Admirável
Gado Novo
(Zé Ramalho)
(Aumente o volume
do som para ouvir a canção)

Vocês
que fazem parte dessa massa
que
passa nos projetos do futuro
é
duro tanto ter que caminhar
e
dar muito mais que receber.
E
ter que demonstrar sua coragem
à
margem do que possa parecer
e
ver que toda essa engrenagem
já
sente a ferrugem lhe comer.
|
Eh!... ô... ô...
vida de gado
|
Povo marcado eh!... povo feliz!
Lá
fora faz um tempo confortável
a
vigilância cuida do normal
os
automóveis ouvem a notícia
os
homens a publicam no jornal
e
correm através da madrugada
a
única velhice que chegou
demoram-se
na beira da estrada
e
passam a contar o que sobrou.
|
Eh!... ô... ô...
vida de gado
|
Povo marcado eh!... povo feliz!
O
povo foge da ignorância
apesar
de viver tão perto dela
e
sonham com melhores tempos idos
contemplam
essa vida numa cela
esperam
nova possibilidade
de
verem esse mundo se acabar
a
Arca de Noé, o dirigível
não
voam nem se pode flutuar.
Não voam nem se pode flutuar...
|
Eh!... ô... ô...
vida de gado
|
Povo marcado eh!... povo feliz!
VEJAM
QUE IMAGEM INTERESSANTE E CURIOSA:

|
O MATADOURO MUNICIPAL por Tennessee Williams
Moça (Quando o rapaz
pára) - É aqui que vai ser? Rapaz - É.
Agora vá embora. Você está chamando a atenção para nós. Moça - Não dá
para você ficar atrás do muro? Rapaz - É
claro que não. Tenho que correr para a rua para ter a certeza de não
errar. (Ele dá um beijo
rápido e duro na garota.) Agora vá embora. Moça - Não
precisava ser você! Rapaz - Pare
com isso! Moça -
Poderia ter sido alguém mais velho, alguém feio ou doente. Rapaz (Tirando
relógio de pulso e anel) - Leve essas coisas. Agora vá embora.
Há um homem olhando para nós. Atravesse pelo parque na próxima esquina.
Vá! (Ele chuta os pés da
moça. Ela sai correndo, em lágrimas. Depois de um ou dois minutos, um
funcionário de escritório de meia-idade aparece na calçada e se aproxima
do estudante.) Rapaz - O que
é? Funcionário -
Você teria a gentileza de me explicar o caminho para o Matadouro
Municipal? Rapaz - O
senhor falou o -? Funcionário -
O Matadouro Municipal. Parece que perdi o endereço e já estou
atrasado. Rapaz - O
senhor trabalha no Matadouro? Funcionário -
Oh, não, oh, não, eu sou -quero dizer,- eu era até ontem funcionário
do Departamento Nacional de Economia, mas fui demitido e hoje fui
condenado. Rapaz - Foi
condenado por quê? Funcionário -
Há vários motivos possíveis. Fiz uma coisa tola na semana passada.
Passei em frente a uma loja de tabaco e, na vitrine da loja, havia uma
engenhoca de arame -uma gaiola de arame que girava. Havia um bichinho lá
dentro, um esquilo ou algo assim, que corria, corria sem parar na gaiola
e parecia assustado. Ele me pareceu estar em pânico, então eu fui muito
tolo: entrei na loja e falei com o proprietário sobre o bichinho naquela
gaiola que girava. Perguntei se o animal em algum momento saía daquele
eixo giratório ou se ele era obrigado a correr sem parar. O homem da
loja, o proprietário, ficou enfurecido com minhas perguntas -ele me
pegou pelo casaco, arrancou minha carteira do meu bolso, anotou meu
nome, endereço e o lugar onde eu trabalhava e disse que me faria
condenar por meter o bedelho em algo que não era de minha conta. Acho
que ele deve ter feito isso, já que me mandaram ir ao Matadouro
Municipal. Mas há outro motivo possível. Quando minha filha foi
convocada para o Prostíbulo Municipal, eu -eu fiz,- eu escrevi um apelo
ao... Rapaz - O
senhor recebeu um aviso por escrito? Funcionário -
Não, não, apenas ... Apenas um telefonema. Rapaz - Pode
ter sido apenas uma brincadeira cruel que alguém fez com o senhor. Acho
que deve ter sido isso, senão teriam ido até sua casa e o levado preso.
Teriam levado o senhor até o Matadouro de caminhão. Funcionário -
Eles nem sempre fazem isso mais. Às vezes a pessoa apenas recebe
ordens de estar no Matadouro a tal hora e ela -ela vai lá. Me disseram
que, se você chega atrasado, eles tornam as coisas mais difíceis para
você lá -eles demoram para acabar com tudo. Rapaz - O
senhor tem uma moeda de dez centavos no bolso? Funcionário -
Não, deixei meu dinheiro todo com minha mulher. Rapaz - Aqui
está uma moeda de dez centavos. Há um bonde na próxima rua que atravessa
esta. Pegue aquele bonde até o mais longe que ele for em qualquer
direção. Então desça e ande. Não pare de andar. Funcionário -
Esse não deve ser o caminho para o Matadouro Municipal, com certeza.
Afinal, o Matadouro não pode estar nas duas direções. Rapaz - O
senhor alguma vez já saiu para caçar? Com arma? Funcionário -
Sim, na época em que faltou carne meu filho e eu fomos caçar
coelhos. Rapaz - O
senhor tem mira boa? Numa distância curta? Funcionário -
Tenho, mas- Rapaz - Eu o
aconselho a criar coragem, respeitar a si mesmo como homem, ir o mais
longe que puder do Matadouro Municipal com a moeda de dez centavos que
lhe dei, e então -sumir. Funcionário -
Você é jovem e pensa assim porque não é funcionário municipal há
mais anos do que é capaz de contar. Rapaz - Seu
corpo, cortado e moído por uma máquina de moer e vendido em latas para
ser comido por qualquer zé-ninguém, sem falar na sua mulher, seus filhos
e seus cachorros. Funcionário -
Você não vê que estou apavorado? Eu poderia ter tentado protestar,
apelar, mas, sabe o que é? Quando eu tinha sua idade eu fui pacifista!
Então agora, eu não... Não vejo maneira alguma de evitar, de optar por
outra coisa. Não tenho outra escolha, realmente, e afinal, agora que
estou desempregado e virei indesejado em minha casa, eu- Rapaz - O
senhor tem família? Funcionário -
Sim, tenho mulher e- Rapaz - O que
sua mulher acha de o senhor ir para o Matadouro Municipal? Funcionário -
Ela acha o mesmo que eu -que não tenho escolha possível. Rapaz - Uma
escolha é uma coisa que o senhor precisa inventar por conta própria,
então vá até o próximo semáforo, espere o bonde, suba no bonde e fique
nele até onde ele for. Já lhe dei esse conselho de graça, já lhe dei o
dinheiro para o bonde, e não há mais nada que eu possa lhe dar ou fazer
pelo senhor. Funcionário -
Sim, sim, eu sei, obrigado, mas será que você poderia me informar
onde fica o Matadouro Municipal? Rapaz - Sim,
eu poderia, mas não vou. Funcionário -
Você é a única pessoa que conheço, se é que posso dizer que o
conheço, que não acha que eu devo ir para lá. Rapaz - Que
diabos, então vá para lá, vá, se o senhor já perdeu a capacidade de
escolher qualquer coisa por si mesmo. Mas vou lhe dizer uma coisa. O
senhor está ouvindo o desfile que está chegando perto? (Ouve-se música de
banda à distância.) Rapaz - O
desfile está vindo para cá, e eu vou interrompê-lo com esse meu pequeno
instrumento de interrupção. Sinta-o no meu bolso (ele pega a mão do
funcionário e a coloca em seu bolso). Funcionário -
É uma -? Rapaz - Sim,
é um revólver com seis balas. Funcionário -
Não, não, não, jogue atrás do muro. Eles vão matar você a tiros se
-! Rapaz - Que
homenzinho assustado o senhor é -e, no entanto, me perguntou o caminho
para o Matadouro Municipal. Funcionário -
Eu faço o que me mandam fazer, vou onde me mandam ir, nunca
questiono as instruções que recebo. Rapaz - Bom.
Eu vou lhe dar as instruções. Sou seu comandante agora. O senhor é meu
escravo. Funcionário -
Como sou seu escravo? Rapaz - Por
ordem recebida, agora mesmo. Olhe nos meus olhos, direto nos olhos, e
pense em sua filha no Prostíbulo Municipal, sendo usada por homens
doentes e sujos. Ela cobriria o rosto se o senhor algum dia voltasse a
vê-la, porque sua pele estaria coberta de- Funcionário -
NÃO, NÃO, NÃO! Rapaz - Faça
o que estou mandando! Pegue esta bandeira ensanguentada em uma mão, este
revólver na outra, e tome cuidado para que a bandeira esconda o
revólver. O senhor está me entendendo? Funcionário -
Sim, mas- Rapaz - O
senhor vai fazer exatamente o que estou dizendo. O senhor é meu escravo,
eu sou seu comandante. Vamos lá. O desfile vai passar por aqui daqui a
um minuto, mais ou menos. O carro do general é o primeiro atrás das
motocicletas. O senhor entende? Funcionário -
Sim, mas- Rapaz - Só
diga sim. Nada de "mas". Funcionário -
Sim. Rapaz - Bom.
Quando a primeira limusine estiver prestes a passar por aqui, o senhor
vai gritar "viva, viva!" e agitar a bandeira, e, ao mesmo tempo, correr
para o meio da rua. Antes de lhe pararem, o senhor vai esvaziar este
revólver no rosto e no peito do general, bem rápido, o mais rápido que
puder. Ok? Entendeu? Funcionário -
Sim. Rapaz - Será
mais rápido e mais fácil para o senhor do que comparecer ao Matadouro
Municipal na hora marcada, e seu nome e sua foto vão parar nas primeiras
páginas de todos os jornais do mundo. Entendeu? Funcionário -
Sim. Rapaz - Então o deixarei aqui. Mas lembre-se: meus olhos e os olhos do mundo inteiro estão sobre o senhor. Por acaso, simplesmente por ter feito uma pergunta a um desconhecido na rua, sua vida sem sentido foi escolhida para a glória, e sua morte, para ser a morte de um herói. Adeus. Me dê um abraço. (Ele puxa o
funcionário para seus braços e então o empurra de volta.)
Querido escravo, santo imortal, mártir e herói! (Ele parte, passando
sobre o muro baixo atrás da calçada. O desfile se aproxima, ruidoso). Funcionário (agitando
bandeira) - Viva, viva, viva, viva, viva, viva, viva, viva! (O barulho do desfile
desaparece aos poucos). Funcionário
(dirigindo-se à platéia) Será que vocês teriam a gentileza de me
indicar o caminho para o Matadouro Municipal? Não quero me atrasar. Eles
tornam as coisas mais difíceis para você se você não chega na hora...
Oh, está bem. Vou anotar. Obrigado! (Ele tira uma
caderneta de um bolso e anota o endereço, enquanto as luzes se apagam.) Este texto foi
publicado originalmente na revista "Harper's". A peça também foi
publicada no livro "Mister Paradise", uma coletânea das peças em um ato
de Tennessee Williams lançada em maio pela "New Directions", pela
primeira vez. Acredita-se que Williams tenha concluído a peça no final
da década de 1960. Copyright - 2005 University of the South. |