"Ainda não deu certo"
"Nosso
subdesenvolvimento não foi improvisado.
Ele é um trabalho sistemático de cinco séculos”.
Nélson Rodrigues (1912-1980), jornalista e escritor.
Em meio milênio de carreira, o Brasil não materializou o país do futuro
vislumbrado por Stephan Zweig. Mas escapou do crachá de cortiço do mundo no
ano 2000, que lhe foi pendurado no pescoço, em 1968, pelo futurólogo Herman
Kahn, brilhante e redondo como bola de cristal. Até porque foi o PIB que mais
cresceu neste último século, segundo estudos de economia comparada do Banco
Mundial.
Cresceu para quem, cara-pálida de remorso? Em 1993, o mesmo Banco Mundial
atribuiu ao Brasil o Índice Gini 0,61. Índice bolado pelo demógrafo italiano
Corrado Gini (1884-1965) para mensurar o processo de concentração de renda na
economia e na sociedade. Pois o Gini 0,61 concedeu ao Brasil, naquele ano, a taça
de chumbo da renda social mais concentrada do mundo.
Dessa marcha batida para o abismo fomos salvos pelo Plano Real. Nosso Gini
baixou, piedosamente, para 0,57 no relatório de 1998. No ranking universal da
desigualdade, evoluímos do 178º para o 112º lugar. Com direito a um avanço
no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da ONU, de 69º para 58º lugar,
entre 1993 e 1996. Neste 500º aniversário da Terra de Santa Cruz, analistas de
meio mundo capitulam a pátria nossa como um desperdício terráqueo, do tamanho
de 8,5 milhões de quilômetros quadrados rico de recursos e pobre de riquezas.
Riqueza nacional, na definição de Claude Levi-Strauss, é o recurso
transformado em alimentação, saúde, moradia, saneamento, educação,
pesquisa, trabalho, emprego, cultura, lazer, segurança, justiça, solidariedade
e futuro.
Com nosso estoque de auto-estima perto de zero, fizemos da caça ao bode expiatório
um esporte nacional que hoje, no balanço dos achados de Cabral, o distraído, dá
mais espaço na mídia que o do país do futebol, da gandaia e do carnaval. O
mais novo bode expiatório dos nossos vazios e desvios de cinco séculos é o
confessionário da paróquia na praça ao lado.
Assinado: Thomas Skidmore, historiador americano de 69 anos e “brazilianist”
convicto desde 1960. Nas páginas amarelas da Veja (19/04/2000), ele não deixa
por menos e sapeca que a culpa não é do capitalismo; a culpa é do
Catolicismo. Comparando a opulência dos Estados Unidos com a ainda indigência
do Brasil (duas nações que partiram ao disparo do mesmo tiro na mesma raia do
“Novo Mundo”), Skidmore simplifica tudo na vitória do Protestantismo sobre
o Catolicismo. Na linha do “espírito do capitalismo” teorizado pelo sociólogo
alemão Max Weber (1864-1920), guru intelectual de FHC.
Sem remorso
Eis o tortuoso raciocínio de Skidmore na Veja sobre o atraso do Brasil: “O
protestante (americano), como diria Calvino, nunca sabe se será salvo ou não.
O católico, cuja moral predomina na cultura brasileira, sabe que será salvo a
cada missa de domingo. Ele vai até o padre, consegue uma absolvição para os
pecados e volta feliz para casa. Livre para pecar mais uma semana”.
Perdão divino
Para o “brazilianist” da Brown University, a elite americana tem sentimento
de culpa. É um traço do Protestantismo. Ela sabe que não terá absolvição
num simples ato de confissão. A elite brasileira, não. Ela confia no perdão
divino aqui na Terra e comete injustiças sob o manto da indulgência celestial.
Que tal?
Uma fatalidade
Diz ainda Skidmore: “Não existe ideal de desigualdade no Brasil. Os pobres não
acreditam no direito a uma vida melhor. Culpam o destino e ficam na ladainha do
“o senhor é que sabe”, a “senhora é que manda”. E tudo se resume no
“se Deus quiser”.
Fonte: “Gazeta do Sul”, Santa
Cruz do Sul, RS, 22.04.2000, p. 13
Thomas Elliot Skidmore (1932- , Ohio, EUA).
Diretor do Centro para Estudos Latino-Americanos e professor de História
Moderna Latino-Americana e Estudos Brasileiros e Portugueses da Universidade de
Brown, EUA. Considerado o maior brasilianista da atualidade, além de escrever
sobre América Latina, é um historiador especializado em temas brasileiros. É
autor de Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco, 1930-1964 (1975), Preto
no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (1976), Brasil:
de Castelo a Tancredo, 1964-1985 (1988), O Brasil visto de Fora
(1994) e Uma História do Brasil (2000).