Veja a seguir uma lista de livros que
especialistas julgam fundamentais para o entendimento da História do Brasil
(Folha de São Paulo, 02/04/2000).
BORIS FAUSTO
Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - Livro que
não se refere apenas à Colônia, mas nela localiza o essencial das "raízes
do Brasil". A distinção entre colonização espanhola e portuguesa fez
escola.
Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Holanda (Ed. Brasiliense) - Ensaio sobre
o imaginário do colonizador, como indica seu subtítulo: os motivos edênicos no
descobrimento e na colonização do Brasil.
Formação do Brasil Contemporâneo (Colônia),
de Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) - Um clássico sobre as linhas gerais da
implantação da Colônia, de inspiração marxista, sendo referência importante
para estudos posteriores.
O Diabo e a Terra de Santa Cruz, de Laura
de Mello e Souza (Ed. Cia das Letras) - Aproxima-se e ao mesmo distancia-se do
livro de Sérgio Buarque de Holanda, "Visão do Paraíso". Fundamental
para o conhecimento da religiosidade popular e das chamadas práticas de
feitiçaria no Brasil colonial.
Olinda Restaurada, de Evaldo Cabral de
Mello (Ed. Topbooks) - Trata-se de um estudo sobre o período holandês no
Brasil. Focaliza os anos 1630-1654, ampliando a compreensão dos interesses
envolvidos, ligados ao açúcar, e a natureza da guerra de expulsão.
Portugal e Brasil na Crise do Antigo
Sistema Colonial (1777-1808), de Fernando A. Novais (Ed. Hucitec) - Monografia
clássica, de inspiração marxista, versando sobre relações entre a colônia e a
metrópole, em uma conjuntura decisiva para os rumos da Independência
brasileira.
Segredos Internos, de Stuart B. Schwartz
(Ed. Companhia das Letras) - Monografia que reconstitui a economia e a
sociedade açucareira da Bahia, a partir de fontes primárias. Critica concepções
tradicionais sobre a continuidade no tempo e a riqueza dos senhores de engenho.
A Devassa da Devassa, de Kenneth Maxwell
(Ed. Paz e Terra) - Estudo das relações entre Brasil e Portugal, nos anos
1750-1808, tendo como foco a análise da Inconfidência mineira.
A Nação Mercantilista, de Jorge Caldeira
(Ed. 34) - Recentemente publicado, o livro é um ensaio sobre o Brasil colonial
e do século 19, tratando de relativizar os elementos estruturais e enfatizar
uma deliberada opção dos agentes internos, na explicação do "atraso
brasileiro".
D. João 6º no Brasil, de Oliveira Lima (Ed.
Topbooks) - Um clássico sobre o período joanino, publicado pela primeira vez em
1908. Reavalia o papel do rei português e reconstitui a vida na corte, com uma
qualidade que prenuncia a obra de Gilberto Freyre.
A Construção da Ordem e Teatro de Sombras, de José Murilo de Carvalho (Ed.
Relume Dumará) - Livro indispensável para o conhecimento do Império brasileiro,
concentrando-se, na primeira parte, na formação da elite e, na segunda, na
política imperial.
Tempo Saquarema - A Formação do Estado
Imperial, de Ilmar Rohloff de Mattos (Ed. Access) - Faz uma dupla com o livro
de José Murilo de Carvalho, iluminando as características do conservadorismo e
do jogo partidário.
Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco
(Ed. Topbooks) - Pela via de uma excelente biografia de seu pai, Nabuco de
Araujo, Joaquim Nabuco faz desfilar personagens centrais e analisa problemas da
vida política imperial.
Homens Livres na Ordem Escravocrata, de
Maria Sylvia de Carvalho Franco (Ed. Unesp) - Monografia clássica, concentrada
na região do Vale do Paraíba (SP), explorando temas importantes como a
violência no meio rural e as relações de compadrio.
Em Costas Negras, de Manolo Florentino (Ed.
Companhia das Letras) - Lança uma nova interpretação da sociedade colonial, enfatizando
a acumulação gerada pelo tráfico de escravos, a partir do Rio de Janeiro, e a
formação de um poderoso setor social representado pelos traficantes.
Rebelião Escrava no Brasil, de João José
Reis (Ed. Companhia das Letras) - Monografia por um especialista na história
social dos escravos, versando sobre o levante dos malês, movimento de escravos
islâmicos, que ocorreu em Salvador, em 1835.
As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz
Schwarcz (Ed. Companhia das Letras) - Biografia recente de Pedro 2º,
destacando-se pela reconstrução da figura do imperador e da vida sociopolítica
da corte.
Da Senzala à Colônia, de Emilia Viotti da
Costa (Ed. Unesp) -Um clássico sobre a escravidão nas áreas cafeeiras,
abrangendo aspectos econômicos, sociais e ideológicos.
O Norte Agrário e o Império, de Evaldo
Cabral de Mello (Ed. Topbooks) - Estudo sobre um tema pouco explorado -o da
distribuição de recursos pelo poder ccentral monárquico-, sustentando a tese do
favorecimento da corte e das províncias do centro-sul, pelo império.
A Espada de Dâmocles, de Wilma Peres Costa
- Estudo versando sobre o Exército, a Gueeerra do Paraguai e os anos de crise do
Império, explorando, entre outros aspectos, as várias vertentes do
republicanismo.
A Formação das Almas, de José Murilo de
Carvalho (Ed. Companhia das Letras) - Ensaio sobre a construção do imaginário
republicano, com fecunda utilização de fontes iconográficas e de monumentos.
Borracha na Amazônia, de Barbara Weinstein
(Ed. Hucitec) - Estudo sobre um tema pouco explorado -a expansão e a crise da
borracha na Amazônia e suas consequências socioeconômicas assim como políticas.
Os Sertões, de Euclides da Cunha (Ed.
Francisco Alves) - Não é um livro de história, mas uma verdadeira introdução a
um "outro Brasil", via episódio de Canudos. A própria ambiguidade de
Euclides, entre a "civilização" e a "barbárie", tornou-se
um importante caminho para a reflexão sobre o "dualismo" brasileiro.
O Regionalismo Gaúcho, de Joseph. L. Love (Ed. Perspectiva)
- Reconstrução da sociedade e sobretudo ddda política do Rio Grande do Sul,
entre 1882-1930. Abriu caminho para se rever o papel daquele Estado no âmbito
da política do "café-com-leite".
Política e Parentela na Paraíba, de Linda
Lewin (Ed. Record) - Monografia inovadora, concentrada no período da Primeira
República, lançando luz sobre uma oligarquia de base familiar.
Coronelismo, Enxada e Voto, de Victor Nunes
Leal (Ed. Nova Fronteira) - Clássico sobre o tema, no qual o autor utiliza
proveitosamente sua formação jurídica. Relativizou a importância do município
na constituição do coronelismo, enfatizando o papel das unidades estaduais.
Coffee, Contention and Change in the Making
of Modern Brazil, de Mauricio Font (Cambridge University Press) - Monografia
que critica teses tradicionais, como a da associação entre o PRP e os
interesses cafeeiros, chamando a atenção para a diversificação das atividades
econômicas em São Paulo durante a Primeira República.
Estudo sobre as Origens do Empresariado
Paulista, de Warren Dean - Enfatiza o papel dos grandes fazendeiros e do
comércio exportador no início da industrialização. Bases do Autoritarismo
Brasileiro , de Simon Schwartzman (Ed. Campus) - Estudo sociológico que busca
desvendar as raízes históricas do autoritarismo, criticando a tese da dominação
política de São Paulo na Primeira República.
Seminário Internacional sobre a Revolução
de 30, promovido pelo CPDOC (Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea
do Brasil) - Publicação de vários textos sobre os anos 30 no Brasil,
destacando-se, entre outros, os de Angela de Castro Gomes (classes populares),
Gerson Moura (relações internacionais) e José Murilo de Carvalho (Forças
Armadas).
Nota: Deixei de mencionar alguns livros importantes, por não se enquadrarem na
cronologia escolhida. Dentre eles, cito Gilberto Freyre, "Casa-Grande
& Senzala"; Celso Furtado, "Formação Econômica do Brasil";
Raymundo Faoro, "Os Donos do Poder"; Florestan Fernandes, "A
Integração do Negro na Sociedade de Classes".
EVALDO CABRAL DE MELLO
História do Brasil, de Robert Southey - O profundo conhecimento da história de
uma distante colônia portuguesa por parte deste "poeta laureado" da
Grã-Bretanha foi motivo de mofa para seus contemporâneos ingleses; mas se ainda
hoje ele é lido não o deve a sua poesia.
História do Brasil, de H. Handelmann -
Publicada dez anos decorridos da primeira edição da "História do
Brasil", de Varnhagen (1854), a obra do historiador alemão só em 1931
mereceu tradução brasileira, tratando-se ainda hoje de livro escassamente lido,
embora possa ser considerado o iniciador do estudo da história brasileira sob
critério regional.
Capítulos de História Colonial, de J.
Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/ Edusp) - A despeito de redigido há quase um
século, permanece obra indispensável, devido à garra sintetizadora do autor.
Não é o produto de intuições deixadas no ar, mas elaboradas ao longo de muitos
anos de convívio diário com as fontes da história colonial.
Casa-Grande & Senzala, de Gilberto
Freyre (Ed. Record) - Obra de intuições certeiras e de outras não tão certeiras
assim, proporciona uma visão poderosa do nosso passado colonial. Submetido a
análises pontuais, mostra deficiências compreensíveis num livro escrito nos
anos 30 do século 20, quando o autor não dispunha de uma infra-estrutura
monográfica capaz de embasar estudo de escopo tão ambicioso.
Caminhos e Fronteiras, de Sérgio Buarque de
Holanda (Ed. Companhia das Letras).
Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de
Holanda (Ed. Brasiliense) - "Caminhos e Fronteiras" e "Visão do
Paraíso" constituem duas obras-primas da nossa historiografia colonial e,
como tal, insuperadas por nenhum outro livro dedicado ao período. Honram a
historiografia de qualquer país. Literariamente, também têm lugar aparte graças
ao estilo espaçoso do autor.
Tempo de Flamengos, de J.A. Gonsalves de
Mello - Na trilha de Gilberto Freyre, que o estimulou aos estudos de história
social, o autor oferece um quadro abrangente da presença holandesa no cotidiano
urbano e rural do Nordeste e das relações do invasor com luso-brasileiros,
judeus, índios e negros.
Formação do Brasil Contemporâneo, de Caio
Prado Júnior (Ed. Brasiliense) - Sessenta anos decorridos da sua redação, continua
a ser uma síntese magistral da existência material da Colônia. Quem o consulta,
constata invariavelmente a precisão e a seriedade com que seu autor se
desincumbiu da tarefa, inclusive da cozinha do ofício. Obra escrita por um
marxista, ela poderia ser perfeitamente assinada por um historiador que o não
fosse.
Salvador Correia de Sá e a Luta pelo Brasil
e Angola, de Charles R. Boxer - Trata-se da mais importante das obras dedicadas
ao Brasil por este eminente historiador do mundo luso-brasileiro em língua
inglesa. Seu conhecimento das fontes do século 17 é algo de notável, servindo
para demonstrar que a erudição ainda é o melhor antídoto contra o
envelhecimento dos livros de história.
Segredos Internos, de Stuart B. Schwarz
(Ed. Companhia das Letras) -Verdadeiramente insubstituível para o eesstudo da
mais antiga das nossas sociedades coloniais, a canavieira do Nordeste.
D. João 6º no Brasil, de Oliveira Lima (Ed. Topbooks).
O Movimento da Independência, de Oliveira Lima (Ed. Topbooks) - Capistrano
reputava o "D. João 6º no Brasil" um livro desorganizado, mas não se
pode negar que ele oferece um panorama vigoroso do período juanino, que ainda
não foi superado na nossa historiografia. "O Movimento da
Independência" lhe é inferior, mas Octavio Tarquínio o considerava a obra
mais satisfatória sobre o processo emancipacionista, e pode-se afirmar que
continua a sê-lo.
Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco
(Ed. Topbooks) - Dispensável reiterar o óbvio, isto é, a importância desta obra
para a história do Segundo Reinado.
Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre
(Ed. Record) - É o livro em que melhor se manifestou o ovo de Colombo
gilbertiano, vale dizer, a aplicação dos métodos sincrônicos da antropologia
cultural, originalmente formulados para a compreensão das sociedades
primitivas, a uma sociedade de tipo histórico e, portanto, até então
convencionalmente estudada através dos métodos diacrônicos próprios da
historiografia.
Do Império à República, de Sérgio Buarque de
Holanda (Ed. Bertrand Brasil) - Juntamente com "Um Estadista do
Império", a que nada fica a dever, constitui a leitura realmente
indispensável para entender o declínio do Segundo Reinado. O fato de ser parte
da obra coletiva permitiu ao autor optar por uma análise exclusivamente
política, que descreve de dentro o funcionamento das instituições imperiais, em
vez de examinar a crise das instituições monárquicas mediante o estudo exógeno
do sistema escravocrata ou dos seus valores ideológicos.
História dos Fundadores do Império do
Brasil, de Octavio Tarquínio de Souza (Ed. Itatiaia) - A bibliografia recente
sobre o processo da Independência e o período regencial é singularmente pobre.
As biografias de Octavio Tarquínio ainda oferecem a melhor visão de conjunto, a
despeito das limitações do gênero biográfico e das restrições ideológicas
decorrentes da interpretação saquarema da história da fundação do Império, de
que o autor não se desprendeu. Um dos raros, coisa estranha, historiadores
brasileiros a dominar a técnica narrativa.
Os Donos do Poder, de Raymundo Faoro (Ed.
Globo) - Sua análise é particularmente feliz no tocante ao período monárquico,
razão pela qual não poderia deixar de ser incluído nesta lista, embora a
utilização do conceito de estamento patrimonial paire muitas vezes numa região
nebulosa.
A Construção da Ordem, de José Murilo de
Carvalho (Ed. Relume Dumará) - É uma análise detalhada e profunda da composição
dos grupos dirigentes, em particular a magistratura, que criaram o Estado
nacional e o consolidaram ao longo do Primeiro Reinado, da Regência e dos
primeiros anos do Segundo Reinado.
Bahia, Século 19, de Katia de Queiroz
Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - É um estudo modelar de uma sociedade provincial do
período monárquico, com base numa exploração hábil e exaustiva das fontes
baianas. É de lamentar que o modelo que a obra propõe ainda não tenha sido
seguido por outros historiadores especializados em história provincial.
A Abolição do Tráfico de Escravos
Brasileiro, de Leslie Bethell (Ed. Expressão e Cultura/Edusp) - É o que há de
melhor sobre o processo de tomada de decisões políticas no tempo do Império,
inclusive no tocante aos seus condicionamentos internacionais.
Os Sertões, de Euclides da Cunha (Ed. Francisco Alves) - A importância da obra
cifra-se hoje não na sua inspiração teórica ou doutrinária, mas no vigor da
narrativa, que sobreviveu bem melhor à prova do tempo do que a parte
ambiciosamente interpretativa do livro, que já nasceu inatual.
Ordem e Progresso, de Gilberto Freyre (Ed.
Record) - Sob a aparência desorganizada e boêmia da obra, característica mais
presente nela do que em outros livros do autor e da qual ele fazia garbo,
encontram-se várias idéias originais sobre a República Velha, a que não se tem
dado a devida atenção. As duas primeiras páginas do primeiro capítulo
constituem ponto altíssimo da prosa em língua portuguesa.
Um Estadista da República, de A.A. de Melo
Franco - Trata-se de um livro que, graças à pesquisa sólida e ao estilo sóbrio,
oferece o que até agora se escreveu de melhor em matéria de história política
da República Velha.
O Brasil Republicano, de Boris Fausto
(org.) (Ed. Bertrand) -Obra coletiva, tem as virtudes e os defeitos dos
projetos desta natureza no Brasil, de vez que não é possível preservar um alto
nível de qualidade para todas as contribuições individuais. O mesmo ocorrera
com as séries anteriores relativas ao Brasil colonial e ao Brasil monárquico.
História da República, de José Maria Belo -
Trata-se de uma síntese da história política da República Velha que nada tem de
extraordinária, mas que, dada a pobreza da historiografia sobre o assunto,
ainda pode ser lida com interesse.
De Getúlio a Castelo, de Thomas Skidmore (Ed. Paz e Terra) -É uma obra de
síntese cuja leitura pode servir de continuação ao livro de José Maria Belo.
Lanterna na Popa, de Roberto Campos
(Topbooks) - "Lanterna na Popa" é, na realidade, dois livros em um:
uma análise crítica da política econômica do Brasil desde os meados do século
20; e as recomendações pessoais acerca de episódios em que esteve envolvido o
autor e dos homens públicos que conheceu. Do ponto de vista do leitor, teria
sido preferível que tivessem sido separados.
A Vida do Barão do Rio Branco, de Luiz
Viana Filho (Ed. José Olympio) - É a obra-prima de um mestre da arte da
biografia, que, como Octavio Tarquínio, tinha o dom narrativo que no Brasil
parece ser monopólio dos biógrafos.
Memórias, de Gilberto Amado - Qualquer um
dos volumes de memórias de Gilberto Amado pode ser lido com interesse, mas
"História da Minha Infância" e "Minha Formação no Recife"
são especialmente valiosos para captar o tom da existência provinciana na
República Velha.
Baú de Ossos, de Pedro Nava (Ateliê
Editorial) - O livro é o ponto alto da memorialística brasileira. O historiador
da vida social da República Velha não o pode dispensar. É uma pena que os
volumes seguintes não tenham a mesma densidade. Afinal de contas, não se é
Proust facilmente.
LAURA DE MELLO E SOUZA
Histoire d'un Voyage Fait en la Terre du Brésil (História de uma Viagem Feita à
Terra do Brasil, 1578), de Jean de Léry - Com o extraordinário livro de Léry
-que Lévi-Strauss chamou de "breviáááárrio do etnólogo"-, o Brasil e
os tupinambá entram na Europa e lançam-se as bases do relativismo cultural. A
grande edição é a de Frank Lestringant (1994, para "Livres de
Poche"), que tomou por base a edição de 1580. A tradução brasileira, de
Sérgio Milliet, parece-me basear-se na de 1578 e é bastante incompleta, deixando
de fora passagens fundamentais.
História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador (Ed. Itatiaia) - Frei
Vicente escreveu a primeira história do Brasil, antes mesmo de existir um
Brasil. De certa forma, ele nos "inventou". É importantíssimo para os
fatos ocorridos nos primeiros tempos da colonização e arguto ao perceber as
contradições entre o lá (Portugal) e o cá (o Brasil).
Capítulos de História Colonial (1907), de
J. Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/Edusp) - Capistrano é o antepassado direto
das interpretações do Brasil que voltam ao período colonial para entender o
processo formativo do país. A melhor coisa do livro é a ênfase na
interiorização do processo colonizador.
Vida e Morte do Bandeirante (1929), de José
Alcântara Machado (Ed. Itatiaia) - É, a meu ver, a primeira monografia da
moderna historiografia brasileira. Recorta um objeto -São Paulo nos séculos 16
e 17-, destaca umm problema -a pobreza econômica- e "inventa" uma
fonte documental: os inventários e testamentos, só muito depois utilizados pela
historiografia do hemisfério Norte.
Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre - É um dos mais
importantes trabalhos das ciências sociais neste século. Polêmico e discutível,
tem aspectos geniais. Influenciou a historiografia norte-americana sobre
escravidão e inaugurou temas só tratados pela escola dos Annales décadas
depois. No que diz respeito à colônia, traz para a sua análise uma renovação de
enfoque e temas sem precedentes.
Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de
Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) - Este livro deu, como logo no início nos
alerta o autor, sentido à colonização brasileira e forneceu instrumentos para
importantes análises estruturais subsequentes. Envelhecido e discutível nas
partes sobre sociedade e administração, é argutíssimo ao apontar os canais para
a dinamização interna da economia -os circuitos de muares, a pecuária, a
economia de subsistência.
Caminhos e Fronteiras (1956), de Sérgio
Buarque de Holanda (Ed. Companhia das Letras) - Compreende uma série de
exercícios de história cultural que, apesar de breves, têm um fôlego
surpreendente. Abre perspectivas de análise ainda irrealizadas, e é intrigante
que seja um livro tão pouco lido e citado.
Visão do Paraíso (1959), de Sérgio Buarque
de Holanda (Ed. Brasiliense) -É a obra mais notável de toda a historiografia
brasileira. Tem erudição, reflexão e originalidade ímpares. Por ser tão
superlativa, talvez iniba um pouco o leitor. É mais uma obra-prima de Sérgio
que não conheceu a repercussão merecida e só começou a ter impacto na
historiografia brasileira por volta do meado dos anos 80.
Portugal e Brasil na Crise do Antigo
Sistema Colonial (1979), de Fernando A . Novais (Ed. Hucitec) - Esta obra
retoma a idéia do sentido da colonização de Caio Prado e analisa de forma
notável o "sistema colonial", mostrando suas contradições e a
necessidade de se entender metrópole e colônia, Europa e Brasil em suas
relações dinâmicas.
Salvador Correia de Sá e a Luta pelo Brasil
e Angola (1952), de Charles R. Boxer - Este é, até hoje, o único estudo de
fôlego sobre a formação do complexo sul-atlântico do império português,
destrinchando a constituição e consolidação dos nexos estabelecidos entre a
América portuguesa, a África e a Europa no século 17. Por fim, realiza ao mesmo
tempo a biografia da sua personagem, Salvador Correia, e a história do
Atlântico Sul, mostrando como, às vezes, certos agentes históricos encarnam a
História.
A Fronda dos Mazombos (1995), de Evaldo
Cabral de Mello (Ed. Topbooks) - É um marco na historiografia social do Brasil.
Sendo uma narrativa assentada na minúcia e na atenção à especificidade
-Pernambuco entre 1660 e 1715-, cria, connntudo, o melhor "modelo" de
análise das sublevações coloniais.
MANOLO FLORENTINO
O Império Marítimo Português - 1415-1825, de Charles R. Boxer (Edições 70,
Lisboa) - Imprescindível demonstração da natureza arcaica e parasitária do
Antigo Regime lusitano e do lugar da Colônia brasileira nos quadros do império
português.
Transformation in Slavery - A History of
Slavery in Africa, de Paul E. London Lovejoy (Cambridge University Press) -
Explica a inserção estrutural da África no sistema Atlântico (via tráfico
negreiro) a partir de motivações intrínsecas à própria história africana.
Fundamental para pôr fim ao mito do "bom selvagem".
A Sociedade contra o Estado, de Pierre
Clastres (Ed. Francisco Alves) - Para entender politicamente as sociedades
pré-cabralinas. Originalíssima contribuição etno-histórica deste anarquista,
discípulo de Lizot, precocemente desaparecido.
Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de
Holanda (Ed. Brasiliense) -Para além da riqueza e do poder, conquista e
colonização do Brasil obedeceram a profundas motivações edênicas. Um verdadeiro
show de elegância e erudição.
Casa-Grande & Senzala (Formação da
Família Brasileira sob o Regime de Economia Patriarcal), de Gilberto Freyre
(Record) - Genial. Antecipou algumas das mais importantes conquistas
metodológicas da historiografia ocidental. É difícil encontrar hoje em dia quem
escreva com tanta coragem.
Segredos Internos, de Stuart B. Schwartz
(Ed. Companhia das Letras) - A mais qualificada síntese moderna da história
baiana. Incorpora o que há de melhor entre as pesquisas sobre a região,
esmerando-se no trânsito entre diversos tipos de fontes.
A Escravidão Africana no Brasil (Das
Origens à Extinção do Tráfico), de Maurício Goulart (Ed. AlfaÔmega) - Até o
momento, a mais sólida estimativa das importações brasileiras de escravos
africanos. Uma verdadeira aula sobre como abordar consistentemente grandes
questões a partir de poucos dados.
História Geral do Brasil, de Francisco
Adolpho de Varnhagen (Ed. Melhoramentos) - O grande tratado onomástico da
históriaa brasileira, como recentemente definiu-o um arguto crítico. Devem ser
consultadas as anotações de Capistrano de Abreu e Rodolfo Garcia.
A Devassa da Devassa (A Inconfidência
Mineira: Brasil-Portugal, 1750-1808), de Kenneth Maxwell (Ed. Paz e Terra) -
Para entender a Inconfidência Mineira a partir de uma perspectiva
verdadeiramente atlântica.
O Espelho de Próspero (Cultura e Idéias nas
Américas), de Richard M. Morse (Ed. Companhia das Letras) - Se nada nos une, o
que de fato nos separa? Explica, dentre outros tópicos, as marcantes diferenças
culturais entre a colonização ibérica e a anglo-saxã, partindo da própria Idade
Média européia. Erudição borgiana.
Formação Econômica do Brasil (1959), de
Celso Furtado (Companhia Editora Nacional) - Um de seus grandes méritos é o de
haver montado um modelo econômico que qualquer leitor culto pode ver
funcionando em todas as conjunturas do mercado internacional. Seco e movido por
uma lógica implacável.
Homens de Grossa Aventura - Acumulação e
Hierarquia na Praça Mercantil do Rio de Janeiro, 1790-1830 (1998), de João
Fragoso (Ed. Civilização Brasileira) - Produto arrojado da recente
profissionalização do ofício de historiador. Não faz concessões.
A Construção da Ordem (1980), de José
Murilo de Carvalho (Ed. UFRJ/Relume-Dumará) - Identifica os meios pelos quais o
Estado imperial herdou e redefiniu a tradição absolutista e patrimonial
portuguesa, gerando unidade, centralização e ordem. Exemplo do que a
historiografia pode lograr mediante o diálogo interdisciplinar profundo.
Rebelião Escrava no Brasil (1986), de João
José Reis (Companhia das Letras) -Notável espelho de quão complexas eram aas
relações entre os escravos, no cativeiro e em meio às tentativas de superá-lo.
Importante resgate da força que o Islã negro teve entre nós.
Formação da Literatura Brasileira (1959),
de Antonio Candido (Ed. Itatiaia) - Para contextualizar as escolas literárias e
o mundo dos letrados.
A Abolição do Tráfico de Escravos no Brasil
(1976), de Leslie Bethell (Ed. Expressão e Cultura/Edusp) - O que torna esse
livro imprescindível é o diálogo que ele estabelece entre as fontes britânicas
e as brasileiras. Afinal, a escravidão esteve tão arraigada entre nós que
somente uma forte determinação exterior poderia dar fim ao tráfico que a
alimentava.
Os Donos do Poder (1958), de Raymundo Faoro
(Ed. Gobo) - Original aplicação de alguns dos mais importantes conceitos
bolados por Max Weber. Parte da política para, no limite, questionar a própria
existência de uma "cultura brasileira".
Na Senzala, uma Flor (1999), de Robert W. Slenes (Ed. Nova Fronteira) - Obra de
alta carpintaria na qual demografia, antropologia, linguística, iconografia e
números delicadamente dão voz aos cativos. De quebra, mostra que a distância
entre nós e a África era bem menor do que o Atlântico.
Machado de Assis - A Pirâmide e o Trapézio
(1976), de Raymundo Faoro (Ed. Globo) - Destaca-se pela maneira absolutamente
refinada com que se utiliza da produção machadiana como fonte histórica. Um
espelho primoroso e sutil da Corte imperial, de seus tipos humanos e
instituições.
Os Últimos Anos da Escravatura no Brasil
(1850-1888) (1978), de Robert Conrad (Ed. Civilização Brasileira) - O melhor
painel sobre o abolicionismo e a destruição do escravismo em cada uma das
regiões do país. Alia a sistematicidade anglo-saxã a uma extraordinária coleção
de fontes.
Da Monarquia à República - Momentos
Decisivos (1977), de Emília Viotti da Costa (Ed. Unesp) - Para entender a
transição em seus aspectos mais gerais. Alia uma enorme capacidade de síntese a
grande profundidade tópica.
A Formação das Almas (1990), de José Murilo
de Carvalho (Ed. Companhia das Letras) - Ensina que a idéia de República também
tem suportes e história.
Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha (Ed. Francisco Alves) - É obra seminal
para a compreensão de um certo tipo de expressão cultural bem característico do
Brasil.
População e Desenvolvimento Econômico no
Brasil (1981), de Thomas W. Merrick & Douglas H. Graham (Ed. Jorge Zahar) -
Dos poucos tratados sobre a história da população brasileira. Fundamental para
o entendimento de nosso evolver demográfico, sobretudo a partir de fins do
século 19.
Preto no Branco - Raça e Nacionalidade no
Pensamento Brasileiro (1976), de Thomas E. Skidmore (Ed. Paz e Terra) -
Queira-se ou não, este livro ainda é uma incontornável referência quando o
assunto é pensamento racial brasileiro.
Coronelismo, Enxada e Voto (1948), de
Victor Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Desvenda os processos de reprodução do
poder local antes da industrialização acelerada.
A Invenção do Trabalhismo (1994), de Angela
de Castro Gomes (Ed. Relume-Dumará) - Para compreender como Getúlio e o
trabalhismo se entranharam tanto e por tanto tempo nos mais recônditos cantos
de nossa consciência; para entender como se pode ouvir e atender aos reclamos
de muitos -para mantê-los em seu devido lugar.
1964 - A Conquista do Estado, Ação
Política, Podder e Golpe de Classe (1981), de Rene A. Dreifuss (Ed. Vozes) -
Uma radiografia gramsciana sobre o envolvvimento político de parcela expressiva
do empresariado na crise que desembocou no golpe de 1964.
Os Militares na Política - As Mudanças de
Padrões na Vida Brasileira (1975), de Alfred Stepan (Ed. Paz e Terra) - Uma boa
radiografia da presença dos militares na vida política nacional. Uma pesquisa
que mereceria seqüência.
Processos e Escolhas - Estudos de
Sociologia Política (1998), de Elisa Pereira Reis (Ed. Contracapa) -Mais um
vigoroso exemplo da interdisciplinnaridade nas ciências humanas. Destaca-se sobretudo
pela análise da iníqua desigualdade social, este traço tão recorrente de nossa
história.
RONALDO VAINFAS
História do Brasil (1627), de Frei Vicente do Salvador (Ed. Itatiaia) - O
primeiro que escreveu um livro com este título. Rigoroso nos fatos e muito
crítico. Franciscano, foi nosso primeiro historiador.
Capítulos de História Colonial (1907), de
Capistrano de Abreu (Ed. Itatiaia/Edusp) - Deu uma guinada na historiografia
brasileira, pois questionou a "História Geral" de Varnhagen, bem documentada,
mas história "oficial". Deslocou o foco da colonização portuguesa
para a Colônia na sua diversidade.
Casa-Grande & Senzala (1933), de
Gilberto Freyre (Ed. Record) - Livro genial, apesar de inúmeras críticas que
com razão lhe moveram. Concebeu como ninguém a mestiçagem cultural inerente à
nossa história e introduziu a antropologia na historiografia brasileira.
Formação do Brasil Contemporâneo (1942), de
Caio Prado Jr. (Ed. Brasiliense) - Foi o primeiro a conceber a colonização como
sistema e como estrutura, apesar dos vários deslizes na avaliação da questão
racial. Ao contrário do que muitos dizem, percebeu muito bem as articulações
econômicas no interior da Colônia.
A Organização Social dos Tupinambás (1946),
de Florestan Fernandes - O melhor livro de Florestan, que fez história sem ser
historiador. Acho que os antropólogos não gostam, mas o livro dá lição de como
explorar etnograficamente as fontes européias para desvendar a cultura
tupinambá.
Visão do Paraíso (1959), de Sérgio Buarque
de Holanda (Ed. Brasiliense) - É o melhor livro do maior historiador
brasileiro, pois inaugura o estudo do imaginário do Descobrimento e avança na
comparação entre a colonização portuguesa e a espanhola da América, por ele mesmo
esboçada em "Raízes do Brasil" (1936).
Portugal e Brasil na Crise do Antigo
Sistema Colonial (1979), de Fernando Novais (Ed. Hucitec) - Avançou na tese da
colonização moderna como sistema, o que causou muita polêmica. Mas o melhor do
livro é a maneira de articular as transformações econômicas européias e a
política portuguesa no fim do século 18.
Relações Raciais no Império Colonial
Português (1967), de Charles Boxer (Ed. Afrontamento, Lisboa) - Nosso maior
brasilianista, autor de copiosa obra. Escolhi esse livro de Boxer como emblema
de suas teses. Pela inserção do Brasil nos quadros do império português e pela
crítica ao mito da "democracia racial".
Rubro Veio (1985), de Evaldo Cabral de
Mello (Ed. Companhia das Letras) - Diplomata, é um dos nossos melhores
historiadores, autor de vasta obra sobre Pernambuco colonial. Neste livro,
Evaldo põe abaixo mitos importantes da guerra contra os holandeses como patamar
da brasilidade.
O Diabo e a Terra de Santa Cruz (1986), de
Laura de Mello e Souza (Ed. Companhia das Letras) - O melhor livro de Laura,
embora muitos prefiram "Desclassificados do Ouro". Mas é que o Diabo
inaugurou a moderna história das mentalidades no Brasil, mostrou as
potencialidades das fontes inquisitoriais para a história cultural e entrou
fundo no problema da religiosidade, traço essencial da história e da vida no
Brasil.
O Abolicionismo (1883), de Joaquim Nabuco
(Ed. Nova Fronteira) - Livro engajado na causa abolicionista de forma moderada,
um clássico do pensamento liberal à moda brasileira. O melhor do livro é o fato
de Nabuco ter percebido a especificidade da escravidão brasileira em relação à
norte-americana, salientando que, entre nós, ela não correspondia exatamente às
hierarquias raciais.
Sobrados e Mucambos (1936), de Gilberto
Freyre (Ed. Record) - O segundo grande livro de tantos quanto escreveu Freyre,
neste caso desvendando o cotidiano da escravidão no cenário urbano do Rio de
Janeiro no século 19. Complementa seu livro maior, "Casa-Grande &
Senzala", de 1933. Formação da Literatura Brasileira (1957), de Antonio
Candido (Ed. Itatiaia) - Clássico do maior crítico literário brasileiro e
historiador de nossa literatura. Com máxima acuidade e erudição, desvenda a
constituição de um sistema literário no Brasil desde 1750 até 1880. Combina
análise estética com interpretação histórica, atento à formação da
nacionalidade e suas representações.
Da Senzala à Colônia (1966), de Emília
Viotti da Costa (Ed. Unesp) - O título não é bom, mas o livro é clássico sobre
o complexo jogo de interesses envolvido na abolição do tráfico e da escravidão
no Brasil.
Homens Livres na Ordem Escravocrata (1969),
de Maria Sylvia de Carvalho Franco (Ed. Unesp) - O primeiro livro que,
estudando a sociedade escravista, pôs em cena os brasileiros que não eram
senhores nem escravos, utilizando-se pioneiramente de processos-crime como
fonte histórica.
Nordeste 1817 (1972), de Carlos Guilherme
Mota - Um grande livro sobre o conflito de classes e suas representações na
Revolução de 1817, umas das várias insurgências da história pernambucana.
Incluo o livro no período imperial porque trata do contexto joanino,
pré-emancipatório.
Rebelião Escrava no Brasil (1985), de João
José Reis (Ed. Companhia das Letras) - O melhor livro de um dos melhores
histtooriadores brasileiros atuais, na minha opinião o melhor. É livro sobre a
Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835: uma lição de como estudar o conflito
social em conexão com o poder, a cultura e as religiosidades, além de ligar a
história brasileira à africana.
Tempo Saquarema (1986), de Ilmar Mattos
(Ed. Access) - A melhor interpretação sobre a formação do Estado imperial numa
perspectiva de luta de classes, explicando a hegemonia alcançada pelo Rio de
Janeiro escravocrata no século 19.
Bahia, Século 19 - Uma Província no Império
(1992), de Kátia Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - Reúne resultados de pesquisas
realizadas desde os anos 60. Historiadora "greco-baiana" de forte
formação braudeliana, foi uma das primeiras a valorizar as relações entre
geografia e história, as fontes seriais e a demografia histórica. Utilizou
números sem prejuízo da narrativa e a favor de uma história social global.
Na Senzala, uma Flor (1999), de Robert
Slenes (Ed. Nova Fronteira) - Apesar de publicado somente em 1999, reúne
pesquisas e textos que o autor realiza há décadas. É o principal historiador da
cultura banto na diáspora da escravidão brasileira. Explica a recriação de
identidades culturais africanas, apesar e através da escravidão.
Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha (Ed.
Francisco Alves) - Não era historiador, mas com razão é considerado um dos
primeiros sociólogos brasileiros. Pôs em cena o sertão nordestino e foi
cronista da guerra de Canudos, iluminando face até hoje encoberta do Brasil.
Coronelismo, Enxada e Voto (1949), de
Victor Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Um clássico sobre as relações entre
poder local e poder central no Brasil. Mostra como o primeiro sempre foi chave,
apesar da centralização política brasileira vigente desde o Império.
Os Donos do Poder (1959), 2 volumes, de
Raymundo Faoro (Ed. Globo) -A melhor síntese sobre a história
político-institucional brasileira desde a Colônia até a década de 50. A segunda
edição de 1975 avança e ajuda a compreender a instauração do regime militar em
1964.
O Colapso do Populismo no Brasil (1967), de
Octávio Ianni (Ed. Civilização Brasileira) - Livro admirável, entre tantos de
Ianni, porque defende como ninguém a interpretação do populismo como
"pacto" entre a burguesia e o proletariado. É antivarguista, claro,
mas ilumina uma aliança fundamental para os trabalhadores brasileiros.
A Revolução de 1930 (1970), de Boris Fausto
(Ed. Companhia das Letras) -Ensaio clássico sobre o jogo de forças pollíticas que
levou à ascensão de Getúlio Vargas, com destaque para a análise da "crise
dos anos 20".
Liberalismo e Sindicato no Brasil (1976),
de Luís Werneck Vianna - (Ed. Paz e Terra) - Creio ser o melhor estudo sobre a
história do sindicalismo no Brasil, porque combina informação institucional com
reflexão teórica. É definitiva sua análise sobre a superação do
"liberalismo fordista" pelo corporativismo getulista, baseado em
Gramsci.
O Cativeiro da Terra (1979), de José de
Souza Martins (Ed. Hucitec) -Um livro cirúrgico sobre as relações de trabalho
presentes no colonato, emblema de como se fez a transição para o assalariamento
rural no Brasil. Teoricamente denso, é livro que ensina muito sobre a burguesia
não-capitalista do país.
1930 - O Silêncio dos Vencidos (1981), de
Edgard De Decca (Brasiliense) - Um exemplo da historiografia paulista
exageradamente antivarguista. No entanto, descortinou as alternativas
revolucionárias nos anos 20 e 30 e mostrou como as desastradas atitudes do
Partido Comunista puseram a perder o movimento operário no Brasil.
Os Bestializados (1987), de José Murilo de
Carvalho (Ed. Companhia das Letras) - Outro clássico de nossa historiografiaa,,
pois mostra como o "povo brasileiro" era mais esperto do que pensavam
os adversos. Não ligou para a proclamação da República nem para a política
institucional, percebendo-as como vis, e foi tratar de outras coisas,
resistindo à sua maneira.
A Invenção do Trabalhismo (1988), de Angela
de Castro Gomes (Ed. Relume-Dumará) - É a grande referência para estudar o
rreegime instaurado entre 1930 e 37 no Brasil em contraponto à historiografia
paulista, na verdade muito opositora de Vargas. Ângela leva o trabalhismo a
sério e, sem endossar o "getulismo", consegue explicar a longevidade
do regime no campo do imaginário político.
JOÃO JOSÉ REIS
O Brasil Monárquico - Tomo 2 da "História Geral da Civilização
Brasileira", org. de Sérgio Buarque de Holanda (Difusão Européia do Livro,
1970-1972) - Obra coletiva, permanece o melhor panorama do Brasil monárquico,
com capítulos de história política (maior ênfase), econômica, diplomática,
militar, religiosa, escravidão, influência britânica, emancipação política e
revoltas regionais, entre outros temas. Reflete bem o estado da pesquisa
histórica, sobretudo paulista, no início dos anos 70 do Novecentos.
Império - A Corte e a Modernidade Imperial
- Vol. 2 da "História da Vida Privaddda", org. de Luiz Felipe de
Alencastro, direção de Fernando A. Novais (Ed. Companhia das Letras) - Obra
coletiva, com exemplos de abordagens emergentes. Mas não é só "história
nova", e é algo mais que "história da vida privada". O Império
visto através do escravo e do senhor, do imigrante e nativo, dos comportamentos
e representações diante da vida e da morte, temas amarrados e acrescidos de
outros, em penetrante capítulo introdutório.
Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco
(Ed. Topbooks) - Fosse apenas uma biografia do pai Nabuco de Araújo, este livro
do filho seria suspeito. Tornou-se um clássico indispensável porque é uma história
envolvente, testemunho honesto e bem documentado do Império.
Sobrados e Mucambos, de Gilberto Freyre
(Ed. Record) - A ordem senhorial urbana, num livro mais bem contextualizado que
"Casa-Grande & Senzala". Trata com originalidade e sem cerimônia
assuntos que vão dos mais surpreendentes, como estilos de barba e bigode, aos
convencionais, como escravidão e miscigenação. Nem tudo faz sentido, mas quase
tudo faz pensar.
Tempo Saquarema, de Ilmar Rolf Mattos (Ed. Access) - Vai ao âmago da calmaria do
Segundo Reinado. A construção do Estado nacional é a história da afirmação da
classe senhorial brasileira, em torno do pacto conservador contra a desordem
nas ruas e senzalas.
A Construção da Ordem e Teatro de Sombras,
de José Murilo de Carvalho (Ed. Relume-Dumará) - Introduz modo novo de fazer
história política. Traça perfil da elite política imperial, suas origens
sociais, regionais, ocupacionais. É sobre essa gente em batalhas cruciais, como
a abolição e a lei de terras, em relação às quais os senhores rurais, bem
representados no poder, nem sempre foram servidos pelo senhor do trono.
As Barbas do Imperador, de Lilia Moritz
Schwarcz (Ed. Companhia das Letras) - Abordagem original de Pedro 2º, trata
sobretudo da construção da imagem pública do monarca, a partir de vastíssima
documentação iconográfica. Se às vezes passa muito rápido sobre tais fontes,
deixa sempre pistas inteligentes.
Visões da Liberdade, de Sidney Chalhoub
(Ed. Companhia das Letras) - É a corte da perspectiva do escravo. Mostra como
ele construiu a derrocada da escravidão no dia-a-dia, avançando suas próprias
visões de liberdade, finamente elucidadas pelo historiador. Análise de classe
com classe.
Bahia, Século 19, de Kátia M. de Queirós
Mattoso (Ed. Nova Fronteira) - É o Império visto da periferia, nesta
radiografia bem documentada da província baiana. Geografia, demografia,
economia, família, escravidão, riqueza, pobreza, governo, religião -esforço
exemplar em direção à inalcançávell história totalizante.
Pátria Coroada, de Iara Lis Carvalho Souza
(Ed. Unesp). Da Senzala à Colônia , de Emilia Viotti da Costa (Ed. Unesp) -
Escrita há mais de 30 anos, continua a melhor obra de síntese sobre a ascensão
e queda da escravidão no império do café.
Obra Completa, de Machado de Assis (Ed.
Nova Aguilar) - O mestiço Machado pode ter sido quem mais bem entendeu o branco
da corte. Visão penetrante e impiedosa, embora sutil, da classe senhorial e da
resistência astuciosa dos subalternos apanhados nas rédeas da dominação
paternalista.
Primeiras Trovas Burlescas, de Luiz
(Getulino) Gama - Poemas do militante abolicionista negro, de 1904, talvez a
primeira expressão literária de orgulho racial afro-brasileiro. É também poesia
de crítica divertida e contundente ao racismo em seu tempo.
ANGELA DE CASTRO GOMES
À Margem da História da República (1981), de Vicente Licínio Cardoso (org.)
(Ed. UnB) - Livro histórico, organizado por um engenheiro positivista, reunindo
ensaios produzidos pelos mais representativos intelectuais atuantes nas primeiras
décadas da República: Alceu Amoroso Lima, Oliveira Viana, Ronald de Carvalho,
Pontes de Miranda etc. É um precioso balanço crítico, realizado por ocasião das
comemorações do centenário da Independência, cuja primeira edição é de 1924.
Coronelismo, Enxada e Voto (1975), de
Victor Nunes Leal (Ed. Nova Fronteira) - Um clássico da literatura sobre a
Primeira República que muito extrapola este período, colocando sob enfoque
questões fundamentais para o exercício da dominação política em nosso país. Um
grande número de trabalhos foram produzidos desde que o autor, em 1949,
defendeu sua interpretação. Todos lhe são tributários, reconhecendo seu
pioneirismo e agudeza de análise.
A Revolução de 30 (1970), de Boris Fausto
(Ed. Companhia das Letras) - Análise historiográfica que retoma e aprofunda as
críticas à concepção, vigente à época, de que os conflitos da Primeira
República e a própria Revolução de 30 adviriam do enfrentamento entre setor
agroexportador e setor urbano-industrial. Com sólida pesquisa histórica, o
autor impõe uma nova interpretação, centrada nos conflitos intra-oligáquicos
fortalecidos por movimentos militares, que não mais abandonaria a produção de
textos sobre o período republicano.
O Brasil Republicano (1975-86), de Boris
Fausto (org.), (volumes 8, 9, 10 e 11 da "História Geral da Civilização
Brasileira) (Ed. Bertrand) - Grande obra, reunindo numerosos colaboradores de
formações acadêmicas diferenciadas, que procura abordar temas e questões da
história política, econômica, social e cultural da República no Brasil.
Referência obrigatória para os que desejam conhecer o período, tanto em termos
históricos quanto historiográficos.
A Formação das Almas (1990), de José Murilo
de Carvalho (Ed. Companhia das Letras) - Autor com ampla produção sobre o
período imperial inova a literatura que analisa a República, colocando como seu
objeto a produção de símbolos e o estudo do imaginário político. É excelente
exemplo da renovação da história política no Brasil, do trabalho
interdisciplinar e do uso de fontes ainda hoje pouco freqüentadas, como telas,
caricaturas e charges.
O Problema do Sindicato Único no Brasil
(1978), de Evaristo Moraes Filho (Ed. Alfa-Ômega) - Outro texto clássico que
aborda tema embllemático de estudos sobre o período republicano: a montagem do
sistema sindical do pós-30 e a questão do corporativismo. Publicado pela
primeira vez em 1952, o livro, de um dos primeiros professores de direito do
trabalho no Brasil, inaugura uma longa lista de seguidores, que reúne
sociólogos, antropólogos, cientistas políticos e historiadores, desde então.
A Revolução Brasileira (1966), de Caio
Prado Jr. (Ed. Brasiliense) - Logo após o movimento militar de 1964, o livro deste
prestigioso historiador desencadeou muitos debates, especialmente pelas
críticas desenvolvidas às interpretações compartilhadas sobre a formação
histórica brasileira, que, até então, orientavam particularmente as atividades
da esquerda brasileira. Neste sentido, torna-se um texto-referência, quer para
os trabalhos que se voltaram para a análise do período do pré 1964, quer para
os que investiram no estudo do regime militar.
Cidadania e Justiça (1979), de Wanderley
Guilherme dos Santos (Ed. Campus) - Um livro que marcou os debates de fins dos
anos 70 e da década seguinte, incorporando-se definitivamente à bibliografia de
todos os que desejam pesquisas e temas vinculados à política social e à
organização do trabalho no Brasil. Uma contribuição decisiva à reflexão sobre
os caminhos e os obstáculos do processo de construção da cidadania na
República.
A Ordem do Progresso (1989), de Marcelo
Paiva Abreu (org.) (Ed. Campus) - Coletânea produzida por ocasião das
comemorações do centenário da República, reúne textos que procuram fazer uma
análise da economia brasileira, em perspectiva histórica, cobrindo o período
que vai da proclamação até o governo Sarney.
História da Vida Privada no Brasil
(1998-99), de Fernando Novais (org.), volumes 3 e 4 (Ed. Companhia das Letras)
- Volumes organizados, respectivamente, pppor Nicolau Sevcenko e Lilia M.
Schwarcz, trata-se de obra conjunta, em que vários colaboradores examinam
diferenciados temas, todos confluindo para a questão das relações entre o
público e o privado no Brasil. Um rico, recente e estimulante panorama da
história sociocultural do período republicano.