Peça teatral em quatro atos
Texto de Roberto A. Martins
QUARTO ATO – CENA 1
| [Fica em cena apenas Asclépio, pensativo, saindo do Museu.] | |
| Asclépio | Creio que ela achou o que queria. Vocês devem saber que os loucos possuem uma força extraordinária. Além disso, os que não são impotentes são verdadeiros garanhões. Ela vai chegar facilmente às suas estrelas. |
| [O Mecânico está parado, em um canto; Asclépio se aproxima dele.] | |
| Asclépio | Quem não vai gostar disso é o Mecânico. Olá! Escute, você é impotente? |
| Mecânico | Não estou entendendo. |
| Asclépio | Você funciona? Ou é "brocha"? |
| Mecânico | Você resolveu encher o saco de todo mundo, não é? |
| Asclépio | Sabe que Anita está sexualmente insatisfeita? E que agora deve estar trepando como louca, com um louco? |
| Mecânico | Você não tem mais nada a fazer? Vá inventar estórias em outro canto. Não venha me colocar mais problemas na cabeça, porque já tenho muitos. |
| Asclépio | Bem, se preferir não acredite. Até logo. |
| [Asclépio sai.] |
QUARTO ATO – CENA 2
| [O Mecânico fica parado, no mesmo lugar, imaginando o que pode estar acontecendo. Pensa que o Professor quer apenas enganá-lo, mas de vez em quando começa a ter ciúmes e a temer que seja verdade. A luta interna se manifesta em seu rosto. O Mecânico ficará visível, parado, pensando, até a cena seguinte.] | |
| [Enquanto isso, na outra metade do palco, passa-se uma cena entre Anita e Rômulo. Ouve-se uma gravação com suas vozes, com as falas abaixo, enquanto aparece a representação muda do ritual de iniciação entre eles, em um palco vazio, e ao mesmo tempo a projeção de imagens do mesmo ritual realizado por eles ao ar livre, no campo. ] | |
| Anita | Vamos, faça algo bonito. Quero aprender a fazer o que você faz. |
| Rômulo | Você não pode fazer o que eu faço. Pode fazer o que você faz. |
| Anita | Faça qualquer coisa, quero ver. |
| Rômulo | Está vendo isto? O que é? |
| Anita | É um tubo. |
| Rômulo | Não. é Uma montanha. Você não vê corretamente. Tente de novo. |
| Anita | Agora você já disse, é uma montanha. |
| Rômulo | Mas você não viu isso. E já não é mais, ou melhor, não é só isso. O que mais é? |
| Anita | Não sei. Acho que é um bonito tubo enferrujado. |
| Rômulo | Não vê estas cascas? É o tronco de uma árvore! |
| Anita | Sim, tem alguma semelhança. Mas para que serve esta brincadeira? Qualquer resposta vale? |
| Rômulo | Claro que não. Isto não é um lago. Mas é a sua coluna vertebral. |
| Anita | Já sei... isto é uma cobra! [apalpa e sente o tubo] |
| Rômulo | Isso! Você já está entendendo! |
| Anita | Não, não estou entendendo... mas agora me parece um peixe... essas são as escamas... um peixe que vai saltar da água! |
| Rômulo | Exatamente! |
| Anita | É uma coisa incompreensível: é uma montanha, é uma serpente, é uma árvore... |
| Rômulo | É o arado que fecunda a terra. Trate-o com carinho. O mundo inteiro depende dele. |
| Anita | Como cuidar dele? |
| Rômulo | É preciso untá-lo com manteiga ou saliva, e esfregá-lo bem. |
| Anita | E o que faremos com ele? |
| Rômulo | Agora que você o conhece, podemos fazer algo. Em que posição ele deve ficar? |
| Anita | De pé, é claro. |
| Rômulo | Sim. Mas não na vertical. Inclinado para o Norte. |
| Anita | A base está ligada à terra... |
| Rômulo | No topo há o verde... |
| Anita | Acima há as nuvens, que cercam o cume! |
| Rômulo | Dentro, há o fogo sagrado, que brota de sua ponta. |
| Anita | Lindo! Lindo! |
| Rômulo | Tronco divino, seja-nos propício. |
QUARTO ATO – CENA 3
| [Somem Rômulo e Anita. O Mestre se aproxima do Mecânico.] | |
| Mestre | Senhor Mecânico, estamos seriamente preocupados com sua esposa. |
| Mecânico | Sim? O que foi? Asclépio andou lhe contando besteiras, também? |
| Mestre | Asclépio? Não. É que eu a vi brincando junto com um louco. Enterravam um tubo velho no chão, e o cobriam com folhas e flores. E ela parecia estar gostando daquilo, levando a sério. |
| Mecânico | Ora, isso não tem nada demais. |
| Mestre | Bem, só queria avisá-lo. Passar bem. [O Mestre sai.] |
QUARTO ATO – CENA 4
| [O Mecânico fica pensando. Anita e Rômulo se tornam novamente visíveis, no mesmo lugar. Depois de algum tempo o Mecânico, sai para procurar Anita. Passa por perto de onde ela e Rômulo estão, sem vê-los. Enquanto isso, Anita e Rômulo representam uma cena de solidão e busca mútua. São projetadas as imagens correspondentes, e ouve-se a gravação das vozes.] | |
| Anita | Esta esfera oca é a lua |
| Rômulo | É um poço, também. Em seu fundo existe água. |
| Anita | Mas não tem fundo. É um túnel sem fundo, a alma da Terra, em cujo fundo se vê o céu. |
| Rômulo | É uma boca. Eis os dentes. |
| Anita | Ela engole a alma dos mortos. |
| Rômulo | É uma gota de água do mar. |
| Anita | É uma concha. Nela existe uma pérola. |
| Rômulo | Há tesouros brilhantes, lá dentro. |
| Anita | Sua superfície está porejada de gotas de suor. |
| Rômulo | Ela engole essas flores azuis. |
| Anita | Aqui está um espelho. E ela é o seu próprio reflexo. |
QUARTO ATO – CENA 5
| [Rômulo e Anita continuam visíveis. O Mecânico e Asclépio entram em cena, de pontos diferentes, e se encontram.] | |
| Mecânico | Eu fui procurar Anita, e não a encontrei. |
| Asclépio | Ela estava no museu. Deve estar lá perto. |
| Mecânico | procurei por toda a cidade, e não a vi. |
| Asclépio | Vamos procurá-la, juntos. Eu sei onde ela está. |
| [Saem Asclépio e o Mecânico.] |
QUARTO ATO – CENA 6
| [Continua a cena de Anita e Rômulo. Eles se encontram, e seus braços e mãos começam a se ligar. Ao mesmo tempo, são vistas as projeções das imagens e ouvem-se as gravações de suas vozes.] | |
| Anita | Esta corrente transmite o movimento de um lado para o outro. |
| Rômulo | É a ponte de energia entre o Céu e a Terra. |
| Anita | O Céu fecunda a Terra com a chuva que desce. |
| Rômulo | Desce por um tubo de luz uma cadeia de flocos de cristal. |
| Anita | Da Terra crescem as flores, que agradecem aos Céus a chuva. |
| Rômulo | Sobem vapores, e a água retorna ao Céu. |
| Anita | Céu e Terra estão interligados e unidos. |
| Rômulo | Isso são os ramos e as raízes que se espalham e ligam a árvore ao mundo. |
| Anita | É a luz que liga nossos olhos. |
QUARTO ATO – CENA 7
| [Rômulo e Anita continuam visíveis. O Mecânico e Asclépio entram em cena, juntos, e passam por perto de Anita e Rômulo, sem vê-los.] | |
| Asclépio | Onde podem ter se metido? |
| Mecânico | É estranho... deveriam estar aqui! Sinto que estão próximos. Mas não os encontro. |
| [Mecânico e Asclépio saem] |
QUARTO ATO – CENA 8
| [Continua a cena de Rômulo e Anita, que se beijam, no prosseguimento do ritual, com projeção de imagens e vozes gravadas.] | |
| Anita | Quem é ele? |
| Rômulo | Este, a quem coloco no alto e adoro, é o Sol. Veja como brilha. É de ouro vivo. [Uma roda ou engrenagem] |
| Anita | Sinto o calor de seus raios em mim... não posso tocá-lo, ele me queimaria! |
| Rômulo | Ele a ferirá e matará se você se aproximar dele de modo incorreto. Você deve se aproximar pela frente. E adorá-lo, antes de tocá-lo. |
| Anita | Senhor, amigo, meu calor, fonte de meu fervor! Aqui estou eu, e quero mergulhar em sua luz, e receber e sentir pulsar em mim sua energia! Seja-me gentil, pois sei que pode destruir-me! |
| Rômulo | Os outros que o vêem podem não reconhecê-lo. Vamos mostrar quem ele é. Vamos colocar seus raios, que fazem brotar a erva dos campos. |
| Anita | Seus raios são feixes de trigo. |
| Rômulo | Seu brilho são as flores brancas que brotam de sua face. |
| Anita | Ó Sol, meu deus, não há outro mais belo! |
| Rômulo | Ele nos sorri, vê? Ele nos agradece nosso carinho. Já o adoramos. Até logo, mestre e amigo! |
| Anita | Até logo, meu Senhor! |
QUARTO ATO – CENA 9
| [Em cena, Anita e Rômulo param de beijar-se. Separam-se um pouco, dão-se as mãos, e caminham pelo palco, amorosos. A projeção e a gravação terminaram. Anita separa-se de Rômulo e examina as coisas que estão à sua volta. Eles falam, em cena:] | |
| Anita | Estou entendendo cada uma das peças... mas isso são partes. E a máquina completa? Não podemos construir a Grande Máquina? |
| Rômulo | A Máquina! Você quer montá-la? |
| Anita | Sim, queria. Gostaria de ver o conjunto, a unidade. |
| Rômulo | A máquina! Você quer montá-la! Há quantos séculos esperei por este dia, o dia em que encontraria uma companheira para a Grande Obra! A partir de agora, você terá um novo nome: vai se chamar Iza. E este nome significará: "Aquela que busca o Infinito". |
| Iza | Iza... eu me chamo Iza! |
| Rômulo | Estou aqui há tanto tempo, apenas para montar a Grande Máquina... e só agora alguém me pede isso... nós a montaremos, Iza. |
| Iza | Vamos reunir todas as peças! |
| Rômulo | Sim, vamos correndo. Hoje mesmo ela estará pronta! |
| Iza | Por que você ainda não a montou? |
| Rômulo | Não posso fazer isso sozinho. Duas pessoas precisam morrer para montá-la. Uma só não poderia. |
| Iza | Então, vamos morrer? Mas eu quero viver! |
| Rômulo | Não tente entender e parar o movimento! Vamos! |
| Iza | Vamos! |
| [Iza e Rômulo saem.] |
QUARTO ATO – CENA 10
| [Entra o Mecânico, pensativo e cansado; em um canto, surgem Ana e Nelson; estão agachados.] | |
| Mecânico | Já quase terminou a noite, e não os encontrei... Parece que se evaporaram, ou passaram para uma outra dimensão. É como se... sei lá o que está acontecendo... |
| Ana | [sussurrando] Mecânico! |
| Nelson | [sussurrando] Ouça! |
| Ana | Nós vimos os dois! |
| Nelson | Estavam no museu! |
| Mecânico | Mas como!? Passei por lá várias vezes! Estavam escondidos? |
| Ana | Não. |
| Nelson | Sim. |
| Ana | Estavam lá. |
| Nelson | Junto ao saguão. |
| Mecânico | Lá no saguão do museu não há lugar onde eles pudessem se ocultar. Eu os teria visto. |
| Ana | Eles não quiseram ser vistos por você. |
| Nelson | Estavam reunindo todas as peças da Grande Máquina. |
| Ana | Eles vão montá-la. |
| Nelson | Ou já montaram. |
| Mecânico | Se ela está lá, vou buscá-la. |
| Ana | Não vá. |
| Nelson | Asclépio está lá. |
| Ana | Ele os observa. |
| Mecânico | Anita não veio para casa, esta noite. Não vou ficar esperando. Vou procurá-la. |
| Ana | Anita não existe mais. |
| Nelson | Mas quando ela morreu, nasceu Iza. |
| Ana | E em breve não terá mais nome. |
| [Entra Asclépio, pensativo.] | |
| Asclépio | Eu os vi, Mecânico. Estão no Museu. |
| Mecânico | E o que estão fazendo lá? Por que não trouxe Anita? |
| Asclépio | Nem pensei nisso. Só fiquei observando. [pausa] Estavam montando a Grande Máquina. |
| Mecânico | E o que me interessa isso? Você se esqueceu de que estávamos procurando Anita para trazê-la de volta para casa? |
| Asclépio | Ela certamente não viria, a não ser a força. E isso eu não faria. |
| Ana | Ela não viria, a não ser a força. |
| Nelson | Mas isso Asclépio não faria. |
| Ana | Foi por isso que ele os viu. |
| Mecânico | Vou até lá. [O Mecânico sai.] |
| Asclépio | Que coisa estranha estavam fazendo... tudo loucura, mas não consigo parar de pensar nisso, é como se houvesse um sentido... |
| Ana | [do escuro] Havia um sentido. |
| Nelson | Faziam coisas estranhas. |
| Asclépio | Tratavam as peças com carinho, conversavam com elas e as uniam de acordo com regras absurdas... pela semelhança de gosto, de textura, de forma... |
| Ana | As peças estão vivas. |
| Nelson | Eles lhes deram almas. |
| Asclépio | Adicionaram flores, e depois começaram a colocar-se no meio da própria montagem... prendiam peças ao corpo, e entravam no mecanismo... |
| Ana | Eles fazem parte da máquina. |
| Nelson | É tudo uma só coisa. |
| [Nelson e Ana somem.] |
QUARTO ATO – CENA 11
| Asclépio | Passaram horas assim sem perceber que eu os observava, ou talvez sabendo. Não crio que as conexões que fizeram possam funcionar, mas tudo isso me deixou impressionado. Gostaria de entender... é como se houvesse algo oculto, por trás disso... |
| [Entra o Mecânico, devagar, carregando uns papéis. Pára.] | |
| Mecânico | Asclépio! |
| Asclépio | Não os encontrou? |
| Mecânico | Não... não estavam lá. |
| Asclépio | Você deve estar cego! |
| Mecânico | Mas havia algumas coisas escritas, por lá... nas paredes, em um papel, no chão e em uma folha seca. Parecia escrito com sangue. Era a letra de Anita. |
| Asclépio | E o que estava escrito? |
| Mecânico | Eu os copiei. Ouça:
"A obra está completa. A união foi perfeita, e agora o que está dentro é como o que está fora." "Aproxima-se a grande luz. Eu tremo de medo, de ansiedade, e no entanto vou a seu encontro. Ela me queima, me destrói, e agora eu também sou luz." "Agora começa tudo. A grande caminhada em direção à outra margem, que consegui antever. Não serei serpente, cavalo ou leão. Aquilo que não tem nome, isto serei." "Já deixo este mundo. Adeus, meu Mecânico! Adeus, Asclépio, Marta, Anita. Sigo meu sonho, e caminho em direção à mata e às estrelas." |
QUARTO ATO – CENA 12
| [Aparecem Nelson e Ana.] | |
| Nelson | Atravessaram a barreira. |
| Mecânico | Foram para o pântano! |
| Ana | A Grande Máquina desapareceu. |
| Mecânico | Foram-se! Anita enlouqueceu totalmente! |
| Asclépio | Não creio. Não, nenhum dos dois está louco. Não são como nós, mas não são loucos. |
| [Entra Marta; o Mecânico não os ouve, em sua dor.] | |
| Marta | O que aconteceu com Anita? |
| Asclépio | Ela e Rômulo passaram a noite montando a Grande Máquina. E montaram. Agora, atravessaram a fronteira. |
| Marta | Mas não devem estar longe. Não se pode impedi-los? |
| Asclépio | Não. Não podemos alcançá-los, Marta. Olhe, deixe-me tentar explicar. Acho que estou entendendo. Não compreendo os detalhes, mas sei que eles estão mais corretos do que nós todos. Veja, Marta, eles em um dia conseguiram o que eu sempre desejei! Aquilo que eu julgava impossível, eles o fizeram. Atingiram a perfeição e a beleza, e, por meio disso, a felicidade. |
| Marta | Mas como conseguiram isso? |
| Asclépio | É complicado demais, ou simples demais, para se entender conceitualmente. Eles usaram as partes da mente e do corpo que nunca pensei em utilizar. Usaram o inconsciente, as emoções, as intuições. Usaram suas bocas, sua pele e cabelos. Usaram tudo para montar a Máquina, e agora estão libertos. Rômulo talvez já o fosse. Agora, Anita também está. Anita, não. Foi Iza quem se libertou. |
| Marta | E o que é a Máquina? |
| Asclépio | Ela não tem importância, e não existe, sem eles. Somente sua construção importa. E cada pessoa precisaria descobrir como montá-la. |
| Marta | Você estava certo, então, sobre a finalidade da Máquina? |
| Asclépio | Não, eu não a entendia corretamente. Agora acho que a compreendo, mas posso dizer muito pouco. Ela serve para unir ao universo, ela permite participar das energias e da grande evolução cósmica. Ela destrói a estagnação, quebra as barreiras e leva ao novo mundo. |
| Mecânico | Só o que sei é que estão longe. Seguiram seu sonho, e ultrapassaram a fronteira. Talvez estejam mortos. Ou enlouqueceram, agora. |
| Marta | Você não acredita nisso. Finge acreditar, mas não crê. Você pensa que estão loucos, desde o início. |
| Mecânico | Talvez. Mas se eles voltassem eu tentaria entendê-los. |
| Marta | Entendê-los como Asclépio? |
| Mecânico | Talvez. [pausa] Ou talvez como Yuri. |
| Marta | Yuri? |
| Yuri | Sim. Este é o meu nome. |
| Asclépio | "Se eles voltassem..." Para que pensar nisso? Tivemos uma oportunidade, e não aprendemos tudo o que podíamos. |
| Marta | Eles voltarão. Eu sei. |
| Asclépio | É bom sonhar. |
| Marta | Um dia, eu gritarei: "Eles voltaram, Asclépio!" |
QUARTO ATO – CENA 13
| [Entram os três Jograis] | |
| Jograis | Eles voltaram, Asclépio! |
| Asclépio | Quando? Onde estão? |
| Jogral 1 | Rômulo e Iza. |
| Jogral 2 | Chegaram à aldeia. |
| Marta | Como estão eles? |
| Jogral 1 | Felizes. |
| Jogral 3 | Poderiam estar diferentes? |
| Jogral 2 | Penduraram à janela do Mestre uma linda pedra, envolta em cipós e flores vermelhas. |
| Jogral 3 | Eles trazem notícias do outro mundo. |
| Asclépio | O que dizem eles de lá? |
| Jogral 1 | Dizem que não existe. |
| Jogral 2 | Que todo o universo está aqui. |
| Jogral 3 | Que não há pântano a atravessar. |
| Yuri | Isso não é possível. E todos os loucos que já vieram até aqui? |
| Jogral 1 | Rômulo diz que não são loucos. |
| Jogral 2 | E que jamais vieram de lugar algum. |
| Jogral 3 | E, de fato, eles são como nós. |
| Yuri | Mas onde estão eles? Quero vê-los, quero ver como está Anita. |
| Jogral 1 | Anita morreu. |
| Jogral 2 | Esqueça-se dela. |
| Yuri | Quero entendê-los. Quero que me guiem e me mostrem o seu mundo. |
| Jogral 1 | Podemos levá-lo. |
| Jogral 2 | Mas eles não guiarão. |
| Jogral 3 | Certamente que não. |
| Yuri | Serão capazes de me desprezar, assim? Olhem, é preciso dizer-lhes que só desejo aprender, que nada de mau tenho contra eles. |
| Jogral 1 | Podemos dizer-lhes. |
| Jogral 2 | Mas eles nada ensinarão. |
| Jogral 3 | Certamente que não. |
| Yuri | Terei me enganado com eles? Como podem deixar de aceitar-me? Digam-me, eles têm raiva de mim? |
| Jogral 1 | Não, eles não tem. |
| Jogral 2 | Eles gostam de você. |
| Jogral 3 | Ficarão felizes por vê-lo. |
| Yuri | Então, por que não poderão me dar a felicidade, se eles a atingiram? Por que não me guiam, por que não me ensinam a ser como eles? |
| [Entram Iza e Rômulo.] | |
| Rômulo | Se não existe um guia, como pode haver alguém guiado? |
| Iza | Se não há o que aprender, como poderíamos ensinar? |
| Rômulo | Nós nada temos, a não ser amor. |
| Iza | Dê-me um abraço. Nada mais nos peça. [Abraça Yuri.] |
| Rômulo | Você de nada precisa. |
| Asclépio | É bom vê-los de volta. Somente agora entendi o que vocês fizeram. |
| Iza | E o que fizemos? |
| Asclépio | Não adianta explicar. Se eu tentar, vocês vão me deixar confuso, e dizer que não é. Mas não é preciso explicar. Está tudo certo. Vocês montaram a Grande Máquina. |
| Marta | Onde está ela? |
| Rômulo | Aquela? Aquela não interessa mais. |
| Marta | Onde vocês a deixaram? |
| Rômulo | Ela está aqui. |
| Iza | Há outras a montar. A aldeia está cheia de coisas e de pessoas desconexas. |
| Rômulo | Não há um fim, no tempo. |
| Iza | A montagem deve prosseguir, sempre nova, a cada instante, com novas pessoas e novas peças. |
| Rômulo | Vi sempre-vivas perto do chiqueiro. E uma linda garrafa quebrada ali fora. |
| [Saem os Jograis, Rômulo, Iza. Vão para a saída do teatro, onde ficarão "brincando" com flores, peças, etc. Yuri pensa um pouco, depois os segue.] |
QUARTO ATO – CENA 14
| [Marta e Asclépio estão em cena. Silêncio. ] | |
| Marta | Por que não vai junto? |
| Asclépio | Estou pensando. |
| Marta | Mas você sabe que não basta pensar. |
| Asclépio | Eu sei. Mas estou pensando. |
| Marta | Você não quer aprender com eles? |
| Asclépio | Sim. Quero. |
| Marta | Não quer. Não pode. |
| Asclépio | Eu quero. |
| Marta | Não. Não é capaz. Não adianta. |
| Asclépio | Por que não? |
| Marta | Porque você os entendeu. Segui-los, agora, não seria uma loucura. Seria jogar com cartas marcadas. |
| Asclépio | Sim. Eu compreenderia o que ocorresse. Mas ficaria de fora. |
| Marta | Isso não seria honesto. |
| Asclépio | Isso não funcionaria. Isso... sei lá. De fato, não posso ir com eles. Para isso, precisaria entrar em sua loucura, e não consigo. Só consigo entendê-los e admirá-los. |
| Marta | Sim. Eu também não posso ir. |
| Asclépio | Você é minha irmã. É como eu. |
| Marta | Sim. Pensamos do mesmo modo. Não daria certo. |
| Asclépio | Mas muita gente pode ir. |
| Marta | Sim. Muitos dos que estão aqui. Podemos pelo menos mostrar-lhes isso. Também é um papel bonito, não é? |
| Asclépio | [Dirigindo-se ao público:] Vocês todos, o que estão fazendo aí? |
| Marta | Amigos, vocês estão no lugar errado. O lugar certo é lá fora. |
| Asclépio | Iza e Rômulo estão lá na saída do teatro, brincando. |
| Marta | Quem quiser, pode ir ter com eles, e brincar com eles. Verdade, qualquer um pode. |
| Asclépio | Não é verdade. Olhem: não é qualquer um que pode ficar com eles. |
| Marta | É preciso julgá-los loucos. É preciso duvidar do que eles fazem. É preciso não ter entendido o que Asclépio disse. |
| Asclépio | É preciso não acreditar que essa brincadeira vai levá-los a coisa alguma. |
| Marta | E, no entanto, é preciso achar linda essa loucura. |
| Asclépio | E mergulhar nela, de corpo e alma. |
| Marta | Todos os que puderem, vão embora, por favor. |
| [Acendem-se as luzes da platéia.] | |
| Asclépio | Só fiquem os que concordarem comigo. Os que concordam que deveriam ir embora, mas não podem fazê-lo. |
| Marta | Só fiquem aqui os que são incapazes de brincar. |
| Asclépio | Como nós. |
| Marta | Como nós. [grande pausa] E esse pessoa? e nós? |
| Asclépio | O caminho de Rômulo nos está vedado. |
| Marta | Existe outro? |
| Asclépio | Tão direto quanto este, não. |
| Marta | Existe outro? [pausa] |
| Asclépio | Acho que não. Mas de qualquer forma, podemos ajudá-los, falar sobre eles, conseguir levar a eles mais pessoas. |
| Marta | Se você não os entendesse... |
| Asclépio | Não é possível seguir esse caminho, se ele é compreendido e reduzido à razão. |
| Marta | Se houvesse outro caminho, absurdo... |
| Asclépio | Só a fé no absurdo pode levar à libertação. |
| Marta | [alegrando-se] Há alguém que podemos seguir. |
| Asclépio | Quem? |
| Marta | Uma pessoa em quem não confiamos. Cujas idéias e métodos são absurdos, e a nada podem levar. |
| Asclépio | Há muitos assim. Mas nós não seremos capazes de ir atrás deles, porque somos racionalistas. Você seguiria o Mestre, por exemplo? |
| Marta | Não. Mas há pelo menos um que conseguiríamos seguir. |
| Asclépio | Duvido. |
| Marta | É Asclépio. |
| Asclépio | Eu? Como posso seguir-me a mim próprio? |
| Marta | Você pode. E deve. |
| Asclépio | Não sei se estou entendendo... [começa a alegrar-se] |
| Marta | Nem eu. Mas veja que idéia estranha me ocorreu: nós sabemos que você tem sido um perfeito idiota, e a nossa situação atual, incapazes de seguir Rômulo, é a melhor prova disso. |
| Asclépio | De acordo. |
| Marta | Nós chegamos à conclusão de que o raciocínio não é o caminho da felicidade. |
| Asclépio | Concordo. |
| Marta | Então, não adianta continuar a fazer o que você sempre fazia. |
| Asclépio | Exatamente! |
| Marta | E por isto queremos mudar. Vamos fazer algo absurdo, ao invés de sermos racionais. E o absurdo que vamos fazer será o de sermos racionais até as últimas conseqüências! |
| Asclépio | E isso não pode levar a coisa alguma! [abraçam-se.] |
| Marta | Não é lindo, isto? Não é este o nosso caminho? |
| Asclépio | É muito bonito... e é a única saída. |
| Marta | Errado. Não temos saída alguma. Estamos perdidos. |
| Asclépio | Então, mergulhemos de cabeça nisso! |
| Marta | De corpo e alma! |
| Asclépio | Vamos até o fundo dessa coisa sem fundo. Vamos desenvolver em nós o raciocínio, a inteligência, e ajudar os outros a fazerem o mesmo, embora sabendo que isso não conduz à felicidade. |
| Marta | Sim. E como seria absurdo que isso levasse à felicidade, é claro que conduzirá. |
| Asclépio | É claro. E como é claro, não dará certo. |
| Marta | [Para o público:] Pessoal! A peça terminou. |
| Asclépio | Não vamos mais representar. Terminou o espetáculo. Chega de teatro. Agora, a gente tem mais coisas para fazer. |
| Marta | Pode ser que alguns de vocês tenham achado uma piração muito louca essa nossa conversa final. |
| Asclépio | Quem quiser participar dessa piração, fique aqui para conversar conosco. Os outros podem sair. |
| Marta | Fique quem, sem entender bem, queira seguir conosco esse sonho. |
| Asclépio | Só fique aqui, agora, quem quiser participar, conosco, da construção da Grande Máquina. |
| [Aparece um cartaz: "Reunião do grupo de estudos da Grande Máquina: aqui, agora". Marta, Asclépio e outros fazem uma reunião com os interessados, enquanto Rômulo, Iza, Yuri, Ana e Nelson brincam com os que quiserem segui-los, em qualquer lugar.] |
FIM
Se esta peça for encenada de forma correta, não haverá aplausos do público.
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