Percepções do Ser
Gideon Marinho
Gonçalves
Rio de Janeiro, 7 de fevereiro de 1999
23:33
O Pensar
Acredito que o pensar está intimamente ligado aos sentidos. Você dirá: é claro, o pensar é como se fosse um dos sentidos. No entanto não é essa a abordagem que me ocorre. Imagino que o pensar não nasce de dentro para fora do indivíduo, mas de fora para dentro dele, ou seja, os fenômenos naturais imprimem, interagem, encontram, chocam-se com o indivíduo, fazendo com que ele perceba as impressões que os fenômenos os transferem. Assim, como resultado deste choque ocorrem transformações no indivíduo que o faz pensar. Portanto parece que o pensar somente ocorre se houver sentidos no indivíduo que o façam perceber o meio. Desta forma, parece que o meio interage ensinando o indivíduo como lidar com ele. O sentido de ensinar aqui expressa exatamente o que imaginamos por ensinar; um processo seqüencial e contínuo, que não se dá de uma só vez. Eu diria que o indivíduo é, em um primeiro momento, relativamente passivo à natureza1.
Desta forma, algumas conclusões parecem surgir espontaneamente em função disso. Uma delas seria que a capacidade de pensar não aumenta no indivíduo, mas o que aumenta seria sensibilidade ao meio, ou seja, quanto mais sensível aos fenômenos mais a capacidade de pensar parece aumentar. Outra conclusão seria conseqüente desta última, ou melhor, uma maneira mais objetiva de formular a conclusão anterior seria afirmar que a intensidade, ou a capacidade do pensar é diretamente proporcional a capacidade de sentir e perceber o meio. Daí a necessidade de desenvolver no indivíduo tarefas que levem ao apuramento da sensibilidade, tal como as artes e outros métodos. A música, por exemplo, faz com que o indivíduo capte a proporcionalidade das freqüências físicas entre as ondas sonoras, comumente denominadas som, inclusive mesmo quando essas não ocorrem de fato na natureza, mas quando são ativadas pelas lembranças impressas na mente do indivíduo. A freqüência associada à duração do som, que chamamos ritmo, ocorrem concomitantemente no momento da criação de uma música.
Outro fato é o desenvolvimento da pintura, ou seja, o indivíduo ao combinar traços e cores tenta materializar idéias que somente ocorrem nele próprio. Ou seja, a música e a pintura são são as artes de manifestar os diversos afetos da alma mediante o som, a tinta e o traço. Essa frase é quase sempre usada na definição da música, mas se aplica perfeitamente a qualquer tipo de arte.
Outra atividade que também contribui para o aumento da sensibilidade ao meio, é a boa leitura. Na prática da leitura muitas informações são geralmente assimiladas pelo leitor de forma que o seu conceito das coisas tende a alargar-se. Quando isso ocorre ele automaticamente tende a estender a sua sensibilidade no sentido de aceitar ou renegar aqueles conceitos. Isto não é nada mais que o exercício, ou melhor, a dinâmica da sensibilidade em funcionamento, ou melhor, a sensibilidade interagindo com o meio.
Os indivíduos acostumados ao exercício do pensar percebem o quanto é dinâmico o pensar, ou seja, percebemos picos de idéias que logo imediatamente parecem desaparecer por completo. Em algum momento percebemos que tivemos aquela idéia fabulosa sobre qualquer coisa, mas imediatamente após alguns segundos ela desaparece. Daí a necessidade de registrar as idéias. Eu diria que nesse momento não ocorreu um pico de idéias mas sim um pico de sensibilidade ao meio que sintetiza-se em forma de idéia.
Dentre as demais ciências, a matemática parece ser aquela ferramenta, tal como uma broca, que vai penetrando, furando, perscrutando o meio. Sentindo os fenômenos, adquirindo-os, comparando-os e testando-os com os conceitos já registrados e aceitos. Com isto a sensibilidade vai se estendendo tal como um jogo de módulos que precisa ser montado para existir.
Outra conclusão que nos vem seria a de estender para todos os seres vivos a capacidade de pensar, uma vez que o pensar seria proporcional à capacidade de sentir o meio2. Parece que tudo aquilo que é natural, ou seja, que existe, desde que tenha algum tipo de sensibilidade ao meio, pensa., considerando aqui o conceito que desenvolvemos de pensar. Já aquelas coisas que são fabricadas, eu diria, não existem de fato na natureza, e não podem ser reproduzidas por si mesmas, não pensam.
1- Aqui cabe uma sugestão para o leitor ler Teoria do Conhecimento de Johannes Hessen. O autor aprofunda saborosamente a discussão se o indivíduo já nasce com o cerne do conhecimento ou o adquire com a experiência.
2- Assim, diria eu, os animais também pensam de alguma forma, já que eles também sentem o meio. Eu diria ainda mais, baseado na idéia exposta, as plantas também pensariam e até, quem sabe, as pedras já que essas também sentem a ação do meio sobre elas!.