Revista Eletrônica INFORMATIVO GRD - ANO V Edição 09 - Janeiro / Junho- 2004
Rio de Janeiro, 06 de março de 2004.

http://www.geocities.com/grdclube

     

HISTÓRIA - ORIGEM DO CARNAVAL

 

Daisy Barros - Arbitra
e Ex-Técnica da Seleção Brasileira de G.R

 

Muito se tem discutido sobre a origem do carnaval. Objeto de controvérsias, tanto com relação à sua primeira manifestação quanto à época em que isso ocorreu, o tema freqüentemente é atribuído a variadas passagens de tempos. Só para se ter uma idéia, há quem o situe há 10 mil anos a. C., nos festejos rurais, quando homens, mulheres e crianças cobriam os rostos, pintavam e adornavam os corpos e se reuniam durante o verão para promoverem danças com o objetivo de afastar os demônios da má colheita ou simplesmente para comemorar o retorno do trabalho nos campos. Há também quem credite sua origem à evolução e à sobrevivência do culto a deusa Ísis e ao touro Ápis (entre os egípcios) ou a deusa Herta (entre os teutões); aos festejos em honra de Dionísios (na Grécia); ou ainda às Saturnais Romanas (homenagem à memória do Deus Saturno, com cortejos de abertura apresentando grande carros imitando navios – os carrum navalis, às Lupercais (celebradas após às Saturnais, como uma espécie de purificação, comemorando a fecundidade), às Bacanais (celebração ao retorno do sol e o começo da primavera, durante os meses de fevereiro e março), e até mesmo às festas dos “inocentes” e dos “doidos” (na Idade Média), que após sucessivos processos de deformação e abrandamento, teriam sido apontadas responsáveis pelo surgimento dos mais famosos carnavais dos tempos modernos, como os de Nice, Paris, Veneza, Roma, Nápoles, Florença, Colônia e Munique.

Alguns autores afirmam que o carnaval já era encontrado na Antiguidade Clássica, e até mesmo na Pré-Clássica com suas danças barulhentas, suas máscaras e licenciosidades, características que seriam mantidas até os dias atuais. Na Idade Média, a Igreja Católica, se não adotou o carnaval, chegou a tolerá-lo (ainda que de forma branda) com uma certa benevolência. Alguns de seus representantes foram terminantemente contra aos festejos, porém no século XV, o Papa Paulo II até permitiu que se realizasse na Via Lata (rua fronteiriça a seu palácio) o carnaval romano, com suas corridas de cavalos, carros alegóricos, batalhas de confete, feéricas luminárias de tocos de vela (molcoletti), corrida de corcundas, lançamento de ovos e de outras manifestações populares. Porém, com o decorrer do tempo, essas “modalidades carnavalescas” entraram em declínio e o carnaval tornou-se menos violento e debochado, mas com um perfil tétrico e fúnebre. Da Alta Idade Média, ficaram os registros das célebres danças macabras, quando homens e mulheres desfilavam perante a morte que ouvia, impassível, as queixas dos desfilantes e depois lhes descarregava a foice.

O carnaval do Renascimento foi marcado pelo romantismo e o lirismo. O baile de máscaras foi introduzido pelo Papa Paulo II e começou a fazer sucesso nos séculos XV e XVI, principalmente na França e na Itália. Ainda no século XIX, um baile promovido em 1884 pelo Instituto Real de Pintores e Aquarelistas ficou muito famoso em Londres. Artistas ingleses se fantasiaram com máscaras de seus gloriosos mestres do passado ou de príncipes e monarcas amigos dos artistas e brincaram de forma ordeira e pacífica. Desta forma, o carnaval passou a ser visto como uma celebração de caráter estritamente artístico, com bailes e desfiles alegóricos.

No Brasil, ao contrário do que ocorreu em outros países, o carnaval se caracterizou acima de tudo como uma manifestação do delírio coletivo, do desabafo popular e do humor ingênuo das multidões que saíam às ruas para cantar suas alegrias, como se observou durante anos nos Blocos dos Sujos e nos Grupos de Mascarados. Tempos depois, no entanto, o carnaval brasileiro perdeu, em parte, esse cunho popular e adquiriu um sentido grupal, aristocrático e clubístico, com bailes suntuosos e reservados apenas às classes sócio-economicamente mais favorecidas.

Do Brasil Colonial até a I República, o carnaval teve como principal manifestação o entrudo (do latim intróito, entrada) trazido de Portugal, por volta de 1600. Era, de início, uma brincadeira violenta (como foi retratado por Debret), em que os participantes utilizavam água, gema de ovo, farinha-do-reino, fuligem, pós-de-sapatos, alvaide e vermelhão, que empapavam  - e muitas vezes, queimavam, intoxicavam e até cegavam - as pessoas. Por este motivo, o governo o proibiu diversas vezes. Mais tarde o entrudo assumiu formas de maior graça e leveza, substituindo todos os elementos anteriores por limões de cheiro, borrachas com água perfumada e bisnagas (precursoras dos lança-perfumes).

O primeiro baile de máscaras do Hotel Itália foi realizado em 1840. Muitos outros surgiram, com maior repercussão e afluência, como os da Sociedade Constante Polca, do Teatro São Januário (1846) e o do Imperial Teatro D. Pedro II (1879). Os bailes públicos passaram também a tomar conta da cidade, não só nos salões, mas em lugares mais acessíveis ao povo, como o Parque Fluminense, o Teatro Lucinda, a Maison Moderna e os rinques de patinação, onde se realizavam bailes sobre patins. Depois vieram os bailes em Copacabana (1906), e os do Clube High-Life (1908), na rua Santo Amaro, no Catete. Esses bailes carnavalescos eram animados com polcas, valsas, quadrilhas, habaneras, o schottish (futuro xote) e o cake-walk norte-americano.

Em 1848 surgiu o Zé Pereira. Apesar de alguns autores o considerarem de origem relativamente incerta, há quem afirme que este personagem foi o cidadão português José Nogueira de Azevedo Paredes, um sapateiro que decidiu sair à rua durante os dias de folia tocando um bombo (hoje conhecido como surdo). Extinto no começo do século XX, o Zé Pereira teve como sucessores as cuícas, os tamborins, os pandeiros, as frigideiras e etc. Há até quem diga que através desta manifestação surgiram os Blocos de Rua, já que o povo o acompanhava por onde ele passasse.

Até o aparecimento das primeiras escolas de samba, e seu conseqüentemente predomínio como manifestação popular, a maior atenção do carnaval de rua foi o desfile dos préstitos, das chamadas Grandes Sociedades, o que ocorreu pela primeira vez em 1855. O desfile de carros alegóricos teve seu início naquele ano com o surgimento do Congresso de Sumidades Carnavalescas, primeira das Grandes Sociedades no carnaval carioca. Em seguida vieram outras associações como a União Veneziana, os Zuavos Carnavalescos e a Euterpe Comercial, de onde se originaram os Tenentes do Diabo. Essas sociedades desfilavam ao som de ópera com alegorias, fantasias luxuosas, críticas e sátiras ao governo e espirituosos pufes (uma espécie de desafio guerreiro, composto em versos, que as sociedades lançavam uma às outras) e adotavam como temas os acontecimentos mais em evidência na época.

No começo de 1900 a Rua do Ouvidor era o ponto máximo do carnaval da cidade, mas a partir de 1907 as atenções voltaram-se para a Avenida Central (Rio Branco, a partir de 1912), que tornou-se o palco nobre do carnaval carioca e por onde desfilaram as Grandes Sociedades, os Ranchos Carnavalescos e o Corso.

Em meados do século XX, os blocos e os cordões, núcleos que originaram os ranchos e as escolas de samba, entraram em declínio. O espírito daquele período chegou ao clímax em blocos como o Bafo da Onça e Cacique de Ramos, assim como sobrevive através da primeira música especialmente composta para o carnaval, mais precisamente para o Cordão Rosa de Ouro: a marchinha Ô Abre Alas! (1899), de Chiquinha Gonzaga.

A Deixa Falar, do bairro do Estácio, é considerada, historicamente, a primeira escola de samba do Rio de Janeiro. Fundada no dia 12 de agosto de 1928, reuniu “bambas” do samba como Ismael Silva, Alcebíades Barcelos (Bide) e Nilton Bastos. No entanto, há quem afirme que a agremiação foi, na realidade, um bloco carnavalesco e, mais tarde, rancho. O título de escola de samba teria sido conquistado por ter sido fundado por sambistas considerados “professores do novo tipo de samba”. Depois vieram a Estação Primeira de Mangueira (28 de abril de 1928), a Unidos da Tijuca (31 de dezembro de 1931) e tantas outras.

O surgimento de várias agremiações acabou despertando a idéia de uma disputa entre elas. Foi o jornalista e diretor do Jornal Mundo Sportivo, Mário Filho (a quem também é atribuído à criação da crônica esportiva moderna no Brasil e a construção do Estádio do Maracanã, cuja obra acabou recebendo seu nome), que criou, em 1932, o primeiro desfile das escolas de samba, realizado na Praça Onze, e introduziu o regulamento na competição. A repercussão foi tão grande que no ano seguinte o desfile passou a fazer parte do programa oficial do carnaval.

Em 1934, as agremiações se apresentaram no Campo de Santana, em homenagem ao Prefeito Pedro Ernesto e decidiram fundar a União das Escolas de Samba. Naquele mesmo ano surgiu o primeiro Rei Momo, chamado na ocasião de “carne e osso” pelo fato de estar representado por uma pessoa e não mais por um boneco de papelão.

Em 1935, as escolas de samba foram oficialmente reconhecidas e tiveram que legalizar suas situações na Delegacia de Costumes e Diversões, onde receberam alvará de funcionamento e foram registradas como Grêmios Recreativos, passando a receber subvenção da prefeitura. A partir daí, surgiram várias entidades com o objetivo de organizar ainda mais os desfiles como a União Geral das Escolas de Samba, a Federação das Escolas de Samba e a União Cívica das Escolas de Samba. Em 1952 com a fusão da Federação e da União Cívica deu-se origem à Associação das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (AESCRJ).

Em 1960, Fernando Pamplona e sua equipe - Dirceu e Marie Louise Nery, Arlindo Rodrigues e Nilton Sá - iniciaram no Salgueiro um trabalho que revolucionou a estética dos carnavais das escolas de samba com o enredo Quilombo dos Palmares. No ano seguinte, a Mangueira também inovou e levou para a avenida amplificadores para sonorizar o samba cantado por Jamelão.

Em 1962, a construção de arquibancadas na Avenida Rio Branco e a venda de ingressos ao público deram início a um processo de comercialização irreversível. No ano seguinte, o desfile foi transferido para a Avenida Presidente Vargas atingindo o auge do romantismo. O lançamento do primeiro LP de sambas-enredo, em 1968, marcou o surgimento do investimento artístico do espetáculo e a “invasão” do ritmo nos salões. Em 1975 a Empresa de Turismo do Município do Rio de Janeiro S/A - Riotur), criada três anos antes, estabeleceu um novo critério de pagamento às agremiações carnavalescas, que passaram a assinar um contrato de prestação de serviços. A partir de 1976, a Beija-Flor quebrou a hegemonia das “quatro grandes” (Portela, Mangueira, Império Serrano e Salgueiro) e conquistou um tricampeonato.

As escolas de samba desfilaram em vários palcos, cujas estruturas (as arquibancadas, em especial) eram montadas e desmontadas a cada ano. A falta de um lugar específico fez com que as apresentações migrassem para vários pontos do Centro do Rio de Janeiro: Praça Onze, Candelária, Mangue e avenidas Rio Branco, Presidente Vargas, Presidente Antônio Carlos, Graça Aranha e Marquês de Sapucaí. Embora cada um desses locais tenham ambientado momentos importantes da história e do crescimento do carnaval carioca, foi justamente a evolução dos desfiles que requisitou uma infra-estrutura à altura do espetáculo: um palco fixo por onde pudessem passar as escolas de samba, as grandes estrelas do nosso carnaval:.

A Avenida dos Desfiles, popularmente chamada de Sambódromo, hoje por lei denominada Passarela do Samba foi projetada pelo arquiteto Oscar Niemayer e fica localizada no coração da cidade, na rua Marquês de Sapucaí. Construída em apenas 120 dias, sua estrutura reúne números bastante expressivos: são 700 metros de extensão por 13,5 de largura, capacidade para receber quase 60 mil pessoas por dia, cerca de 300 banheiros e 35 bares. A criação desse local definitivo para os desfiles das escolas de samba, idéia defendida pelos sambistas, tornou-se realidade no dia 02 de março de 1984, ano em que também teve início uma nova era na história do carnaval carioca com a fundação da Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA). As dez maiores agremiações desligaram-se da Associação das Escolas de Samba e passaram a fazer parte dessa nova entidade sob a denominação de Grupo Especial. A partir daquele ano, a LIESA passou a ser responsável por toda a parte artística do desfile deste grupo, cabendo a Riotur os procedimentos legais para a sua realização. As demais escolas continuaram a ser subordinadas à Associação das Escolas de Samba e, conseqüentemente, a Riotur.

A idéia da criação da LIESA partiu da iniciativa de Aílton Guimarães Jorge (Vila Isabel), Aniz Abrahão David (Beija-Flor), Djalma Santos (Mangueira), Luizinho Drumond (Imperatriz Leopoldinense), Miltão do Salgueiro e Carlinhos Marcanã (Portela) com o aval de Castor de Andrade (Mocidade Independente de Padre Miguel). A ata de fundação é datada de 24 de julho de 1984, e daquela reunião participaram os presidentes do Salgueiro, Beija-Flor, Mocidade Independente, Mangueira, Vila Isabel, Portela, Caprichosos de Pilares, Imperatriz Leopoldinense, Império Serrano e União da Ilha. Foram presidentes da LIESA: Castor de Andrade, Aniz Abrahão David, Paulo de Almeida, Jorge Luiz Castanheira, Djalma Arruda e Aílton Guimarães.

Sob a organização da Liesa, o desfile das escolas de samba alcançou um outro patamar. Várias foram as mudanças e as conquistas das escolas de samba, o que, em conseqüência, engrandeceu o carnaval carioca. As agremiações passaram a receber participação na venda de ingressos, nos direitos de transmissão dos desfiles para o Brasil e exterior e no merchandising da avenida; os desfiles passaram a ter hora exata para começar e acabar, isso só para citar algumas destas conquistas.

A máxima de que o carnaval é o maior espetáculo da terra não é lugar comum, é fato. O desfile das escolas de samba cresceu, e muito! E para acompanhar essa evolução os responsáveis pelo carnaval acertaram em cheio quando abriram os olhos e as mentes e decidiram valorizar, ainda mais, a concepção desse evento. Os sambistas agradecem: agora o samba não agoniza e, conseqüentemente, não morre.

 

 * Texto escrito especialmente para a revista da Beija-Flor, janeiro de 2002.

 

Revista Eletrônica INFORMATIVO GRD - ANO V Edição 09 - Janeiro / Junho- 2004
Rio de Janeiro, 06 de março de 2004.

http://www.geocities.com/grdclube


Voltar
Hosted by www.Geocities.ws

1