| REPORTAGENS |
| PORQUE ISSO É BOSSA NOVA, ISSO É MUITO NATURAL JORNAL A GAZETA/ES – 23/04/2000 – por José Roberto S. Neves |
| Quem ouve os dedilhados macios do violão de Geraldo Cunha, 61, não imagina quantas histórias o cantor e compositor guarda nas cordas do instrumento que abraçou como profissão há mais de 40 anos. Entre outros fatos, Cunha acompanhou de perto o nascimento da bossa nova, o lançamento do LP Chega de Saudade, de João Gilberto, em 1959, os programas do Chacrinha na TV Tupi, o auge de Maysa e o surgimento de uma cantora de voz e interpretação incomuns, em 1966, chamada Elis Regina. Baiano de Salvador, morou em São Paulo por 30 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro e está radicado desde 1997 em Guarapari, onde costuma se apresentar no circuito de bares da região. Na próxima quarta-feira, faz show no bar Titanic II, na Praia da Costa. "Vim para o Espírito Santo em busca de qualidade de vida, mas fiquei surpreso com a riqueza musical do Estado. Vou ficar", diz |
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| o cantor e compositor, cujo currículo inclui a participação, como intérprete e compositor, em 65 discos, incluindo os velhos 78 rotações, compactos simples e duplos, LPs e CDs. Sua composição mais famosa, Bossa na Praia, parceria com Pery Ribeiro, ganhou mais de 40 regravações em todo o mundo. "Até hoje recebo royalties de países que nem conheço: Nova Zelândia, Japão, Coréia do Sul, Coréia do Norte, Inglaterra. É lugar demais", diverte-se Cunha, que, mesmo longe de Salvador há quatro décadas, ainda conserva o sotaque baiano. Primeiro violão Assim como outros detalhes da vida, o primeiro violão a gente nunca esquece. Cunha foi apresentado ao instrumento de uma maneira inusitada. "Eu era adolescente e morava em Mata de São João, na Bahia, cidadezinha onde todo mundo se conhecia. A delegacia vivia aberta e meu passatempo favorito era assistir a um preso tocando violão. De tanto que eu olhava, ele acabou me dando o instrumento de presente", lembra Cunha. O pai, o pianista Francisco Brito Cunha Jr., conhecido como "os dedos de ouro da Bahia", não queria que fosse músico. "Naquela época, músico era mal-visto", observa. Contra a vontade da família, Cunha foi em frente e logo tocava frevo e chorinho no Trio Elétrico Atlas, o segundo trio fundado na Bahia, depois de Dodô e Osmar. Mas sua carreira só teria impulso a partir de 1957, quando chegou ao Rio de Janeiro, na mesma época em que um grupo de músicos de vanguarda planejava, em encontros na Zona Sul da cidade, os alicerces do movimento que mudaria a história da MPB: a bossa nova. Gente como João Gilberto, Tom Jobim, Baden Powell, Newton Mendonça, Vinícius de Morais, Silvinha Telles, Luís Bonfá... a lista é enorme. "Chega de Saudade causou um impacto sem precedentes na música brasileira. O pessoal da época não entendia o jeito de cantar do João Gilberto, diziam que ele era desafinado", rebobina. A semelhança com João lhe valeu uma oportunidade no programa do Chacrinha, transmitido pela Tupi. "Chacrinha me adotou na mesma época que Roberto Carlos. Ele colocava um capuz no Roberto e o chamava de cantor "mascarado", brinca. Em 1960, Cunha lançou, pela gravadora Chantecler, um bolachão de 78 rotações com a música O Menino Desce o Morro, de Vera Brasil e Rosa. O lado B tinha a música Esperança, parceria de Geraldo com Laércio Vieira. Seguiram-se vários compactos simples pela Chantecler. Nesse mesmo ano, Cunha conheceu Pery Ribeiro, com quem trabalhou como músico contratado da TV Tupi, inaugurando uma parceria que dura até hoje. Após trabalhar como músico exclusivo de Maysa entre 1960 e 1963, Cunha participou de vários festivais e espetáculos de bossa nova. O principal deles, O Fino da Bossa, revelaria o fenômeno Elis Regina para todo o Brasil. "Eu estava em Copacabana, num local chamado Beco das Garrafas, quando vi aquela moça se apresentando ao lado do americano Leny Dale. Era fantástica! Nunca tinha visto algo parecido. Depois do show, no camarim, disse a ela que seria a maior cantora de MPB de todos os tempos", recorda. Mais tarde, no auge do sucesso, a própria Elis reconheceria a previsão. |