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 Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.  
- ANO IV - Edição 08 - 
Agosto a Dezembro de 2003. 
Rio de Janeiro, 07 de novembro de 2003.
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A  GERONTOMOTRICIDADE  E  AS CONDUTAS PSICOMOTORAS 

Prof. Dr. Darcymires do Rêgo Barros
Especialização em Neurofisiologia da Motricidade
Membro  da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
Membro da Academia Brasileira de Medicina Anti-envelhecimento

 

INTRODUÇÃO
Desde  o início da década de 60 o mundo inteiro começou a tomar consciência de um “novo”  fenômeno de expansão do envelhecimento populacional  que crescia progressivamente frente ao aumento populacional geral. Este  movimento demográfico fez gerar mudanças de atitudes  da sociedade, a fim de proporcionar meios, de diversas formas, para atender as necessidades e solucionar os problemas cotidianos de vida das pessoas idosas.

Mário Fillizzola em seu livro “A velhice no Brasil” examinou o problema do idoso em nosso país  dos tempos coloniais até 1972.

No Brasil, até os dias de hoje  existe uma espécie de preconceito contra as possibilidades de o homem de mais de 40 anos integrar-se ao mercado de trabalho. Significava, simplesmente, a perda de seu direito de ganhar a vida. Sabe-se que o problema se agrava, tendo em vista que as pessoas na faixa gerontológica contam,  em média, 18 milhões. 

O preconceito de idade contra a velhice é denominado “etarismo” . Há anos atrás os etaristas não aceitavam a Gerontologia como disciplina ou ciência a ser cultivada no Brasil.  Afirmavam que o Brasil era um país onde o problema do idoso praticamente não existia, por possuir apenas 5,3 % de pessoas em idade superior a  60 anos. Para a Organização Mundial de Saúde - O.M.S. - o país que apresenta o índice percentual  de mais de 7% de idosos em sua população é considerado um país Idoso.

O percentual de idoso no Brasil em 1983  era de  6,7%, segundo o IBGE. Por projeção, Krüger (1986) apresentou  um índice  acima de  8% em 1986 e no ano 2000,  acima de 10%. Atualmente o percentual de idosos é de cerca de  10,2 %.

Projeções dos especialistas e pesquisas divulgadas pelos jornais do Rio de Janeiro, (Tribuna da Imprensa,23.03.2000:2), indicam que 12,5% da população atual do Estado do Rio de Janeiro é formada por idosos, prevendo para o ano 2.020, que cerca de 50% da populaçào brasileira será de idosos. O Município do Rio de Janeiro  já apresenta  800 mil  pessoas classificadas como na  3.ª idade.

Classifica,  a OMS, como Etapas da Vida de ambos sexos: (i) Meia Idade – período que abrange o início dos 45 aos 64 anos de vida; (II)                    Pessoas Idosas dos 65 aos 79 anos; (III) Velhice  faixa etária dos 80 aos 90 anos  e; (IV) GRANDE VELHICE - pessoas que ultrapassem 90 anos.

Na época da  URSS, Brikina (1978) apresentou um estudo sobre a “Ginástica Geriátrica” em que estabelece a divisão em dois grupos de idade: masculino e feminino a fim de classificar as etapas do envelhecimento.

Para o sexo masculino: (i) Meia Idade – de 40 a 55 anos; (ii) Idade Madura – de 55 a 65 anos e; (iii) Idade Avançada – maiores de 65 anos.

Para o sexo feminino: (i ) Meia Idade – de 40 a 60 anos; (ii) Idade Madura – de 60 a 75 anos e; (iii) Idade Avançada – acima dos 75 anos.

Configura as diferenças de sexos no processo de envelhecimento, enquanto a OMS estabelece não haver diferenças significativas no critério de classificação das etapas da vida.

A população acima dos 79 anos, fase de  idade considerada pela OMS como a VELHICE, tem crescido rapidamente. Esta tendência cada vez mais tem aumentado em curto prazo, provocando uma série de efeitos sócio-econômicos de maior importância para o país. Sem dúvida que a atitude da família em relação ao ancião apresenta constante crise que oscila entre o respeito,  a proteção e a intolerância que, por vezes,  conduz a  separação do grupo familiar.

Embora o processo de  envelhecimento seja uma conseqüência natural da vida, não se pode evitá-lo; mas deve-se procurar estabelecer as bases para que, neste período, o idoso possa viver nas melhores condições possíveis.

Nas culturas e civilizações antigas, era  a velhice  uma etapa da vida  respeitada e venerada, pois representava a prudência, a reflexão, a experiência e o saber acumulado no transcorrer dos anos.

A Revolução Industrial é um período histórico recente  que influiu consideravelmente na vida do ser humano.  Modificou não somente a estrutura econômica global, como também a estrutura de valores, ocasionando na vida atual profunda repercussão na população de idosos.

A partir desse período, a sociedade tende a inclinar-se para o material, privilegiando a maquinaria sobre as atividades manuais do homem; da procura da  mão de obra do jovem em detrimento da mão de obra da meia idade e do idoso.

Na sociedade contemporânea esta percepção não mudou. A atividade e o ritmo acelerado de vida condenam o idoso à marginalidade, como um castigo às pessoas que alcançaram a última etapa de sua existência.

Atualmente  no auge da terceira revolução industrial vivemos uma era de suma importância na acumulação de riquezas e na rapidez de produção. O principal risico é do surgimento de uma “sociedade dissociada” que aumente  as desigualdades, provocando a  origem de grandes diferenças nos setores mais débeis da sociedade, entre eles o do idoso.

Desde o século passado os políticos buscam a criação de movimentos de conscientização da problemática da velhice,  para levar ao grande público as teses debatidas com seriedade.  Consideravam a  “Gerontologia  uma ciência médico-social que estuda o futuro das próximas gerações”. Era preciso que fosse adotada uma política visando ao  verdadeiro Estatuto Social da Velhice.

Somente no ano de 1994, porém, o governo brasileiro, apoiado pela  sua própria comunidade,  criou a Lei que determinou com precisão a Política Nacional  do Idoso, assegurando-lhe os direitos sociais e criando condições para promover sua autonomia, integração e participação efetiva na sociedade.

A Lei n.º  4882 de 04. janeiro de 1994, aprovada pelo Congresso Nacional e sancionada pelo Presidente da República dispõe sobre a Política Nacional do Idoso, cria o Conselho Nacional do Idoso, bem como estabelece  suas  diretrizes. Nela considera Idoso  a pessoa maior de 60 anos. Entretanto esse limite vem sendo refutado cotidianamente  pelos meios de  prestação de serviços à população, como ônibus, metrô, Bancos, etc, que consideram idoso o maior de  65 anos para atendimentos prioritários.

 

A GERONTOLOGIA DE INTERVENÇÃO E A GERONTOMOTRICIDADE

Considera-se a Gerontologia, atualmente, uma ciência aplicada moderna que estuda o Idoso, isto é, estuda os fenômenos biológicos, psicológicos, neuropsicossomáticos, sócioculturais e econômicos decorrentes do envelhecimento, bem como suas conseqüências. Procura desfazer os mitos e preconceitos que marcam a marginalização social do Idoso, desencadeando processos e meios que lhe facilitem viver o presente com prespectiva futura. A saúde e o bem estar do Idoso são dois imperativos da Gerontologia, numa das fases do processo de desenvolvimento do ser humano que, em constante integração com o meio ambiente, sofre contínua transformação. A Gerontologia, intimamente inter-relacionada com a Medicina e a Educação Física e as demais sub-áreas da Saúde,  é vista neste processo sob nova dimensão, de forma eminentemente interdisciplinar e objetiva.

Assim, a Gerontologia  é o conjunto de disciplinas integradas que estudam o processo de envelhecimento. Fundamenta-se na concepção biopsicossociofisiológico, onde as questões concernentes  à prevenção, saúde e qualidade de vida do idoso levam à Gerontologia de Intervenção.

A Gerontologia de Intervenção é o estudo integrado da Gerontologia que analisa e observa, de forma interdisciplinar, os fenômenos biopsicossóciofisiológicos decorrentes do processo de desenvolvimento do ser humano. Trata da  conservação das diferentes funções físicas, intelectuais e dos órgãos dos sentidos, numa abordagem holística.

A Gerontologia de Intervenção observa e analisa, também, numa visão crítica, as funções  reintegradoras;  atua, através de gestos e movimentos adequados em cada nível de desenvolvimento do idoso, na tentativa de recuperar, de forma adaptada, as habilidades parcialmente perdidas. Fundamenta-se essencialmente na individualidade, de  acordo com o processo de envelhecimento e da situação particular de cada pessoa idosa.

Como um conjunto de disciplinas inter-relacionadas, interatuantes e interdependentes, a Gerontologia de Intervenção atua por meio de tarefas preventiva, assistencial, de reabilitação e de reeducação psicomotora, numa concepção holística do ser.

Krüger (apud Leher,1997), apresenta quatro dimensões diferenciadas  em que pode ser desenvolvida a Gerontologia de Intervenção:

 

1.OTIMIZAÇÃO - Por meio das atividades intelectual e afetiva, da prática de Exercícios físicos, tendo como base as habilidades ainda disponíveis no Idoso.

 

2. PREVENÇÃO - Pelo contínuo processo de manutenção de cuidados pessoais.

 

3. REABILITAÇÃO -caracterizada pelas tentativas de recuperação, ainda que parcial de habilidades perdidas.

 

4. GERENCIAMENTO  DE SITUAÇÕES  IRREVERSÍVEIS - com o objetivo de favorecer mudanças de atitudes e crenças, bem como aceitação de fatos consumados, complementado por iniciativas de mudança ambiental.

 

A Gerontologia de Intervenção e a Psicomotricidade, integradas, numa perspectiva constante de renovação, estão estreitamente inter-relacionadas e vão ao encontro dos anseios da necessidade de movimento, característica do humano. Utiliza como meio a GERONTOMOTRICIDADE.  Visa a recuperar e conservar, de forma funcional, as condutas psicomotoras; a melhorar e aprimorar o conhecimento de si e a eficácia das ações, sobretudo das atividades de vida diária – AVD.

 Repousa sobre as premissas de trabalho individualizado, nas quais observa cada etapa do processo de envelhecimento.  Favorece o desenvolvimento integral do idoso, estabelecendo,  de forma equilibrada e harmônica, a inter-relação entre a motricidade e o psiquismo. Propicia o equilíbrio e a noção do corpo no espaço,  em sua totalidade, e contribui para a preservação da saúde.

O EQUILÍBRIO, O DEAMBULAR E A COLUNA VERTEBRAL

A rigidez da coluna vertebral do idoso - resultado da diminuição de água e sais minerais no organismo, pelo aumento da viscosidade do líquido sinovial, da diminuição de forma lenta e progressiva da massa muscular,  da diminuição da espessura dos discos intervertebrais, além do déficit respiratório - manifesta-se por uma série de fatores tais como: (i) insuficiência de movimentos pelos constantes períodos de mal-estar e dores físicas; (ii)  aumento de tensão devido às dores, levando à distorção postural e à diminuição do tônus corporal; (iii) realização de movimentos bruscos e interrompidos, integrados à respiração curta e superficial. 

São processos que acometem o idoso, aliado ao surgimento de osteoartroses, osteopenias, osteoporoses e outras degenerescências que provocam um quadro de dor constante.

A própria ação da gravidade - que atua sobre as vértebras devido à posição bípede - leva à redução da distância entre os discos intervertebrais e à compressão das articulações interapofisiárias.

Vêm demonstrar que a saúde de cada pessoa idosa está diretamente proporcional à mobilidade de sua coluna vertebral.

Ensinar a respiração consciente ao idoso é apresentar uma nova dimensão do corpo.  A respiração constitui o processo central da realização de variadas formas de movimentos, por apresentar benefícios a todas as pessoas.

Integrada às diferentes posturas, ao equilíbrio e aos movimentos, a respiração  deve ser aplicada de maneira lenta e gradual, de acordo com as respostas e necessidades de cada pessoa.

O equilíbrio é a manutenção da projeção do centro de gravidade do corpo humano no interior do polígono de sustentação (pés), por meio do ajustamento postural e da respiração, sem oscilações ou desvios nas condições estática ou dinâmica. Nele interatuam  o sistema límbico e o cerebelo - principais órgãos do equilíbrio e do movimento. Suas  funções relacionam-se com a manutenção do equilíbrio corporal, com a coordenação, a respiração e  a emoção.

O papel do cerebelo é de colocar em evidência as diferentes atividades onde intervêm a aprendizagem e a coordenação. Ele assegura, sobretudo, a adaptação de um determinado número de reflexos como o reflexo vestíbulo-ocular. Este reflexo faz com que o movimento da cabeça acompanhe os movimentos dos olhos, na mesma amplitude e direção  oposta, o que permite a direção do olhar. 

Daí a necessidade da realização de movimentos fisiologicamente saudáveis, que harmonizem o sistema nervoso, a fim de estabelecer o equilíbrio mente/corpo de forma consciente, intencional e sensível.

 

 

A   DOR

 

 A dor, um fenômeno orgânico de tamanha intensidade, acarreta problemas pessoais ou funcionais que tornam a pessoa incapacitada  à  atividades física e mental. É uma sensação desagradável, variável em intensidade e em extensão de localização, produzida pela estimulação de terminações nervosas especializadas em sua recepção. Assegura a supressão de um estímulo violento de origem interna ou externa, podendo ser tolerável ou não, dependendo da experiência sensorial e reações psicológicas de cada pessoa idosa ou não. Pode estar em dependência de uma patologia orgânica ou de uma doença sistêmica.

A dor associa-se principalmente com a nocicepção, que é um estado de alerta por algo que no organismo  está funcionando de forma inadequada requerendo a máxima atenção. Pode ser considerada  aguda ou  crônica. A dor aguda, em geral, quando atendida no início responde mais facilmente  ao tratamento que a crônica. Fatores psicológicos como a ansiedade e a depressão podem afetar a percepção da dor. A eliminação dos estímulos físicos que ocasionam dores por problemas da coluna vertebral nos idosos é bem mais complexa do que nas pessoas mais jovens.

Associada a um movimento brusco ou queda, a pessoa idosa, normalmente pela sua maior resistência à dor, procura a imobilidade durante dias e recorre a medicamentos analgésicos que somente atuam de forma paliativa, agravando mais a dor e  tornando-a crônica.

Levantar um objeto pesado ou colocar-se de pé abruptamente, após um longo período sentado ou deitado, pode levar ao surgimento de dores contínuas na região lombar devido a contraturas dos músculos lombares, Causadas pelos   pinçamentos das raízes radiculares nervosas do plexo lombar que envolvem as vértebras lombares inferiores, geralmente a L4 e L5.

A dor estende-se aos membros inferiores, comumente ao longo da parte posterior da coxa ao espaço poplíteo. Caracterizada pela compressão radicular, a dor irradiada leva à fraqueza, alteração nos reflexos e perda sensorial.

 

Continua na próxima Edição

 

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