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O QUEBRA CABE�A DA MEM�RIA

O PUZZLE DA MEM�RIA

Science & Vie, n.� 989 - f�vrier,2000

Condensado, tradu��o e adapta��o

Darcymires do Rego Barros

Pedro de Ara�jo Lima

O QUEBRA CABE�A DA MEM�RIA - O PUZZLE DA MEM�RIA (1/2)

Em Liege, capital da B�lgica, o Prof. Martial Van der Linden e o Dr. Eric Salmon. Diretor m�dico do Centro de Pesquisas do Cyclotron, demonstraram que as regi�es cerebrais que regem a mem�ria do trabalho n�o coincidem absolutamente com as regi�es ativadas por meio de tarefas diversas da mem�ria a longo prazo.

At� o fim dos anos 70, os especialistas da mem�ria estavam persuadidos de que a memoriza��o a longo prazo necessitaria de uma etapa preliminar utilizando a mem�ria do trabalho. Sua convic��o fundamentava-se em experi�ncias empreendidas entre os amn�sicos. Realmente, eles conseguiram repetir seq��ncias de n�meros ou de palavras que lhes eram apresentadas, mas encontravam pouca possibilidade de lembrar-se alguns minutos ap�s. Este fen�meno foi interpretado como uma desconex�o entre a performance da mem�ria a curto prazo e da mem�ria a longo prazo. Depois esta hip�tese foi destru�da, isto � foi comprovada sua inexist�ncia.

A literatura cient�fica � enriquecida com a descri��o de numerosos casos onde uma mem�ria a longo prazo coabita com uma mem�ria de trabalho gravemente deficiente. Em breve, esclarece Van der Linden, "lembrar-se ap�s uns tr�s dias com um encontro � compat�vel com a impossibilidade de tornar a lembrar-se corretamente de uma seq��ncia de quatro n�meros de que se teve conhecimento."

Da a pequena medusa ao homem, todos os animais dotados de neur�nios s�o capazes de adquirir e possuir mem�ria, durante um certo lapso de tempo, sobre os novos dados de seu meio-ambiente. Um simples molusco � capaz de aprender, mas n�o � a mesma coisa que uma abelha ou um p�ssaro. Estreitamente adaptados �s condi��es de vida, a mem�ria dos animais evolui com seu sistema nervoso, do qual adota todas suas complexidades.

Assim, uma an�mona do mar, animal muito simples dotado de uma rede difusa de neur�nios, reage, por menor que seja, a uma mesma estimula��o local e inofensiva, em um de seus tent�culos, e memoriza a inocuidade de certas estimula��es.

Um pombo pode aprender a memorizar mais de cem imagens em diapositivos e, em seguida reconhecer um entre outros para obter sua dose di�ria de ra��o.

Para o polvo que possui oito lobos cerebrais, estes mais as entradas sensoriais e as sa�das motoras s�o integradas essencialmente � mem�ria t�til e gustativa. Quatro desses lobos participam igualmente com a mem�ria visual. As estruturas nervosas que atuam na mem�ria dos animais s�o numerosas e variadas e correspondem, por sua vez, a grande parte do sistema nervoso central.

Sobre este enfoque, os mam�feros s�o os animais que melhor se conhecem. Ao limitar-se apenas a sua mem�ria sensorial, os mam�feros possuem n�o somente todo um conjunto de suas estruturas cerebrais profundas, utilizadas tamb�m pelos r�pteis - sistema l�mbico - mas tamb�m as vias sensoriais implicadas na aprendizagem, com suas diferentes mudan�as cerebrais e suas �reas de proje��o sobre o neoc�rtex. Uma inven��o dos mam�feros, � qual � necess�rio acrescentar entre outras, as regi�es do neoc�rtex, utilizadas no tratamento e an�lise de informa��es. - �reas sensoriais secund�rias, �reas associativas e c�rtex pr�-frontal em particular. Estudar a evolu��o da mem�ria sensorial entre os mam�feros, leva, por sua vez, a estudar a evolu��o conjunta de todas as estruturas cerebrais. Do c�rebro arcaico dos r�pteis ligado aos instintos fundamentais, os mam�feros t�m acrescentado, no decorrer da evolu��o, o neoc�rtex (com suas �reas secund�rias e �reas de proje��o). Somente a mem�ria sensorial leva a solicitar muito destas estruturas.

Como todos os animais dotados de um sistema nervoso, o ser humano possui, desde o nascimento, uma bagagem de "conhecimentos" sobre o mundo em que vai viver. Ele manifesta tamb�m uma prefer�ncia inata pelas subst�ncias a�ucaradas ou repuls�o por determinados odores. Desde os primeiros dias o beb� reage �s situa��es de abandono e com choros a sensa��o ao frio ou � dor, como tamb�m � fome. Inscritos em seus genes, estes "conhecimentos" programados - instintivos - constituem sua mem�ria de esp�cie ou mem�ria fil�tica.

No plano anat�mico, estas rea��es inatas se ap�iam numa rede de circuito de neur�nios, onde a constru��o � programada nos genes. Cada uma dessas rea��es implica tr�s grandes etapas: (i) inicialmente com uma ou mais entradas sensoriais (auditivas ou visuais); (ii) seguida de um circuito de tratamento dos dados no c�rebro: (iii) terminando com um conjunto de sa�das (movimentos, rea��es internas do organismo).

Nossa inclina��o inata para certos odores, coloca em a��o um circuito neuronal muito simples e r�gido, t�pico dos vertebrados. Compreende uma entrada sensorial direta: as mol�culas do odor vol�teis estimulam certas c�lulas de nosso nariz que envia mensagem direta aos bulbos olfativos de nosso c�rebro. A informa��o � desta forma, tratada e analisada pelo sistema l�mbico.

Este conjunto de estruturas e vias nervosas profundas do c�rebro comanda as emo��es (neste caso o prazer e o interesse), as rea��es internas associadas (saliva��o e secre��o g�strica no caso de um odor alimentar) e o direcionamento de comportamentos espec�ficos (comportamento alimentar).

Outros conhecimentos fil�ticos fundamentam-se em circuitos muito mais complexos. � o caso, por exemplo, de nossa capacidade em decodificar os sinais de comunica��o n�o verbal de nossa esp�cie (sorrisos, franzir o cenho, rir, chorar...). Esta decodifica��o coloca em a��o n�o somente as vias visuais, auditivas e o sistema l�mbico, como tamb�m, outras estruturas do c�rtex cerebral (�reas sensoriais secund�rias, �reas associativas) numa an�lise fina dos dados.

Embora programado em nossos genes depois da concep��o, nossos conhecimentos fil�ticos n�o s�o de todo registrados em nosso c�rebro desde o nascimento. Somente alguns como as rea��es �s situa��es de abandono de parte do beb� s�o inatas no sentido estrito. Entretanto, a maior parte do tempo em que s�o postos em a��o os conhecimentos fil�ticos, exige um per�odo de matura��o e/ou de exerc�cios que coincidem com a matura��o dos sistemas sensoriais, anal�ticos e motores implicados. Por exemplo, um rec�m nascido � capaz de sorrir de prazer com alguns dias de nascido, por�m � preciso aguardar quatro meses para que ele reconhe�a especificamente um sorriso e possa, assim, reagir de maneira inata, pelo seu pr�prio sorriso. Ainda o registro de numerosos conhecimentos inatos re�ne-se sob o controle hormonal. �, provavelmente, o caso de diversas prefer�ncias ligadas ao sexo ou de certas compet�ncias maternais. Assim, nossos diversos conhecimentos fil�ticos registram-se, um ap�s o outro, em nosso c�rebro, depois de algumas semanas antes do nascimento at� a idade adulta.


[Volta GRD]

http://www.geocities.com/grdclube - Revista Eletr�nica INFORMATIVO GRD - ANO II - Edi��o 03 - Janeiro a Junho de 2001..
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