Caminho das Pedras

 

 

 

Esqueça a reverência ao abrir Dom Quixote

 

Maria Augusta da Costa Vieira

 

     A obra mais traduzida no mundo depois da Bíblia está ganhando mais três versões no Brasil. “O engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha”, do escritor espanhol Miguel de Cervantes (1547 – 1616) - eleito por cem escritores de 54 países, em uma pesquisa pelo Clube do Livro da Noruega, o melhor livro da história – está pronto para conquistar novos leitores.

 

     A Nova Cultural acaba de relançar a tradução mais popular, a dos viscondes portugueses de Azevedo e de Castilho. No final de outubro, a Editora 34 lança uma nova tradução, prometendo reproduzir o ritmo e o humor da linguagem cervantina. Além disso, o poeta, tradutor e ensaísta Ferreira Gullar escreveu uma adaptação do romance para o público jovem (editora Revan, 224 págs., R$ 29).

     Apesar de estarmos diante da obra literária mais importante da humanidade, não há por que se intimidar. Na verdade, a fama do “Quixote” se deve muito à sua capacidade comunicativa intensa com cada um de seus leitores individuais, no passado e no presente, acima e abaixo da linha do Equador.

 

     Quando se comemorou os 450 anos do nascimento de Cervantes, em 1997, o Círculo de Belas Artes de Madri propôs uma festividade totalmente incomum durante as celebrações do Dia do Livro. Credenciou mil pessoas, das mais variadas origens culturais de todo o mundo, para uma leitura, em voz alta e ininterrupta, do “Quixote”.

 

      Cada participante se encarregou de ler em seu próprio idioma um fragmento da oba, de modo que todos os demais, mesmo desconhecendo a língua, sabiam qual era o conteúdo da leitura. O objetivo central da reunião foi o de evidenciar que a obra de Cervantes é um espaço de convergência de toda a humanidade, capaz de romper as muitas fronteiras entre os povos.     No entanto, se o “Quixote” tem a capacidade de se integrar nas mais diversas culturas, ao mesmo tempo está arraigado a um contexto muito específico: a Espanha dos séculos 16 e 17. A primeira parte da obra foi publicada em 1605 e a segunda, apenas em 1615. Quando Cervantes publicou a primeira parte contava com 58 anos e já tinha aprendido, como ele mesmo diz, a ter paciência diante das adversidades da vida.

 

 

Maria Augusta da Costa Vieira, 50, ‘professora de Literatura Espanhola na USP

E autora de “O dito pelo não dito: paradoxos de  Dom Quixote”

(Edusp/Fapesp). Está lendo “Raízes do Riso”, de Elias Thomé Saliba

e “Leniza & Elis”, de Ariovaldo José Vidal e Joaquim Alves de Aguiar. Endereço eletrônico: [email protected].

 

1 O primeiro cuidado que você deve ter é com a escolha da edição. Não será difícil encontrar edições do “Quixote” em português, como a da Villa Rica, com tradução de Eugenio Amado (em dois volumes, 1.022 págs., R$ 90), ou mesmo, em algum sebo, a da José Olympio, traduzida por Almir de Andrade e Milton Amado. Como leitura, elas são mais razoáveis e acessíveis que a tradução mais popular dos viscondes portugueses, publicada pela primeira vez no Brasil nos anos 70 e relançada agora pela Nova Cultural (690 págs., R$ 9,90). É bom ter em cont que se trata de uma tradução do século 19 que pode provocar uma leitura travada. Uma boa opção seria passar os olhos por uma edição em espanhol que contenha notas. É provável que você se surpreenda ao constatar que é capaz de ler Cervantes no original. Afinal, a língua espanhola dos tempos de Dom Quixote não fica tão distante assim da portuguesa. Outra opção é aguardar o lançamento da Editora 34. A tradução de Sérgio Molina, vem em edição bilíngüe, com notas.

 

2 Com a  obra em mãos, preste atenção especial ao Prólogo da primeira parte. Trata-se de algo que foge do habitual. Seria até possível dizer que se trata de um “antiprólogo”, pois em vez de o autor enaltecer sua obra, se põe a falar de sua dificuldade para redigir a apresentação. Os prólogos cervantinos, em geral, são instigantes e reveladores. De um modo muito particular, esse Prólogo é uma declaração de princípios de composição literária, de uma visão de Cervantes sobre a autoria, a obra e o público leitor. Mas não se preocupe caso você tenha se entretido com a narrativa contada no Prólogo e não tenha observado os tais princípios de composição literária. Siga adiante, pois muito provavelmente, em algum momento, você retornará ao Prólogo em busca do que o autor disse nessas páginas iniciais. Tenha presente que Cervantes é cap de criar laços insuperáveis de simpatia com seu leitor.

 

3 Logo adiante, ao chegar ap capítulo 8, você encontrará a aventura mais difundida do “Quixote”: a dos moinhos de vento. Essa batalha inglória – um episodio divertido e patético – tem sido utilizada para expressar o despropósito do idealismo e a nobreza dos princípios do personagem.

 

4 Entre a primeira e a segunda parte da obra há diferenças consideráveis. Na primeira, o cavaleiro e seu fiel escudeiro ( Sancho Pança), além de protagonizarem as aventuras, encontram-se com vários personagens que reatam suas experiências de vida. Para o leitor preocupado com o destino de Dom Quixote e Sancho, as historias intercaladas podem, às vezes, apresentar menor interesse. No entanto, é importante ter em conta que, com essas histórias, Miguel de Cervantes está dialogando com vários gêneros literários que vigoravam na espoca.

 

5 O término da leitura do primeiro volume pode ser a oportunidade para uma pausa, talvez para assistir ao filme “El Quijote” (direção de Manuel Gutiêrrez Aragon e roteiro de Camilo José Cela), que conta com a interpretação impecável de Fernando Rey no papel de Dom Quixote e de Alfredo Landa como Sancho Pança. O filme, que pode ser encontrado em vídeo, aborda apenas a primeira parte da obra. Pelo custo muito elevado e, sobretudo, pelo falecimento de Fernando Rey, a continuidade ficou prejudicada.

 

6 Não pense, caro leitor, que a primeira parte lhe dará uma boa idéia do conjunto da obra. Embora a segunda parte seja feita com o mesmo tecido da primeira, como diz o narrador, ela contem grandes diferenças. Coisas surpreendentes acontecem logo nos primeiros capítulos. Há a introdução de um novo personagem, Sansão Carrasco, com quem Dom Quixote e Sancho Mantêm conversas simplesmente deliciosas. Já não aparecem tantas historias intercaladas como a primeira parte e, embora os dois protagonistas se encontrem com vários personagens, a narração esta muito mais amarrada em torno do cavaleiro e seu escudeiro. É na segunda parte que Dom Quixote se defronta com a Dulcinéia “encantada”, que Sancho passa a ser governador de uma “ilha” e que Dom Quixote recebe a noticia lamentável da publicação de um falso “Quixote”.

 

7 É muito provável que a leitura do “Quixote” lhe exija pausas mais ou menos freqüentes. Após determinados episódios, parece imprescindível a ruminação de algumas idéias. Talvez, durante essa conversa silenciosa consigo mesmo, você possa deixar o universo da palavra e optar pelas notas musicais, aproveitando para escutar, entre outras peças, o “Don Quixote”, de Strauss, a “Comic Opera”, de Telemann e “El retablo de Maese Pedro”, de Manuel Falla.

 

8 Caso tenha a possibilidade de visitar o Museu Chácara do Céu, em Santa Tereza, Rio de  Janeiro, não deixe de abrir as 21 gavetinhas que conservam os desenhos de Portinari sobre o “Quixote”. Leve em mãos a série de poemas de Drummond, publicados em “Impurezas do Branco” (1973), que acompanham os desenhos de Portinari. O Projeto Portinari planeja a reedição, ainda sem data definida, da obra “D. Quixote, Cervantes, Portinari, Drummond”.

 

9 Em se tratando das andanças do cavaleiro em terras brasileiras, valeria a pena conhecer também s duas revistas publicadas no Rio de Janeiro durante a  belle époque: a dirigida por Bastos Tigre, “D. Quixote” (1917 – 1927), e a de Ângelo Agostini, “Don Quixote” (1895-1903). Que, por meio da caricatura e do humor, atribuem ao cavaleiro e a seu escudeiro a missão de endireitar a vida política e social brasileira. Torça para que retornem ao palco duas peças teatrais que recuperam a obra de Miguel de Cervantes: o “Quixote”, com Carlos Moreno e direção de Fabio Namatame, e “Num lugar de La Mancha”, protagonizada por adolescentes da Febem sob a direção de Valéria Di Pietro.

 

10 Não será difícil que, durante ou após a leitura da obra, você sinta a necessidade de conhecer mais de perto os tempos de Dom Quixote. Seria aconselhável entrar em contato com textos que circulavam na Espanha na época. Vale a pena ler “El Cortesano”(1524), de Baldassare Castiglione, com tradução em português editada pela Martins Fontes. Trata-se de um amplo diálogo (hoje seria considerado de viés antropológico) sobre temas relacionados com a vida na corte, sendo que muitos deles serão retomados pelo personagem Dom Quixote. Também vale a pena a leitura de “Examen de Ingenios” (1575), de Huarte de San Juan (não há tradução em português): um tratado excelente para avaliar o tipo de loucura de Dom Quixote. Por falar em loucura, no se pode esquecer de “Elogio da Loucura” (1510), de Erasmo de Rotterdam, a quem os cervantistas relacionam algumas das idéias do autor de Quixote sobre o tema.

 

11 Provavelmente o leitor também se interesse pela biogrfia de Cervantes: a dedicação às armas e às letras, o tempo de cativeiro em Argel, na Argélia, os trabalhos e andanças pela Espanha. Uma biografia consistente é a do crítico literário francês Jean Cannavaggio, “Cervantes”, que tem uma tradução para o espanhol (editora Taurus).

 

12 Se sentir falta de estudos literários sobre a obra, prefira os de Américo Castro (“Cervantes y los Casticismos Españoles”, Alianza/Alfaguara), Ortega y Gasset (“Meditaciones del Quixote”, Cátedra), Erich Auerbach (“A Dulcinéia Encantada”, em Mimesis, Perspectiva) e Leo Spitzer (“Perspectivismo Lingüístico em el Quijote”, em Lingüística e Historia Literária, Gredos). Se desejar estudos mais recentes, não deixe de ler os trabalhos tão fundamentais de Edward Riley (“Introdución al Quixote”, Critic), Agustín Redondo (“Otr Maner de Leer el Quijote”, Castalia), Eduardo Urbina (“El sin par Sancho Panza”, Anthropos), Anthony Close (“The romantic Approah to Don Quixote: A Critical History of the Romantic Trdition in Quixote Criticism”, Cambridge University Press), Edwin williamson (“El Quijote y los Libros de Caballerias”, Taurus), entre muitos outros.

 

13 Na Internet, há vários sites a visitar. Não deixe de conhecer o Proyecto Cervantes 2001 (http://www.csdl.tamu.edu/cervantes), sob a direção de Eduardo Urbina.

 

Folha de São Paulo, 27 de agosto de 2002. Suplemento Sinapse, página 22.

 

Veja a seguir uma lista de outros livros que sofreram influência de Dom Quixote:

 

Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

O Idiota, de Dostoievski.

As aventuras do Sr. Pickwick, deCharles Dickens.

Triste fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto.

Fogo Morto, de José Lins do Rego (reencarna o Cavaleiro da Triste Figura na personagem Capitão Vitorino).

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