Didática da Filosofia
Há uma didática para o ensino da filosofia?
Se há ensino há didática. Se a filosofia pode ser ensinada, há uma didática para ela. E como a filosofia pode, certamente, ser ensinada ¾ pois é ensinada desde seus primeiros dias ¾ , não há como negar que alguma didática é empregada no seu ensino. Qual é, então, o problema da didática em filosofia?
Grosso modo, o problema da didática geral é um só: estabelecer o limite entre o que está sendo organizado de maneira a ser melhor apreendido pelo estudante e o assunto propriamente dito como ele aparece classicamente na história dos conhecimento. Assim, o problema da didática da filosofia é, mutatis mutandis, o mesmo que o da didática geral ¾ falando através de um exemplo: como posso organizar os argumentos de Peirce contra Descartes, de modo que eu venha a ser compreendido pelos meus estudantes sem, no entanto, trair o consenso que existe entre os bons professores de filosofia a respeito do que disse Peirce na sua oposição a Descartes. Se consigo uma narrativa sobre isso que satisfaça as necessidades intelectuais de meus alunos e ao mesmo tempo tenha a benção do crivo da crítica de meus bons pares e das minhas próprias exigências, realizei um bom trabalho didático em filosofia, no que se refere a começar a explicar onde é que o pragmatismo dá início ao seu combate ao cartesianismo.
Colocado assim, formalmente, o problema da didática da filosofia parece ser a coisa mais fácil de se fazer no mundo. Em parte é, em parte não é.
Para o professor de filosofia que estudou Peirce e estudou Descartes, e que se lembra das dificuldades que passou com um e com outro, não vejo razões para, agora, uma vez mais velho, esquecer essas dificuldades e simplesmente acreditar que as novas gerações devem bater a cabeça nos mesmos lugares em que ele bateu. Um professor de filosofia precisa entender de modo plausível a frase que Aristóteles teria dito a Alexandre, de que "não há atalho (caminho) real para a filosofia", diante da insistência de Alexandre em aprender sem tanto esforço e demora. O grego não estava dizendo ao macedônio que ele precisava bater a cabeça nos mesmos lugares comuns de todos os estudantes, mas apenas avisando que ele, Alexandre, na filosofia, não poderia dirigir seu cavalo intelectual como ele o fazia no trânsito da época com o seu próprio cavalo, ou seja, se permitindo pegar estradas proibidas ao cidadão comum mas abertas ao imperador. A filosofia possui regras. O aprendizado da filosofia idem. Essas regras são, exatamente, a didática da filosofia ¾ no caso, a didática da filosofia que Aristóteles estaria usando para educar Alexandre.
Nos nossos tempos, onde a idéia da necessidade de democratização da cultura é algo quase que indiscutível, surgiram pessoas que souberam muito bem mostrar que o ponto chave que toda didática procura é possível de ser achado para todo e qualquer assunto, ainda que certos assuntos ou partes dele tenham de ficar restritos, obviamente, a certas faixas etárias. A filosofia não escapou disso. Descartes, por exemplo, escreveu tanto reflexões filosóficas e tratados como também textos com os quais ele queria ver seu modo de pensar divulgado, acessível, absorvível. Nesse sentido, Descartes não é só o pai da filosofia moderna, é também, no campo do próprio ensino da filosofia, um espírito moderno par excellence. Há quem diga, até, que ele e Comênio chegaram a marcar um encontro, para conversar, provavelmente, sobre manuais didáticos e sobre otimização do ensino. Esse encontro não ocorreu, mas o fato dele ter sido, talvez, agendado, mostra que Descartes se mostrava, ao contrário de muitos professores de filosofia de hoje em dia, como alguém que nada tinha de pedante. Estava longe dele a idéia de colocar o saber filosófico em uma redoma de vidro, cultuado como um gato sagrado egípcio ou uma vaca na India ou qualquer outro tipo de totem. Todavia, quem conhece o texto que Descartes fez para divulgar suas idéias sabe muito bem que o que não falta ali é o rigor ¾ rigor não no sentido de dificultar a leitura mas, ao contrário, um rigor filosófico e ao mesmo tempo didático no sentido de tornar a leitura fluente.
O livro de que falo é o Princípios de Filosofia, de 1644. Há quem diga que Descartes o escreveu como um texto de sistematização de suas idéias, até então esparsas. Isso é verdade. Mas é meia verdade. Descartes queria que o texto fosse um textbook. Assim, o livro foi escrito em latim e depois traduzido para o francês, para concorrer em pé de igualdade com outros em qualquer tipo de escola. O livro foi traduzido pelo Abade Picot para o francês, e revisado pelo próprio Descartes. Quem olha os manuais de ensino da época e lê o Princípios não consegue deixar de notar a semelhança de organização e estilo.
A forma de exposição, ao contrário das Meditações, é dogmática ¾ própria de todo e qualquer manual, com um claro aviso no final, que faz com que o aluno se lembre de que, talvez, ele, mais tarde, tenha de reestudar tudo lendo a própria obra de Descartes. Ou seja, no final do livro Descartes avisa o estudante que ele não deve acreditar em tudo que está ali sem que aquilo não seja examinado à luz de sua própria razão. Descartes chama o aluno para se juntar ao espírito do Iluminismo e, assim, de certo modo, talvez, levá-lo às meditações (do aluno) que, com sorte, seriam as Meditações ¾ as Meditações Metafísicas (1641), de Descartes.
De Descartes até nós, uma boa parte dos grandes bons filósofos foram também bons escritores de manuais de suas próprias posições e, muitos, bons escritores de manuais de história da filosofia. Tudo voltado para o estudante, para aquele que não sabe e precisa ou quer saber filosofia. Muitos, inclusive, fizeram mais: conseguiram ensinar a filosofia do adversário na medida em que, para criticá-lo, se viram na obrigação intelectual de organizar a posição do outro de uma forma acessível ao grande público ¾ o "público leigo culto".
Agora, o que a didática da filosofia não garante, seja ela qual for, é que o lema de Comênio possa ser cumprido: "ensinar tudo a todos". Por exemplo: posso ensinar a um aluno de gradução em ciências humanas, de modo correto e razoavelmente simples, o que é a teoria da verdade como redundância, de Frank Ramsey. Se me derem tempo e uma classe de alunos razoavelmente interessados, sei que me sairei bem nisso e, com certeza, não teria vergonha de botar minha aula no papel e apresentá-la aos meus pares mais velhos e melhores que eu. Mas eu não garanto poder fazer isso com estudantes mais jovens, obtendo o mesmo sucesso. E, é claro, acho impossível de ensinar Ramsey para crianças ¾ e inútil, o que é mais relevante! Acho mesmo que criança não precisa de Ramsey, nem precisa de filosofia para aprender a pensar de modo a vir um dia a ser um pensador tão bom quanto Ramsey. Nem precisa de filosofia para vir a ser um pensador bom, mas não tão bom quanto Ramsey.
A didática da filosofia, como a própria filosofia, é para quem gosta de filosofia. Por que? Porque a filosofia não se separa de seu ensino. Não há como. Todos que quiseram separar a filosofia do ensino da filosofia não fizeram nem uma coisa nem outra, foram apenas espantalhos em departamentos de filosofia caducos. Agora, ensino de filosofia não é algo que se resolve com reuniões para falar dele, é algo que só melhora se os professores de filosofia, em vez de falarem dele, ensinarem filosofia. Mas em geral, os que falam sobre didática da filosofia, sobre ensino da filosofia, não conseguem escrever um texto capaz de ensinar os alunos a oposição de Peirce a Descartes, muito menos a teoria da redundância de Ramsey. Eis aí, então, um outro problema da didática da filosofia e... enfim, da filosofia!
Paulo Ghiraldelli Jr. é Prof. da Univ. Estadual Paulista-Unesp/SP