- Revista Eletrônica INFORMATIVO G.R.D.  
- ANO IV - Edição 08 - 
Agosto a Dezembro de 2003. 
Rio de Janeiro, 04 de outubro de 2003.
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EQUILÍBRIO E DESEQUILÍBRIO

 

Prof. Dr. Darcymires do Rêgo Barros

Especialização em Neurofisiologia da Motricidade

 

Sensações errôneas do movimento, em que tudo gira em torno, as vertigens são causadas pelo desregulamento das diversas fontes de informação que permitem o deslocamento do corpo na posição bípede, na vertical, com a cabeça elevada e os pés no solo. 

Estas informações fornecidas pela visão, orelha interna, planta dos pés e músculos cervicais geradas pelo cérebro (cerebelo)  indicam a posição do corpo  no espaço. Quando  as informações não estiverem de forma complementar e concordante, o cérebro torna-se confuso. O cérebro, obrigado a interromper sua atividade, leva a pessoa ao estado de  angústia, por não compreender o que se passa e nem qual órgão foi atingido. Há perda do domínio do espaço envolvente, constatada pela ruptura entre a vontade e a resposta incontrolada do corpo. Quando a crise termina, a pessoa torna-se reticente em evocar as dificuldades e encontrar palavras para descrevê-la, em geral, ao seu interlocutor, terapeuta ou não. Procura não insistir a fim de não despertar lembranças  angustiantes.

Prosper Ménière, cientista francês, em 1860 descobriu que a orelha interna não é somente a sede do órgão de audição. O ser humano, para estar em equilíbrio, deve satisfazer duas condições, sem intervenção da consciência: (i) projetar permanentemente o centro de gravidade de seu corpo na superfície do solo compreendida entre os pés; (ii) ter, permanentemente, uma imagem estável na retina, mesmo se a pessoa estiver em movimento. Portanto, quando girar a cabeça, os olhos devem voltar no mesmo sentido e com a mesma velocidade para conservar uma imagem estável.  Se o movimento da cabeça prosseguir, os olhos se concentram o maior tempo possível em algum ponto fixo.

Chama-se nistagmo o movimento rápido, ritmado e involuntário do globo ocular, que pode ser realizado em um ou em dois sentidos. 

A criança adquire equilíbrio nos três primeiros anos de vida, proveniente de uma aprendizagem difícil, demarcada por numerosas quedas. As grandes linhas dessa aprendizagem são idênticas a todos, mas cada uma personaliza sua estratégia privilegiando determinadas informações, o que explicaria os diversos modos de andar. Em situações limitadas, perigosas ou novas para a pessoa, o equilíbrio é uma preocupação consciente.  A evolução do corpo em equilíbrio, se vigiado constantemente propiciará seguramente, menos vigília na rua ou quando a atenção cresce, sobretudo se o caminho for acidentado.

O cérebro é o chefe da orquestra do sentido do equilíbrio. Ele dirige, através do cerebelo, os movimentos do corpo e controla melhor suas realizações, levando em conta as eventuais e imprevistas discordâncias .

O aparelho vestibular informa sobre os movimentos da cabeça. Está situado em cada orelha interna, atrás da cóclea, parte anterior do labirinto (órgão da audição), em continuidade com  a própria cóclea.

Os olhos, por meio da retina, captam os movimentos dos objetos no meio ambiente. Os receptores articulares e receptores musculares denominados  proprioceptores, compreendendo aqueles da arcada plantar, informam ao cérebro sobre a posição de cada articulação, a tensão de cada músculo e a evolução do centro de gravidade em nível dos pés.

Estas três fontes de informação dos centros nervosos que coordenam a ação de todos os músculos devem normalmente estar em harmonia. Em caso contrário, a informação vestibular se retém no cérebro. O vestíbulo pode sofrer  dois tipos de infecção radicalmente diferentes: (i) as infecções mecânicas, onde as células sensoriais permanecem intactas e; (ii) as infecções sensoriais que provocam a redução mais ou menos importante e mais ou menos reversível da sensibilidade orgânica.

No primeiro caso, encontram-se os problemas das densidades das estruturas vestibulares, nas quais as vertigens, muito ligeiras, são ligadas à inclinação da cabeça.  No segundo caso, a doença é permanente e depende muito pouco da posição da cabeça.

Para explorar os vestíbulos, a técnica em vigor a partir de 1930 consistia em registrar eletricamente os movimentos oculares. É a eletronistagmografia (ENG). Esta técnica, muito divulgada no mundo, permite analisar certos movimentos na obscuridade total.

Mas, o ENG tem seus limites, particularmente pela impossibilidade física de eliminar os movimentos de torção da orelha. Na realidade, somente os movimentos horizontais são mensuráveis, o que limita o exame do canal lateral do vestíbulo,  um dos cinco captores sensoriais.

Além do mais, a colocação dos eletrodos é longa e delicada, e o material bem complexo. O ENG possui um mérito: ser a técnica de melhor performance da época.

A idéia de gravar com uma câmera a imagem dos olhos, a fim de analisar os movimentos, surgiu em 1905, ou seja, 10 anos após a invenção do cinema pelos irmãos Lumière. Mas, somente em 1985, algum centro de pesquisa afortunado, trabalhando em particular para a conquista espacial, conseguiu analisar automaticamente o nistagmo, graças às câmaras de vídeo em miniatura que operam próximo ao infravermelho. Isto é, permite filmar os olhos em negro e acoplá-los a um sistema de informática.

 

As Leis do "Sexto sentido"

O equilíbrio é a função de estabilização neuronal constante na posição de pé, em repouso e em deslocamentos ativo e passivo que permite o ser humano a manter-se na posição vertical. Procura reencontrar o equilíbrio do corpo no espaço, graças a um ajustamento apropriado neuropsicomuscular.

Resulta da troca permanente entre três sistemas que informam ao cérebro a posição do corpo no espaço: os sistemas proprioceptivos (planta dos pés e músculos), o aparelho vestibular (orelha interna) e o sistema visual.  Estas informações são normalmente complementares e concordantes.

Quatro são as formas de equilíbrio: estático, em movimento (cinético), na rotação ou giro e em vôo. A prática leva a redução desta divisão em três famílias: (i) a família do equilíbrio cinético e de rotação em uma só; (ii) a família do equilíbrio estático e; (iii) a família do equilíbrio aéreo.

O sistema de equilíbrio do corpo humano pode ser comparado ao “móbile de Calder” formado pelo sistema nervoso. Por exemplo: um estímulo num canal semicircular da orelha interna rompe o equilíbrio entre os sistemas simpático e parassimpático, provocando náuseas e manifestações de tensão vascular; a ação sobre os músculos visomotores, que se traduz por um nistagmo (movimento ocular ritmado), atua sobre os centros nervosos e suscita a sensação de vertigem; e a ação sobre os músculos locomotores leva à instabilidade na posição de pé, por ocasião da marcha.

 

O  VESTIBULAR

 

O sistema vestibular central e periférico, faz parte do sistema do equilíbrio integrado pela:

A. Informação sensorial periférica:  

1. Labirinto posterior alojado no osso temporal, formado por:

a. Sensores de velocidades angulares, dos quais são 3 canais semicirculares, colocados espacialmente a 90 gráus entre cada um, a fim de obter o sentido completo, com base nas possibilidades de giros do corpo.

b. O Utrículo e o Sáculo, sensores de velocidades lineares antero-posteriores, laterais e de ascenso-descenso. (O labirinto anterior, é um sensor de sons, a cóclea, sem função direta relacionada com o anterior).

 2. O sistema proprioceptivo músculotendinoso, informa sobre a posição da cabeça e do corpo.

3. A visão, por meio do sistema vestíbulo-visomotor, oferece  informação mais extensa sobre a posição do corpo, como também dos objetos em relação à pessoa.

Situado na orelha interna, bem atrás do aparelho auditivo, o vestíbulo, como todo captor sensorial, é estimulado pela transformação do  influxo nervoso em energia cinética. Esses influxos transportam informações para o tronco cerebral, de onde parte para os centros subcorticais e corticais, o que permite a elaboração dos reflexos e a percepção das sensações.

Os centros corticais permitem a conscientização dos movimentos e da posição vertical, daí ser o sistema vestibular justamente denominado de " sexto sentido", embora sejamos incapazes de inter-relacionar as sensações conscientes do sexto sentido à sua fonte, situada na orelha interna.

Cada vestíbulo compreende cinco captores sensoriais independentes e inter-relacionados entre si: (i) o utrículo, a maior porção do labirinto membranoso do ouvido, e o sáculo. Dois órgãos constituídos de cavidades cheias de líquido (endolinfo)

Toda informação é enviada aos núcleos vestibulares, alojados na protuberância,  com base nas vias de associação, de integração aos outros centros (substância reticular, córtex, etc.) para ser retro-alimentada baseada  nas necessidades em, executar as ações do corpo em equilíbrio e em deslocamento. Todo este complexo sistema apresenta um regulador, o cerebelo, que age por meio do sistema vestíbulo-cerebeloso.

A posição bípede não é considerada um equilíbrio no sentido físico do termo. É um desequilíbrio permanente, constantemente compensado. As variações do equilíbrio constituem a atitude da pessoa. Esta atitude, relativamente estável, representa a solução individual de cada pessoa ao encontrar a solução do problema de equilíbrio que se insere no esquema corporal e na imagem do corpo, integrado às sensações sensório-motoras precisas.

A neurite vestibular, habitualmente de origem viral, é responsável pela vertigem rotatória com náuseas e vômitos, reflexos que duram muitos dias, e levam o paciente ao leito.

Os exercícios de equilíbrio em situações habituais pouco freqüente, desenvolvem  o repertório psicomotor de reflexos e antecipações. Experimentar situações vertiginosas permite, por exemplo, ter a cabeça fria para as quedas e levar a resposta psicomotora adaptada.

Para desenvolver o equilíbrio, o esquema corporal e a imagem do corpo,devem suportar perturbações ao variar as posições de partida, a orientação da cabeça, os apoios ( de mãos, assentado, deitado, ajoelhado e outros). A criança deve assim, reconstruir o espaço e aprender a diferenciar suas sensações para redescobrir seu ponto de referência.

A faculdade de memorizar e restabelecer o equilíbrio depende da interação sutil de diferentes captores sensoriais (olhos, orelhas, o tato, aparelho vestibular, proprioceptores) integrados à emoção. A omissão de um destes sentidos pode perturbar uma tarefa a priori simples – permanecer na posição de uma perna elevada com os olhos fechados. A modificação das condições permite uma variação quase infinita do mesmo exercício de base. Pode-se assim, trabalhar facilmente em níveis variados e propor tarefas ou situações de dificuldade crescente.

Cada disciplina desportiva possui em princípio  as quatro formas de equilíbrio: estático, cinético, rotatório e aéreo. Nesta ótica deve-se realizar percursos de equilíbrio observando-se as variedades de tarefas psicomotoras. O percurso deve combinar os exercícios no lugar, em deslocamento, os saltos e as rotações.


 

 

BIBLIOGRAFIA:

 

ANDRÉ-THOMAS P. (1955). L’equilibre et la fonction labyrinthique chez le nouveu-né et le nourrison. L’ Encephale, 44, 2:97-137.

MERRIT, Lewis P. Rowland (org). Tratado de Neurologia. Rio de Janeiro. Editora Guanabara, 1986

Revista de Estudios y Experiencias Psicomotricidad. Madrid. CITAP. 1998-1999.

Revue  Science & Vie. Paris. Excelsior Publ. 1999.

SCHRAGER, Orlando L. (1991) Aspectos neuropsicológicos del desarrollo de los procesos posturales y su incidencia sobre el aprendizaje humano  in Psicomotricidad, Revista de Estudios y Experiencias, n.º 38-39. Vo. 2-3.

 

 

 

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