OS 12 SENTIDOS E O SENTIDO DO MOVIMENTO

 

Prof.Dr.Darcymires do Rego Barros

Especialização em Neurofisiologia da Motricidade

 

 

Mesmo beneficiados pela revolução da informática e pela potencialização dos conhecimentos adquiridos pela Década do Cérebro, os manuais escolares, as emissoras de televisão, os artigos da imprensa e outros meios de comunicação ainda persistem em descrever os cinco sentidos.

 

A utilização pelos treinadores e pedagogos da expressão "o sentido do movimento", revela uma riqueza de conhecimento que Pierre Bourdieu denomina de "conhecimento prático".

 

Este conhecimento prático emerge da vivência e dos conhecimentos desenvolvidos por Rudolf Steiner, Pierre Bourdieu e Alain Berthoz.

 

O sentido do movimento é o sexto sentido, denominado por Steiner de cinestésico, não somente está ligado a um dos receptores dos órgãos sensoriais como também à visão, à audição, ao tato, ao paladar e ao olfato.

 

Os receptores sensoriais musculares e articulares controlam os movimentos das partes do corpo e proporcionam o sentido da posição e a velocidade dos gestos e movimentos.Os receptores sensoriais da força nas articulações, dão sentido à força combinada com os comandos motores e propiciam o sentido do esforço.

 

Os receptores vestibulares possibilitam o domínio dos movimentos da cabeça, graças aos canais semi-circulares que controlam as rotações e os órgãos do equilíbrio da orelha interna (otólitos), que por sua vez orientam os movimentos de translação e inclinação da cabeça em relação à gravidade integrada à visão.É a cooperação de todos esses receptores sensoriais que constituem o sentido do movimento.

 

Ao debruçar-se sobre uma ponte por onde passa um rio, a pessoa tem a impressão de progredir, de avançar, porque a visão possibilita a cadência do movimento do próprio corpo em relação ao espaço visivel, propiciando a sensação de deslocamento.

 

O sentido de orientação determina efetivamente uma direção, uma orientação, é também denominado sentido vertical, fundamental na coordenação dos movimentos.

A sensação processa-se na percepção de excitantes sensoriais que penetra no cérebro de uma forma global, por meio dos órgãos dos sentidos, com suas características específicas dominantes.O cérebro estabelece suas mensagens em função dos objetivos que lhes proporcionam sua ação.

 

A cooperação entre os sensores é permanente.As informações visuais e vestibulares se completam para restituir o deslocamento da cabeça no espaço.Ao iniciar o movimento, os captores (sensores) vestibulares respondem bem rápido, porque eles detectam a gravidade, a informação tátil da planta dos pés, assim como os conhecimentos internos que o cérebro tem da direção do eixo do corpo, além da aceleração, mas que cessa de assinalar o movimento desde que apresente uma velocidade constante.As informações visuais e vestibulares sobre o movimento fusionam em muitos lugares do cérebro: os núcleos vestibulares, o tálamo, o córtex parietal, o córtex insular, o córtex frontal, etc.Isto permite explicar as propriedades inesperadas de certos neurônios.

 

Os neurônios da direção da cabeça, que nos orientam num plano particular do espaço, nos permitem perceber, mesmo na escuridão, nossa orientação.Eles não detectam o movimento, mas a posição estática.

 

O cérebro possui a capacidade de optar pela informação mais adequada para indicar a direção do corpo no espaço.

 

É sem dúvida que a partir das informações vestibulares e dos dados fornecidos pelo sistema visual sobre a localização do ponto de referência no meio ambiente que eles atingem a orientação da cabeça.São dectetadas muitas estruturas cerebrais: tálamo, corpos mamilares, post-subiculum, etc.

A cooperação entre a visão e os sensores vestibulares é particularmente colocada a prova em casos de conflitos.

 

Assim, o sentido do movimento implica também o conhecimento da direção do corpo e do movimento no espaço.

 

Cada movimento está ligado à uma ação que tem uma finalidade, um significado, um sentido, uma ação intencional.Pois o movimento é sempre a expressão de uma intenção.

 

Para Berthoz (1997)

 

“Cada gesto, mesmo o gesto desportivo é carregado de significação.Expressa além do desejo de ir mais longe, mais alto, mais rápido, aquele de vencer obedecendo as regras impregnadas de cultura, de história e de tradição.”

 

Acrescenta ainda que mesmo inconsciente o humano expressa as emoções ou disfarçar as intenções, como por exemplo, no judô as posturas são ao mesmo tempo eficientes como também exprimem ameaças; no esgrima a finta dissimula o ataque; no basquetebol um passe olhando para outro lado, dissimula a intenção.

 


Cada movimento é um signo e cada cultura interpreta em cada lugar esses signos à sua maneira.Nos jogos coletivos como o basquetebol, o handebol, o futebol, o volibol e outros, os gestos e movimentos são signos que os jogadores trocam entre si, como uma verdadeira linguagem.

 

A razão de fazermos um estudo sobre os sentidos deve-se ao fato de que, em qualquer trabalho é necessário a clareza quanto ao que seja experiência.O sentido do movimento possui uma importância primordial no sucesso do praticante do ato psicomotor devido a sua complexidade e profundidade.

 

Este como fenômeno físico e psicológico tem sua ocorrência inicial pela atuação dos órgãos dos sentidos.Paralelos a estes, desenvolvem-se em cada ser humano, os chamados sentidos espirituais, mais conhecidos pelos orientais como: "flores de lotus" ou "chakras" e citados na obra de Rudolf Steiner, "Como se obtém o conhecimento dos mundos superiores.”

 

            Rudolf Steiner foi o primeiro a elaborar a descrição dos 12 sentidos.Um estudo em diferentes abordagens sobre os sentidos, também pode ser encontrado nas obras de Karl Konig, Lauer, Treichler e Willi Aepli.

 

            Ao agrupar os sentidos, Steiner procura estabelecer sua ligação com o QUERER, SENTIR e PENSAR.

 

É necessário estabelecer a distinção entre sensação e percepção.Os sentidos nos dão a sensação.A percepção é a consciência de uma sensação.Portanto, um órgão do sentido nunca percebe, "sente"!

 

Muitas vezes passamos por uma rua e de repente dizemos: "Como é que nunca vi esta árvore ? Na verdade viu toda vez que passou por ela, mas até esse momento, você não a tinha percebido !

 

Essa distinção é importante para depois entender-se o caminho da experiência.

 

A percepção processa-se na pessoa ou organismo regido pela excitação dos receptores sensoriais.É influenciada por outros fatores decorrentes da história vital do organismo.

 

O esquema corporal é uma representação global e única do corpo, provavelmente situado no córtex parietal, que governa a organização da postura e da coordenação.A postura e os movimentos são controlados a partir da percepção do conjunto do corpo e esta percepção é organizada pelo cérebro, em sua totalidade, a unidade do próprio corpo e de suas relações com o meio ambiente.

 

Todo conhecimento deriva da percepção de excitantes sensoriais que penetra no cérebro de uma forma global, por meio dos órgãos dos sentidos, com sua característica específica dominante.

 

O processo complexo e organizado, de cognição, memória e afetividade (“conación”) coloca em evidência os três aspectos das associações, recordações e sentimentos.

 

OS  12  SENTIDOS

 

INFERIORES OU

  VOLITIVOS

 MÉDIOS OU

  EMOTIVOS

  SUPERIORES OU

  INTELECTUAIS

 

 QUERER                    SENTIR                                     PENSAR

  tato                            paladar                                     audição

  vital                            olfato                                        linguagem

 equilíbrio                      térmico                                     perspectiva alheia

 cinestésico                  visão                                        pensamento do outro

 

 Atuam sobre:

 

 QUERER 

  SENTIR

      PENSAR

Percepções: do

próprio corpo

  do Mundo

  da outra pessoa

 

Relacionam:

 

   CONSIGO

   MESMO

 COM O MEIO

 CIRCUNDANTE

  COM O SEU

  SEMELHANTE

 

Estão ligados:

   EU + EU

 EU + O MUNDO

 EU + O OUTRO

 

 

A Visão

 

Quando queremos ver, estamos buscando a sensação da luz.Mas não é a luz que nós encontramos.

Temos apenas a sensação de suas manifestações que são as cores.A luz é totalmente invisível.Sabe-se de sua existência por enxergarmos os objetos iluminados.A luz só se revela por suas obras...

 

A luz é uma realidade não acessível aos sentidos físicos.Assim como o magnetismo, a luz só é conhecida por seus efeitos.É importante entender que o sol, uma lâmpada ou fogo, normalmente considerados como fontes primárias de luz, na verdade são objetos iluminados pois a luz pura promove o processo de combustão.E, no entanto, mesmo sua luz, no vácuo é invisível.Goethe fiz em sua obra que...”as cores resultam do sofrimento da luz em contato com a matéria...”

 

Nosso olho, portanto, desenvolve-se para a sensação de superfícies coloridas, ou seja, superfícies iluminadas.É importante saber que a sensação de forma ou movimento não é dada pela visão pois, se assim fosse, um cego não teria essas sensações.O olho é um poderoso auxiliar do sentido do movimento.

 

A visão informa nossa posição no espaço, enquanto os sensores vestibulares detectam a inclinação da cabeça e modificam o tratamento da mensagem visual.

 

O cérebro trata as informações visuais do movimento por meio de dois módulos que apresentam papel essencial.No sistema ótico acessório, as informações são decompostas segundo os três planos ortogonais: Encontra-se aqui o núcleo do trato ótico – NTO – que codifica os movimentos horizontais.O segundo módulo implica massiçamente os dois hemisférios cerebrais: a imagem do objeto em movimento é transmitido da retina ao córtex visual (áreas V1, V2, V3), depois ao córtex médio-temporal (MT e MTS), levando ao campo óculomotor frontal (COF), que por esta via permite a procura ocular do alvo.

(continua na próxima edição)

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

                                               

Berthoz, Alain.Le Sens du Mouvement.EPS n.º 268.pp.9-14, nov./dec.1997.

Tradução e adaptação de Darcymires do Rego Barros

Steiner, R.Economia Viva (palestras de 24/7 a 6/8/22, trad.H.Wilda).São Paulo

Steiner, R.Ciência Espiritual e Questão Social.São Paulo: Ed.Antroposófica, Ed.Antroposófica e WIDAR, 1995

Steiner, R.O Futuro Social.São Paulo: Ed.Antroposófica, 1995

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