Comentários sobre Lilith na cultura judaica



Este texto foi traduzido do original em inglês. Ele explica alguns detalhes relacionados a esta lenda específica de Lilith,o que acaba desmentindo algumas considerações. Perceba que o autor não nega que Lilith faz parte dos "contos judaicos", lida apenas com o que diz sobre a suposta relação dela com Adão.

 

"A lenda em questão foi inspirada nas duas considerações que existe na Bíblia sobre a criação da primeira mulher, as quais levam o autor à conclusão de que Adão teve uma primeira esposa antes de seu casamento com Eva. A parceira original de Adão foi a demoníaca Lilith cuja a qual tinha sido criada, assim como sua contraparte masculina, da lama. Lilith insistiu em um tratamento igualitário entre de ambas as partes, o que de fato causou um constante atrito entre o casal.  Finalmente então a frustada Lilith usou seus poderes mágicos e vôou para longe de seu esposo. Aos apelos de Adão, Deus despachou três anjos para negociar com Lilith o seu retorno. Quando estes anjos ameaçaram os descentes demoníacos de Lilith, ela jurou que ela iriar caçar eternamente os recém-nascidos humanos, que poderiam ser salvos apenas apenas pela invocação de proteção dos três anjos.  No fim, Lilith manteve-se firme e nunca mais retornou para seu esposo.

A história implica que quando Eva foi  criada pela costela de Adão (simbolicamente a sua submisssão à ele), tinha o propósito de servir como antídoto para a curta tentativa de igualdade sexual de Lilith. Aqui temos uma clara demonstração da atitude rabínica em relação às mulheres!

Só há um pequeno problema com esta teoria: a história de Lilith não é examente encontrada em nenhuma tradição rabínica autêntica! Apesar de isto ser repetido como uma "lenda rabínica" ou "midrash", não está escrita em nenhum antigo documento  judaíco!

O conto é originário do trabalho medieval conhecido como "O Alfabeto de Ben-Sira", um trabalho cuja relação com as tradicionais linhas do judaísmo é, no mínimo, problemática.

O autor desconhecido deste trabalho o preencheu com tantos elementos que parecem terem sido citados apenas para ofender a sensibilidade dos judaícos tradicionais. Em particular, os heróis da bíblia e do Talmud são freqüentemente apresentados com as mais perversas cores. Como resultado disso, o protagonista do livro, Ben Sira, é dito que foi concebido de uma união incestuosa do profeta Jeremias com sua irmã. Joshua é descrito como um bufão muito gordo para cavalgar um cavalo.  O rei Davi aparece como uma pessoa s&aacutedica e sem coração que, secretamente, se deleitava com a morte de seu filho Absalom, enquanto apresentava uma imagem bem pouco ingênua de dor para o seu povo. O livro é consistentemente preenchido de hipocrisias e comportamentos insinceros.

Tão chocantes e horrendos são alguns dos conteúdos do "Alfabeto de Ben-Sira" que estudiosos modernos não tem conseguido encontrar uma explicação para alguém escrever tal livro.  Alguns o vêem como um resumo pouco respeitoso de contos populares que possuem exatamente a função de ofender.  Outros sugerem que seja uma ofensiva polêmica de cristãos, karaites*, ou algum outro movimento de oposição.  Eu pessoalmente não descartaria a possibilidade de o documento ser um sátira anti-judaíca, apesar de que, certamente, ele foi aceito pelos místicos judaícos da Alemanha medieval; e amuletos para defesa da vingança de Lilith tornaram-se proteção essencial dos recém-nascidos de muitas comunidades judaicas.

Eventualmente o conto de Lilith foi incluído na coleção de contos de lendas rabínicas de língua inglesa, e alguns leitores pouco críticos, que não tivem condições ou não tentaram checar as fontes do editor - citam a lenda com uma representativa definição rabínica sobre o tópico. Como tende a acontecer em tais circuntâncias, autores subseqüentes continuam a copiar um do outro até que o  original venha a se tornar um fato histórico imutável.

Certamente existem volumes de textos reais e tradições que poderiam beneficiar um pesquisa de análise de críticas feministas, e é uma vergonha focar tanta energia intelectual em lendas duvidosas e atípica com esta."

 



Eliezer Segal





* Os Karaites eram um movimento religioso judeu que surgiu na idade média que aceitam só a Bíblia, e não a "Tradição Rabínica Oral" (por exemplo, o  Talmud).

 

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