Toff, meu cão do coração

Rio de Janeiro, março, 2005

A crueldade fê-lo ir. Já velho, ainda virgem, sempre rejeitado. Jamais um sorriso ou afago. Agora, perdeu seu lugar. Portão aberto pela manhã para encorajá-lo a ir embora.

Toff, olhar ingênuo e movido pelo instinto de liberdade se vai. Corre perseguindo errante um faro incerto. Some na curva da liberdade. Meu filho, Jean, chora inconformado quando descobre a fuga. Insiste para irmos procurá-lo, resgatá-lo da morte certa e cruel. Logo retorna afagando-o no banco de trás. Toff pula feliz, calda balançando. Está orgulhoso por estar de volta no seu lar. procura seu cantinho e enrola-se como um gangolo.

A crueldade o olha derrotada. Mas parece jurar não desistir de seu malvado intento. No outro dia, novamente o portão misteriosamente se abre. toff some outra vez. A tristeza é geral. Dias depois retorna. Perna esquerda perfurada por dentada de outro cão. Brigou, apanhou. Voltou manco, sujo, derrotado, desprezado.

O encontrei na rua, manco, sujo, triste. Não o reconheci logo. Ele se aproximou cabisbaixo, olhar caído. Ajoelhei-me na rua e o afaguei, beijei-o. Ele lambeu a ferida como me mostrando o seu estado, seu sofrimento. O rabinho não balançava desta vez. O chamei e ele me seguiu feliz, mas cabisbaixo.

Cá está ele, no seu cantinho. Velho, triste e esperando a morte. Um cão vítima da crueldade.

 Aqui é o seu lar, aqui é que deve morrer! proclamo.

Quando eu estava longe, como sentia saudade de seu latido! Quando a agonia da saudade me fazia sonhar, lá estava ele balançando sua cauda e lambendo os pés das crianças. Eu acordava sorrindo deste sonho, no meio da noite. Outras vezes, quando pelo telefone falava com as crianças, podia ouvir ao fundo o latido do Toff, como me dizendo: Oh, estou aqui e com saudades!

O Toff populou meus sonhos de saudades da família. Dói vê-lo abandonado com um animalzinho qualquer.

Toff não deve sofrer. Não pode morrer. Vou tê-lo para sempre no meu coração!

 

 
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