- Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.  
- ANO IV - Edição 08 - 
Agosto a Dezembro de 2003. 
Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2003.
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PSICOMOTRICIDADE

                                                   Prof. Dr. Darcymires I. do Rêgo Barros
Especialização em Psicomotricidade

Membro da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia

 

 

            A sociedade atual caracteriza-se pela tendência à reabilitação dos valores corporais pela transformação de costumes e de idéias. A nova geração procura restituir o valor do corpo e sua significação que os nossos ancestrais havia perdido.

             Os movimentos desportivos que haviam sido afastados das manifestações culturais retomaram por meio da sociedade de consumo e pelos movimentos de comercialização da sexualidade e dos cuidados do corpo.

 O desenvolvimento das técnicas contribuiu ao desenvolvimento de grande concentração da população para práticas das atividades físicas ao ar livre, em reação ao ritmo e às precárias condições de vida urbana.  Essas atividades são favorecidas pelo aumento crescente do comércio de roupas, calçados, material desportivo e pela necessidade premente de grandes aventuras e desafios  em pleno contato com a natureza.  

 O progresso das ciências biológicas e da saúde têm prometido e permitido uma vida bem melhor, certamente mais longa, contribuindo assim, em criar o  mito da saúde, como fator essencial a repor este estado de saúde e bem estar ao organismo. Surgiu desta forma, um movimento bem significativo de disciplinas paramédicas e por outras vias, conseqüentemente, também meios materiais e comerciais que permitem a realização de seus objetivos.

             Esta importância dada ao corpo pela nossa sociedade vem se refletir ainda por meio dos movimentos artísticos contemporâneos, o teatro, a dança e, sobretudo muitas realizações inspiradas pela psicanálise.

              Freud, considerado o pai da psicanálise já afirmava ser ”o eu  antes de tudo, um eu corporal”, enquanto mais tarde, W. Reich e outros autores acentuavam a importância da inter-relação da ...“ identidade entre atitudes mentais e as atitudes corporais”...

               Na psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, toda obra de Henri Wallon e Jean Piaget colocava em evidência o papel da atividade corporal no desenvolvimento das funções cognitivas. Wallon (1942) afirmava que o pensamento nasce da ação para retornar a ele. Piaget (1936) sustentava que mediante a atividade corporal a criança pensa, aprende, cria e enfrenta os problemas.

              Entretanto, é a fenomenologia da percepção, pelas palavras de M. Merleau-Ponty que evidenciou o corpo estar em referência permanente com o mundo que o cerca, considerado-o como...“o princípio biológico da presença do ser humano no mundo”. Para ele, a Psicomotricidade estaria enquadrada como formas  empíricas  do saber.  O saber do corpo que se expressa através de gestos e movimentos significativos; o saber do olhar que mantém os olhos atentos; o saber escutar que sustenta o ouvido e o saber do gesto que é o suporte vital do movimento.

O conhecimento de si mesmo leva a tomada de consciência de um mundo completamente diferente, tão real quanto este que se conhece. É  o mundo interno do ser, mundo mental e mundo metafísico. É nele que se processam as verdadeiras mudanças psicológicas e mentais com repercussões na vida externa.

  Estas mesmas tendências podem ser encontradas nas abordagens neurofisiológicas de Changeux (1983), como nas abordagens biossociológicas de Henri Laborit.

          A Psicomotricidade surge, decorrente destas tendências com a concepção fundamental de que a atividade motora e a atividade mental estão em constante inter-relação, podendo uma influenciar a outra, por meio de seus dois componentes: sócio-afetivo e cognitivo.

        A Psicomotricidade como técnica de educação, de reeducação e terapia é uma ciência nova, nascida há menos de 50 anos, numa tentativa de compreender o ser humano em unidade e globalidade.

Refere-se aos aspectos psicológicos da atividade psicomotora, mais precisamente de sua intencionalidade, sua ressonância emocional e afetiva, bem como aos fatores conexos: memória, orientação espacial, descobertas temporais e espaciais etc.

Considera-se a Educação Psicomotora como uma ação educativa baseada e fundamentada no movimento consciente, intencional e sensível, cuja finalidade é de normalizar, completar  ou aperfeiçoar a conduta global do ser humano em diferentes níveis de desenvolvimento.

 A Psicomotricidade é a forma de comunicação afetiva particular do ser e o sentido em variáveis relacionais.

Como forma de relação e comunicação humana, entre o EU e o Outro, a Psicomotricidade de sua forma mais simples à forma mais complexa, desenvolve-se em função de cada história em particular de forma consciente, intencional e sensível, sempre sob três planos: tônico, gestual e verbal.

A GÊNESE E PERSPECTIVA  DA PSICOMOTRICIDADE

             A partir de 1900, Dupré, aluno de Charcot, colocou em evidência a síndrome da debilidade motora”, ao tratar nos Hospitais, crianças com dificuldades de movimentos.  Apresenta como proposta a trilogia das dificuldades motoras: (I) paratonia; (ii) sincinesias e; (iii) torpeza (dificuldade de movimentos). Observou que existiam estreitas relações entre as anomalias psíquicas e as anomalias motoras, considerando-as como “expressão de uma solidariedade original e profunda entre o movimento e o pensamento.”

             Mais tarde, em 1911, Head com a noção de esquema postural e Schilder com a imagem do corpo,  em 1923, juntamente com as idéias de Schultz e Jacobson ao descreverem as bases do relaxamento, contribuíram com os postulados de Piaget, para a ampliação do estudo do desenvolvimento da criança. Os trabalhos de Wallon em 1925 demonstraram a importância do tônus e da emoção no desenvolvimento da criança. Guilmain ao estudar tipos de exames psicomotores pelo esboço de métodos de educação e reeducação motora através da ginástica rítmica, abre  novos caminhos para a Psicomotricidade.

             Os trabalhos de E. Guilmain baseiam-se nos postulados de Ozeretsky  foram os primeiros a tratar da Psicomotricidade sob o enfoque da reeducação psicomotora. Eles fundamentaram-se nas concepções de Henri Wallon que procurava demonstrar a passagem da atividade de relação à atividade intelectual, insistindo sobre o papel  do meio social.  Em seguida, outros autores abordaram os problemas da Psicomotricidade como, J. de Ajuriaguerra, Huguette Bücher, Jean Le Boulch, André Lapierre, Jean Famose, Luis Picq, Pierre Vayer e outros.

             A Psicomotricidade justifica sua existência tanto no “paralelismo psicomotor” observado nos pacientes psiquiátricos, no final do século passado, ao ser constatado que, em qualquer troca induzida psicologicamente repercute no aspecto corporal dos pacientes e vice-versa, quanto na condição verdadeiramente psicomotora do ser humano, sobretudo até a idade  aproximadamente de  sete anos

Efetivamente, até a idade em que a criança adquire o pensamento operatório concreto que lhe dá acesso à aprendizagem escolar, existe uma absoluta unidade entre a motricidade e a inteligência, entre a ação e o pensamento.

           Assim, o objetivo da Psicomotricidade é o desenvolvimento das possibilidades psicomotoras, expressivas e criativas do ser humano em sua globalidade, partindo de seu corpo, levando a  centralizar sua atividade  na  procura do movimento e do ato, incluindo tudo o que dela deriva: disfunções, patologias, educação, aprendizagem e outros.

              O campo de atuação centraliza-se em duas vertentes que são intimamente  inter-relacionadas: (I) o corpo pedagógico  em que se encontra a atividade educativa/reeducativa:  o psicomotricista tenta levar o paciente até a realização de suas possibilidades máximas de desenvolvimento, de habilidade, de autonomia e de comunicação; (ii) o corpo patológico: realização de atividades reabilitadoras/terapêuticas que se orientam até a superação dos “déficit” ou da inadaptações  produzidas por transtornos no processo evolutivo provocados por diversas causas orgânicas, afetivas, cognitivas ou ambientais. Leva  o paciente à superação de suas dificuldades e à busca da autonomia de suas ações.

               A Psicomotricidade é  “o conjunto de conhecimentos psicológicos, fisiológicos e relacionais que permitem, ao utilizar o corpo como meio, abordar o ato motor humano com o objeto,  a fim de que chegue a ser um recurso adaptativo na interação do ser humano com o meio ambiente.”(J.A.García Núñez &  J.M.Gonzalez).

               Ainda Núñez (1993) afirma que a Psicomotricidade influi no ato intencional ou significativo e para estimulá-lo ou modificá-lo, utiliza como mediadores a atividade corporal e sua expressão simbólica. Assim, o ato psicomotor seria interpretado como o movimento consciente, intencional, significativo e sentido, que utiliza as manifestações do corpo e sua expressão simbólica, desde os gestos às palavras, servindo como elemento mediador relacional entre o ser humano e seu meio ambiente.

                Considerada uma disciplina científica, ela demonstra a perfeita interação funcional e sua dependência recíproca entre o movimento e o pensamento. Daí, ser a Psicomotricidade denominada “alma do movimento” por Rêgo Barros (1992), pois apresenta a integração total entre a atividade psíquica e a atividade motora. Razão pela qual, se conceitualiza o  movimento como  "ato psicomotor."

 

A PSICOMOTRICIDADE EM DIFERENTES FAIXAS ETÁRIAS

O estudo do desenvolvimento psicomotor da criança torna possível observar algumas noções precisas de crescimento e desenvolvimento.

Crescimento significa aumento quantitativo da estrutura, do peso e do volume do corpo. Trata-se de uma noção puramente quantitativa.

Desenvolvimento, termo genérico, designa a soma do processo de crescimento com a diferenciação submetida ao organismo. É efetuada de forma evolutiva e homogênea por meio de etapas sucessivas caracterizadas cada uma, por determinados tipos de particularidades.

As capacidades motoras da criança recém nascida apresentam um desenvolvimento espetacular durante os 12 primeiros meses de vida. Impotente e totalmente dependente no seu nascimento, o bebê adquire, em alguns meses notável controle e autonomia na realização de movimentos da cabeça que levam à orientação e detecção perceptivas; os braços e as mãos pelas tomadas de exploração de objetos, além de movimentos de pernas que estimulam o ato de locomoção. Esse desenvolvimento ocorre paralelo às modificações importantes do sistema nervoso central e a maturação funcional das estruturas cerebrais.
A velocidade de crescimento é bem intensa durante o primeiro ano de vida, decrescendo rapidamente no início da primeira infância (1-3 anos). Mais tarde, no decorrer da idade pré-escolar (3-7 anos) ela se estabilizará pelos valores que permanecem relativamente constantes até o início da  puberdade.

A manifestação do crescimento púbere se traduz por uma nova aceleração do aumento da altura. O crescimento termina em cerca de dois a três anos após o fim da puberdade e corresponde a complementação da fixação das cartilagens da conjunção (soldadura epífiso-diafisária).

Para Chugani apud Vinter (1998:6) existe estreito inter-relacionamento entre os sistemas neuronais corticais medidos pela intensidade do metabolismo de glicose e os principais marcos comportamentais no primeiro ano de vida.

No decorrer do crescimento a criança  torna-se cada vez mais curiosa em relação ao mundo que a cerca, e gradativamente desenvolve suas percepções  em relação  aos outros mundos, além do mundo materno. As vias de entrada sensório-perceptivas ocorrem pelo processamento cognitivo cortical associativo complexo, submetida à situação evolutiva de maturação cerebral,  integrados  ao sistema neuro-funcional. Segundo Prechtl apud Vinter (opus cit.),... as estruturas ativas desde o nascimento incluem o córtex sensóriomotor primário, os núcleos talâmicos, o tronco cerebral e os vermis cerebelosos.

Por tratar-se de, sobretudo de estruturas subcorticais considera-se coerente com a tabela global das competências motoras do recém-nascido, onde coabitam reflexos e movimentos espontâneos precisos, pouco diferenciados. Segundo Prechtl apud Vinter (idem), a tabela global de comportamento registra-se em continuidade com os comportamentos apresentados pelo feto, no período de transição do estado fetal ao nascimento,  observados em torno dos dois primeiros meses de vida.

A partir dos 2-3 meses, com efeito, as áreas corticais parietais, temporal e visual primária, os gânglios de base e os hemisférios cerebelosos tornam-se  ativos. Concomitantemente, observa-se progressos desde esta idade, com a integração sensóriomotoras relativas ao controle postural, à atividade visomotora e mais tarde, às atividades de alcance e  preensão de objetos. Entre os 6 a 8 meses, salienta-se a maturação da parte lateral do córtex frontal, seguida entre 8 a 12 meses pelas regiões préfrontais dorsais.

Esta maturação, sob o enfoque do comportamento, coincide com o surgimento de um conjunto de condutas consideradas como manifestação da consciência de si, dos outros e do mundo, da capacidade de planejar, controlar e inibir seus próprios comportamentos.

A formação do esquema sensóriomotor firma-se pela construção inicial das ações desenvolvidas pelo bebê sob a influência de seu meio ambiente. A percepção é uma ação cujas transformações introduzidas nos objetos e seus estados, constitui o primeiro instrumento que dispõe a criança para descobrir o mundo e construir seus conhecimentos.

As crianças durante os seis primeiros anos de vida desenvolvem um período de exploração do mundo envolvente por meio de movimentos de seu corpo. Ao reprimir esta necessidade através da “educação” que se denomina racional, com o silêncio e a imobilidade, com proibições, exigências e o empobrecimento das expressões psicomotoras espontâneas relacionadas com os objetos, o espaço e os outros, é uma agressão pela tentativa de privar a criança de seu meio mais autêntico de desenvolvimento.

Assim, os esquemas sensóriomotores como suportes desses conhecimentos, são os instrumentos mentais que englobam de maneira indissociável, movimento e percepção.

Segundo estudos realizados, o córtex visual requer alta especialização e sua delicada e correta maturação ocorre nas proximidades dos 6-7 anos, sob a influência dos fatores psicossociais.

A linguagem, como função adquirida com precisa integração sensório-perceptiva, é uma capacidade funcional elementar que está baseada no funcionamento holístico de vários sistemas neurológicos complexos, os quais se adquirem por meio de importantes sistemas perceptivos aferentes.

A partir da organização de seu próprio corpo, da imagem coerente do EU integrada a Você e, com referência constante dessa relação afetiva, a criança irá  em gradientes ampliar e explorar o espaço  vivenciado.  Para isso, disporá de condições adequadas, onde as percepções e as estruturas psicomotoras essenciais vivenciadas, denominadas Psicomotricidade, considerada a alma do movimento, possam proporcionar  a estrutura  do esquema corporal através da tomada de consciência, de acordo com as etapas evolutivas próprias do desenvolvimento humano. Esses processos evidenciam a importância dos fatores psicoevolutivos e neuroevolutivos, bem como do componente social e educacional tratados sob o enfoque holístico e de forma interdisciplinar.

O processo neuropsicológico complexo consiste na capacidade de evocar palavras concretas num determinado contexto ou como resposta a um estímulo específico, seja ele, interno ou externo. Deve-se ainda assinalar que estes fatores afetam de maneira indireta ou direta no processo de evocação da palavra e dos gestos e movimentos, estando eles inteiramente inter-relacionados. 

Assim como Changeux (1983) considera a linguagem uma faculdade geneticamente determinada, com o desabrochar dos gradientes de capacidades; Chomsky (1983) afirma ser a competência do sistema fundamental para a aquisição  da linguagem.

Jean Piaget considerava os mecanismos cognitivos e afetivos com  bases na Psicomotricidade que tem como objetivo recíproco o estudo das relações cognitivas e afetivas vivenciadas com o meio ambiente externo e interno, através dos  movimentos expressivos do corpo.

Quanto ao movimento, a competência pessoal poderá proporcionar uma boa ou ma1 performance, alcançada pelo corpo por meio dos padrões de atitudes e movimentos, de acordo com as solicitações dos parâmetros instituídos pelo homem. Isto vem corroborar com as assertivas de Kail & Hall, (1994), que a velocidade em evocar nomes de objetos familiares está relacionada com a velocidade de processamento de informação, e não com a  idade da criança.

As diferenças  individuais  apresentam-se de forma muito intensa em cada tipo de movimento expressivo do corpo. Surgem nas crianças mais vivificantes nas atividades físicas coletivas ou individuais  pela expressão global de seu comportamento. Elas revelam-se pelas características  próprias do ritmo de aprendizagem na arte de integrar os pensamentos com os movimentos. Uma boa memória irá facilitar o processo de aprendizagem, proporcionando maior variedade de movimentos e permite acessos mais fáceis às experiências passadas, integradas às sensações auditivas e visuais, que estimulam as emoções.

Cada criança possui diferentes tendências a memorizar suas sensações vivenciadas.  Assim, os sentimentos emergem sob formas sugestivas de movimento expresso pela harmonia das ações. As sensações negativas tendem a serem memorizadas em menor intensidade do que as sensações positivas que devem ser estimuladas pelo professor.

Ao estabelecer-se uma analogia entre a linguagem e o movimento,  fundamentada na assertiva de que a formação do pensamento não está  somente vinculada à aquisição  da linguagem, como também do movimento e, que o intelecto da criança se desenvolve por meio da interação do EU e Você, com as coisas (objetos), as pessoas e o seu meio ambiente, observa-se que não existem fronteiras entre a linguagem e o movimento, como matrizes de expressão do pensamento, pois estão  estreitamente inter-relacionados.

O movimento e a linguagem, como fenômeno biopsicossocial, estão inteiramente envolvidos na comunicação e com as formas de conhecimentos, no processo de relações afetivas entre as pessoas, os objetos e o meio ambiente, constituindo-se assim,  instrumento de pensamento e ação.

O ser humano passa por uma série de etapas evolutivas até alcançar o domínio da linguagem e do movimento. A maturidade cerebral concorre com o substrato necessário às aquisições lingüísticas e o domínio do movimento, sendo bem precisa a interação da criança com o meio ambiente externo, atuando ao mesmo tempo nas  transformações históricas de seu comportamento.

O movimento vivenciado serve não somente para a criança formular seus pensamentos e expressá-los através de seu próprio corpo, como também no sentido da formação  de sua personalidade total, colaborando com a linguagem na formação do pensamento.

A expressão corporal revela-se  pelas intenções significativas e harmônicas da totalidade do ser. Essas intenções surgem como unidade através da dialética entre o querer, o sentir e as possibilidades do fazer.

A representação gestual e as expressões faciais estão sujeitas à codificação verbal e à memória visual,  embora a memória de eventos vivenciados esteja sujeita a distorções impostas pela codificação verbal.

Os gestos denotam sentimentos e a percepção que a pessoa tem naquele momento, em relação mútua com a expressão corporal. São manifestados por um código coletivo e representado em sua individualidade.

O corpo, como fonte dessa significação, tem atitudes e sentimentos próprios que proporcionam à expressão corporal a realização de gestos e movimentos de forma consciente, intencional e sensível. Adota os gestos como forma de comunicação não verbal, onde determinados gestos possuem diferentes significados em cada grupo cultural. Assim, os gestos representam para o movimento o que configura a língua para a linguagem. Eles representam bem mais do que a soma coletiva de padrões individuais, tornando-se presentes e manifestando-se na realização das formas de expressão corporal.

A fala é um ato individual no qual a pessoa se expressa de forma seletiva, em diferentes graus de tonalidade e, em diferentes ritmos e variadas combinações de palavras. Para Barthes (1964)... “é  um mecanismo psicológico que permite exteriorizar essas combinações”... uma vez que ... a língua é a soma coletiva de marcos individuais, pois representa a forma de manifestação de um grupo de pessoas pertencentes a um mesma comunidade.

Encontra-se na “massa falante”, grande grupo de pessoas que falam a mesma língua, sendo ela possível quando parte da fala. Daí ser a língua o produto e instrumento da fala, que se estrutura a partir de uma verdadeira dialética.

Desta forma, os gestos e movimentos nada mais são do que o produto e o instrumento da expressão e, com a linguagem realizam  verdadeiro jogo dialético que tem sua origem no pensamento.

Conhecimento e linguagem se estruturam como operações de comportamento pelo conjunto de relações visíveis entre o organismo e o meio ambiente. Assim, o meio ambiente desempenha um duplo papel: contribui para definir na linguagem verbal os elementos corporais e as orientações da ação, conceitualizando a experiência corporal como também, age no sentido de valorizar socialmente determinadas partes do corpo e determinadas forma de interação.

A experiência do corpo vivenciado se organiza em nível global através de “ensaios e erros” ou do fenômeno de tatos sucessivos denominados de tateamento.

Para a criança quando a atividade é elementar, descontínua e esporádica, quando a conduta não possui objetivos em longo prazo, faltando o poder de diferenciar suas reações e de escapar, assim às influências do momento presente, o movimento é tudo o que pode se manifestar da vida psíquica que é traduzido em seu todo, do menor momento até o momento em que se processa a palavra.

Anteriormente a criança não há como se fazer entender senão por meio de gestos, isto é movimentos relacionados com suas necessidades, seu humor, bem como com as situações em que seja suscetível de se expressar. Além dessas significações adquiridas, o movimento pela sua própria natureza tem potencialidades em diferentes direções que poderá tomar como atividade psíquica. Ele está essencialmente em deslocamento no espaço e possui três formas que tem sua importância na evolução psicológica da criança. Pode ser passivo ou exógeno, isto é, sob a dependência de forças exteriores nos primórdios níveis do equilíbrio.

Pode ainda provocar reações secundárias de compensação ou de reequilíbrio. São regulados por um aparelho muito arcaico na série de vértebras e podem manifestar-se entre os homens desde o período pré-natal como tem demonstrado Magno e Kleige pelos reflexos labirínticos. Esses reflexos desaparecem normalmente após o nascimento, sendo o início de um alinhamento que se desenvolve por etapas sucessivas, através da procura de posturas necessárias e de pontos de apoio apropriados. Conduzirá a criança da posição deitada à posição sentada, à posição de joelhos (gatear) e finalmente, à posição de pé, característica do ser  humano e que no processo de seu comportamento tem decisiva  influência.

A segunda forma de movimento é devido aos deslocamentos autógenos ou ativos, seja do corpo em si mesmo no meio exterior, seja dos objetos em que se encontram: a locomoção e a preensão.

A terceira forma, finalmente, é o deslocamento dos segmentos corporais ou de suas partes., uns em relação aos outros. Trata-se de reações posturais que se confrontam parcialmente com aqueles do equilíbrio assinalados no 1.º grupo.

A formulação de problemas não deve ser necessariamente verbal. A presença de objetos (bolas, cordas, arcos, etc.), a estimulação auditiva rítmica (música, ritmos dados pelo prof., ruídos) podem ser facilitadores das ações e da  coordenação de movimentos.

Da riqueza de suas ações serão extraídos pelo prof., os elementos que servirão de material para observação e reflexão de novos estímulos. Os gestos e movimentos falhos podem por outro lado, reencontrar um sentido verdadeiro. Não existem más realizações, elas são outras. Cada criança procura realizar suas ações à sua maneira e ao mesmo tempo observar a execução dos outros, que a levará a compreender e recompor seus próprios movimentos.

Deve-se evitar enfatizar os movimentos estereotipados rígidos, estimulando a realização de  movimentos globais em que trabalhe todo o seu corpo.

Um trabalho de tomada de consciência da atitude postural, das diferentes partes do corpo, do jogo de tensões em diversas posições, a capacidade  de descontrair certos segmentos ou certas partes do corpo, enquanto as outras são mobilizadas leva à coordenação de gestos e movimentos.  A atenção solicitada e desenvolvida nos vários exercícios deverá ser orientada pelo próprio corpo no decorrer de um deslocamento, ou um salto.  (continua na próxima Edição).

 

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