A
PAZ VERDADEIRA
Por
Antonio Miguel Kater Filho

Dou-vos a paz, deixo-vos a minha Paz. Talvez, uma das causas do nosso desânimo,
frente as nossas preces, aparentemente não atendidas, seja, a confusão que
fazemos entre a paz que tanto pedimos, com a paz que Deus quer nos dar e Jesus
nos ofereceu. Mas, poderiam retrucar alguns, existem diferenças entre elas?
Afinal a paz que almejamos não é a mesma que Jesus nos propôs, ou seja, a ausência
de guerras, problemas, conflitos, ódio e dificuldades?
Durante um tempo, também pensei que ambas eram a mesma coisa e pedi, em oração,
por esta paz mundana, até que, um dia, percebi o que Jesus queria nos ensinar,
quando nos falou sobre a Sua Paz. Aliás, no Evangelho de João, Ele sugere que
há diferenças entre a Sua Paz, e a proposta de paz do mundo, quando
afirma:" Deixo-vos a paz, dou- vos a minha paz. Não vo-la dou como o mundo
a dá. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize"... Jo 14,27.
Realmente, o mundo aponta como modelo de paz, desejada pelos povos, raças e nações,
a ausência de guerras, discriminações, preconceitos e tantas outras diferenças
éticas, sociais ou raciais, que geram os conflitos mundiais. Esta utópica, e
desejável, situação, realmente, seria a consolidação da paz que a
humanidade poderia, e deveria, alcançar, se cada ser humano mantivesse em seus
corações, a Paz que vem de Deus. A paz do mundo, e no mundo, será, um dia, a
decorrência natural da Paz, pessoal e individual, de cada um de nós, filhos e
filhas de Deus.
Porém, a Paz que Jesus nos sugere, não é, obrigatoriamente, a ausência de
problemas, dificuldades, perseguições, dores e conflitos em noss as vidas, mas
sim a capacidade de enfrentarmos esses dissabores em paz, sem nos desesperarmos
ou perdermos a confiança em Deus. Podemos até passar por situações de
terrível pressão ou tensão, sem necessariamente perdermos a paz, conforme
Jesus passou, como contam os Evangelhos.
A Paz que Jesus nos fala, é fruto da confiança irrestrita que devemos ter nas
promessas de Deus, em especial, na certeza da Ressurreição e na esperança de
vida eterna, prêmio final para aqueles que procuraram viver sob a luz de Sua
Lei e de seus mandamentos. Esta paz, que deve ser cultivada em nossos corações,
vem da certeza de que Deus, que tudo vê e tudo percebe, nos protege, nos guarda
e nos quer felizes, mas não significa necessariamente que, para que ela ocorra,
Ele precise nos preservar das tribulações presentes, aliás, provações,
muitas vezes, decorrentes da própria presença desta Paz em nós e que tanto
incomoda os nossos opressores.
Ciente disso, Jesus nos preveniu sobre a incidência de tribulações em nossas
vidas, ao afirmar: "No mundo haveis de ter aflições. Coragem! Eu venci o
mundo”.Jo 16,33.
Para que a paz do mundo se realize, é necessário existir a Paz de Deus, no
coração das pessoas que nele vivem, mas, a recíproca não é obrigatória
pois a Paz que vem de Deus pode, e deve, perfeitamente estar presente em nossas
vidas, mesmo que a paz do mundo ainda não esteja consolidada!
Aí está o paradoxo da fé, pois é fácil, para qualquer cristão, crer em
Deus, declarar que O ama, orar, participar fielmente das celebrações
religiosas, enfim cumprir os mandamentos da Lei, quando tudo vai bem em sua vida
ou, se ele não precisa enfrentar provações, dificuldades, perseguições e
privações, que nos perturbam e nos roubam a paz.
A grande prova de amor que podemos dar ao Pai, é Amá-lo e Louvá-lo sempre,
mesmo diante de terríveis tribulações, sem nos desesperarmos, numa demonstração
de fé e de confiança, que nos garantem a legítima paz. Jesus, frente as
mais complexas situações aflitivas ou mesmo sob um clima de terror e opressão,
não deixou que a Paz se afastasse de seu coração.
Atentem para o Seu diálogo com Pôncio Pilatos (Jo 18, 28-40.19 , 1-2) quando,
diante de falsas acusações em um iníquo interrogatório, seguidos de um
julgamento leviano e de uma sumária condenação, Ele, em momento algum, perde
a Paz, apesar das terríveis circunstâncias desfavoráveis daquela hora.
Quando os fariseus, procurando incriminá-lo pelas palavras, apresentam a Ele a
mulher flagrada em adultério, pressionando-o para que se manifeste e se
comprometa, percebemos a sua tranqüilidade ao abaixar-se e, em silêncio,
rabiscar a areia com o dedo, descontraidamente. Isso é uma evidência da Paz
que reinava em seu coração naquele tenso momento.
No episódio de sua prisão, quando Judas, acompanhado dos soldados que vieram
para prendê-lo e conduzi-lo para o iníquo julgamento que o condenaria à morte
(Ele já o sabia, pois o declarara momento antes, na última ceia, aos seus
amigos), sua atitude, pelo diálogo apresentado na narrativa dos quatro
evangelistas, é a de uma pessoa que estava em Paz, mesmo diante da iminência
dolorosa do Calvário e de uma humilhante morte na cruz.
A exemplo de Jesus, devemos manter a Paz em nossos corações, mesmo frente as
dificuldades inesperadas. Diante da dor da enfermidade, diante das humilhações
e nas perseguições, diante das injustiças e das calúnias, enfim diante de
tudo que possa nos magoar, ferir, intimidar, perturbar, ameaçar e incomodar, não
devemos perder a paz, pois, sem ela, tudo pode se complicar, tornando as coisas,
aparentemente, piores do que o são.
Na ausência da paz vemos dissipar a esperança, sem esperança rapidamente
perdemos a fé e sem fé, nossas vidas perdem o sentido, fazendo de nós pessoas
sem rumo, desorientadas e ao sabor das perigosas e traiçoeiras vagas do mundo.
Portanto, quando Jesus ressalta a importância de mantermos a Paz, Ele quer
mostrar que, sem ela, não conseguiremos levar adiante o projeto que Deus tem
para as nossas vidas. Projetos que, muitas vezes, para nosso amadurecimento e
purificação, passa, necessariamente, pelo calvário ou pela cruz, até
completar o seu curso definitivo.
Para enfrentarmos isso precisamos da Sua Paz, prova é que, quando, pela
primeira vez, Jesus aparece, Ressuscitado, aos seus discípulos, reunidos e
trancados, com medo dos judeus, suas palavras iniciais são: A Paz esteja
convosco, e, diante da eufórica alegria demonstrada, Ele repete: A paz esteja
convosco! Jo, 20 19-20.
As primeiras palavras pronunciadas pelo Mestre Ressuscitado, aos temerosos discípulos,
foram uma benção de Paz, por que sem ela, eles não teriam conseguido levar
adiante o plano de Deus, iniciado após a Sua Ressurreição e, continuado por
eles, até os nossos dias.
Nos Atos dos Apóstolos podemos observar, pela serenidade visível dos atos de
Pedro e Paulo, seus mais ilustres personagens, a presença contínua da Paz de
Jesus, extensiva também a todos os outros membros daquela comunidade emergente
que nascia, e rapidamente crescia, mesmo nos momentos mais aflitivos e dolorosos
de sua difícil implantação.
E assim tem sido, ao longo desta caminhada de 2.000 anos do Cristianismo, com
todos aqueles que, por suas vidas, santificaram-se, cada um ao seu modo,
anunciando e testemunhando ao mundo a sólida fé cristã. Poderíamos citar
alguns nomes célebres entre milhares, como Francisco de Assis, Antonio de Pádua,
Tereza Davila, Teresa de Calcutá e tantos outros que impregnaram seus corações
desta paz que vem de Deus, para enfrentar as infinitas provações pelas quais
passaram, testemunhando assim a genuína fé.
Seguindo o exemplo deixado por eles, devemos também aprender com Jesus a
desenvolver, em nossos corações, a Paz que vem de Deus, independentemente da
existência de paz mundana ao nosso redor, pois só assim conseguiremos nos
manter no Caminho que Ele nos colocou.
Devemos nos espelhar n'Ele imitando suas atitudes, enfrentando com coragem as injustiças e dificuldades, sem nunca abrirmos mão da verdade, enfrentando o mal sem medo, mas ao mesmo tempo sem perdermos a Paz, como Ele o fez, até no momento derradeiro da Cruz, quando ao Pai entrega o Seu Espírito, em Paz, concluindo assim a Sua missão aqui na terra.