Fim do comunismo torna Islã
atraente
- REALI JUNIOR
- PARIS – O fim do
comunismo criou um vazio ideológico. O Ocidente viveu, desde 1945, com a idéia
de que só ele reunia os bons valores e o Leste representava os maus. O
problema é que o mal acabou e não foi substituído por nada. Essa é a
grande fraqueza do mundo ocidental, mesmo porque a economia de mercado não
é um sistema de valores sobre o qual será possível construir a sociedade
do futuro. É por isso que o Islã constitui hoje o grande pólo de atração
para certos povos: seus valores não são apenas comerciais, mas também
morais.
- A análise é da
historiadora Heléne Carrére D‘Encausse, membro da Academia Francesa de
Letras e uma das maiores especialistas em questões do Leste Europeu. Nessa
entrevista ao Estado, Heléne confirma que o século que termina foi o da
ascensão e queda do comunismo, o do fim de uma utopia e de uma ilusão, e o
que começa será de natureza diversa, “bem mais prudente”, como diz.
Heléne, que substituiu recentemente o acadêmico Maurice Druon na Academia,
como secretária da instituição, aproveita o encontro para falar do tema
que lhe é mais caro: a Rússia. Em 1978, essa ex-professora do College de
France, previu o fim do comunismo na obra L’Empire Eclaté. Entusiasta,
ela adverte quem imagina que a Rússia permanecerá muito tempo como uma potência
de segunda classe e diz que os norte-americanos sabem que não podem virar
as costas ao país. A seguir, trechos de sua entrevista:
- Estado – Quais os
acontecimentos mais marcantes do século 20 e quais as previsões para o 21?
- Heléne Carrére
D‘Encausse – O século 20 foi marcado pela ascensão e queda do
comunismo. Isso já é interessante porque o comunismo jamais imaginou que
fosse acabar no século em que nasceu. Ao contrário, a idéia é que se
expandiria pelo mundo. Trata-se do fim de uma utopia e de uma ilusão, mesmo
que ainda existam ilhas de comunismo, como Vietnã, China e Cuba. O próximo
século será diferente, e de ilusões políticas menos fortes. No século
20, vivemos a esperança do progresso contínuo. No próximo, os homens serão
mais prudentes sobre suas possibilidades de viver melhor e mais
democraticamente.
- Além disso, o século
20 foi o de duas guerras mundiais. Na virada deste século, essas guerras
totalmente destrutivas não são mais possíveis, mas os homens continuam
seu embate por meio de pequenas guerras. Essa foi também outra ilusão
perdida. A partir de 1945, os homens diziam “jamais uma guerra” e todos
pensavam que as guerras não mais fariam parte das relações humanas. Hoje,
sabemos que elas continuam fazendo parte dessas relações, mas de forma
mais periférica.
- Estado – Esse tipo
de guerra constitui uma tendência?
- Heléne – Sim.
Diria que esse foi o século do fim de uma ilusão mas também o século do
nascimento de outra ilusão. E ela não parte do ocidente, mas sim do Islã.
Como especialista em Rússia vejo esse progresso do Islã, que não surge
como convicção religiosa, mas como uma verdadeira “Internacional” do
movimento islâmico. Como se sabe, o império de Maomé foi a primeira
encarnação de uma ideologia na terra. Depois da derrota dos herdeiros do
profeta não houve nada até o comunismo, como império nascido de uma
ideologia. Hoje, é o Islã e essa tendência se acentua por meio do
aparecimento de repúblicas muçulmanas na Europa, como a Bósnia, o Kosovo
e a Albânia. O sonho dos chechênios é a criação de um grande Estado muçulmano.
Do outro lado vemos o Afeganistão com a mesma evolução até a fronteira
chinesa e a África, onde o Islã também progride.
- Estado – Norberto
Bobbio fala de uma nova utopia quando trata dos novos desafios da humanidade
no século 21, o que a senhora diz disso?
- Heléne – Sim,
existem utopias que nascem. Uma delas, a utopia dos direitos do homem
constatou o fracasso de todos os projetos políticos e a perseguição da
felicidade da Humanidade. Isso acabou sendo substituído pela utopia da
moral na política. Sou muito prudente sobre esse tema. Acredito que essas
utopias não são apoiadas por uma vontade política muito forte. O que não
é utopia, mas é muito importante e todos devem prestar atenção, é esse
progresso do Islã. Ele é fundado num sistema político e numa concepção
da relação entre os homens e o poder.
- Estado – Quer dizer
que após o fim do comunismo essa é a ideologia que se pode vislumbrar?
- Heléne – Sem
nenhuma dúvida é o Islã. Há uma vocação espiritualista no processo.
Existem duas razões para isso. A primeira é que o mundo ocidental –
principalmente a Europa e os Estados Unidos – considerou que a história
lhe pertencia. Basta olhar os mapas para se verificar que sempre olhamos o
mundo a partir de nós mesmos. Hoje, a história se deslocou e os países
mais importantes não são os mesmos. A segunda razão é que o mundo
ocidental fisicamente está em declínio. Se olhamos a Europa, constatamos
que ela não mais é européia, mas sim multicultural, apesar de não ousar
afirmar sua identidade. No início, a identidade européia era o continente
europeu e sua história de valor moral tinha origem na ética judeu-cristã.
Hoje em dia não é mais o caso. Em compensação, em outras regiões, como
no Islã, predominam valores mais espirituais do que materiais.
- Estado – Uma década
após o fim do comunismo, qual o balanço a ser feito dos países do Leste?
- Heléne – O balanço
é difícil, mas positivo. Não é fácil sair de um sistema totalitário de
75 anos, que atingiu três gerações, que foram educadas no comunismo. Mas
o balanço é positivo porque a democracia saiu vitoriosa. Quando se observa
que na Rússia 60% dos eleitores foram votar, apesar de um inverno rigoroso,
essa participação indica uma pedagogia democrática vencedora. A segunda
vitória foi a constatação de que as instituições democráticas se
instalaram no país, queiram ou não. As eleições estão sendo realizadas
regularmente, embora os votos sejam de protesto em razão das difíceis
condições de existência. Mas, sem dúvida, os votos não referendam
golpes de estado. No campo econômico, o processo é lento, mas, apesar de
todos os defeitos do sistema – a miséria, a corrupção, privatizações
mal feitas –, houve transformação e a economia de mercado sobreviveu.
- Estado – A corrupção
e a máfia não contribuíram para agravar o quadro russo?
- Heléne – Sempre
temos os olhos fixos nesses fenômenos da corrupção e da máfia. A verdade
é que esse é apenas um aspecto do quadro, mas atrás de tudo isso existe
uma economia de pequenos empresários que se instala, uma classe média que
cresce. Nesses oito anos a transformação foi muito grande.
- Estado – Alguns
analistas acreditam que a situação na Rússia pode evoluir para uma forma
de autoritarismo, mesmo descartando a volta ao comunismo...
- Heléne – Isso
corresponde ao desconhecimento do que é a Rússia. As instituições democráticas,
no fim do século 20, constituem um freio a essa evolução. Não se pode
confundir um certo autoritarismo do poder com uma marcha na direção do
totalitarismo. Para ser mais clara, na Rússia existe uma Constituição que
não é excelente, pois dá muitos poderes ao presidente. Só que ela não
foi inventada unicamente pelos russos, mas muito aconselhada pelos
norte-americanos e, sobretudo, pelos franceses. Isto é, nós ocidentais,
oferecemos o nosso próprio modelo. E já que tratamos de corrupção, esse
é um fenômeno amplo, atinge vários países. Em todo caso, as eleições
legislativas e a Douma (Parlamento) podem modificar a Constituição que,
repito, não é a ideal. Não se pode esquecer que o presidente Yeltsin é
um homem originário do aparelho comunista, com tendência a governar com um
certo autoritarismo. Nestes oito anos de experiência democrática, a Rússia
mostrou que está apegada a esse sistema. Os russos votaram por um homem,
Wladimir Poutine, que parece disposto a continuar o processo de reformas e
defender a integridade territorial do país.
- Estado – A senhora
acredita na formação democrática do primeiro-ministro Wladimir Poutine,
cuja carreira foi forjado nos órgãos de segurança e os serviços secretos
do país?
- Heléne – Muitas
desconfianças nascem da ignorância de quem são os homens na Rússia.
Poucos são os que prestam maior atenção no verdadeiro percurso de certos
homens. Ora, não é por acaso que ele é apoiado pelos reformadores. Hoje,
vemos uma aliança se desenhando entre o partido de Poutine e o do
ex-primeiro-ministro Kirienko, conhecido como reformador.
- Estado – É possível
analisar as conseqüências da passagem pelo poder de homens como Gorbatchev
e Yeltsin?
- Heléne – Cada um
fez o que podia, pelo menos para preparar as mudanças. Gorbatchev é, sem dúvida,
um comunista de coração e assim permanece, pois nunca aceitou o fim do
comunismo. Ele foi colocado no poder para salvar o regime comunista e não
para destruí -lo. Fez o melhor que podia não para instalar a democracia,
mas para tornar o sistema comunista mais aceitável e eficaz; acabou
recuando quando percebeu que as transformações ameaçavam liquidar o
comunismo. Se ele não estivesse tão ligado ao comunismo, talvez tivesse
podido preparar o fim da União Soviética em melhores condições, evitando
sua decomposição.Quanto a Boris Yelstin, outro filho do comunismo, apesar
de Gorbatchev sempre dizer que ele não liquidou o comunismo por convicção,
mas apenas para tomar seu lugar, o que é possível, chegou ao poder dizendo
que o comunismo estava morto. Ele teve a intuição e a inteligência de que
o comunismo havia chegado ao fim e que, para salvar a Rússia, era preciso
se livrar do império. Isso eu ouvi ele dizer pessoalmente em 1989: “O império
acabou e é preciso se livrar dele para salvar a Rússia.” Ele cumpriu sua
promessa. Por isso, diria que Gorbatchev talvez seja mais inteligente, mais
culto, mas que seu instinto político foi insuficiente. Sua convicção
comunista impediu que ele cumprisse o papel que começou. Já Boris Yeltsin
é muito mais intuitivo. Ele acabou de mostrar isso nas eleições
legislativas e apostou na instalação da democracia na Rússia. Em oito
anos instalou a economia de mercado, substituindo uma economia administrada
que durou 75 anos. Numa fase de dificuldades foi obrigado a recuar, mas
atualmente está relançando as reformas e seu candidato à sua própria
sucessão, Wladimir Poutine, parte favorito. Gorbatchev quis entrar para a
história como o homem que quis dar ao comunismo uma visão humana, enquanto
Yeltsin quer entrar para a história como o homem que instalou a democracia
na Rússia.
- Estado – Os anos de
crise trouxeram o atraso para a Rússia?
- Heléne – A Rússia
tem duas vantagens, uma econômica e outra humana. Economicamente tem
recursos consideráveis, uma vez superada a fase da catástrofe. A presença
de importantes recursos naturais permite a esse país um desenvolvimento a
partir de seus próprios meios, exatamente como os Estados Unidos. A segunda
vantagem são os recursos humanos, uma sociedade com um alto nível de educação,
especialmente científica. A Rússia tem meios para decolar novamente. Sua
grande fraqueza é a qualidade de vida. Militarmente, o país está
arruinado, mas não tem intenção de abandonar seus elementos de potência
militar. Por enquanto, a Rússia atravessa uma fase de transição, a da
sobrevivência, mas em segundo lugar virá a da reconstrução. Acredito que
para restabelecer um certo equilíbrio vão ser necessários ainda dez anos.
Só depois a Rússia poderá reconquistar a posição, não de grande potência,
mas de uma certa potência.
- Estado – Acha que a
Rússia poderá integrar a União Européia?
- Heléne – Penso que
a União Européia deverá cooptar a Rússia de alguma forma, mas ela não
terá interesse de integrar esse bloco. Uma Rússia renascida vai constituir
um pólo de atração fantástico. Se a UE tivesse tentado integrá-la mais
cedo, muito provavelmente essa seria uma força para a Europa, mas agora é
um pouco tarde. Queiram ou não, a Rússia se considera um pouco diferente e
importante.
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- Fonte:
http://txt.estado.com.br/edicao/especial/perspe/isla.html
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