Encarar a morte ensina a viver

 

Transcrito do da Revista de O GLOBO Nº 86 de 19 de março de 2006.

Entrevista de Marília Martins à Irvin Yalom.

 

“A angústia de morrer impede a alegria de viver.”

 

 O americano Irvin Yalom, 74 anos, professor emérito de psiquiatria da Universidade de Stanford, é um dos raros escritores a combinar  respeitável currículo universitário e crescente sucesso de público. É autor dos best-sellers mundiais lançados no Brasil “Quando Nietzsche chorou” e “A cura de Schopenhauer”. Esta semana chega às livrarias brasileiras, mais um livro seu, “Mentiras no divã” (todos da Ediouro). Yalom mistura filosofia e psicoterapia em romances de muitos diálogos sobre temas existenciais. O novo livro tem um enredo repleto de sexo e violência. O enredo, porém, continua didático, em busca de leitores-aprendizes de uma dura lição: viver bem é aprender a morrer.

 

 

O que é a psicoterapia existencial e como ela se diferencia da psicanálise?

Irvin Yalom: É um tipo de psicoterapia com um enfoque diferente dos transtornos da vida, um tratamento que tem sensibilidade para os problemas existenciais. Ao invés de vasculhar a relação das neuroses adultas, a psicoterapia existencial privilegia o fato de que somos mortais, de que temos que nos defrontar com a morte. E, por isto, precisamos buscar um sentido para a nossa vida.

 

A psicoterapia existencial é mais eficiente que a psicanálise?

Irvin Yalom: A psicanálise é uma abordagem reduzida, se comparada à psicoterapia existencial. Nos EUA, cerca de 5% dos pacientes se tratam com psicanálise. A imensa maioria prefere as várias espécies de psicoterapia. A psicanálise é um tratamento em que o paciente vai várias vezes ao consultório por semana, deita-se num divã e fala de seus conflitos a partir de uma livre associação d pensamentos e lembranças. É muito cara e muito longa. Hoje ninguém mais pode pagar um período longo de psicanálise e não acredito que ela funcione.

 

Nos seus livros, os terapeutas parecem ter mais dúvidas do que os pacientes... Por quê?

Irvin Yalom: Bem, todos os bons terapeutas estão sempre se questionando sobre seus métodos, sobre a eficácia do tratamento para os seus pacientes.

 

E muitos pacientes hoje preferem recorrer a medicamentos...

Irvin Yalom: Os medicamentos são mais baratos e parecem mais eficazes a curto prazo. E há casos em que os medicamentos são necessários, como nos casos graves de depressão, em que mesmo um tratamento de psicoterapia usa antidepressivos como auxiliares. Mas medicação sozinha não resolve conflitos psíquicos. E mesmo a psicoterapia existencial precisa de um tempo para fazer sentir os seus efeitos. Quando se trata dos problemas psíquicos que nos atormentam a vida, nada é imediato, nem tem efeito instantâneo.

 

A morte está presente em todos os seus livros. Em “A cura de Schopenhauer”, o escritor alemão descobre que está com câncer e revê sua vida. “Quando Nietzsche chorou” narra o encontro do filósofo Nietzsche e do médico Breuer num momento de crise de ambos, o primeiro tendo sido rejeitado por Lou Salomé e pensando seriamente em suicídio, e o segundo atormentado por dúvidas no tratamento de suas pacientes histéricas.

Irvin Yalom: Sim. A idéia de que vamos todos morrer tem a força de fazer todos esses personagens saírem da crise existencial que vivem.

 

Mas isto vale para leitores de hoje, já tão anestesiados pela banalização de várias formas de psicoterapia?

Irvin Yalom: Sim, meus livros têm como tema central a ansiedade diante da morte. Mas este é um tema muito antigo. Na Grécia clássica do século V a.C., as tragédias já tinham a morte como centro. E há uma extensa literatura que fala da ansiedade de morrer antes de dar um sentido à vida, um medo que nos impede de sentir alegria de viver.

 

O medo da morte é um tema que costuma ter uma abordagem religiosa. A psicoterapia existencial tem um viés religioso?

Irvin Yalom: Não. Ao contrário, trata-se de encarar o fato de que vamos morrer sem nenhum apelo à religião.

 

Depois dos eventos de 11 de setembro, o mundo viu o poder do fundamentalismo religioso, coma multiplicação dos homens-bomba, capazes de encarar a morte para dar sentido à vida. Como a psicoterapia existencial aborda este enfoque religioso fundamentalista sobre o poder da morte e o seu uso político?

Irvin Yalom: Os homens-bomba acreditam num mundo após a morte, na fantasia de um paraíso que estaria num outro mundo. Isto não é encarar a realidade da morte. Isto é simplesmente embarcar numa fantasia delirante. A psicoterapia existencial é o contrário disto: ela nos instiga a dar sentido a esta vida que vivemos, a viver de modo a sentir alegria de estar neste mundo e de saber que este é o único mundo que temos, o único que existe para nós. Desistir da crença na vida após a morte é justamente aquilo que poderia nos levar a viver melhor esta vida e valorizar a vida que temos, porque ela é única e não há outra.

 

E a sua interpretação de Nietzsche também destaca essa visão trágica.

Irvin Yalom: Claro. Nietzsche se interessou pela tragédia grega exatamente porque ali estava um questionamento da vida diante da onipotência dos deuses. Como nós, humanos e mortais, podemos interrogar o sentido da vida e desafiar os desígnios dos deuses imortais? Nietzsche também faz uma crítica feroz do cristianismo, quando desvaloriza a vida terrena em nome de uma promessa de salvação para além da morte. Toda a filosofia de Nietzsche é contrária à desvalorização da vida e à fantasia de uma outra vida para além da morte. Foi isto o que mais me interessou no pensamento de Nietzsche e no projeto de transformá-lo num personagem no momento em que vive uma crise se contempla a idéia do suicídio.

 

Mas a filosofia nietzschiana é também contrária a abordagens psicológicas. Ele não concordaria com o uso de suas idéias para sustentar propostas terapêuticas com base na psicologia...

Irvin Yalom: Bem, minha tentativa ao transformar Nietzsche em personagem foi imaginar como seria a psicoterapia se ela tivesse sido construída a partir de idéias da sua filosofia trágica, como por exemplo o eterno retorno. Nunca pretendi distorcer as idéias de Nietzsche para justificar a psicoterapia, ou para compatibilizar a sua filosofia com propostas freudianas. Ao contrário, o livro é o oposto, é um exercício de imaginação para saber como seria a psicoterapia se ele ativesse sido inventada por Nietzsche e não por Freud. E para saber como a psicoterapia existencial pode se valer de conceitos de Nietzsche.

 

Daí a escolha de Breuer, e não de Freud, para conversar com Nietzsche?

Irvin Yalom: Freud era muito jovem e, nos anos em que o livro se passa ele sequer havia entrado na faculdade de medicina. Do ponto de vista biográfico, a conversa entre Freud e Nietzsche seria impossível. Por isto preferi Breuer, o mentor de Freud. E depois que o livro saiu, soube por pesquisadores dos arquivos de Nietzsche na Alemanha que eles haviam descoberto cartas entre amigos de Breuer e de Nietzsche que tentaram promover o encontro entre os dois. O encontro poderia ter ocorrido, mas, apesar dos esforços, nunca de fato ocorreu.

 

A psicoterapia existencial é um método ensinado nos EUA?

Irvin Yalom: Não. Os profissionais têm que ser formados em psicoterapia e devem ter uma sensibilidade afinada para angústias existenciais. Acho que esses temas deveriam ser tratados em todas as terapias, a partir de determinada fase do tratamento. Mas nãose trata de uma escola de terapia. Escrevi um ensaio, anos atrás, sobre psicoterapia existencial que é discutido por estudantes e profissionais.

 

Os professores da Faculdade de Psiquiatria de Stanford ensinam psicoterapia existencial?

Irvin Yalom: Não. Hoje a psicoterapia é pouco estudada e muitos psiquiatras preferem recorrer a medicamentos para tratar os distúrbios de seus pacientes. A medicina americana hoje está muito receptiva ao uso de drogas medicinais. Esta é uma tendência nas universidades e nos consultórios. E lamento muito.

 

Os escritores existencialistas, como Sartre e Camus, influenciaram o seu pensamento?

Irvin Yalom: Sim, muito. Li Sartre e sobretudo Camus. E já conversei muito com meus pacientes sobre as idéias desses dois autores, com muito proveito para os pacientes. A idéia de que somos mortais e de que a existência precede a essência, ou seja, de que a vida é, para nós anterior ao sentido que damos a ela, é fundamento na discussão sobre como encarar a morte e como aumentar as nossas possibilidades de sermos felizes nesta vida. O existencialismo nos ensina a valorizar a vida e a buscar a felicidade. Outra idéia existencialista importante é a de liberdade, não a liberdade política, mas a liberdade de desenhar a própria vida, de ser autor da própria vida. E por fim a idéia de que o nosso isolamento é existencial e não pode ser “curado”, de que não há nada terrível em estar só, ao contrário, a solidão pode ser uma experiência positiva para a vida. Foi isto o que eu tirei das leituras de Sartre e Camus. São escritores que nos ajudam a viver melhor e buscar a felicidade.

 

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