REPORTAGENS
O samba-enredo do Salgueiro fica lindo na voz de Alaíde, acompanhada pelo violão macio de Geraldo

Silêncio. Alaíde vai cantar. Ela começa com aquele jeito muito seu, baixinho, suavemente. A música é "Jesus Cristo", um dos últimos sucessos de Roberto Carlos. Os boêmios esquecem a noite e suas histórias, e os copos param nas mesas. É hora de ouvir. A voz de paixão mansa de Alaíde Costa vai crescendo, sem pedir licença, até ocupar todo o espaço de um soul negro. No fim, palmas, palmas, gritos pedindo bis.

Alaíde continua. Agora ela canta o samba-enredo do Salgueiro, escola pela qual. desfilou neste ano, fazendo figura de destaque, papel de filha de rei.

Alaíde voltou para a noite e para o samba. Ela é a principal atração da Casa Forte, uma das três novas casas de música brasileira que nasceram há menos de seis meses, aproveitando a receita do Jogral, para provar que o samba vai bem na noite paulista. As outras são o Teleco-Teco e a Casa do Tobias.
É O SAMBA MAIS NOVO
REVISTA QUATRO RODAS EDIÇÃO Nº 128 – MARÇO/1971
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Das 7 às 7

Na Casa Forte, Rua Barão de Tatuí, 114. inaugurado a 28 de janeiro passado, Alaíde dá o seu recado. O bar ocupa o lugar da antiga Saudosa Maloca, dos Demônios da Garoa, e atravessa a noite, das 7 às 7, cobrando preços razoáveis: uísque nacional, Cr$ 6,00; estrangeiro, Cr$ 13,00 ou Cr$ 14,00; drinques, Cr$ 5,00. E sem couvert ou consumação mínima. O show contínuo fica por conta de Alaíde Costa, Swing e seu sorriso negro e alegre, Leo Karan, Madalena (ex-Maria Wanderléa e ex-cantora da Baiúca). Mas quem quiser e souber cantar e tiver alguma coisa para dizer pode subir ao palco. O pessoal é da casa.

Agora, Alaíde sentou-se no banquinho alto, esqueceu o gesto aberto do samba rasgado e confiou na intimidade do ritmo que chega devagar. A música é "Chora Tua Tristeza" — de Oscar Castro Neves e Luvercy Fiorini —, ponto alto da carreira de Alaíde e da bossa nova, em 1959. Desde essa data, Alaíde e a bossa nova cresceram e passaram para a história da música popular.

Antes disso, Alaíde, carioca, aparecia em todos os programas de calouros do Rio e de São Paulo. Ganhou seu primeiro salário — Cr$ 9,00 — no Avenida Danças, e o primeiro prêmio (revelação) com uma versão da música "C'Est Ia Vie". tudo em 1957. Em 1958, ela teve um encontro muito importante com., João Gilberto, que a apresentou à turma da bossa. Quatro anos depois, ela se casou, teve dois meninos e se afastou do público aos poucos. Agora está de volta.
Nessas boates, a noite só termina quando você sai

No Casa Forte, o acompanhamento dos artistas fica por conta de Luís Melo (piano), Cláudio (baixo), Zé Eduardo (bateria) e Antônio Carlos. Geraldo Cunha, baiano de 32 anos é o diretor artístico. Mas às vezes ele pega o- violão e canta um samba macio.

Desde 1963, depois do sucesso de "Bossa na Praia" e "Menino Desce o Morro", o violão de Geraldo fez maratona pelas noites de São Paulo. Em oito anos, oito bares diferentes,' Inclusive dois seus: Um Terraço e Barbossinha. Era neles que Toquinho. Márcia, Francisco Morais,. desconhecidos ainda, iam ouvi-lo tocar. Chico Buarque. que era "de menor", entrava escondido e ficava num canto, bem quietinho, só prestando atenção.
Alaíde acabou de cantar. Em seu lugar vem Leo Karan. o Leozinho, 1,50 m de altura e sorriso tão grande que ocupa todo o rosto redondo. Mas, quando canta, Leo — um dos artistas novos que o Casa Forte está lançando como profissional— fica sério:

— Música não é brinquedo, gente. É o único filho eterno que a gente tem.

Há cinco anos, Leo chegou a São Paulo, vindo de Novo Horizonte, no interior de Minas, disposto a ficar: "Vim tentar a sorte e vou em frente. Eu, Napoleão e Baden Powell somos do mesmo signo, Leão". Leo passou esses cinco anos como "bicão" da noite, conhecendo seus habitantes e seus segredos, enquanto freqüentava o Jogral, de Luís Carlos Paraná  que dizia: "Leo está para o Jogral como Toulouse Lautrec para o Moulin Rouge". Mas não perdia o resto do tempo e ia compondo junto com seu irmão Gilberto, estudante de matemática da USP e autor das letras de suas músicas. Também participou de festivais: em 1968 foi classificado no da Excelsior, com "João Pierrô"; em 1969 concorreu com "Tanto Faz, Tanto Fez", no festival da Globo, e com "Maiores Abandonados", no Festival Universitário; em 1970 foi a vez de "Meio Mundo", no Festival da Viola.

Leo não fica num só gênero de composição: às vezes um samba ("Jesuína"), outras um maxixe ("Nosso Amor"), de repente uma valsa ("1900 e Nada"). Mas agora sua grande preocupação é o acorde perfeito: "Sabe, aquele da hora exata, que chegou para ficar?". Enquanto anda a sua procura, fala dele como se fala da mulher querida. E canta. Teleco-Teco uma moderna oficina...........................................
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