FOSTE
Porque foste na vida a última chamada;
Foste o elo perdido entre o amor e a vingança;
As palavras perdidas de um século findo,
Já esquecidas no tempo que se foi.
Porque foste no mundo um vício maldito;
Foste além da luz a brilhar no infinito;
A confusão do que se deseja e do que se despreza,
A escuridão assombroza da noite sem fim.
Porque foste para mim o primeiro amor,
Como a cidade distante assentada no topo do monte,
De cujos vigias desesperadamente escondi-me
A fim de não revelar o desejo que em minhas entranhas
se alojou.
Porque foste algo de natureza dupla.
Foste a glória da criação de Deus e a maldita tentação
do diabo.
Foste a beleza d’uma voz brasileira e o estrondo d’um
canhão ianque.
Foste algo que jamais terei novamente, porque foste.
O ESPINHO DO ADEUS
Quem já não chorou de saudade
Quando enfrentou perda e dano?
E quem já não fechou os olhos
Ao tentar mirar a glória majestosa do Sol?
Eu já pequei seriamente contra a vida
Quando arranquei as pétalas daquela flor lilás.
E a dor de ser traspassado pelo espinho do adeus
É a saga de todo navegador do mar da saudade.
Quem receber-me-á quando retornar ao porto de minha
infância?
E quem há de abrir a porta do lar do passado,
O passado que tentei sepultar sem sucesso?
Esta ilusão é transitória e um dia há de findar.
Dizem que sempre canto as mesmas dores,
Mas só porque não conhecem a eterna dor da saudade.
Não sabem que ela é uma dor que se quer guardar,
Como a de “Trocando Em Miúdos” de Buarque.
Meu coração é escravo dessas lembranças desesperadas,
Sempre ansiando pelo porto d’outrora.
E sigo perdido, sozinho, a vagar pela turbulência
Do infinito mar da saudade.
MIRAGEM
Esta noite será longa, eu sei.
A estrada está molhada
Com as gotas desta tempestade inesperada.
Eu aumento o volume do rádio
E espero por uma canção conhecida
Para acompanhar com minha voz.
Enquanto dirijo, meus dedos tocam o volante
Como se fora um instrumento musical.
A chuva que cai é exuberante,
E a estrada é só minha.
Ela é toda minha.
Eu deixei a tragédia para trás.
A destruição que vi foi uma miragem
Há algumas centenas de quilômetros atrás.
Mas meus olhos continuam a ver
O que minha mente quer esquecer.
Eu disse a todos eles que o Sol brilharia novamente.
Aumento o volume do rádio enquanto
Dirijo por entre as gotas da tempestade.
É uma daquelas canções que ouvia
Quando menino.
Mais rápido e mais rápido,
Como se alguém esperasse por mim
No fim da estrada.
Eu pensei que eu não veria mais
Esta miragem indesejada
Se eu pudesse ser mais veloz.
Eu li uma vez que Deus fora Todo-Poderoso
Apenas quando Ele criou o mundo,
Depois que tudo passou a ter vida
Nós nos tornamos os Todo-Poderosos.
Eu estou cansado, tão cansado.
Eu queria que tocassem uma canção de liberdade,
Uma daquelas que nos livram de miragens,
Como aquelas que há no Brasil.
SURPRESA
Eu ando pelo mundo,
Fotografando imagens ilusórias,
Fingindo que tenho um peito de aço.
Escondo-me das lentes de câmeras alheias.
Sorrio para todas as faces que vejo,
Como se não houvesse amanhã.
Na verdade, nem mesmo sei se há.
Não sei se haverá um amanhã.
Já fui surpreendido tantas vezes
Pelo corsário fugitivo do absurdo.
Sei que não posso me esconder.
Há uma praga devastadora lá fora,
E eles dizem que é a vingança divina
Contra os homens que se amam;
Os homens que se abraçam,
Violando as regras que outros homens criaram.
Eu pensei por tanto tempo
Que eu poderia esconder-me por trás de mentiras.
Eu menti para mim mesmo.
Escondi-me em uma prisão distante,
Numa cela solitária de densa escuridão.
E sonhei com manhãs azuis,
Tão azuis como o céu da Grécia.
Azuis como as águas do Mediterrâneo.
Um dia caminhava pelas ruas
De uma cidade mediterrânea.
Não, não era na Grécia. (Era uma cidadela espanhola.)
E sorri para mais um rosto desconhecido,
Um rosto masculino e pálido.
E nos amamos. Nos amamos com nossos olhares mútuos.
Só não creio que Deus haveria
De punir tamanho amor.
©2005. Gibson da Costa, Todos os Direitos Reservados.