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Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.
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JOGOS
TRADICIONAIS DA CRIANÇA
Ivan
Ivic
Colóquio Internacional de Jogos Tradicionais
UNESCO, Paris, março 1989.
Tradução
de Darcymires do Rêgo Barros.
JOGOS
TRADICIONAIS DA CRIANÇA E CULTURA POPULAR
O fato de que os jogos fazem parte integrante da cultura popular tradicional é
fundamental para a compreensão dos jogos tradicionais da criança. Esta cultura
não é simplesmente uma herança do passado. Ela persiste em nossos dias, mesmo
nas sociedades moderna, sendo constantemente criada em sua periferia, pois está
em constante mutação.
Os antropólogos alertam também para o fato dessa cultura popular tradicional não
ser isolada: ela encontra-se em todo instante, em constante interação com a
alta cultura , a cultura oficial, a cultura moderna contemporânea.
Embora esta cultura popular, possua grande e fortes
tradições, é considerada também uma cultura atual não isolada, tendo
por sua vez, não obstante, características facilmente identificáveis.
Consegue-se assim, a atenção sobre um dos aspectos específicos desta cultura,
tal como foi formulada por Bakhtine em
insistir sobre a noção de antropologia implícita (concepção implícita do
homem), característica desta cultura. Consiste ela em definir esta concepção
por uma série de oposições semânticas tais como: alto-baixo;
centro-periferia; espírito-corpo; sagrado-profano; racional-irracional; pragmático-lúdico;
intelectual-afetivo; adulto-infantil etc… enquanto que a cultura popular
tradicional exerceria maior influência sobre os seguintes polos: periferia,
baixo, corpo, profano, irracional, lúdico, afetivo, infantil etc…
Uma
cultura alternativa
Sem pretender abordar aqui as
elaborações necessárias a esta hipótese, diz-se que a cultura popular surge
como uma cultura alternativa, da mesma maneira que poderia ser a medicina
popular tradicional.
Considera-se alternativa o conceito que lhe conferiu certos movimentos e
correntes de idéias particularmente ativas no decorrer dos anos 70, notadamente
na antiga República Federal da Alemanha. Por “culturas alternativas”
compreende-se a cultura não elitista em oposição a toda cultura produzida por
uma “inteligência” destinada a
uma sociedade de consumo de
esquemas culturais pré-estabelecidos.
Uma tal cultura, em todos seus componentes deve ser preservada, nem que seja a título de uma cultura complementar às
diversas formas de cultura.
A
cultura popular lúdica
A cultura popular lúdica é um dos componentes mais representativos da cultura tradicional e sob as formas de manifestações das mais diversas: festas populares, carnaval, quermesses, sabadadas ou sabáticas, folias de reis, micaretas ou micarêmes, festas juninas, espetáculos teatrais de rua e outras. O bom humor popular, todas as formas de zombarias e de parodias aparecem como expressões muito ricas do ser humano devido sua qualidade de “homo ludens”.
Os
jogos tradicionais infantís
Eles fazem parte integrante da cultura lúdica popular, freqüentemente devido a
sua origem. Sabe-se que muitos jogos derivam de espetáculos ou de cerimônias
religiosas de adultos, mas diferenciam-se sobretudo pelo seu espírito.
A alegria, a busca do prazer, as brincadeiras e o divertimento de uma parte, a
diversidade, a criatividade, o exercício que estimula as capacidades do corpo e
do espírito humano, de outra parte, são
as características que os jogos infantis compartilham com a cultura lúdica
tradicional, embora existam as especificidades. Nelas pode-se encontrar a origem
das grandes categorias desses jogos, freqüentemente criados pelas próprias
crianças, em sua estrutura e sobretudo em suas funções. Atuam em função de
imitação, de desenvolvimento, de criatividade e de autonomia. Pode-se notar
que as funções educativas são mais acentuadas nos jogos infantis do que nas
formas lúdicas dos adultos.
A
necessária contribuição das diferentes culturas
O Projeto apresentado pela equipe
do Laboratório de Psicogenética de Belgrado à OMEP (Organização Mundial da
Educação Pré-escolar) é intercultural, devido a necessidade de enfrentar os
problemas relativos à uma verdadeira compreensão mútua das culturas. Esses
problemas surgem desde a terminologia.
Não é por acaso que os japoneses hesitam entre os termos “tradicional
games” e “tradicional play” (para eles não é fácil de exprimir
esta distinção), porque os jogos tradicionais japoneses são muito mais
jogos de expressão e de criação sem regras, ligados sobretudo às condutas
individuais do que aos comportamentos dos
grupos competitivos. Observa-se
que existe uma abstenção quase total de jogos orientados sob os princípios da
competição.
Nos Camarões, os jogos com o próprio corpo ou com o corpo do outro constituem
uma categoria de jogos dominantes.
A antologia de jogos iugoslavos apresentam com grande freqüência os jogos de
interação social. As contribuições gregas e iugoslavas assinalam a existência
de numerosos jogos de estratagema, de astúcia e de fraude, inexistentes em
muitas outras culturas. Daí o fascínio pela
extraordinária riqueza dos jogos tradicionais infantis.
Visto em sua totalidade, eles oferecem uma imagem da criança e do ser humano em
geral, que nos conduz a considera-la um ser dotado de múltiplos talentos e de
capacidades diversas, como um ser pluridimensional e criativo.
Do
passado aos dias presentes
Como componente da cultura popular, que é por definição uma cultura oral, os
jogos tradicionais são transmitidos desde o passado pela linguagem oral e a prática.
Por meio de tal mecanismo de transmissão, é inevitável de haver um processo
de troca contínua, propiciando flexibilidade a adaptabilidade nas criações
culturais. Os problemas e as dificuldades inesperadas nas fases de transmissão
oral explicam em parte: (I) a criação de jogos novos; (ii) a formação de
jogos híbridos pela reinterpretação de
um jogo existente; (iii) a assimilação de jogos reproduzidos por outras
culturas e; (iv) a transformação de conteúdos, até mesmo de estruturas, ou
até ainda de funções de certos jogos em
casos mais extremos.
É evidente que esses processos têm assegurados justamente uma forma de seleção
natural, por eliminação e ou por adaptação, às condições ecológicas,
ideológicas e
sócio-culturais.
O exemplo mais claro desta adaptação são os jogos descritos sofrem transformação,
precisamente aqueles que contêm
elementos de imitação muito nítidos. O caso da caça é típico. À medida
que a caça, verdadeira atividade do adulto perdia sua importância, o jogo de
caçar (perseguição ou pegar) é transformado num jogo não imitativo por um
processo de estilização e de esquematização dos participantes.
Tais observações nos permitem avançar numa outra hipótese sobre a relação
entre as atividades práticas e lúdicas. A
passagem das atividades práticas para a zona lúdica acontece cada vez que a
atividade perde sua importância econômica e social, vista assim, como atividade socialmente não-aceitável: os combates físicos
transformaram-se em Box; os combates armados em desportos de tiro ao alvo, de
arco e flecha, tiro de carabina ou pistola e outros.
Todos esses processos de criação e transformação fazem parte de uma
totalidade relativamente coerente de culturas tradicionais orais.
Até a era industrial as mudanças sociais eram
muito lentas. Mas as coisas
têm evoluído enormemente com os transtornos sociais, conseqüências inevitáveis
com a industrialização: migração maciça, êxodo rural, diminuição das
grandes famílias, produção crescente de formas modernas de entretenimentos.
Estes fenômenos são mencionados para melhor ilustrar a situação paradoxal em
que se encontra a sociedade,
quando se pretende engajar num processo de revivescência dos jogos
tradicionais infantis.
Pode-se afirmar que se trata de um grande paradoxo quando se pretende criar um
banco internacional informatizado de jogos tradicionais como ponto de partida de
sua transmissão renovada.
Pierre Parlebas tem toda a razão quando define o jogo tradicional como “jogo
desprovido de reconhecimento institucional, além de não possuir dispositivos
sócio-econômicos de auto implicação.”
Neste sentido, o banco de jogos tradicionais é um monstro em contradição
profunda com o mecanismo de transmissão que era uma obra do passado, visto que
há uma troca radical do modo de transmissão da forma
de cultura tradicional. Nele se reencontra a um estágio de transição e
os perigos maiores de deformação que contêm nesses períodos são bem
conhecidos:
a)
a redução das riquezas e da diversidade por uma transmissão limitada do número
de jogos;
b)
a “desportivação dos jogos tradicionais por uma codificação obrigatória;
c)
uma acentuação das formas competitivas que tem como efeito a obtenção de
resultado final, considerado mais importante do que o processo do jogo;
d)
a
“pedagogização” excessiva que tende ao fato de que o jogo não deve
ser percebido como uma atividade que tenha valor em si, mas como um instrumento
ou meio didático.
Conscientes
dos casos derivados, o projeto deve apresentar as soluções suscetíveis de
salvaguardar a essência desses jogos.
Entretanto,
é necessário definir e ter-se algumas
idéias diretrizes:
a)
aproveitar as experiências históricas revivescentes de outras formas de
culturas, por exemplo: o folclore musical e sua relação com a música não
folclórica;
b)
extrair profundas lições das análises dos mecanismos naturais de transmissão
conhecidas no passado;
c)
proceder a análise dos jogos tradicionais à luz das disciplinas científicas
contemporâneas: semiótica, ciência da comunicação, antropologia cultural,
psicologia genética e outras.
d)
oferecer esses jogos às crianças reativando os processos espontâneos de difusão
que iriam certamente interacionar com as formas lúdicas modernas.
Desta maneira, os jogos tradicionais infantis conservarão uma chance de
sobreviver na medida em que eles satisfaçam as necessidades das crianças de
hoje e de amanhã. Necessidades universais, necessidades urgentes, necessidades
sociais suscitadas, notadamente pela deficiência de atividades físicas para
crianças citadinas.
Um
exemplo de revivescência potencial dos jogos tradicionais
Os jogos tradicionais infantis dividem com a cultura popular uma certa sabedoria
quanto às relações corpo-espírito: valorização corporal, interdependência
mútua, concepção próxima a qualquer corrente de pensamento moderno.
Por outro lado, uma grande parte de jogos infantis são jogos de motricidade,
jogos corporais. Neles se realizam numerosas formas de contatos corporais,
descritos nas concepções modernas de “bodily communication” ou comunicação
não verbal. Muito destes jogos situam-se
numa alternância de estado de tônus e de relaxação dos músculos com as
posturas do corpo em sua totalidade. Recordamos aqui as análises do psicólogo
francês Henri Wallon, para não esquecer suas idéias bioenergéticas,
demonstrou o papel desses processos
na regulação dos estados afetivos. Os jogos de exploração do próprio corpo
ou a descoberta das zonas sensíveis são muito importantes na gênese da consciência
de si. Os jogos que estabelecem a enumeração são divididos em
dois tipos: (i) jogos de locomoção com regras; (ii) jogos fundamentados em
esquemas (padrões) universais de condutas.
A
reflexão sobre estes jogos nos conduzem as seguintes conclusões:
Eles têm origem em diferentes culturas e manifestam abundante riqueza. Neles se
constata um idêntica riqueza ao recensear-se os jogos que atuam sobre outras
capacidades humanas, tais como: dexteridade, percepção, linguagem e as
atividades intelectuais, como no caso do jogo japonês “Onigikko” que possui
mais de 200 variações.
Sua linha salienta-se por uma
diversidade de utilização do aparelho locomotor
(ações de forças físicas e de habilidades com diferentes coordenações
motoras de complexidade diferentes). Facilmente adaptados às crianças de
diferentes idades. Os jogos simples têm
a vantagem de oferecer a cada um
dos participantes disponibilidades de criatividade e de composição original.
Notamos enfim, que uma grande parte
desses jogos possuem uma função evidente de divertimento, de humor e de
alegria, o que permite serem utilizados a fim de criar uma atmosfera agradável
e regular os estados afetivos. Os jogos coletivos de locomoção facilitam os
contatos físicos das crianças e a integração de grupos sociais. Isto nos dá
uma idéia suficientemente estimulante de exploração possível em grande
escala, num Banco Internacional de Jogos Tradicionais
destinado às crianças de todo o mundo.
BIBLIOGRAFIA
AVELINE,
C. Le Code des Jeux.
Paris. Hachtte, 1961
BAKHTINE,
M. L’oeuvre de François Rabelais et
la cultura populaire au Moyen-Age et à la Renaissance (em russo).
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GRUNFELD,
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Éditions Lied, Genève, 1975
IVIC,
Ivan. Les Activités Ludiques des
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Bruxelles, 1983
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Ivan and MARJANOVIC, A. Tradicional Games and
Chjildren of Today. OMEP
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jeux traditionnels d’enfants. UNESCO, Perspectives, 1986
VITONE,
F. Le livre des jeux d’enfants. Stock,
Paris, 1973
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