ARTE GÓTICA


Escultura


Como acontece na arte românica a escultura gótica é sobretudo sacra e exige certo conhecimento das concepções medievais. Tem uma função e pretende ilustrar e dignificar o ensino da igreja Cristo é glorificado por toda a Criação e tudo é portanto digno de ser representado no seu templo. Segundo Beauvais no seu Speculum Majus, verdadeira enciclopédia do século XIII, os conhecimentos da época são organizados em quatro categorias: os espelhos da natureza, a instrução, a moral e a história. O escultor pode pois representar as plantas e os animais, pode representar figuras simbolizando a Música, a Astronomia, a Geometria e a Filosofia, ou então as sete virtudes teológicas e os pecados mortais, a menos que se trate da história mais digna de ser comemorada, a História Sagrada.

Para compreender a escultura gótica, é preciso saber que qualquer objeto ou figura pode ser interpretado de três maneiras diferentes. A arte é simultaneamente uma descrição, uma composição e um símbolo, e era, nesse tempo, regida por um código muito rígido. A iconografia impunha ao artista regras que deviam ser respeitadas para a representação de qualquer figura. Assim Deus, os anjos e os apóstolos estão sempre descalços; as outras personagens estão calçadas. Teria sido não só incorreto, mas herético, representá-los de outra forma. Uma haste com folhas representa uma árvore e significa que a cena se desenrola na Terra. Uma torre com uma porta indica uma cidade; mas se esta um anjo sobre a torre, trata-se da Jerusalém Celeste. Um resplendor, ou uma auréola, indica a santidade, e se uma cruz se inscreve num resplendor, a figura é divina. Estas convenções iconográficas permitem identificar as personagens e as cenas.
Mas o motivo é apenas um elemento da escultura. O lugar ocupado por cada personagem também tem um significado. Cristo encontra-se geralmente ao centro; a respeito das outras personagens, quanto mais elevada a sua situação no conjunto, maior a sua categoria; estar a direita de Cristo representa uma honra muito maior que a sua esquerda. É preciso não esquecer que, uma vez que Cristo está de frente para nós, a sua mão direita fica a nossa esquerda. Nos Juízos Finais, os eleitos estão sempre à direita de Cristo e os condenados à esquerda.

Na Idade Média pensava-se também que as criaturas tinham um significado oculto, apenas desvendável por representações analógicas. Encontramos assim, no Antigo Testamento, um grande números de pré-figuras de Cristo. A serpente de bronze que Moisés criou no deserto para libertar os israelitas das serpentes é uma imagem de Cristo pregado na cruz para expiar os pecados do mundo. Melquisedech, sacerdote e rei, anuncia Cristo, e o pão e o vinho que deu a Abraão representam a Eucaristia. O leão simboliza a ressurreição. Acreditava-se com efeito na Idade Média que as crias de leão ficavam como mortas durante três dias após o nascimento, até que a leoa voltasse para aquece-los com seu hálito e assim os reanimar. Esses três dias de morte aparente poderiam ser comparados aos três dias que Cristo passou nos infernos, entre Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa.

Por muito freqüentes que sejam estas interpretações, nem sempre se podem aplicar. E não há certeza de que o homem do povo as compreendesse, mesmo no século XIII; é evidente, porém que os padres estavam a par do sentido oculto de certas cenas e com certeza as explicavam aos fiéis.

A escultura gótica é diferente da românica, apesar de nela ter se inspirado no início. Como ela, sempre que feita no interior das igrejas, era policroma. Até ao último período gótico, as cores permaneceram convencionais, não imitavam a natureza, mas tinham uma função decorativa.
Se as esculturas românicas parecem ter sido realizadas quando as pedras já estavam encaixadas, as estátuas góticas foram, na maior parte das vezes esculpidas antes de serem colocadas. A técnica dos artistas foi entretanto se aperfeiçoando. Os escultores já não se inspiravam nos marfins e manuscritos. Ao talhar a pedra ele leva em conta as exigências específicas do material. As estátuas tornam-se mais plásticas. As pregas do vestuário já não são representadas por linhas superficiais, mas sim esculpidas com profundidade. As proporções e o relevo são mais próximos da realidade, criando jogos de luz e sombra mais variados. Geralmente as estátuas são menos rígidas e as atitudes mais serenas. Mas quando o gótico atingir o seu pleno florescimento, a idealização tornar-se-á predominante. As figuras terão uma aparência humana mas não serão personalizadas, concebidas mais como protótipos da perfeição espiritual.

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