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Comandante dos Bombeiros Voluntários de Silves em entrevista

�A Câmara Municipal é um dos barris de pólvora que temos nesta cidade�

 

 

Ninguém pode prever uma catástrofe, mas, segundo nos disse João José Gonçalves da Luz, Comandante dos BVS, a anarquia do estacionamento, o envelhecimento dos edifícios públicos e a falta de coordenação entre a Câmara Municipal, os BVS e a GNR pode transformar Silves num barril de pólvora.

 

 

O GRÉS - Se tocasse a sirene neste momento o que é que tinha de fazer?

Comandante João Luz - Eu não tinha de fazer nada.

G - Como é que se diferenciam os toques?

J. L. - É tudo igual. Perante a gravidade da situação é que se toca mais ou menos. Vai tocando até aparecer pessoal suficiente. Geralmente, só toca para fogos ou para inundações; para questões relacionadas com a saúde, não toca, porque temos garantida uma equipa de 24 funcionários, com 6 equipas permanentes.

J. L. - São assalariados.

G - Uma das questões que se coloca é que há bombeiros municipais e voluntários. No nosso caso são voluntários?

J. L. - Há, também, os privativos e os sapadores. Os municipais estão afectos às câmaras, os sapadores são militares e os privativos estão ao serviço de grandes empresas.

G - A existência destas diferenças é para se manter ou não?

J. L. - A grande diferença é que uns são remunerados e têm uma carreira e outros não.

G - Pensa que os bombeiros devem ser profissionalizados ou este trabalho deve ser no âmbito do voluntariado?

J. L. - Os efectivos deveriam ser profissionais, mas têm de ter sempre a vertente voluntária, pois nós temos aqui e nas secções 150 bombeiros. Não pode ser tudo profissional. Os que têm a vida aqui, que o emprego deles é isto, deviam ser profissionais, deviam ter um estatuto como na função pública e poder progredir na carreira.

G - Os Bombeiros Voluntários de Silves têm algumas secções. Consegue coordenar todas elas?

J. L. - Temos São Marcos da Serra, Alcantarilha e Algoz e é fácil a sua coordenação.

G - Como estamos em termos de equipamento?

J. L. - Não estamos mal. Neste momento, penso que quase todas as corporações deste país estão minimamente equipadas. Brevemente, vamos ter uma nova escada Magiruz com 35 metros, no valor de 65 mil contos. O Serviço Nacional de Bombeiros comparticipa com 80% e temos a garantia da Sr.� Presidente da Câmara de uma comparticipação de 20% em cada viatura que nós comprássemos. Se não dá logo, fica devendo, mas um equipamento destes não se pode perder.

G - Como actuam nas situações mais complicadas?


Voluntários de outros tempos

J. L. - Os bombeiros trabalham em conjunto. Conforme a gravidade da situação são chamados ao local. Na época de Verão, todos os corpos têm um grupo de primeira intervenção, prontos a sair ao minuto. Seja onde for o incêndio, mandam logo sair Silves, Messines e Monchique.

G - E se for numa secção? Por exemplo, em Alcantarilha?

J. L. - Sai logo Alcantarilha, faz o ponto da situação e comunica para aqui. Nós vemos os meios que havemos de enviar para lá.

G - A criação de uma secção em São Marcos da Serra atendeu às características da localidade?

J. L. - Sim, para além de ter muita serra, tem o caso do IP1.

G - Que tipo de apoio dão no IP1?

J. L. - Nos fins-de-semana prolongados colocamos sempre três viaturas na estrada, duas ambulâncias e um carro de desencarceramento com o devido pessoal, na zona entre São Marcos da Serra e os limites do concelho.

G - Relativamente ao transporte de feridos de Armação de Pêra, como se processa, visto ter deixado de funcionar o Posto de Atendimento junto à praia?

J. L. - Temos precisamente nesse local uma ambulância permanente.

G - Quem é que está a suportar esses custos?

J. L. - Os bombeiros.

G - Têm algum apoio suplementar?

J. L. - A Junta de Freguesia de Armação de Pêra dá 40 mil escudos, que não chega para metade de um ordenado.

G - Um dos problemas dos Bombeiros prende-se com os subsídios. � um problema do âmbito administrativo?

J. L. - Problema administrativo que recai sempre sobre o corpo activo, porque precisamos de dinheiro para comprar equipamento. Em relação a Armação de Pêra, penso que é um pouco de má vontade dos responsáveis, porque uma freguesia que dá 40 mil escudos e quer as condições todas, está mal. Uma das nossas maiores preocupações é Armação de Pêra e a existência de condições para o trabalho dos bombeiros. Em Armação de Pêra, se morre alguém, um estrangeiro, por exemplo, "cai-nos o Carmo e a Trindade em cima", o turismo e os jornais estrangeiros.

G - O acompanhamento em Armação de Pêra é feito por pessoas daqui ou de Alcantarilha?

J. L. - Dos dois lados. Alcantarilha não tem capacidade de resposta, tem só uma equipa permanente, se há um transporte de doente ou um acidente, fica sem ninguém. Por isso, mal saem canalizam logo todas as chamadas para a sede, em Silves.

G - O transporte de doentes do Concelho até ao Centro de Saúde é feita por quem?

J. L. - � tudo feito por nós, excepto na freguesia de São Bartolomeu de Messines. Eles garantem a sua freguesia, nós somos o garante do concelho.

G - Os Bombeiros de São Bartolomeu de Messines só fazem o transporte entre Messines e Silves?

J. L. - Exactamente.

G - Tem havido fogos no Concelho de Silves?

J. L. - Poucos. Espero que o Verão passe sem incêndios na nossa serra. O nosso concelho é, actualmente, a maior zona florestal do Algarve e sem incêndios.

G - Têm feito algumas simulações, nomeadamente nas escolas. Como têm corrido?

J. L. - Bem, nas escolas só vamos dar o nosso apoio. Os planos de emergência serão da competência das escolas. As pessoas que estão ligadas ao ensino é que devem saber os planos de emergência, explicar o que os miúdos têm de fazer na altura do incêndio ou dum sismo. Nós só vamos para o "show off". Há, no entanto, uma coisa muita boa: ficamos a conhecer o terreno.

G - Acha que era importante fazer essas simulações noutros edifícios públicos?

J. L. - Em todos. A Câmara Municipal é um dos barris de pólvora que temos nesta cidade. Se houver alguma coisa, do tribunal e do arquivo não fica nada.

G - Há algum plano de evacuação?

J. L. - Que eu conheça não. Há um Plano Municipal de Protecção Civil, que a Câmara Municipal nos enviou, que fala da PSP de Portimão, de Faro e de Oeiras; sobre Silves não tem nada.

G - Acha, portanto, que devia haver um Plano de Emergência?

J. L. - Com certeza. Com os estacionamentos que há aí e com estes acessos, temos muitas dificuldades. O trânsito na cidade cada vez é mais complicado, há muita falta de estacionamento e as pessoas estacionam em qualquer lado.

G - Para minimizar estes problemas, o que será necessário?

J. L. - Uma das condições é que a autarquia faça alguma coisa para que, quando haja grandes ocorrências, exista uma coordenação de meios. São eles os principais responsáveis, mas devia estar formado um gabinete para, em caso de uma situação de catástrofe, haver coordenação de meios. Actualmente, a coordenação de meios é só dos bombeiros. Até às 5 horas telefona-se para a Câmara e ainda alguém nos atende; a partir das 5 horas, se precisarmos de uma máquina, nada!... Só contamos com a GNR e os Bombeiros. � urgente a criação do Gabinete de Protecção Civil, que os políticos não querem criar ou está criado só no papel.

G - A criação é responsabilidade da CMS?

J. L. - Exactamente. Mas só se fala na altura de catástrofes. Depois, esquece-se tudo. Falar-se--á quando houver uma grande ocorrência, quando houver mortos.

G - Quando era pequenino queria ser bombeiro?

J. L. - Nunca pensei nisso. Os miúdos todos gostam dos bombeiros, mas depois desinteressam-
-se.

António Guerreiro
Margarida Bôto

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