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| A FALÉSIA |
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| 17 de Novembro de 1997 |
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| O Sol já tinha desaparecido há algum tempo. As luzes da rua começavam a acender. O vento soprava, frio e húmido, arrastando consigo folhas e papéis velhos. Uma tempestade preparava-se, a qualquer momento, para se despenhar sobre a cidade. |
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| Rute, após um longo dia de trabalho, saiu do carro e encaminhou-se para sua casa. Meteu a chave à fechadura, entrou e deitou a mão ao interruptor da sala. No momento em que a luz se acendeu ouviu-se um pequeno estalido e a sala voltou a ficar às escuras. "Bolas...", pensou, "só me faltava uma lâmpada fundida". Remexeu às cegas na mala e tirou de lá um pequeno isqueiro. Acendendo-o, dirigiu-se para a cozinha, na esperança de ter alguma lâmpada e reserva na despensa. Ia precisamente a passar à frente do telefone quando este começou a tocar. Rute pegou no auscultador e com uma voz amável atendeu; "Estou? Sim? Quem é? Está aí alguém? Quem fala". Nada. Do outro lado nada mais se ouvia que uma respiração ofegante e um sussurrar quase imperceptível. |
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| A chuva corria pelas janelas abaixo e Rute, pálida como se de um boneco de cera se tratasse, continuava agarrada ao telefone, gritando com o interlocutor fantasma, provavelmente algum tarado, que continuava a não deixar ouvir a sua voz. Rute tremia e suava ao mesmo tempo, colada ao telefone, se sequer se lembrar que podia desligar. Do outro lado soou um gemido, seguido de silêncio. |
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| Não saberia dizer quanto tempo esteve ainda estática com o auscultador do telefone na mão. Quando finalmente tomou consciência de si, voltou a pegar no isqueiro e iluminou o relógio que trazia no pulso. Os dois ponteiro encontrava-se sobrepostos, mais ou menos no número 11. "Livra, quase onze horas... meu Deus, que figura", pensou, enquanto pousava o auscultador no descanso do telefone. Esquecendo o isqueiro, encaminhou-se, ás cegas para a cozinha, concluindo que a lâmpada podia muito bem ser substituída no dia seguinte. Sentia fome... e sono. |
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| Ao abrir a porta da cozinha, Rute solta um estridente grito, perante a presença de um homem, ainda jovem, vestido de cores escuras, sentado de pernas cruzadas e ar impaciente, com se já a esperasse há muito tempo. |
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| - Rute... há quanto tempo.... |
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| - Q... quem é... é v... você? Que faz aqui? Com é que entrou?! |
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| - Não sabes quem sou? E ainda há pouco tivemos uma conversa tão agradável - apontou para um pequeno telefone celular que estava sobre a mesa. |
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| - Como entrou? QUEM É VOCÊ?! |
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| - Não te lembras de mim 'mor? Aquela grande besta que odiavas? Só por gostar de ti quanto eu gostava... |
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| - Não! Não pode ser... não podes ser... Carlos? Não! Ele morreu... suicidou-se há três anos. Eu estava lá. Eu vi! Atirou-se da falésia, o corpo nunca foi encontrado... mas havia sangue por todo o lado... ninguém podia sobreviver a uma queda daquelas. É impossível! |
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| - É verdade, linda, viste-me ir até à borda dos rochedos e voltaste as costas. Atirei-me... lá fiquei no fundo a sofrer e esperar que a morte viesse. Nem quiseste saber se eu tinha sobrevivido ou não... simplesmente partiste... cabra! |
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| - Não... não pode ser... era demasiado alto para que alguém pudesse sobreviver. |
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| - Talvez um comum mortal. Descobri, aí que não o sou. Ou então, nessa altura houve qualquer coisa que aconteceu... O meu corpo não apareceu, dizesbem. Podes vê-lo agora, podes até senti-lo. - dizendo estas palavras agarrou a mão dela comas suas próprias mãos. Estavam frias, gélidas como metal. |
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| - Estás morto! Que queres de mim? |
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| - Na verdade nem sei se alguma vez vivi... O que quero? O que achas que quero? Quero descansar. Não aguento habitar esta fronteira entre o mundo do que existe e o mundo do que deve existir. |
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| - E o que é que eu tenho a ver com isso? |
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| - Só o posso fazer quando a dor que me levou à... morte for apagada, sé é que meentendes. |
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| - Não, não entendo - Rute estava visivelmente assustada. |
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| - A tua culpa tem que ser dissolvida, tem que desaparecer. |
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| - E como faço isso? |
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| - Tenta descobrir... |
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| - Já sei. Amanhã de manha, assim que sair de casa, procuro um padre e confesso-me. Ele irá absolver-me. |
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| - NÃO! Isso são apenas mitos! Invenções para tranquilizar mentes fracas! Só há uma forma de eliminar um erro. |
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| - C... como? |
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| - Eliminado quem o cometeu... só dessa forma é que a culpa se apaga. |
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| - Não, deixa-me, desaparece, vai-te embora, é mentira! - as palavras de Rute saiam por entre lágrimas abundantes e convulsivas. |
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| - Não posso. Não tens o direito de me condenar ao limbo. |
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| - Ave Maria, cheia de graça... |
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| - Hahahahaha, estúpida, pensas que é isso que te vai salvar? |
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| - ... o senhor é convosco... |
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| - Deixo-te... por agora... reflecte... já sabes que vou voltar. |
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| - ... Bendita sois Vós, entre as mulheres... |
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| - Adeus, pedra preciosa... |
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| Amanheceu. Rute, no chão da cozinha, acordou sobressaltada e enregelada. Doía-lhe fortemente a cabeça e sentia-se tonta. "Carlos?!", a sua mente obscurecei-se, "que... será que foi um pesadelo?". Nada havia naquela cozinha que pudesse confirmar a visita da noite passada. Mas Rute sentiu o pulso, gelado como a água dum ribeiro. "Esteve cá", disse em voz baixa, "não... isto é psicológico. Eu é que devo estar a ficar maluca... preciso de descansar... umas férias... foi o cansaço, de certeza...". Olhou para o relógio de parede e ou ponteiros marcavam 10:30. Teve consciência que estava atrasadíssima. Por outro lado não lhe apetecia minimamente ir trabalhar. Dirigiu-se para a sala, sentou-se no sofá e fechou, lentamente, os olhos. Na sua mente começaram a correr as imagens do que acontecera naquela noite de verão, três anos antes. |
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| 14 de Agosto de 1994 |
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| Todos os jovens gostam de fazer festas ao ar livre, e este grupo de recém saídos da universidade não era excepção. Motivos não eram necessários e foi assim que decidiram encaminhar-se para a beira-mar, para a zona das falésias, devidamente acompanhados de bastantes latas de cervejas, garrafas de vinho, alguma comida, assim como alguns cigarros e afins. A noite estava quente e, talvez por força da Mãe Natureza, começaram a formar-se pares que dançavam ao som de umas quantas guitarras, também imprescindíveis para qualquer festa deste género. |
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| - Rute... - chamou Carlos. |
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| - Diz. |
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| - Bem... |
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| - Que foi? Estás com uma cara... |
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| - Amo-te... |
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| - O quê?! - Rute, apesar de surpresa, e apesar de Carlos não lhe ser indiferente, achou por bem não entrar no jogo. Ele era ainda um pouco imaturo. |
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| - Isso mesmo, amo-te... pronto, já disse! - Carlos pareceu aliviado, como se tivesse tirado um grande peso das costas. |
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| - Carlos... não pode ser. |
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| - Porquê? |
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| - Não pode ser, somos demasiado diferentes... não ia dar certo. |
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| - Mas... |
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| - Gosto muito de ti... como um amigo muito especial... mais não te posso dar. |
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| - Podias, ao menos, tentar... dar uma oportunidade... |
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| - Isso era pior. Acabávamos por nos magoar os dois. |
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| - Não. Eu faria tudo para que isso não acontecesse. |
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| - Não insistas. |
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| - Por favor... |
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| - Já chega! |
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| - Amo-te! |
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| - Desaparece. - Rute estava a começar a ficar verdadeiramente incomodada com a insistência de Carlos. A sua paciência estava a chegar ao limite. |
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| - A sério... |
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| - Não me chateies! Odeio-te! Nunca seria capaz de andar com alguém como tu! Besta! Não me apareças à frente! |
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| Carlos ficou tomado de um imenso desespero. Agarrou Rute pelo braço e arrastou-a com ele até à beira da falésia onde se encontravam. Suava e chorava ao mesmo tempo e a sua respiração estava extremamente irregular. |
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| - És tu que me obrigas... eu não queria... e apesar de tudo, amo-te. |
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| Rute sentiu-se empurrada para trás e estatelou-se no chão. Quando ergueu a cabeça Carlos já ali não estava. Nunca mais iria estar. Chorou, enquanto os amigos se aproximavam e a tentavam consolar. |
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| 18 de Novembro de 1997 |
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| O telefone começou a tocar, de repente. Rute levantou-se assustada. Tinha adormecido. Olhou para o majestoso relógio de pêndulo, iluminado pelas luzes da rua que entravam pelos vidros da janela. Marcava 21:25. Já não chovia, embora o vento ainda fosse suficientemente forte para levar consigo alguns corpos mais leves. O telefone continuava a tocar. Rute ainda olhou para o aparelho durante algum tempo até que decidiu sair. O telefone continuou a tocar. Rute entrou no carro e meteu a chave na ignição. Respirou fundo. Arrancou, deixando atrás de si uma nuvem de gases tóxicos misturados com folhas secas e pontas de cigarros. |
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| Conduziu por um tempo que lhe pareceu interminável. Perdeu mesmo a noção do tempo. Lembrou-se, de repente, da existência de um pequeno relógio electrónico no painel de instrumentos do seu carro. Olhou para lá e constatou que era já meia-noite. "Ando eu aqui às voltas...", pensou. |
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| Minutos mais tarde parou. Tomou consciência de que nunca olhara para a estrada enquanto conduzira. Levantou os olhos e foi sem qualquer espanto que reconheceu o local onde tinha chegado... a falésia. |
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| - Provaste o teu amor da pior maneira... se tivesses sabido esperar... - a partir daqui a mente de Rute turvou-se de tal maneira que lhe foi impossível mais nenhum pensamento. |
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| Uma única obsessão começou a tomar forma e a inundar os seu neurónios. Chorou. Gemeu. Gritou. Quando finalmente o seu pé direito carregou no pedal do acelerador a sua consciência não passava de uma amálgama de ecos de gritos e dores nunca sentidas. O carro dirigiu-se, velozmente para o topo da falésia. |
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| Não muito longe, um vulto escuro passeava tranquilamente por estre as rochas e as ondas. |
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G. Filipe |
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Portalegre 01/01/1998 |
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Castelo de Vide 15/02/2001 |
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