Sociologia da comunicação
Teoria e ideologia
Gariel Cohn, Ed. Pioneira
Introdução
A preocupação básica deste trabalho é com a fundamentação de uma análise sociológica das relações entre sistemas simbólicos e sistemas sociais, aplicável a uma modalidade historicamente específica de sua manifestação, qual seja, a sociedade contemporânea altamente complexa e industrializada, em que a produção e o consumo em grande escala se estendem até a sua dimensão cultural.
Capítulo 1
MASSA: A NOÇÃO E O SEU ALCANCE
A cristalização do termo massa( e seu correlato”multidão”) naquilo que se propõe ser uma análise científica, se dá no final do século XIX, especialmente na França. Encarado do ponto de vista da Sociologia Sistemática – e uma perspectiva puramente descritiva, portanto – o termo massa designa uma coletividade de grande extensão, heterogênea quanto à origem social e geográfica dos seus membros e desestruturada socialmente.
Roger Brown formula uma interpretação das suas formas de manifestação, valendo-se da “teoria dos jogos”, com isso elimina-se a premissa da irracionalidade no comportamento coletivo por uma de racionalidade em termos formais. O comportamento coletivo está dado pela presença de um dilema no comportamento dos indivíduos envolvidos, torna-se legítimo operar com um esquema para apreender as alternativas de ação aos componentes da massa em termos do cálculo dos resultados imediatos(payoff) comparativos. Brown fala na emergência de um “espírito coletivo”(group -mind), afirmando que o que emerge na multidão é uma matriz de ganhos e perdas (payoff matrix) que não existia para os membros quando não compunham uma multidão.
O esforço de Neil Smelser de dar maior abertura à sua teoria formal e sociológica do comportamento coletivo na qual este é entendido em termos de seqüência ordenada em que – por analogia com a análise econômica – cada passo representa um “valor adicionado” ao processo em causa e constitui um pré-requisito para o seguinte. Isso ocorre quando em outro trabalho ele se apóia em Freud para consignar os aspectos construtivos desse fenômeno de movimentos sociais de protesto que permitem a expressão de impulsos que normalmente são reprimidos. A referência de Smelser a Freud é relativa a aspectos designados pelos termos-chave expressão e impulsos reprimidos. A contribuição de Freud, sobretudo em sua obra sobre Psicologia das Massas e Análise do Ego reside em caracterizar o mecanismo pelo qual esses impulsos se exprimem indiretamente em massa.O mecanismo básico é o de identificação. O Ego(voltado para o mundo exterior) toma por modelo uma figura idealizada – o Ego-ideal, cujo paradigma é o pai – e investe nela a sua carga libidinal.
Desta forma, a massa não é entendida como o lócus de uma explosão de impulsos associais mas uma forma de constituição de vínculos sociais; Freud, usando o termo massa abrange os de grupo e instituição – que chama de “massas artificiais”. Tratam-se de agrupamentos altamente organizado ( no caso da Igreja e o Exército) suscetíveis de incorporarem a distinção entre massas “com líder”e “sem líder”. As massas artificias são dotadas de líder.
Cultura é entendida por Freud desta maneira: “Ela abrange por um lado o conjunto de conhecimentos e técnicas adquiridas pelos homens para dominar as forças da natureza e trazer os seus bens para a satisfação de necessidades humanas, e por outro lado, todos os homens entre si, em especial no tocante à distribuição dos bens acessíveis”. Ela se opõe ao indivíduo isolado: “A cultura deve ser defendida contra o indivíduo, e os arranjos, instituições e normas se põem a serviço dessa tarefa”. A cultura é, assim, entendida como um trabalho de renúncia a impulsos, um trabalho cultural(Kulturarbeit) . O pessimismo freudiano é sustentado pela invocação do clássico tema de “quem educará os educadores”, levantando o problema da dominação como o faz o grupo de Frankfurt sob a égide de Horkheimer e Adorno.
Capítulo 2
PÚBLICO, ELITE E MASSA:
A DIMENSAO POLÍTICA
A dimensão de dominação de massa permite superar o plano psicossocial para chegar à suas raízes políticas. Contrapõe-se às noções de elite e público, duas polaridades.
Na concepção clássica, elite é uma minoria organizada que, graças à superioridade clássica dos seus componentes, exerce dominação legítima sobre uma maioria não-organizada, a massa.
Essa concepção sofreria duas mudanças neste século. Primeiramente, a análise para demonstrar que a organização das elites estaria diminuindo. Exemplo disso seria a análise, por Manheim, das transformações sociopolíticas na década de 30. Em segundo lugar, se abandona o postulado da unidade interna da elite, mas se retém o critério do monopólio de influência por uma minoria cuja unidade social advém de uma estrutura econômico-social. É a elite do poder de Wright Mills, segundo sugestões que remontam a Mosca, Raymond Aron, ao complementar essa noção com as de “classe dirigente”e “classe política”, ao mesmo tempo em que insiste na multiplicidade da elites na “sociedade industrial”. O autor assinala que “A crença no governo da elite é (...)um mito(...) – um mito no sentido Soreliano, de uma convicção não necessariamente baseada em fatos empíricos, mas na fé. O problema não é o da simples presença de minorias dominantes, mas a legitimação do seu domínio enquanto “elites”. Resta saber se uma noção tão obviamente construída pelos interessados, para justificar sua posição de mando na sociedade, pode ser considerada apta a converter-se em conceito científico. A noção de elite representa a quase exata contrapartida daquela de massa . Trata-se de construção de caráter ideológico. Ambas produzidas na mesma área da sociedade: aquela ocupada pelas elites . Por isso Meisel pode dizer que o “governo da elite”é um mito político, mas não dizê-lo da “carência de governo”das massas. Isto fica mais claro na formação do liberal-conservador Ortega y Gasset: “...Como as massas, por definição, não devem nem poder dirigir sua própria existência, e menos reger a sociedade, quer-se dizer que a Europa sofre agora [com o ‘advento das massas ao poder social’] a mais grave crise que os povos, nações ou culturas possam padecer”.
É por isso que ninguém se autiodefine como membro da massa”As massas são sempre os outros, que não conhecemos, nem podemos conhecer”[1]. Importa agora examinar a outra polaridade apontada, massa e público. A noção de público é inseparável daquelas de opinião(na área política) e de gosto(na esfera estética);em suma, de formação de preferências coletivas. Com isto estamos ainda muito próximos da acepção do termo Sociologia na Sistemática. Nesta, o público é uma forma elementar de agrupamento, que se aglutina em função de uma controvérsia acerca de uma questão de interesse comum. A noção de públiuco implica uma modalidade específica de obtenção de consenso numa coletividade: da multiplicidade de opiniões individuais, se chega , através do debate aberto, ao nível da opinião coletiva, pública.
Outro paralelismo, em condições históricas similares, mas não simultâneas, emergem da dupla função do homo economicus e do homus politicus , entidades racionais capazes de um interesse racionalizado – movendo-se num mercado livre, de bens ou de idéias. Na esfera econômica , isso ganha sua expressão clássica com Adam Smith, que sustenta que o livre jogo de interesses particulares conduz à maximização do bem-estar coletivo. No campo político, o livre jogo das opiniões conduz à opinião pública.
A ” ficção econômica” liberal constitui-se de aspirações de uma camada bem definida da sociedade, ao passo que a “ficção política” se desenvolve, em momentos diferentes em agrupamentos sociais diferenciados quanto `a posição e interesses básicos. Não há com,o entender a evolução política inglesa como expressão de uma ascensão de uma burguesia no poder. As instituições políticas dali já estavam sedimentadas numa estrutura social que concedia flexibilidade para permitir a absorção de membros de novos grupos sociais. No sistema político inglês oitocentista(e at’’e meados do século XIX) retirava a sua legitimidade da ficção virtual representation, criada para justificar a soberania parlamentar em face da sociedade civil – concepção oposta àquela que viria à tona na Revolução Francesa: “A composição do Parlamento permaneceu intocada pelo processo de revolução econômica e social que Karl Marx, no capítulo XXIX de O Capital descreveu como ‘acumulação primitiva do capital’. O caráter fictício da ‘representação popular’inglesa de então se deve, em boa parte, à circunstância de que o despovoamento de áreas agrárias através de enclosures não se manifestou na composição da Câmara dos Comuns, tampouco quanto a aglomeração humana nas cidades que conduziu à formação do exército de reserva industrial”. Um remanescente atual dessa situação é dado pela circunstância de que o Parlamento inglês, embora dê acesso à imprensa aos seus debates(ao contrário da estrita proibição oitocentista nesse sentido) prescinde da forma peculiar de contato com a opinião pública propiciada pelas conferências de imprensa do chefe de governo, usuais na França e, sobretudo, nos Estados Unidos.
A noção de opinião, individual, precede a de público,coletiva. Sua origem está dada pelas transformações dadas pelo movimento de Reforma Religiosa, com ênfase na consciência pessoal e ao processo de individualização. A emergência da noção de opinião como o resultado da secularização daquela de consciência religiosa individual. Essa se vincula à valorização dos “bens terrenos”; ela abre caminho para a construçãO DO tríplice pilar do pensamento liberal: o individualismo, no plano social; propriedade, no econômico e opinião, como correlato de cidadania, no político.
Constitui-se no modelo da “sociedade possessiva de mercado”, cujos traços essenciais são:
A) Ausência de alocação autoritária de trabalho;
B) Ausência de provimento autoritário de recompensas pelo trabalho;
C) Ausência de definição e exigência de contratos;
D) Todos os indivíduos procuram maximizar as suas vantagens;
E) A capacidade de trabalho de cada qual é propriedade sua, alienável;
F) Terras e recursos são possuídos pelos indivíduos e são alienáveis;
G) Alguns indivíduos almejam um nível de vantagens ou de poder maior do que têm; e
H) Alguns indivíduos têm mais energia, habilidade ou posses do que outros.
Configura-se o contexto que MacPherson chama de “teoria política do individualismo possessivo”Isso é ilustrado pela redefinição da concepção hobbesiana de opinião, de fundo absolutista, operada por Locke. Em Hobbes temos a cisão entre a “consciência pública” – a lei – que interessa politicamente, e uma “consciência privada”, que não passa de “opinião privada” cuja característica é ser “livre em segredo”. Em Locke a opinião permanece na esfera privada, mas adquire foros na esfera política. As formulações de Locke ficam enfraquecidas por estarem ainda presas à reputação das pessoas. O essencial é que “as opiniões dos cidadãos sobre a virtude e o vício já não permanecem para Locke dentro do campo das crenças e pareceres privados; pelo contrário, os juízos morais dos cidadãos possuem per si um caráter de lei...”.
Por essa via se abre o caminho para a ênfase do pensamento iluminista na questão da opinião e dos seus portadores legítimos : os cidadãos, a parcela proprietária de bens da população.A maioria não-proprietária de bens fica excluída. A contrapartida dessa exclusão é dada pela ausência das noções de opinião e de público no pensamento democrático radical inglês do século XVII. As obras do porta-voz diggers, Gerrard Winstanley, falam de povo sem incorporar a linguagem política nem a sua secularização na sua expressão original , de fundo religioso.
A restrição do exército de opinião aos cidadãos/proprietários ocupa lugar no pensqmento dos autores e Locke é levado a ser contrário nos seus escritos políticos: admite que nega a universalidade do uso do atributo básico humano para a formação de opiniões que é a razão. Para ele, “os pobres”não têm acesso a uma vida racional plena, pois estão presos às preocupações com sua subsistência.
A formação de opinião é tida como acessível apenas àqueles que formam o ‘público esclarecido”. Durante o século XVIII, o centro da reflexão política se desloca para a Europa Continental .
Vale a e pena deslocar a nossa atenção para a França.Trata-se de Rousseau em quem vamos encontrar a primazia dos termos opinião e público(no prefácio ao Discurso sobre as Letras e as Artes, mas ainda identificando opinião com reputação) como a formulação do princípio da individualidade da opinião na esfera política( no [livro]Contrato Social) . O pensamento rousseauniano no Contrato, todos aparecem como cidadãos, são chamados para formarem a volonté générale. Revela, contudo, que essa participação extensa é vinculada à participação dos pequenos Estados (veja-se o seu interesse pela Córsega) para sociedades mais amplas e complexas, vale a formulação “quanto mais aumenta o Estado, mais diminui a liberdade”.
A nós interessa a noção de opinião no esquema rousseauniano. A pista é dada pela célebre distinção entre vontade de todos e vontade geral . A primeira é o agregado de vontades particulares:”a vontade particular tende, por sua natureza, às preferências”e “apenas diz respeito ao interesse privado”. Falo dos moeurs, dos costumes, e sobretudo da opinião, ignorada por políticos, mas da qual o grande legislador se ocupa em segredo enquanto parece limitar-se a regulamentações. A vontade geral se forma pela neutralização recíproca dês vontades particulares – opiniões – e estas ganham legitimidade no plano político, justamente ao abdicarem da sua individualidade no plano social. Rousseau prenuncia traços básicos da questão da opinião pública pelas ciências sociais contemporâneas(veja-se, por exemplo, seu artigo sobre “Economia Política”, especialmente a primeira parte).
Há precedentes históricos, David Hume. Dez anos antes da publicação do contrato Social, num ensaio sobre os First Principles of Government(1742) se propunha uma questão que representava a exata recíproca daquilo que, para Rousseau, seria uma afirmação de princípio. Para este, a democracia, no sentido estrito do termo, não seria possível, pois “é contrário à ordem natural que a maioria governe e a minoria seja governada”. Como me possível que a maioria, detentora da força, se submeta à minoria?”Quando investigamos por que meios essa maravilha se efetua – diz ele – encontraremos que, como a força sempre está do lado dos governados, os governantes nada têm em seu apoio senão a opinião.
É, portanto, apenas na opinião que se funda o governo, do mais tirânico ao mais popular. A força pode ser aplicada aos governados enquanto seres brutos, mas, como homens, eles têm que ser conduzidos pela opinião.”
Na França do ancien regime temos um contraste de interpretações, por parte dos defensores da noção de opinião pública. Em Rousseau, a esfera do público (entendida como atributo da sociedade civil pós-contratual) importa mais do que a opinião; nos fisiocratas, e nos philosophes em geral, mais integrados nos princípios do despotismo esclarecido, a ênfase recai sobre a opinião – à qual estaria reservada a missão de bem orientar um soberano. A manifestação da opinião é privilégio de alguns e é o que importa naquele momento , em virtude da sua maior congruência com a sociedade burguesa emergente.
É possível apontar , nho interior da reflexão iluminista, a relação meio - social – opinião pública ocupando posição importante e se manifesta como um problema insoolúvel desse quadro de pensamento. Referindo em especial a D’Holbach, mas aos philosophes em geral, Plekhanov insiste no modo contraditório pela qual essa relação é formulada. “Os philosophes não conseguiram sair desse círculo vicioso: por um lado, o homem é meio do produto social no qual ele vive(...).Por outro lado, a fonte de toda a desordem social reside no desconhecimento dos princípios mais claros da política. O meio social é forjado pela opinião pública, ou seja , pelo homem. Essa contradição reaparece nos escritos de D”Holbach, para explicar melhor os termos da contradição: a) “O homem é um produto do meio social. Segue-se, logicamente, que não é a opinião pública que rege o mundo(...); b) O meio social é forjado pela opinião pública, ou seja, pelo homem. Daí resulta, em boa lógica, que a opinião pública rege o mundo e que o gênero humano somente se tornou infeliz por ter se enganado...” Esse dilema ainda não foi adequadamente superado pelo pensamento subjacente à “pesquisa de opinião”contemporânea.
A plena expressão da idéia de opinião pública vem à tona nas vésperas da Revolução Francesa, através de Necker. Para este, a opinion publique era o tribunal diante do qual “todos os homens notáveis têm o dever de comparecer e é apontada como o poder invisível(...) que formula leis seguidas até mesmo na Corte real. Tribunal formado pelo público, uma contra-elite em ascensão. O conjunto de cidadãos esclarecidos, que se propõe tornar visível o seu “poder invisível “ .
Quanto ao restante da população, aquilo que, do outro lado do canal, Burke chamava de “multidão porcina”. Não tem porque se incluída. Não há lugar aqui para a canaille desprezada por Voltaire.
Público, opinião e Massa
Até este ponto, tratamos das noções de opinião e de público no pensamento político europeu pré-revolucionário, que constituíam fundamento ideológico para reivindicações de grupos sociais em ascensão ( e é neste sentido que estão sendo chamadas de “ficções políticas”)
A situação se modifica no século XIX, quando, sob os efeitos das mudanças econômicas, políticas e sociais relacionadas com a “dupla revolução” anteriormente desencadeada – a Revolução Industrial e a Revolução Francesa, com seus respectivos desdobramentos - os centros de poder, nas sociedades mais avançadas, se deslocam da aristrocacia para a área burguesa. Passa-se à preocupação com a “tirania da opinião pública”, que tanto atormentaria De Tocqueville.
No século XIX, s linhas de desenvolvimento da reflexão acerca de público e opinião públic se cruzam e interpenetram com aquelas referentes a massa e classe : “A partir da parte final do século XIX, efetivamente, os teóricos políticos recorreram fortemente às contribuições da Sociologia e da Psicologia Social” e (...) “estudaram os fatrores não-racionai, emocionais que atuam na formação e expressão da opinião pública.
Jeremy Bentham, representante da corrente utilitarista reconhece a ênfase da opinião pública como forma de controle social. Bentham desenvolve a sua concepção de opinião pública como instrumento de controle social, como “sanção”. O legislador não pode ignorá-la. Cabe-lhe “aumentar a força desse motivo e regular sua intensidade”sendo que “a sua maior dificuldade residirá em conciliar a opinião pública, em corrigi-la quando for errônea, e em imprimir-lhe a direção mais favorável à obediência aos seus mandatos”. Em escritos posteriores, a importância da opinião pública – cujo órgão por excelência seria a imprensa – para coibir o arbítrio do poder é salientada por ele.
Os representantes por excelência DA visão ambígua da opinião pública no pensamento liberal novecentista seriam, já em meados do século, Tocqueville e John Stuart Mill. A expressão teórica mais acabada do problema tem origem naquele país europeu em que o liberalismo burguês não era de prática cotidiana, mas o objeto de especulação de poucos: a Prússia de Hegel.
O pensamento hegeliano acerca do nosso tema se manifesta sobretudo nos seus Fundamentos da Filosofia do direito .
O pensamento político de Hegel retoma temas básicos da reflexão clássica sobre o tema, mas os redefine e em consonância com o esquema de dialética exposto na sua Lógica. Mantêm-se as dualidades básicas de tipo de sociedade civil/Estado e indivíduo/cidadão. A preocupação de Hegel consiste em discriminar os componentes dessas polaridades em termos dos seus diferentes estatutos na ordem do ser. Distingue-se, assim, o que é essencial (no limite do “Espírito Absoluto”, mas o Estado ainda pertence ao reino intermediário do “Espírito objetivo”) e o que é mera expressão fenomênica da essência. Em Hegel, o Estado é a categoria constitutiva, e a sociedade civil é a categoria constituída.
Hegel faz incidir sua análise nas inter-relações entre elas. A sociedade civil exprime o “sistema de necessidades”, que remete ao plano econômico. Na medida em que o Estado é entendido como o princípio organizador da sociedade civil é importante se analisar a dimensão econômica e social: no nível da sociedade civil temos as necessidades de caráter econômico; no nível do Estado, liberdade e legitimidade dos direitos privados. A expressão empírica desses interesses do Estado é dada no plano coletivo e não individual: importam os “povos”(Völker), as “ordens”(Stände); no limite, as classes, que constituem a categoria básica prenunciada na análise.
O Estado é a instância organizadora, que determina a forma da sociedade civil. A ele compete presrvar-se dos perigos que representaria o mero agregado de indivíduos atomizadaos – a massa.
O que caracteriza e limita a participação na sociedade civil é a propriedade. É um problema fundamental que preocupa Hegel, o dos segmentos não-proletários que essa mesma sociedade engendra; em Marx seriam identificados como o “proletariado”.
Na sua Fiilosofia do Direito, Hegel apresenta a opinião pública como a expressão da “universalidade emp’írica dos pontos de vista e idéias dos muitos”(§ 301). Na opinião pública a verdade se mistura ao erro, a “voz do bom senso”, em que se mesclam princípios justos e preconceitos. A opinião pública, de caráter ambíguo, reflete mais uma resposta instável, dos cidadãos à ação do Estado.
O essencial na análise hegeliana é que ela encara a opinião pública como uma forma de expressão de interesses privados inerentemente instáveis e suscetíveis de controle e manipulação. Em suma, estão aí lançados temas fundamentais para a superação dos limites do pensamento político burguês clássico, a ser consumada por Marx: a noção de público como suporte de opiniões, convertendo-se na de classe e a de opinião como uma forma de falsa consciência, como ideologia.Nossa tarefa é sugerir que isso ocorre tanto na realidade como na ciência.
Os autores que redefiniram o tema da opinião pública foram Aléxis de Tocqueville, um aristocrata, e John Stuart Mill, um liberal.
É adequado para demonstrar as semelhanças e diferenças entre estes dois autores o comentário de Mill acerca de La Démocratie en Amérique, de Tocqueville. Mill aponta a preocupação básica do autor francês: com o avanço do sentido da igualdade de condições na sociedade pós-aristrocrática, o perigo reside numa submissão servil generalizada numa sociedade estacionária de tipo chinês(exemplo predileto dos dois autores).
Existe acordo explícito entre ambos acerca de “crescente insignificância do indivíduo em comparação com a massa”. Mill critica Tocqueville nas passagens em que se assinala a tendência do autor francês no sentido de identificar a democracia com a igualdade de condições, e de ver nessa última a base única para o nivelamento e a massificação social e cultural. Com isso – salienta Mill – ele se esquece de que essas tendências dizem respeito à “moderna sociedade comercial”e o problema não é o predomínio de uma “classe democrática”mas das “classes comerciais” – nos Estados unidos, compõem a maioria, na Inglaterra, as “classes médias”.
No seu ensaio sobre a liberdade, Mill se reaproxima de Tocqueville, a opinião pública é encarada com reservas , como fator de nivelamento, massificação e estagnação social; como ameaça `a autonomia individual, o ensaio se organiza em torno da polaridade indivíduo/opinião pública. Nas palavras do próprio Mill:
“Na história Antiga, na Idade Média, e em escala decrescente na longa transição do feudalismo ao tempo presente, o individuo era por si próprio um poder(...). Atualmente, os indivíduos estão perdidos na multidão. Em política é quase trivial dizer-se que a opinião pública agora rege o mundo. O único poder digno de do nome é o das massas, e dos governos, na medida em que se convertem em porta-vozes das tendências e instintos das massas(...). Aqueles cuja opinião se apresenta como a opinião pública não constituem sempre o mesmo tipo de público: nos Estados Unidos, são a totalidade de população branca; na Inglaterra, principalmente a classe média. Não obstante, sempre são em massa, vale dizer, mediocridade coletiva. E, o que é uma novidade ainda maior, suas opiniões não são tomadas de dignatários na Igreja e Estado, de líderes ostensivos, ou de livros. Seu pensamento lhes é dado por uma democracia ou aristocracia numerosa(...)Nenhum governo por uma aristocracia ou democracia numerosa(...) teve condições jamais de ir além da mediocridade(...). O início de todas as coisas sábias e nobres provém, e tem de provir, de indivíduos(...).” E, mais adiante: “O moderno regime de opinião pública é, de forma não-organizada, aquilo que os sistemas educacional e políticos chineses são organizadamente; e, a menos que a individualidade saiba se sobrepor a isso, a Europa(...) tenderá a se tornar uma outra China(...). [Na Inglaterra] as circunstâncias que cercam classes e indivíduos diferentes e formam o seu caráter diariamente se tornam mais assimiladas ...). Em termos comparativos [com os períodos anteriores] agora[todos] lêem, ouvem, vêem as mesmas coisas, vão aos mesmos lugares, têm as suas esperanças e temores orientados para os mesmos objetos, e os mesmos meios para enuncia-los. Por maiores que sejam as diferenças de posição renascentes, elas não são comparadas com as que desapareceram. E a assimilação ainda continua. Todas as mudanças políticas da época a promovem, visto que tendem, sem exceção, a elevar os de baixo e rebaixar os de cima(...).À mediada que as eminências sociais que permitiam às pessoas nelas escudadas não levar em conta a opinião da multidão, gradualmente foram niveladas; qua a própria idéias de resistir à vontade do público, quando se sabe ao certo que ele a trem, desaparece mais e mais das mentes dos políticos e práticos; deixa de haver qualquer apoio para o não-conformismo(...).”
A citação é longa mas aqui fica caracterizada a dissolução do conceito de público no de massa, e a noção alternativa, de classe acaba e convertendo em elemento marginal no discurso.Nesse ponto se tornava possível observar a existência de uma afinidade profunda entre a noção clássica de público e a de elite e que, desta forma, ambas tendem a opor-se conjuntamente àquela de massa.
Finalmente, basta assinalar um aspecto geral: de modo esquemático pode-se descreve-lo como consistindo numa passagem do campo da Filosofia política para o das ciências Sociais empíricas, no que concerne ao universo de discursos envolvidos. Passa-se do postulado de uma opinião racional para a busca de indicadores empíricos dos determinantes de atitudes. Isso exprime a já apontada interpenetração das noções de público e de massa; a opinião pública acaba sendo pensada como um agregado de atitudes acerca de uma questão dada, num contexto social determinado. Tendências como as apontadas manifestam-se até mesmo na obra de um sociólogo moderno, C. Wright Mills, no seu clássico capítulo sobre a “sociedade de massas”,em A Elite no Poder, que propicia um exemplo de como é difícil escapar do uso de contextos historicamente saturados de conteúdo ideológico na análise científica. Ao mesmo tempo, suas formulações ilustram as afinidades profundas entre as noções de público e elite e a maneira como ela suscita conjuntamente a contraposição àquela de massa.
Para Wright mills, o que importa ter em conta é que “a comunidade de públicos clássica está em vias de transformar-se numa sociedade de massas”.
Os traços gerais dos tipos propostos por Wright Mills num público: num público, 10 tantas pessoas expressam opiniões quantas as recebem; 2 ) há possibilidade de resposta imediata e efetiva a qualquer opinião; 3) a opinião derivada do debate tem condições de converter-se em ação; 4) o público goza de relativa autonomia em relação às instituições revestidas de autoridade. Numa massa, 1) muito menos pessoas exprimem opiniões do que as recebe; 2) a resposta individual imediata e efetiva é difícil ou impossível; 3) a realização da opinião em ação é heterônoma; 4) essa heteronomia se garante através da penetração, na ,massa, de agentes das instituições revestidas de autoridade.
Capítulo 3
PÚBLICO, ELITE E MASSA:
A DIMENSÃO CULTURAL
Passemos agora a examinar a o constituição das noções básicas que nos interessa na esfera do gosto estético, na sua dimensão cultural. A hipótese e a de que tais noções percorrem linhas históricas paralelas nessas duas dimensões e se interpenetram em fases fundamentais do se desenvolvimento.
Em sua obra sobre a “sociologia da formação do gosto literário”Levin L. Shücking formulou com clareza um postulado do estudo sociológico da apreciação estética. Sustenta ele que não há propriamente variações no gosto estético-literário; “Não é, em regra, o gosto que se transforma num novo, mas outros se tornam portadores de um novo gosto. No caso das modificações de grande amplitude no gosto, esses outros devem se entendidos diretamente como outra camada social.”
No paralelismo histórico pode-se apontar que a noção de público ( e seus correlatos diretos: elite e massa) viria a se formar depois da noção correspondente na área política.
Isso pelo motivo de que o aparecimento do público e da opinião pública na área apolítica corresponde à criação do embasamento social apto a sustentar o tipo de público e de gosto na esfera mais geral que poderíamos chamar de revolução burguesa, com raízes no século XVIII e suas manifestações nos países europeus que lideraram a ofensiva contra a sociedade capitalista de classes: a Inglaterra colhendo os frutos das conquistas das suas duas revoluções nos século anterior e a França em efervescência revolucionária.
A expansão do comércio e da industria, a urbanização, a individualização e a secularização , a importância de uma burguesia autônoma contra a anterior sociedade cortesã; o surgimento de mais lazer; a expansão da alfabetização e a gradativa presença de mulheres entre os leitores definiam a idéia do surgimento de um público leitor a se suprido.Na esfera cultural das nações européias surgiu e ampliou-se um público leitor e surgiu o artista – especialmente o escritor – profissional voltado para um mercado e o novo editor-empresário, que substituía o mecenas aristocrático de outrora.
Esse processo afeta toda a atividade artística se inicia no século XVIII mas adquire o seu maIor ímpeto sob o impacto daquilo que Hobsbawm chama de a “revolução dual”: a revolução Francesa, de 1789, que inspirou por seu exemplo e a Revolução Industrial, de 1848, que inspirou pelo seu horror, e a burguesia que emergiu de ambos e mudou os modos de criação.
A absorção da atividade literária pelo capitalismo surgindo suscitou um novo quadro cultural que por um lado marcaria o declínio da produção cultural destinada ao consumo restrito da elite cortesã, por outro lado, minava as bases de uma florescente cultura popular de panfletos e fascículos dos escalões inferiores da sociedade, a exemplo da Bibliothéque blue de Troyes, na França, ou da abundante literatura popular, amiúde de caráter político, na Inglaterra seiscentista.
O século XVIII significa um paulatino esvaziamento da produção e do consumo cultural autônomos e a sua substituição por produtos culturais nivelados em função de um novo público leitor, a “classe média”, formada por mercadores, comerciante, lojistas e trabalhadores administrativos es escriturários. Esta expansão exprime-se em novas formas de leitura, o jornal, a revista ou periódico e depois a novel num longo processo de “nivelação cultural” que já neste século seria designado “cultura de massa”.
A passagem do Rococó aristocrático ao romantismo burguês na Inglaterra foi mais calmo do que na França e Alemanha, mas estava-se ainda longe de surgir o “formador de opinião”.
A solução dada ao problema por David Hume reproduz todas as ambigüidades da noção emergente de público e sustentava-se que os princípios do gosto são universais mas que a capacidade de julgamento estático é atributo de uns poucos.
Em exata contrapartida à posição assumida no século anterior por Locke, um autor setecentista como Lord Kames, retomado por Burke entre outros, afirmou a existência de um padrão de gosto “comum a todos” e de como se poderia satisfazer a esse público .
O surgimento e definição de um público suscita a concepção complementar de massa . E “Massa são os outros”, isso se dá a partir do século XVII, as transformações no plano literário, a expansão de um público leitor limitada por dois fatores; o nível de escolaridade da população e a posse de recursos para adquirir-se impressos. Quanto ao primeiro fator”É equívoco conceber a expansão geral do público leitor, nesse período ,numa relação simples com a questão da alfabetização”, escreve Raymond Williams sobre a Inglaterra do século XIX. Quanto ao segundo, é atenuado pela presença desde meados do século XVII de bibliotecas circulantes para empréstimos.
Essa mudança implicava trabalhar no sentido da homogeneização do mercado leitor, em dois planos. No horizontal, superar a fragmentação do publico em numerosos segmentos especializados, característica básica durante o século XIX. No plano horizontal, de superar as barreiras de classe; trazendo para o mercados de jornais diários leitores em potencial.
Por essa via, fica aberto o caminho para a noção e problemática da massa contemporânea, abordada por ensaístas,, intelectuais e cientistas sociais, preocupados com a “sociedade de massa”e a “cultura de massa”.
Capítulo 4
A DIMENSÃO SOCIAL:
A SOCIEDADE DE MASSAS
Inicialmente, a idéia de sociedade de massas se apresenta como um conceito híbrido, combinando o conceito de sociedade e a noção de massa já examinada anteriormente.
A noção de sociedades de massas ostenta uma ambigüidade fundamental, que permeia todas as formulações teóricas. O termo massa pode ser entendido tanto como sinônimo de grupo não-organizado (multidão, turba, “plebe”), ou simplesmente como sinônimo de grande número.
Burkhardt no século passado, Ortega y Gasset no atual, Tocqueville, Durkheim, Mannheim(nesta ordem) e Hannah Arendt, além de Stuart Mill analisaram o problema deste conceito ambíguo. Nas formulações de Tocqueville ao falar de “sociedade de massa” e “totalitarismo” estão contidas as idéias de nivelação, isolamento, perda de individualidade das pessoas privadas; a atomização do conjunto social nas suas partículas elementares; a contraposição direta entre a massa atomizada e o Estado todo-poderoso.Durkheim ocupou-se do ultimo aspecto, falou de “tirania “do Estado através da anomia dos cidadãos no estudo sobre Le Suicide.
Mannheim na sua obra Diagnóstico de Nosso Tempo afirmou que a nossa era está enferma , uma fraseado de inspiração organicista, devido a esta mudança e massificação. Ele atribui ao “público” um papel análogo àquele desempenhado pelos grupos secundários no esquema dukheimiano; servir de mediador entre duas instâncias polares – a “elite” e a “massa” – e assegurar a preservação do equilíbrio entre elas. Afirmou que a sociedade de massa produz irracionalidades e explosões emocionais como em aglomerações humanas amorfas, inspirando-se em Freud e suas teorias sobre o comportamento.
Hannah Arendt , filosofa discípula de Jaspers e Heideggfer fala do conceito-chave de socialização , articulando uma análise em torno de idéias básicas, quais sejam: a sociedade contemporânea côo forma extrema de socialização, a tendência à atomização, a solidão, vulnerabilidade do homem isolado, que pode conduzir ao totalitarismo e o resultado de tudo isso no plno cultural, com o surgimento de objetos culturais para a nova sociedade de massas.
Rumo a uma perspectiva Alternativa
A formação dessa imagem da sociedade é decorrência das pesquisas desenvolvidas nos EUA nas décadas de 30 e 40; o estudo de Hawtorne, sobre a organização interna da empresa; a análise do processo eleitoral; estudos de Sociologia Rural; análises da propaganda de guerra; e o fluxo da comunicação de massa em duas etapas, o two -step flow of communication por Paul Lazarsfeld.
Analisando-se os IPP, Índice de Predisposição Política, detectou-se a existência de pessoas que influenciam os demais, os líderes de opinião, que exercem influência mediando os meios formais(como o rádio e a tv) e os indivíduos dos “grupos primários”, isto significa que a comunicação tem “dois passos”, daí o two-step flow.
Lazarrsfeld e Katz no Personal Influence e no The People’s Choice analisaram respctivamente o comportamento eleitoral e o dos consumidores no mercado e bens de consumo percebendo a existência de líderes de opinião de consumo, o marketing. A problemática levantada a respeito da existência dos líderes de opinião remete a Tocqueville , o gosto e escolhas sob a “submissão à maioria” e um “conformismo”com o quadro sociopolítico que gera e é a alimentado pela “tirania da opinião pública”.
Herbert Blumer critica as pesquisas de opinião por analisarem indivíduos [atomizados ]e não grupos,[primários] o que não é preciso ou suficiente para se avaliar a opinião pública.
A Análise Contextual cujo conceito se deve ao Lazarsfeld mas foi desenvolvido pelo seus discípulo, responde às objeções de Blumer leva em conta os survey e outras unidades que não os indivíduos e analisa tanto indivíduos quanto grupos no contexto em que se encontram, tratando as suas unidades de pesquisa – individuais ou coletivas – como variáveis dotadas de propriedades contextuais (contextual properties), ou seja, toma as propriedades de suas partes componentes. Nesse sentido, “as propriedades contextuais são, na realidade, características dos coletivos aplicadas aos seus membros”.
O que Blumer afirma em síntese é que: 1) na pesquisa corriqueira de opinião, esta é entendida como atributos de indivíduos, quando, na realidade, é efeito das inter-relações de grupos funcionais, numa sociedade 2) mas a busca de opinião no nível grupal é obstada porque falta o conceito teórico de opinião pública para lhe dar sentido.
David Riesman, em sua obra The Lonely Crowd faz aparecer a relação entre tipos de caráter social e modalidades de formação social( “classe , grupo, regiões e nações”) em suas esferas institucionais. O resultado da análise consiste na construção dos diversos tipos de caráter social, engendrados em períodos históricos específicos: “dirigido pela tradição”(tradiction-directed),”endodirigido”(inner-directed),“heterodirigido”(other-directed), cada qual com as suas variantes polares, os tipo “autônomo”(age e pensa sozinho)e “anômico”(depende da opinião dos outros).
Em traços gerais, o tipo orientado para a tradição corresponde à sociedade pré-industrial, ao passo que os dois outros correspondem a etapas diferentes da revolução industrial: o tipo “endodirigido” é próprio de uma sociedade que enfatiza a produção de bens, enquanto que o “heterodirigido”corresponde à ênfase sobre o consumo, como na sociedade norte-americana contemporânea. Os diversos tipos refletem mudanças no processo de socialização. Os dois últimos se apresentam como uma passagem dos padrões familiares do tipo “endodirigido”para valores mais abertos ao convívio social, veiculados por instituições como os meios de comunicação de massa e as escolas e reforçados pelas relações interpessoais.
Capítulo 5
CULTURA E SOCIEDADE:
O CENÁRIO CONTEMPORÂNEO
Operando agora no nível das sociedades contemporâneas, das suas manifestações historicamente mais desenvolvidas, veremos aquela dimensão da sua esfera cultural , onde os bens culturais são produzidos: a “cultura de massa”.
Edward Shills teve um pensamento paradigmático na noção de “sociedade de massas”, procurando eleiminar as ambigüidades e assim estudar melhor a “cultura de massa” . A sua argumentação se articula em torno de dois pontos básicos primeiro o cenário cultural, analisado me termos de fruição de bens culturais e no segundo ponto, tange os a produção cultural dos intelectuais e sua a responsabilidade de elaboração e crítica. Shills também combate os críticos, os intelectuais que criticam a “cultura de massa”, como o Grupo de Frankfurt, da revista extinta Politics (editada por Dwight MacDonald) e Dissent(por Irwing Heme e também Mc Donald), atacando também Ernest van den Haag, brilhante psicalista e sociólogo – acusando a todos de socialistas, e de marxistas. Ele diz que tais críticos punham o homem moderno como angustiado, com uma vida vazia sde sentido, alienado do passado, trivializado, cretinizado, brutalizado, esmagado epela sociedade e pelas multidões, carecendo de individualidade ainda assim atomizado e solitário mas isso já aconteceu antes com a humanidade, portanto não precisa ser fruto direto da cultura demassa.
Van den Haag replica versando sobre a especificidade contemporânea de produção e fruição de bens culturais, em termos da passagem da dominação direta das “massas”pelas “elites”para a sua dominação, na esfera do mercado. O paradigma disso seria a transformação do “barão-ladrão” em “industrial-vendedor” . em segundo lugar, refere-se à produtos supérfluos vendidos, paradigma dado pela agressividade dos mass media.
O autor então formula alguns prolegômenos para uma teoria coerente da cultura de massa:
1) elaboradores e consumidores de culturas estão separados e há um jogo(play entre eles.
2) A produção visa a satisfazer gostos coletivos, por isso é difícil satisfazer os individuais.
3) a elite se concentra em produzir e o poder de conferir prestigio e renda desloca-se da elite para a massa
4) a massa sempre desgostou da erudição e da arte; deseja ser distraída da vida do que a ter revelada
5) os altos custos psicológicos da individualidade e da intimidade(privacy) fizeram das pessoas gregárias, temendo solidão e impopularidade- e isto se tornou o único critério moral e estético delas
6) o mercado de massa atrai produtores e consumidores desviando o talento potencial da arte
7) a comunicação excessiva afasta e isola as pessoas
8) os mass média devem se conformar com o gosto médio, não podem incentivar a arte, eles a substituem
9) o efeito total da cultura de massa distrai as pessoas de suas vidas tediosas, e devido à experiência pré-fabricada as pessoas são privadas de crescerem e serem criativas críticas e autônomas.
Aqui foi até a página 106 exatamente resta ainda:
Capítulo 6
TEORIA E IDEOLOGIA
Capítulo 7
CONCLUSÕES(p.161) e revisão. 14/04/2002 01:01:32
[1] William, R., Culture and Society 1780-1950, Penguin Books, 1963,(ed. Brasileira, Cia. Ed. Nacional, Ed da USP, São Paulo,1969).