- Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.  
- ANO IV - Edição 08 - 
Agosto a Dezembro de 2003. 
Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2003.
http://www.geocities.com/grdclube
© Todos os direitos reservados

 

      

JOGOS TRADICIONAIS DA CRIANÇA

 

Ivan Ivic
Colóquio Internacional de Jogos Tradicionais
UNESCO, Paris, março 1989.

Tradução de Darcymires do Rêgo Barros.

 

 

 

JOGOS TRADICIONAIS DA CRIANÇA E CULTURA POPULAR

       O fato de que os jogos fazem parte integrante da cultura popular tradicional é fundamental para a compreensão dos jogos tradicionais da criança. Esta cultura não é simplesmente uma herança do passado. Ela persiste em nossos dias, mesmo nas sociedades moderna, sendo constantemente criada em sua periferia, pois está em constante mutação.

       Os antropólogos alertam também para o fato dessa cultura popular tradicional não ser isolada: ela encontra-se em todo instante, em constante interação com a alta cultura , a cultura oficial, a cultura moderna contemporânea.

       Embora esta cultura popular, possua grande e fortes  tradições, é considerada também uma cultura atual não isolada, tendo por sua vez, não obstante, características facilmente identificáveis.

       Consegue-se assim, a atenção sobre um dos aspectos específicos desta cultura, tal como foi formulada por Bakhtine  em insistir sobre a noção de antropologia implícita (concepção implícita do homem), característica desta cultura. Consiste ela em definir esta concepção por uma série de oposições semânticas tais como: alto-baixo; centro-periferia; espírito-corpo; sagrado-profano; racional-irracional; pragmático-lúdico; intelectual-afetivo; adulto-infantil etc… enquanto que a cultura popular tradicional exerceria maior influência sobre os seguintes polos: periferia, baixo, corpo, profano, irracional, lúdico, afetivo, infantil etc…

 

Uma cultura alternativa

     Sem pretender  abordar aqui as elaborações necessárias a esta hipótese, diz-se que a cultura popular surge como uma cultura alternativa, da mesma maneira que poderia ser a medicina popular tradicional.

      Considera-se alternativa o conceito que lhe conferiu certos movimentos e correntes de idéias particularmente ativas no decorrer dos anos 70, notadamente na antiga República Federal da Alemanha. Por “culturas alternativas” compreende-se a cultura não elitista em oposição a toda cultura produzida por uma “inteligência”  destinada a  uma sociedade de  consumo de esquemas culturais pré-estabelecidos.

 

      Uma tal  cultura, em todos  seus componentes deve ser preservada,  nem que seja a título de uma cultura complementar às diversas formas de cultura.

  

A cultura popular lúdica

       A cultura popular lúdica é um dos componentes mais representativos da cultura tradicional e sob as formas de  manifestações das mais diversas: festas populares, carnaval, quermesses, sabadadas ou sabáticas, folias de reis, micaretas ou micarêmes, festas juninas, espetáculos teatrais de rua e outras. O bom humor popular, todas as formas de zombarias e de parodias aparecem como expressões muito ricas do  ser humano devido sua qualidade de “homo ludens”. 

 

Os jogos tradicionais infantís

       Eles fazem parte integrante da cultura lúdica popular, freqüentemente devido a sua origem. Sabe-se que muitos jogos derivam de espetáculos ou de cerimônias religiosas de adultos, mas diferenciam-se sobretudo pelo seu espírito.

       A alegria, a busca do prazer, as brincadeiras e o divertimento de uma parte, a diversidade, a criatividade, o exercício que estimula as capacidades do corpo e do espírito humano, de outra parte,  são  as características que os jogos infantis compartilham com a cultura lúdica tradicional, embora existam as especificidades. Nelas pode-se encontrar a origem das grandes categorias desses jogos, freqüentemente criados pelas próprias crianças, em sua estrutura e sobretudo em suas funções. Atuam em função de imitação, de desenvolvimento, de criatividade e de autonomia. Pode-se notar que as funções educativas são mais acentuadas nos jogos infantis do que nas formas lúdicas dos adultos.

  

A necessária contribuição das diferentes culturas

       O  Projeto apresentado pela equipe do Laboratório de Psicogenética de Belgrado à OMEP (Organização Mundial da Educação Pré-escolar) é intercultural, devido a necessidade de enfrentar os problemas relativos à uma verdadeira compreensão mútua das culturas. Esses problemas surgem desde a terminologia.

 

       Não é por acaso que os japoneses hesitam entre os termos “tradicional games” e “tradicional play” (para eles não é fácil de exprimir  esta distinção), porque os jogos tradicionais japoneses são muito mais jogos de expressão e de criação sem regras, ligados sobretudo às condutas individuais do que aos comportamentos  dos  grupos competitivos.  Observa-se que existe uma abstenção quase total de jogos orientados sob os princípios da competição.

      Nos Camarões, os jogos com o próprio corpo ou com o corpo do outro constituem uma categoria de jogos dominantes.

      A antologia de jogos iugoslavos apresentam com grande freqüência os jogos de interação social. As contribuições gregas e iugoslavas assinalam a existência de numerosos jogos de estratagema, de astúcia e de fraude, inexistentes em muitas outras culturas. Daí o fascínio  pela extraordinária riqueza dos jogos tradicionais infantis.

       Visto em sua totalidade, eles oferecem uma imagem da criança e do ser humano em geral, que nos conduz a considera-la um ser dotado de múltiplos talentos e de capacidades diversas, como um ser pluridimensional e criativo.

Do passado aos dias presentes

       Como componente da cultura popular, que é por definição uma cultura oral, os jogos tradicionais são transmitidos desde o passado pela linguagem oral e a prática. Por meio de tal mecanismo de transmissão, é inevitável de haver um processo de troca contínua, propiciando flexibilidade a adaptabilidade nas criações culturais. Os problemas e as dificuldades inesperadas nas fases de transmissão oral explicam em parte: (I) a criação de jogos novos; (ii) a formação de jogos híbridos pela reinterpretação  de um jogo existente; (iii) a assimilação de jogos reproduzidos por outras culturas e; (iv) a transformação de conteúdos, até mesmo de estruturas, ou até ainda de funções de certos jogos em  casos mais extremos.

       É evidente que esses processos têm assegurados justamente uma forma de seleção natural, por eliminação e ou por adaptação, às condições ecológicas,  ideológicas  e  sócio-culturais.

        O exemplo mais claro desta adaptação são os jogos descritos sofrem transformação, precisamente aqueles que  contêm elementos de imitação muito nítidos. O caso da caça é típico. À medida que a caça, verdadeira atividade do adulto perdia sua importância, o jogo de caçar (perseguição ou pegar) é transformado num jogo não imitativo por um processo de estilização e de esquematização dos participantes.

         Tais observações nos permitem avançar numa outra hipótese sobre a relação entre as atividades práticas e lúdicas.  A passagem das atividades práticas para a zona lúdica acontece cada vez que a atividade perde sua importância econômica e social, vista assim,  como atividade socialmente não-aceitável: os combates físicos transformaram-se em Box; os combates armados em desportos de tiro ao alvo, de arco e flecha, tiro de carabina ou pistola e outros.

          Todos esses processos de criação e transformação fazem parte de uma totalidade relativamente coerente de culturas tradicionais orais.

           Até a era industrial as mudanças sociais eram  muito  lentas. Mas as coisas têm evoluído enormemente com os transtornos sociais, conseqüências inevitáveis com a industrialização: migração maciça, êxodo rural, diminuição das grandes famílias, produção crescente de formas modernas de entretenimentos.

            Estes fenômenos são mencionados para melhor ilustrar a situação paradoxal em que  se encontra a sociedade,  quando se pretende engajar num processo de revivescência dos jogos tradicionais infantis.

             Pode-se afirmar que se trata de um grande paradoxo quando se pretende criar um banco internacional informatizado de jogos tradicionais como ponto de partida de sua transmissão renovada.

            Pierre Parlebas tem toda a razão quando define o jogo tradicional como “jogo desprovido de reconhecimento institucional, além de não possuir dispositivos  sócio-econômicos de auto implicação.”  Neste sentido, o banco de jogos tradicionais é um monstro em contradição profunda com o mecanismo de transmissão que era uma obra do passado, visto que há uma troca radical do modo de transmissão da forma  de cultura tradicional. Nele se reencontra a um estágio de transição e os perigos maiores de deformação que contêm nesses períodos são bem conhecidos:

 

a) a redução das riquezas e da diversidade por uma transmissão limitada do número de jogos;

b) a “desportivação dos jogos tradicionais por uma codificação obrigatória;

c) uma acentuação das formas competitivas que tem como efeito a obtenção de resultado final, considerado mais importante do que o processo do jogo;

d)  a  “pedagogização” excessiva que tende ao fato de que o jogo não deve ser percebido como uma atividade que tenha valor em si, mas como um instrumento ou meio didático.

 Conscientes dos casos derivados, o projeto deve apresentar as soluções suscetíveis de salvaguardar a essência desses jogos.

 Entretanto, é necessário definir e ter-se  algumas idéias diretrizes:

 

a) aproveitar as experiências históricas revivescentes de outras formas de culturas, por exemplo: o folclore musical e sua relação com a música não folclórica;

b) extrair profundas lições das análises dos mecanismos naturais de transmissão conhecidas no passado;

c) proceder a análise dos jogos tradicionais à luz das disciplinas científicas contemporâneas: semiótica, ciência da comunicação, antropologia cultural, psicologia genética e outras.

d) oferecer esses jogos às crianças reativando os processos espontâneos de difusão que iriam certamente interacionar com as formas lúdicas modernas.

 

         Desta maneira, os jogos tradicionais infantis conservarão uma chance de sobreviver na medida em que eles satisfaçam as necessidades das crianças de hoje e de amanhã. Necessidades universais, necessidades urgentes, necessidades sociais suscitadas, notadamente pela deficiência de atividades físicas para crianças citadinas.

Um exemplo de revivescência potencial dos jogos tradicionais

         Os jogos tradicionais infantis dividem com a cultura popular uma certa sabedoria quanto às relações corpo-espírito: valorização corporal, interdependência mútua, concepção próxima a qualquer corrente de pensamento moderno.

         Por outro lado, uma grande parte de jogos infantis são jogos de motricidade, jogos corporais. Neles se realizam numerosas formas de contatos corporais, descritos nas concepções modernas de “bodily communication” ou comunicação não verbal. Muito destes jogos  situam-se numa alternância de estado de tônus e de relaxação dos músculos com as posturas do corpo em sua totalidade. Recordamos aqui as análises do psicólogo francês Henri Wallon, para não esquecer suas idéias bioenergéticas, demonstrou o papel desses  processos na regulação dos estados afetivos. Os jogos de exploração do próprio corpo ou a descoberta das zonas sensíveis são muito importantes na gênese da consciência de si.  Os jogos que estabelecem a enumeração são divididos em dois tipos: (i) jogos de locomoção com regras; (ii) jogos fundamentados em esquemas (padrões) universais de condutas.

 A reflexão sobre estes jogos nos conduzem as seguintes conclusões:

           Eles têm origem em diferentes culturas e manifestam abundante riqueza. Neles se constata um idêntica riqueza ao recensear-se os jogos que atuam sobre outras capacidades humanas, tais como: dexteridade, percepção, linguagem e as atividades intelectuais, como no caso do jogo japonês “Onigikko” que possui mais de 200 variações.

            Sua linha salienta-se por uma diversidade de utilização do aparelho  locomotor (ações de forças físicas e de habilidades com diferentes coordenações motoras de complexidade diferentes). Facilmente adaptados às crianças de diferentes idades. Os jogos simples  têm a vantagem  de oferecer a cada um dos participantes disponibilidades de criatividade e de composição original.

            Notamos enfim, que uma grande parte desses jogos possuem uma função evidente de divertimento, de humor e de alegria, o que permite serem utilizados a fim de criar uma atmosfera agradável e regular os estados afetivos. Os jogos coletivos de locomoção facilitam os contatos físicos das crianças e a integração de grupos sociais. Isto nos dá uma idéia suficientemente estimulante de exploração possível em grande escala, num Banco Internacional de Jogos Tradicionais  destinado às crianças de todo o mundo.

 

BIBLIOGRAFIA

AVELINE,  C. Le Code des Jeux. Paris. Hachtte, 1961

BAKHTINE, M. L’oeuvre de François Rabelais et la cultura populaire au Moyen-Age et à la Renaissance (em russo). Moscou, 1965

GRUNFELD, F. Jeux du Monde. UNICEF, Éditions Lied, Genève, 1975

IVIC, Ivan. Les Activités Ludiques des Enfants dans les Cultures différentes  in Les Droit de l’enfant: au pain, au jeu, à la paix, OMEP belga, Bruxelles, 1983

IVIC, Ivan and MARJANOVIC, A. Tradicional  Games and Chjildren of Today. OMEP iugoslava, Belgrado, 1986

IVIC, Ivan Un projet international sur les jeux traditionnels d’enfants. UNESCO, Perspectives, 1986

VITONE, F. Le livre des jeux d’enfants.  Stock, Paris, 1973

 

 

 

 - Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.  
- ANO IV - Edição 08 - 
Agosto a Dezembro de 2003. 
Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2003.
http://www.geocities.com/grdclube
© Todos os direitos reservados

 


 

 [volta]

Hosted by www.Geocities.ws

1