A natureza das coisas

Ensaio

 

 

Gideon Marinho Gonçalves

 

Introdução

Parece-me, por mais que tente pensar o contrário, que uma coisa não existe, fundamentalmente, em função de outra coisa. Observando o meio, percebo que o que governa e dá sentido às interações são os sentidos existentes nas coisas. É por meio dos sentidos que as trocas e interações acontecem entre elas. Parece-me que os sentidos simplesmente instrumentalisam alguma força, que determina, de fato, toda a dinâmica da interação entre os entes. Para estudar melhor esse assunto preferi dividir a questão em tópicos. Primeiro vou tentar desenvolver a idéia da individualidade das coisas. Depois  abordarei o fenômeno da existência, e neste caso também definir o significado de natureza. Finalmente vou desenvolver o que mais me intriga: a interação entre as coisas. Pretendo aprofundar esta análise na tentativa de identificar as misteriosas forças que poderiam estar por trás disso tudo.

Este assunto me incomoda pelo fato de vez outra ouvir alguém sugerir que tudo na natureza existe em função da existência do homem. Sempre me questionei o porquê o homem também não existiria em função do micróbio que o devora, por exemplo. De alguma forma, o pensamento inicial parece-me resquício do antropocentrismo que se firmou nos últimos séculos.

A partir deste incômodo passei a observar a natureza à minha volta com um olhar crítico e sempre me perguntava:  Será que aquela flor é linda somente para que eu a veja e me beneficie do seu perfume e cores? Me vinha logo outro questionamento: E a flor tem consciência de que existe apenas para me fazer feliz? Ou o seu perfume, que para mim é tão gostoso, nada mais é que um produto do seu próprio existir e, antes de mais nada é a sua própria realização?

Imediatamente vem outro questionamento: Mas o perfume que percebo é função das características dos meus sentidos e não da flor, portanto a flor não tem consciência de como sou e fabricaria seu perfume para me agradar...

A partir destes e outros questionamentos é que me satisfiz (por enquanto) com a idéia de que as coisas existem por si mesmas e que os significados provenientes das interações entre elas existem, e somente existem, para quem percebe, e não para quem é percebida.

 A Coisa

 Considerando a hipótese rígida de que as coisas existem por si só e têm o único propósito de  atender a uma própria determinação fenomenal  de existir preciso definir coisa e definir o fenômeno existir além de identificar as suas propriedades. É claro que qualquer definição ou generalização estará sempre suscetível de questionamentos. Em primeiro lugar porque essas definições e análises estarão moldadas nos limites e perspectivas humanas e limitadas ao estoque de conhecimento que ora possuímos, ou seja, daqui a mil anos essas definições e análises poderão ser refeitas dado o estoque de conhecimento de então.Mesmo assim ainda estarão limitados à perspectiva humana. E em segundo lugar porque são conclusões, por enquanto, metafísicas o que já as elegem naturalmente ao palco dos questionamentos.

Uma coisa sempre representa uma ocorrência ou possibilidade de ocorrência de uma classe de coisas, portanto, antes mesmo de analisar a natureza das coisas diria que a classe é o lugar natural da definição das coisas. Uma classe não existe concretamente, é simplesmente um conceito idealizador, ou seja, um conceito completo de uma coisa, e reúne ou define todas as propriedades da coisa por ela representada. Uma classe pode nunca vir a instanciar (ou trazer a existência) a coisa que ela define. Portanto eu chamaria de coisa algo que é detectado pelos sentidos, diretamente ou não, neste caso através de instrumentos ou recursos não naturais à quem percebe. Quando falo de sentido não estou me referindo somente aos sentidos humanos. De uma forma geral considero sentido a capacidade que alguma coisa tem de perceber outra coisa. Sentido seria a capacidade de perceber o meio e apresentá-lo ao interior de quem percebe.  

Propriedades Estéticas 

Uma classe possui propriedades estéticas, funcionais, de inserção e cognitivas que definem a sua personalidade. As propriedades estéticas são aquelas que faz a coisa ser notada por outra e, de alguma forma, definem a sua identidade no meio. Essa propriedade na realidade é o resultado da combinação das outras propriedades e que imprime no meio a sua natureza. Importante notar que essa propriedade não tem características universais, ou seja, ela tem sentido somente para os sentidos da coisa que a percebe, ou seja, diria que é a impressão unívoca e de natureza subjetiva que uma coisa obtém de outra. Uma flor, por exemplo, para os humanos é uma flor e somente uma flor, e nos imprime uma estética que define sua beleza e sua importância dados os sentimentos de cada humano. No entanto, duvido muito que um cão tenha a mesma impressão que um humano sobre a flor, ou seja, acho inconcebível um cão presentear uma cadela com uma flor. Contudo, independente da opinião dos humanos sobre a flor, ela existe, e somente existe, para se fazer existir, e para tal desenvolve as suas qualidades e envida seus esforços.  

Propriedades Funcionais 

As propriedades funcionais seriam aquelas funções que a coisa utiliza no sentido de se fazer existir. Essas funções podem ser de natureza endógena, exógena e derivada. Independente de sua natureza a função sempre cumpre o propósito de tentar garantir a apresentação da coisa ao meio. As funções endógenas são aquelas primitivas e que já existem impressas na natureza da coisa com o propósito de serem funções fundamentais para o desenvolvimento das funções adquiridas. São funções singulares por serem encontradas somente na coisa que as têm. 

As funções exógenas são aquelas que definem funcionalidades comuns a mais de uma classe. Essas funções são herdadas de classes ancestrais.

As funções derivadas definem as funcionalidades que são uma combinação de funções endógenas, exógenas com percepções do meio. De alguma forma as funções derivadas indicam o nível de adaptação da coisa ao meio. Essas funções nunca cumprem um papel de atender aos sentidos de outra coisa, mas simplesmente a de atender as necessidades da coisa na sua interação com o meio. Um exemplo de função exógena poderia ser o ato de voar de uma folha. Uma folha ao vento mostra a função exógena. Observarmos que a função voar não é própria ou natural de uma folha no entanto, dada as suas características físicas combinadas com as circunstâncias eventuais, ela voa. Uma função endógena seria a fotossíntese, ou seja não se tem conhecimento de nenhuma ave que sofra a fotossíntese.  As funções efetuam ações chamadas de eventos ou fenômenos. Os fenômenos, por sua vez, também são coisas definidas em suas respectivas classes e analiso isso quando definir o existir. 

As propriedades de inserção 

As propriedades de inserção definem o meio no qual a coisa está inserida e é dependente. Ou seja, define a condição de existência básica para a coisa existir. Observamos em princípio, que algo somente instancia em algum lugar. É claro que esse lugar pode ter natureza completamente misteriosa ao nosso conhecimento, contudo, parece básico que, independente de sua natureza, um lugar é imprescindível tanto para a definição das classes como para a instancializacão da coisa.

 As propriedades de cognição

 Essa propriedade reflete a inteligência de uma coisa, ou seja, combina fatores naturais da coisa, ou seja, propriedades definidas na sua classe, com a percepção do meio. Essa inteligência está, e somente está, a serviço da apresentação da coisa no meio. Ou seja, existe e se desenvolve com o único propósito de sobreviver. Existem funcionalidades inerentes a coisa, ou seja, funções endógenas, que se encarregam de armazenar e recuperar essa inteligência. Uma evidência de que qualquer coisa tem uma inteligência está no fato dela existir. A fração de tempo, por menor que seja, (moldado pelos nossos sentidos) que a coisa continuou se apresentando ao meio indica uma dose de inteligência para tal. Diria que é com os fatores cognitivos que uma coisa consegue sobreviver. Tanto mais inteligente será uma coisa quanto mais se apropriar, e até modificar, os recursos do meio para garantir a sua sobrevivência de forma ideal.

 O Existir

  A fenomenizacão é que define o existir. Algo somente existe se um, e pelo menos um, fenômeno instanciar, portanto, parece que antes de qualquer coisa existir  e ser perceptível por outra, um fenômeno tem de necessariamente existir anterior a ela como definido aqui, uma coisa sempre é antecedida na definição de sua classe. Portanto, antes do fenômeno surgir a sua classe já foi definida anteriormente. Parece-me que a gênese de tudo estaria nas definições de classes, então pelo menos um único fenômeno deveria definir essa classe, o que eu chamo, por hipótese, de fenômeno gênese singular. Esse fenômeno gênese singular (fgs) definiria uma classe ancestral dotada das propriedades apresentadas aqui, ou seja, estéticas, funcionais, de inserção e cognitivas.

A análise do fenômeno gênese singular irá, impreterivelmente, trazer a discussão a questão de Deus, e uma pergunta logo surge: Seria Deus este fenômeno gênese singular?

Este é um outro assunto que tratarei mais tarde.

 

 
     
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