação económica em que estivera mergulhado, desde que a expansão islamita quebrara as relações económicas entre o Ocidente e o Oriente, no período em que a vida do Ocidente Europeu se transformou sob o impulso de uma nova actividade comercial que, como as invasões e as pestes, seguiu as grandes estradas naturais. Fenómeno Internacional inerente às próprias condições da Sociedade Europeia, elas apresentam uma semelhança íntima entre si, qualquer que seja o local da Europa onde tenham florescido, a partir do Século XI. Todavia, essa semelhança não exclui certas diferenças, ditadas por condições de ordem regional. A amálgama romano-germânica que constituía a Europa de então, estava longe de apresentar uma contextura homogénea porque muitos dos elementos que a compunham eram divergentes: contudo, sobre essa diversidade, um traço comum dominava e reunia os homens sob o signo de uma mesma civilização: a do Ocidente. Em toda a Europa medieval vemos a pouco e pouco as feiras e os mercados começarem a ser instituídos pelos príncipes e senhores territoriais mas, primitivamente, era prerrogativa do rei a concessão da carta de feira. Em SILVES é no reinado de D. Afonso III (em 1266) que é concedida, não como carta de feira mas, pela reconquista, como carta de foral à semelhança de Lisboa. A documentação mais recente que podemos encontrar e que diz respeito à Feira de Todos os Santos, data do Século XV e refere-nos que a duração da feira era de 30 dias. Todos os que viessem à feira para vender ou para comprar estariam seguros da ida e da volta desde 3 dias antes de começar a feira até 3 dias depois de terminar, não sendo penhorados no reino por alguma dívida, a não ser que tivesse sido feita na própria feira. E punha El-Rei tal couto sobre ela que, todo aquele que causasse dano aos homens que viessem à feira, pagaria à Coroa 6000 soldos e daria o dobro daquilo que tivesse tirado ao seu dono. Todos os que viessem à feira com suas mercadorias pagariam portagem e todos os outros direitos que deviam pagar à Coroa, assim como os homens de fora que viessem para vender ou comprar. Os "Costumes" de Silves dão-nos em resumo o balanço dos produtos e mercadorias que afluíam à Vila, quer vindos do seu termo quer de mais longe. Dizem os "Costumes" que na vila se comprava e vendia gado - bois, vacas, cavalos, mulas, jumentos, porcos, cabras e cabritos, carneiros e ovelhas, cervos e gamos - , grande variedade de pescado de escama e que "nom seiã de escama", pescado grande e pequeno do rio. Na longa ementa dos "Costumes" menciona-se também: frutas, verças e "todalas cousas que forem de regatios", castanhas, amêndoas, laranjas, nozes, figos, queijos, azeite, vinho, mel e colmeias, trigo, cevada, centeio, milho e painço, sal, lã, linho, sebo, unto, gamelas e escudelas, coiros vacaris e de cervos, peles de cordovã, cameiras em cabelo e curtidas. Os "MARCEYROS" de fora vendiam em tendas ou pela cidade "chaarrões?", "almocelas-cobertor ou coberta de lã ou de linho" "cocedras-colcha e também colchão", "chumaços-travesseiros" , e outras mercadorias. Os BUFARINHEIROS com suas bugigangas andavam vendendo "em cesto ou canistel" pela cidade. Por vezes, aparecia em Silves, o CUTILEIRO a vender cutelos e outra ferramenta miúda, assim como ferros de lanças, de espadas, de dardos, de "almorcovas?" e "outras armas que seiã muudas". O direito municipal estava sempre muito vigilante contra as fraudes que os vendedores quisessem cometer: "Dizem que he costume da cidade de Silves, que se alguu acharem cobados, ou varas mengoadas, que nom seiã da craveyra do concelho, que peyte cinco soldos, e que lhas britem ". Os "Costumes", tal como os conhecemos hoje, devem ter sido reduzidos a escrito nos fins do Século XIV, ou princípios do Século XV , e portanto, permitem-nos ver com acuidade o movimento da cidade, numa época bastante próxima da instituição da sua feira. As feiras não só contribuíram para a melhoria das relações económicas e jurídicas entre os homens, mas representaram também um papel importante sob o ponto de vista social e cultural. Numa época em que quase toda a população da Europa vivia curvada sobre a terra, o instinto de sociabilidade, inerente a todo o Homem, deve ter encontrado nessas reuniões a única oportunidade de se expandir. Era nas feiras que se obtinham notícias do que se passava pelo "Mundo", do resultado das colheitas das regiões circunvizinhas e de tantos outros assuntos que, então como hoje, são a base do cavaquear do povo. Era nelas que o comerciante vindo de longe contava as histórias maravilhosas ou terrificantes das suas aventuras em países longínquos, o que vira e ouvira pelas sete partidas do Mundo. Com os seus fardos de mercadoria, ele transportava também os cantares da sua terra, o inesgotável manancial da poesia popular, as suas preocupações, as suas misérias e as suas astúcias. Quantas narrações, quantos nomes aprendidos e quantas heresias não foram arrastados pelos mercadores ao longo das regiões que atravessavam e disseminados pelas feiras que frequentavam. A utilidade das feiras não consistia somente no impulso ao comércio e às indústrias incipientes. Aproximando os homens separados em seus lugarejos e casais, ajudavam à solidariedade, e, criando interesses, o sentimento nacional. Mas as feiras não foram só grandes centros de tráfico de mercadorias, foram também os locais onde se desenvolveu e aperfeiçoou a complicada engrenagem do crédito, quer na sua forma comercial quer na sua forma bancária. Foram elas que lançaram os homens num caminho contínuo que os levou às grandes revoluções e às grandes concepções económicas do mundo moderno. Avantino Moreira
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