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- Revista Eletrônica
INFORMATIVO GRD - ANO III - Edição 05 - |
Prolegômenos
O
conhecimento da História da Educação Física oferece grande utilidade para a
formação intelectual do profissional da Educação Física, se na prática de
sua profissão não pretender limitar-se às
atividades puramente rotineiras. O
saber prático do professor de Educação Física tem como fundamento as
disciplinas teóricas e práticas que poderão
ser-lhe úteis e básicas
nas suas atividades didático-pedagógicas.
Assim,
a História da Educação Física, adequadamente aprendida, oferece ao
profissional da Educação Física: (i) um caminhho para a integração de seu
saber a fim de entender integralmente seus objetivos; (ii) a dignidade moral
para saber utilizar conhecimentos e
técnicas criados por outros, bem
como, ao aproveitar os conceitos e procedimentos operativos criados, empregá-los
citando seus autores; (iii) clareza
intelectual no exercício de qualquer técnica exigida.
Por exemplo, diagnosticar e propiciar exercícios adequados em cada nível de
desenvolvimento do ser humano e saber variá-los, de acordo com suas
necessidades; (iv) o exercício da
liberdade de pensamento e a opção
pela originalidade, pela pesquisa científica fundamentada em detalhes da história,
que possa contribuir para a resolução
de problemas no presente e as necessárias mudanças no futuro.
AS ATIVIDADES FÍSICAS E A GINÁSTICA
As
pinturas e desenhos que proliferam nas cavernas do mundo inteiro, têm
seus fundamentos na observação apurada, algumas vezes expressionistas,
da estática e da dinâmica do corpo humano, por meio de desenhos de lutas e
posições com características de movimento essencialmente gímnicos.
Desde
a Antigüidade a prática da Educação Física surgia em constante antagonismo
à educação intelectual. Poucos eram os filósofos que preconizavam uma ginástica
higiênica, pois a maioria condenava a prática do exercício físico.
Platão e Aristóteles viam os exercícios físicos sob o prisma da formação
de soldados fortes e corajosos. Sócrates retirava os jovens dos ginásios, a
fim de lhes ensinar as matemáticas, a retórica e a dialética.
Assim,
desde remotas épocas, existia o antagonismo entre a cultura do corpo e do espírito.
Apesar das tentativas de teóricos que exaltavam a unidade entre corpo/espírito,
essa oposição ultrapassou os limites dos séculos, encontrando-se intacta na
sociedade contemporânea.
A
primeira obra completa sobre a Educação Física data do período de 1503-1606,
"A ARTE GINÁSTICA" de
Geronimus Mercurialis. Apresentava uma concepção sistemática e racionalizada
da educação física. Nela é defendida, pela primeira vez, a idéía de
"lição" constituída por um conjunto de atividades provavelmente
inspiradas no pentatlo grego.
Baseados
nos textos antigos, os humanistas aconselhavam a prática de exercícios
corporais, como o atletismo
grego-romano, com finalidade higiênica. Rabelais não negligenciava nem o exercício
higiênico nem o jogo na educação de Gargântua.
Em
1604 os jesuítas introduziram em suas escolas os jogos,
essencialmente como meio de recreação, influenciados pelo humanista espanhol
Juan Vives.
No
decorrer do "Século das Luzes" surgiram os "filântropos"
como Jean Jacques Rousseau, Basedaw, Emmanuelle Kant e John Locke, com idéias
da introdução da educação do corpo no sistema
pedagógico. Além da função higiênica da Educação Física, Rousseau
incrementava a idéia que iria
trilhar seu caminho: "É pelo movimento que se desperta a inteligência"...,tendo
desaparecido completamente pelos "filantropistas" a noção do
treinamento à competição.
Basedaw consagrava, em seu Colégio
"Philanthropinum", mais tempo aos exercícios corporais e artes
manuais, ..."indispensáveis à saúde, ao crescimento e à formação
geral." Enquanto o trabalho intelectual se realizava em cinco horas, os
exercícios corporais correspondiam a cinco ou mais de sete horas de lazer. Os
passeios e excursões eram organizados como meios educativos.
Durante
dois meses ao ano, o Colégio realizava acampamentos onde se estudava a
natureza, a geografia e agricultura ao ar livre, sob a orientação direta dos
professores.
Guthsmuths
é reputado no mundo inteiro como o fundador da Ginástica Pedagógica. Escreveu
um manual teórico e prático, muito completo, considerado como o primeiro
manual prático e metódico de ginástica. Admirador das concepções dos
antigos gregos e dos humanistas, repousava seus princípios no... "homem
como sendo uma unidade física e espiritual". Para ele, "a falha do
corpo conduz à fraqueza da alma".
Em
"Gymnastik für Jugend", Guthsmuths afirmava: (...)"A ginástica
natural dos povos primitivos deve ser, para os civilizados, trocada por uma ginástica
que se pode considerar: militar, atlética ou médica. Mas a ginástica de real
valor para todos é a arte da ginástica ou a ginástica pedagógica."
Henri
de Genst, famoso historiador belga, contemplava
a obra de Guthsmuths como ..."um monumento educativo admirável e
completo, resultante da erudição, da pratica experimental e da ciência teórica,
unidas por um profundo amor pela juventude e pela vida".
Numa sociedade em constante transformação, cada vez mais
industrializada e informatizada, o conhecimento e as técnicas procuram
satisfazer as necessidades essenciais do ser humano. Ao contribuir na criação
de novas tecnologias, a
sociedade tem provocado meios para introduzir, no decorrer de sua existência,
uma compensatória margem de lazer, bem maior do que no passado.
A Educação Física e os Desportos constituem,
atualmente, elementos de equilíbrio pessoal e social de importância
fundamental. Auxiliam na manutenção e melhoramento da saúde e na busca da
qualidade de vida. Como instrumento privilegiado da Educação e da Saúde
e, como fator permanente de disponibilidade, encontram-se em constante interação
com as diversas ciências biológicas e humanas
nos campos da prática e da pesquisa.
Essencialmente
fundamentados na pesquisa perseverante de exploração, a Educação Física e
os Desportos têm fornecido ao ser humano a possibilidade de auto-afirmação.
A multiplicidade das atividades desportivas tem
possibilitado o surgimento de um conjunto de sistemas coletivos e institucionais
com diferentes formas de desportos que se reúnem
na prática competitiva.
PARA
ONDE VAMOS ?
50
ANOS DE HISTÓRIA DA
EDUCAÇÃO FÍSICA BRASILEIRA
A Revolução Francesa sob o influxo das tendências
liberais, juntamente com as manifestações emanadas dos movimentos da Independência
americana, muito influenciaram o pensamento envolvente da época imperial nos
interesses e problemas da educação, denominada
instrução.
No
Brasil, entretanto, a monarquia, em situação de desorganização e descrédito,
não transferiu à República o sistema de ensino compatível com as
necessidades da sociedade brasileira. Devido aos inúmeros problemas que recaiam
sobre o sistema de exames parcelados, a educação brasileira vivia uma situação
de anarquia e intolerância.
Ruy
Barbosa, educado sob tendências liberais reinantes no seu tempo, conviveu com
figuras de projeção do II Império, entre elas Leôncio de Carvalho, autor de
um projeto de reforma do ensino, do qual Ruy Barbosa foi o relator do pensamento
do grupo em que também figuravam, João Barbosa de Oliveira, o Barão de Macaúbas,
Abílio Cesar Borges e outras personalidades.
Dotado de grande inteligência e insaciável
sede pelo saber, com acesso à extensa e rica biblioteca, tinha Ruy Barbosa
importante fundamentação bibliográfica em seus pareceres e relatos.
Lourenço Filho (1966) citado por Haddad, faz
referência a Ruy pela sua extraordinária capacidade. Quando relator do parecer
sobre o Projeto Leôncio de Carvalho, decidiu Ruy elaborar também
novo projeto acompanhado de um estudo bem mais global sobre o ensino no
Brasil. Esse plano versando sobre todos os graus de ensino
primário, secundário e superior, dividiu-se
em dois pareceres: (i) sobre cursos secundário e superior e (ii) sobre o curso
primário.
Todos os Pareceres de Ruy Barbosa, com o seu
grande potencial ideológico e técnico, eram
voltados para o ensino. Ficaram retidos no arquivo parlamentar sem sequer
receber qualquer discussão, análise ou
aprovação. Ainda, segundo Haddad (op. cit.), o grande empreendimento de Ruy,
em que procurava despertar o interesse dos estudiosos no assunto, apenas recebeu
aplausos de órgãos da Cultura de outros países.
Embora os assuntos que tratavam da educação
tivessem passado da esfera de competência do Império para o Ministério da
Justiça e Negócios, após a Proclamação da República, observa Nagle (1974:
289) que …” tudo o que fosse concernente ao desenvolvimento das ciências,
letras e artes, à instrução e à educação” …fora atribuído ao referido
Ministério, não havendo qualquer modificação expressiva.
A Escola não acompanhou as mudanças sociais
que já estavam sendo solicitadas desde a época da Abolição da Escravatura e,
posteriormente, com o advento da República.
Na verdade, do Império à República não
houve qualquer mudança no setor da Educação e sim.
“a permanência do mesmo sistema escolar”... em que predominavam
a falta de reflexão e prudência.
Quando em 1954, o Prof. Alfredo Colombo assumiu
a direção da Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e da
Saúde, a Educação Física brasileira iniciava uma nova era, com amplas
informações nos campos da prática e da teoria.
A
EDUCAÇÃO FÍSICA
E A
GINÁSTICA
A ginástica,
em si, é um sistema de exercícios físicos fundamentado nos movimentos
naturais utilizados como movimentos necessários
para o trabalho, para a guerra e outras atividades. O homem primitivo visando a
sua sobrevivência realizava variadas atividades físicas tais como:
andar, correr, trepar, escalar, saltar, saltitar, lançar, equilibrar,
girar, nadar e outras que atendessem suas necessidades.
Supõe um sistema de exercícios físicos
especialmente selecionados e de métodos elaborados cientificamente, dirigidos a
solucionar os problemas do desenvolvimento físico integral, como o aperfeiçoamento
das capacidades motoras e a melhoria do estado de saúde de seus praticantes.
A Educação Física é um conjunto de
atividades psicomotoras que podem ser alcançadas pela combinação de
diferentes meios: a ginástica, os jogos, os desportos, as danças, a recreação
e lazer, integrados a certos cuidados higiênicos como a alimentação, o sono,
o relaxamento, a higiene mental e a ação de determinados agentes físicos da
natureza: o sol, a água, a temperatura, a luz e a terra.
A
Educação Física tem como objetivo formar e manter o corpo sadio e
vigoroso, harmonioso e equilibrado, integrado à moral e
a mente.
A palavra “Educação Física” surgiu na
segunda metade do século XVIII, descrita pelo médico suiço Ballexerd
em 1762 veio confirmar e fixar um conceito já existente em sua dimensão
escolar. Os colégios jesuitas
propagados pelo mundo encorajavam a prática dos jogos educativos, privilegiando
o discurso educativo, pois o exercício
físico do nobre já não correspondiam a
formação profissional do futuro
cavalheiro, mas na participação de um conjunto de gestos cujas
atividades visavam a saúde e o bem estar corporal.
A
obra de Ballexerd, denominada “Dissertação sobre a educação física da criança: de seu
nascimento até a idade da puberdade”, surgida no mesmo ano em que foi
publicado Emílio,
aborda um conjunto de preocupações sobre a saúde física e mental
da criança desde seu nascimento, incluindo exercícios respiratórios, exercícios
físicos e alimentação, além das formas das vestimentas.
Vem
assim, a Educação Física substituir a palavra ginástica por apresentar um
conceito extremamente global, particularizando a pedagogia familiar onde o corpo
é solicitado a receber atenção das atitudes
cotidianas. Enquanto a ginástica, adquire
uma extensão teórica e prática que a
transfigura por meio de exercícios físicos com conteúdos insuspeitáveis,
tais como os ginásios providos de aparelhos fixos e móveis, impondo suas
formas aos movimentos, apresentando diferentes
tipos de trabalhos físicos.
Amoros
em 1858, publica o Manual da Educação Física no qual estabelece a mesma
compreensão e extensão dos dois conceitos de Educação Física e de Ginástica.
Para
Amoros apud Vigarello et alli (1975)
>...”a
prática de todas as virtudes sociais, de todos os sacrifícios, do mais difícil
ao mais geral, tem como resultado positivo, a saúde, o prolongamento da vida, a
melhoria da espécie humana, o aumento da força e da riqueza individual.”
A
ginástica atualmente é considerada como um sistema de trabalho psicomotor
visando ao desenvolvimento harmônico do ser humano em sua totalidade.
Desde 1882 a Ginástica vinha sendo considerada, no ensino secundário no Brasil, matéria aplicada do 1.º ao 6.º ano, inspirada nos sentidos político e patriótico de Friedrich Jahn trazidos pela colonização alemã e suíça.
Na Reforma do Ensino Primário, Ruy Barbosa
apresentou valiosa contribuição para o ensino da ginástica na escola primária,
considerando que "para compor um cérebro perfeito, necessário é que
todos os órgãos do corpo tenham o seu desenvolvimento harmônico e um exercício
apropriado..."(Pena Marinho,1980:79).
Médicos, jornalistas e pedagogos inspirados
nas idéias de Ruy Barbosa, no século 19 e início do século 20, apresentaram
trabalhos sobre a necessidade da
ginástica e sua importância profilática. Instituições de ensino isoladas
adotavam a ginástica corretiva da ginástica sueca, sob o ponto de vista
de higiene pedagógica.
Raul Pompéia em "O Atheneu" descreve
as sesões de ginástica das aulas de Educação Física,
baseadas no Turnen de Jahn, em que prenominavam os exercícios acrobáticos
e os volteios.
A ACM
– Associação Cristã de Moços que atuava em vários estados do Brasil,
divulgava e difundia a ginástica calistênica de Clias, sob nova versão de
Skarstron e Wood, método que concede grande importância à correção de
atitudes posturais e à execução estética dos movimentos.
Na década de 1930, influenciado pela Missão
Militar Francesa, o 1.º Governo de Getúlio Vargas tornou obrigatória a prática
da Educação Física no ensino secundário, sob a orientação metodológica do
Método Francês, com a finalidade de ..."proporcionar aos alunos o
desenvolvimento harmonioso do corpo e do espírito, concorrendo assim para
formar o homem de ação, física e moralmente sadio...".
Ruy Barbosa
ao lançar a semente fez germinar a
criação da Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Saúde
nos anos de 1937. Regulamentou-se a formação de professores de Educação Física,
possibilitando a criação de Escolas de Educação Física para formar professores com títulação universitária a partir da década
de 50.
A influência e obrigatoriedade da utilização
do Método Francês perduraram até 1954, quando a Educação Física brasileira
em contra a sua era de ouro, sob a direção do Professor Alfredo Colombo, na
Divisão de Educação Física do Ministério da Educação e Saúde. Inicia-se
este período com uma nova dimensão, diferentes enfoques e plenas informações
na área da prática da Educação Física e Desportos.
Possibilitou, o Prof. Colombo aos professores de Educação Física,
liberdade de cátedra, não sendo mais necessário a eles prenderem-se
exclusivamente aos métodos impostos pelo Governo.
Nessa ocasião a Educação Física brasileira
iniciava uma nova era, com amplas informações nos campos da prática e da
teoria. Foram convidadas para ministrar cursos de atualização no Brasil
eminentes figuras de ponta da Educação Física européia. Alguns professores
famosos, como Auguste Listello, da França, com a Ginástica Desportiva
Generalizada e Ivan Vargas da Iugoslávia, com a Ginástica Natural, aquiesceram
ao convite, enquanto outros enviaram representantes, como o Prof. Karl Koch da
Áustria, cujo assistente, Gerard Schmidt, apresentou concepções avançadas da
Ginástica Natural Autríaca no campo da Educação Física Escolar. Margareth
Froelich, da Suécia e Ilona Peuker, da Áustria, com a Ginástica Moderna,
foram as precursoras da atual Ginástica Rítmica
no Brasil.
Tal iniciativa
perdurou até a década de 60. Trouxe excelente contribuição em pról
do desenvolvimento da arte da ginástica como atividade científica e cultural.
A Ginástica possui grande valor educativo, graças
às possibilidades de exploração do corpo, proporcionando ambiente para relações
lógicas que se estabelecem entre as pessoas através da inter-relação com os
objetos, com outras pessoas e consigo mesma. A criança aprende a primeira noção
de biotipologia de tempo, de espaço e
de resolução de problemas, graças às atividades que se inter-relacionam com
elas, juntamente com outras pessoas, em diferentes situações de movimento. O
corpo e o movimento constituem o eixo central essencial da ação educativa.
A compreensão das condutas psicomotoras não
pode estar dissociada do conhecimento de si e da compreensão do corpo,
elementos essenciais da experiência pessoal.
O profissional de Educação Física deve fazer
com que cada criança conheça e compreenda
seu próprio corpo e as possibilidades de domínio de si, do número suficiente
de atividades corporais e gímnicas. O objetivo, no futuro, será permitir ao
ser humano a aquisição de conhecimentos, habilidades, atitudes e hábitos que
lhe permitam melhorar sua qualidade de vida e explorar as possibilidades de
enriquecimento de movimento, como prazer pessoal e como meio de relação com os
outros.
(continua...)
BIBLIOGRAFIA
MARINHO, Inezil Penna. A História da Educação Física.
POMPÉIA, Raul. O Atheneu. Rio de Janeiro. Editora Globo.
RAMOS, Jayr Jordão. (1982).
VIGARELLO,
G., BERNARD, G. e PICIELLO, CH. (1975).
Itinéraire d’un concept in
Esprit – L’Éducation Physique. n.º 5. pp. 704-723. Mai.
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05 - Janeiro a Junho de 2002.. |