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As
investidas dos inimigos da cruz surgem por todos os lados. Nos primeiros séculos
da era cristã, os gnósticos foram uma ameaça à igreja primitiva. Uma
mistura de ensinos cristãos, filosofias pagãs e tradições judaicas
motivou Paulo a escrever a epístola aos colossenses, onde ressalta:
“Tende cuidado para que ninguém vos faça presa sua, por meio de
filosofias e vãs sutilezas, segundo a tradição dos homens, segundo os
rudimentos do mundo e não segundo Cristo” (Cl 2.8). O motivo de sua
preocupação era “para que ninguém vos engane com palavras
persuasivas”.
A Igreja tem sofrido ataques internos e externos. Os ataques intramuros
decorrem das aberrações doutrinárias produzidas por alguns grupos. As
ofensivas externas vêm dos inimigos da cruz, dos anticristos, de há
muito revelados e desmascarados: “Filhinhos, é já a última hora; e,
como ouvistes que vem o anticristo, também agora muitos se têm feito
anticristos. Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o
Cristo? É o anticristo esse mesmo que nega o Pai e o Filho” (1 Jo
2.18,22).
Está sendo amplamente divulgado pela mídia o “Evangelho de Judas”.
Diz a notícia que a única cópia desse evangelho ficou desaparecida por
1.700 anos. O manuscrito contém 26 páginas (alguns dizem que são mais
de 50 páginas) em papiro, escrito em dialeto egípcio copta. O documento
seria cópia de uma versão do século III ou IV, redigida em grego.
A novidade é que o texto indica que a traição de Judas Iscariotes teria
sido a pedido do próprio Jesus, que lhe teria dito: “Tu superarás
todos eles. Tu sacrificarás o homem que me cobriu”. Ou seja: O traidor
ajudaria Jesus a libertar-se do seu invólucro carnal (Jornal O Povo,
Fortaleza, (CE), 08.04.06, p.28). Foi assunto de capa da revista ÉPOCA.
Edição 405, 20.02.06. O manuscrito ainda está em processo de tradução.
A nossa análise abrange apenas o que foi divulgado.
Ateus e anticristos de um modo geral estão dançando de alegria. Há dois
mil anos tentam dar um xeque-mate na Igreja. Ainda não conseguiram. Nem
conseguirão. Os cristãos seguem cada vez mais confiantes.
A notícia não o diz qual dos personagens da Bíblia com o nome
“Judas” é o autor do dito Evangelho: Judas (apóstolo - Lc 6.16; Jo
14.22); Judas (Barsabás – At 15.22); Judas (de Damasco – At 9.11);
Judas (irmão de Jesus – Mt 13.55; Mc 6.3). O manuscrito ainda está em
processo de tradução. Sabe-se que referido evangelho foi classificado de
herético pelo bispo Irineu, de Lyon, no segundo século.
Vale lembrar que muitos evangelhos existiram, mas apenas os de Mateus,
Marcos, Lucas e João foram considerados de inspiração divina. Embora os
27 livros do Novo Testamento tenham sido concluídos em menos de 100 anos
– eis que o Apocalipse, o último, foi escrito mais ou menos no ano 96
d.C. -, somente foram definitivamente reconhecidos como canônicos no III
Concílio de Cartago, em 397 d.C. Tal fato denota que houve um longo
debate e longa meditação para que tais livros fossem aceitos como
inspirados.
Em todo o processo de canonicidade houve a direção do Espírito Santo. O
mesmo Espírito que fez com que os discípulos se lembrassem de tudo o que
o Senhor Jesus ensinou, foi o mesmo que guiou os escritores sacros em toda
a verdade (Jo 14.26; 16.13). Sob a direção desse Espírito, Pedro
revelou que “a profecia nunca foi produzida por vontade de homem algum,
mas os homens santos de Deus falaram inspirados pelo Espírito Santo” (2
Pe 1.21; cf. 2 Tm 3.16-17).
Somente com esses argumentos, já é possível considerar apócrifo e espúrio
o noticiado “Evangelho de Judas”. O Espírito de Deus se esqueceu
desse manuscrito? Não se esqueceu. A história secular diz que o
manuscrito existiu, mas foi considerado herético. O Espírito Santo não
permitiu que tal evangelho fizesse parte do cânon do Novo Testamento.
Vejamos agora o que dizem os livros canônicos e principalmente a palavra
do Senhor Jesus a respeito de Judas Iscariotes e de sua traição.
Jesus disse na presença dos Doze que Judas Iscariotes era um adversário:
“Um de vós é um diabo” (Jo 6.70), isto é, desde cedo Judas sofreu
influências malignas. Estava no meio dos Doze, mas era um adversário, um
anticristo. Esperava o momento oportuno para mostrar sua verdadeira
identidade. O apóstolo João diz com clareza que a vontade de trair o
Mestre foi colocada pelo diabo no coração de Judas (Jo 13.2).
Se Jesus houvesse permitido que Judas O traísse, iria se manifestar desse
modo na frente dos Doze? Agindo assim não estaria se arriscando a ser
desmascarado pelo traidor? Ora, Judas poderia ter dito: “Como sou diabo
se o Senhor mesmo me pediu para que o traísse?”. Judas não foi
influenciado por Jesus. A sua traição não foi para atender a um pedido
do Mestre. Na verdade, como diz o apóstolo, foi o próprio diabo que
entrou no seu coração e o transformou num traidor. Muitos dos mais
ferrenhos inimigos da cruz reconhecem que Jesus não era de meias
verdades. O Espiritismo, por exemplo, reconhece que Ele veio nos ensinar
uma elevada moral. Ele jamais iria fazer algum tipo de acordo particular
com Judas, sem o conhecimento dos demais. O conluio não fazia parte do
Seu caráter.
Ademais, se Judas estava simplesmente cumprindo uma recomendação do
Mestre, como poderia ser chamado de traidor? Se Judas iria livrar Jesus do
seu invólucro carnal, deveria ter sido chamado de libertador. O Verbo
encarnado não era um hipócrita para agir desse modo. Durante a última
ceia Jesus identificou o traidor: “O que põe comigo a mão no prato,
esse me há de trair. Em verdade o Filho do homem vai, como acerca dele
está escrito, mas ai daquele homem por quem o Filho do homem é traído.
Bom seria para esse homem se não houvera nascido. E, respondendo Judas, o
que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste”
(Mt 26.23-25).
Vejam que Judas não ia trair; ele já vinha traindo; já houvera iniciado
as conversas com “os príncipes dos sacerdotes”; a traição já se
estabelecera no seu coração. Esperava apenas o momento de colocar em prática
aquilo que já estava decidido. Por isso a Bíblia fala “o que o traía”.
Diante das duras palavras de Jesus, chamando-o de traidor e ameaçando-o
com enormes castigos, Judas não se indignou nem revidou. Saiu e foi
receber as trinta moedas da traição. Judas teve a oportunidade de dizer
que apenas cumpriria a missão que lhe fora confiada pelo traído. Que juízo
podemos fazer de uma pessoa que pede para ser traído e ao mesmo tempo
ameaça o traidor? Nesse caso Judas é quem teria sido traído por Jesus.
Tal situação é inconcebível.
Na verdade, se Judas Iscariotes atendeu a um pedido do Mestre, não
podemos usar a palavra “traição”. Judas não seria traidor em
potencial. Vejam como foi o seu fim:
“Então Judas, o que o traíra, vendo que fora condenado, trouxe,
arrependido, as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos
anciãos, dizendo: Pequei, traindo o sangue inocente. Eles, porém,
disseram: Que nos importa? Isso é contigo. E ele, atirando para o templo
as moedas de prata, retirou-se e foi-se enforcar” (Mt 27.3-5).
Convenhamos, essa não é atitude de quem está apenas cumprindo um
acordo. O sentimento para quem cumpre uma missão é de alegria, de dever
cumprido, de consciência limpa. Nada disso aconteceu. Judas declara haver
traído “sangue inocente”.
Com base na pequena amostra do que já foi publicado, podemos dizer que o
tal Evangelho de Judas é um documento espúrio, que não abala as
estruturas do Cristianismo, nem coloca dúvida em qualquer parte das
Escrituras Sagradas, a inerrante Palavra de Deus.
Autor:
Pr. Airton Evangelista da Costa |