>---------------------------------------------------------->

GEOGRAFIA:

"O fato de me perceber no mundo, com o mundo e com os outros me põe numa posição em face do mundo que não é a de quem tem nada a ver com ele".

(Paulo Freire, Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa, p.60).

Conflitos étnicos, crimes, miséria, riqueza, fome, consumo, catástrofes naturais, genocídios, desastres ecológicos, crises econômicas e políticas, desemprego em massa, novas tecnologias � estes tempos de neoliberalismo e globalização, nos atingem cotidianamente. É tanta e tamanha a rapidez das informações que, muitas vezes, sentimos uma sensação de impotência diante da impossibilidade de compreender o que está acontecendo ao nosso redor e no mundo.

Nesse contexto, a maior parte das produções da mídia oferece uma visão descritiva, fragmentada e simplista dos fatos sociais, o que torna necessária e imprescindível uma leitura mais detida e articuladora desses fatos, e isso é possível através das ciências humanas e sociais, entre elas a Geografia.

Assim, "ensinar Geografia passa a ser problematizar o mundo mais do que �explicá-lo� de forma unilateral". Através da Geografia, o estudante deverá compreender o desenvolvimento da sociedade como o processo de ocupação de espaços físicos e as relações

da vida humana com a paisagem, em seus desdobramentos políticos, sociais, culturais, econômicos. O ensino da disciplina deve, portanto, contribuir para que o aluno possa compreender melhor o frenético e fascinante mundo em que vive e sentir-se estimulado a intervir solidariamente na realidade em construção, com a disposição de constituir-se num agente da transformação social.

É esta concepção que a disciplina busca desenvolver no ensino médio, procurando estimular o pensamento crítico e a capacidade de analisar a realidade do mundo contemporâneo na associação entre o meio ambiente, a sociedade e as estruturas políticas e econômicas atuais. Assim, ao final do curso, o aluno deverá ter desenvolvido:

capacidade de relacionar, interpretar e analisar os fatos geográficos, permitindo uma visão crítica do mundo;

capacidade de analisar, interpretar e compreender os processos e as formas de produção e organização do espaço mundial e brasileiro;

capacidade de aprender a aprender, num processo contínuo de ampliação e aperfeiçoamento do conhecimento.

Durante o curso, em diferentes momentos e situações, serão desenvolvidas as seguintes atividades que configuram a estrutura do trabalho: aplicação de testes; avaliação de leituras e resumos de livros em duplas, trios ou grupos, a partir de leituras individuais marcadas previamente; interpretação de quadros, tabelas, gráficos e mapas; elaboração de quadros comparativos; desenvolvimento de tema discutido em sala de aula, envolvendo conteúdo específico e posicionamento pessoal; avaliações de assuntos específicos ao final das unidades de conteúdo; interpretações de textos; pesquisas (individuais e em equipes), elaboração e apresentação de seminários envolvendo recursos multimídia; redações, transposições de linguagem; leitura de jornais e revistas para a elaboração de jornal-mural na sala de aula; pesquisa na Internet.

Tudo isto exigirá do aluno as seguintes habilidades: ler, analisar e concluir textos, mapas, tabelas e gráficos; anotar e sistematizar informações ou dúvidas; aplicar conceitos básicos aprendidos; elaborar textos; dissertar hierarquizando idéias; pesquisar, coletar, organizar dados (identificando, descrevendo, comparando, classificando e concluindo); trabalhar em equipe; expressar oralmente suas idéias com clareza e objetividade; expor oralmente um assunto em público; respeitar opiniões divergentes; socializar a produção do conhecimento.

 


G E O G R A F I A:

 

Vem das palavras gregas "geo" e "graphos" significando respectivamente Terra e escrever. Geografia � o estudo cient�fico da superf�cie da Terra com o objetivo de descrever e analisar a varia��o espacial de fen�menos f�sicos, biol�gicos e humanos que acontecem na superf�cie do globo terrestre.

A superf�cie da Terra � a camada do planeta de contato e inter-relacionamento entre a Atmosfera, Biosfera, Hidrosfera e Litosfera. Esta camada permite atrav�s de seu equil�brio natural o surgimento de minerais, �gua, solos diferentes, vida animal, vida vegetal e uma s�rie quase infinita de outros acontecimentos que tendem a mudar com o tempo. � de essencial import�ncia para a geografia o estudo destes fen�menos no espa�o, no tempo, seu inter-relacionamento e agrupamento em padr�es e fun��es.

Surgida na Gr�cia antiga o estudo da superf�cie da Terra se perdeu no mundo crist�o junto com o conhecimento grego na Idade M�dia, ressurgindo com o renascimento e os grandes exploradores do s�culo XIV e XV. Dadas todas as possibilidades de estudo, a geografia � hoje uma disciplina extremamente complexa e est� dividida em in�meras �reas especializadas:

Geografia Social - estuda a mudan�a na distribui��o espacial de pessoas e sua atividades, al�m da intera��o destas com seu ambiente. A geografia social empresta muito das ci�ncias sociais, mas � especialmente preocupada com descri��es e an�lises de distribui��o espacial.

  • Geografia Pol�tica

  • Geografia Econ�mica

  • Geografia Cultural

  • Geografia Urbana

Geografia F�sica - estuda as condi��es naturais e seus processos como ocorrem na superf�cie da Terra, as formas espaciais resultantes s�o objeto de v�rias subdisciplinas :

  • Climatologia

  • Biogeografia

  • Geomorfologia

 

PEQUENA HIST�RIA DA GEOGRAFIA:

Considerada por alguns como uma das mais antigas disciplinas acad�micas, a geografia surgiu na Antiga Gr�cia, sendo no come�o chamada de hist�ria natural ou filosofia natural.

Grande parte do mundo ocidental conhecido era dominada pelos gregos, em especial o leste do Mediterr�neo. Sempre interessados em descobrir novos territ�rios de dom�nio e atua��o comercial, era fundamental que conhecessem o ambiente f�sico e os fen�menos naturais. O c�u claro do Mediterr�neo facilitava a vida dos navegantes gregos, sempre atentos �s caracter�sticas dos ventos, importantes para sua navega��o em termos de velocidade e seguran�a. Sobre tais experi�ncias, os gregos deixaram para as futuras gera��es escritos que contavam a sua viv�ncia geogr�fica. Estudos feitos acerca do rio Nilo, no Egito, detalhavam, entre outras coisas, seu per�odo de cheia anual.

No s�culo IV a.C., os gregos observavam o planeta como um todo. Atrav�s de estudos filos�ficos e observa��es astron�micas, Arist�teles foi o primeiro a receber cr�dito ao conceituar a Terra como uma esfera. Em sua especula��o sobre o formato da Terra, Strabo acabou escrevendo um obra de 17 volumes, 'Geographicae', onde descrevia suas pr�prias experi�ncias do mundo - da Gal�cia e Bretanha para a �ndia, e do Mar Negro � Eti�pia. Apesar de alguns erros e omiss�es em sua obra, Strabo acabou tornando-se o pai de geografia regional.

Com o colapso do Imp�rio Romano, os grandes herdeiros da geografia grega foram os �rabes. Muitos trabalhos foram traduzidos do grego para o �rabe. Ocorreram, no entanto, a partir da�, algumas regress�es: ap�s o ano de 900 d.C., as indica��es de latitude e longitude j� n�o apareciam mais nos mapas. De todo modo, os �rabes acabaram recuperando e aprofundando o estudo da geografia, e j� no s�culo XII, Al-Idrisi apresentaria um sofisticado sistema de classifica��o clim�tica. Em suas viagens � �frica e � �sia, outro explorador �rabe, Ibn Battuta, encontrou a evid�ncia concreta de que, ao contr�rio do que afirmara Arist�teles, as regi�es quentes do mundo eram perfeitamente habit�veis.

J� no s�culo XV, viajantes como Bartolomeu Dias e Crist�v�o Colombo redescobririam o interesse pela explora��o, pela descri��o geogr�fica e pelo mapeamento. A confirma��o do formato global da Terra veio quinze anos mais tarde, em uma viagem de circunavega��o realizada pelo navegador portugu�s Fernando Magalh�es, permitindo uma maior precis�o das medidas e observa��es.

Grandes nomes se empenharam no estudo das v�rias �reas da geografia. A geografia social, por exemplo, recebeu a dedica��o de nomes como Goethe, Kant, e Montesquieu, preocupados em estabelecer em seu estudo a rela��o entre a humanidade e o meio ambiente. A geografia recebeu novas subdivis�es, entre as quais, a geografia antropol�gica e a geografia pol�tica.

Por volta do s�culo XIX, surgia a Escola Alem�, apresentando o determinismo, que suportava a id�ia de que o clima era capaz de estimular ou n�o a for�a f�sica e o desenvolvimento intelectual das pessoas. Assim, afirmava que nas zonas temperadas a civiliza��o teria um desenvolvimento mais elevado do que nas quentes e �midas zonas tropicais. J� nos anos 30, a Escola Francesa lan�ava o possibilismo, que afirmava que as pessoas poderiam determinar seu desenvolvimento a partir de seu ambiente f�sico, ou seja, sua escolha, determinaria a extens�o de seu avan�o cultural.

Chegaram os anos 60 com todas as suas revolu��es, e o desejo de fazer da geografia um estudo mais cient�fico, mais aceito como disciplina, levaram � ado��o da estat�stica como recurso de apoio. No final da d�cada, duas novas t�cnicas de suma import�ncia para a geografia come�avam a ser desenvolvidas: o computador eletr�nico e o sat�lite, dando nova �nfase � disciplina.

STRABO

(n.c. 63 a.C. - m.c. 24 d.C.)

Ge�grafo e historiador grego, nasceu em Amaseia, Pontus (agora Amasya, Turquia). Strabo come�ou seus estudos com Aristodemus e em 44 a.C. foi para Roma estudar com Tyrannion, ex-professor de C�cero. Antes de deixar Roma ele concluiu sua monumental obra de 43 volumes intitulada 'Esbo�o Hist�rico' da qual s� sobraram peda�os. Em 31 a.C. Strabo come�ou suas viagens na Europa, �sia e �frica, tendo viajado quase todo o mundo conhecido da �poca, ele voltou a Roma em 17 d.C. e escreveu seu mais importante trabalho de 17 volumes intitulado 'Geographicae' (ou Geografia). Esta foi a primeira vez que surgiu a palavra Geografia. Os volumes parecem mais o que hoje conhecemos como guias e eram escritos para uso militar. Esta obra � o principal documento daquela �poca conservado inteiro (com exce��o de partes do volume sete) at� os dias de hoje.

 

ERATOSTHENES

(n.c. 276 a.C. - m.c. 196 a.C.)

Matem�tico, astr�nomo, ge�grafo e poeta grego, nasceu em Cyrene (agora Shahhat, L�bia). Em 240 a.C. ele se tornou bibliotec�rio-chefe da Biblioteca de Alexandria, ficando respons�vel na sua �poca pelo maior acervo sobre o conhecimento humano at� sua data. Eratosthenes � mais conhecido hoje pelo seu preciso c�lculo da circunfer�ncia da Terra (erro de menos de 5%) numa �poca aonde n�o se acreditava que a Terra seria redonda. Para chegar a tais c�lculos Eratosthenes empregou seus conhecimentos de astronomia para determinar a latitude de Assu� e Alexandria no Egito, e mediu a dist�ncia entre elas, tendo notado que a imagem da sombra de uma torre de igual altura em Aswan e Alexandria tinha diferentes comprimentos numa mesma hora do dia, ele chegou a conclus�o que a Terra era redonda e calculou com seus dados a sua circunfer�ncia. O seu mais importante trabalho foi um tratado sistem�tico sobre geografia; ap�s ficar cego com quase 80 anos se suicidou por inani��o.

PTOLOMEU

(tamb�m Claudius Ptolomaeus)

(c. 100-70 d.C.)

Astr�nomo e matem�tico grego, viveu em Alexandria, Egito e era cidad�o romano. Seu primeiro trabalho e o mais importante foi o 'Almagesti' (Grande Obra), traduzido para o �rabe 500 anos depois. Nesta obra ele propunha o sistema de geocentrismo o qual descrevia a Terra no centro do universo com o sol, planetas e as estrelas rodando em c�rculos ao seu redor. Este trabalho de Ptolomeu influenciou o pensamento astron�mico durante mais de mil e quinhentos anos at� ser substitu�do pela teoria helioc�ntrica de Cop�rnico. Para a geografia sua mais importante obra foi 'A Geografia', uma tentativa de mapear o mundo conhecido da �poca, que listava latitudes e longitudes de locais importantes acompanhadas de mapas e uma descri��o de t�cnicas de mapeamento. Nesta compila��o Ptolomeu pegou dados seus e de Hiparco, Strabo e Marinus de Tiro. Mesmo com informa��es imprecisas este trabalho foi a principal ferramenta de orienta��o geogr�fica at� o fim da renascen�a.

HUMBOLDT, FRIEDRICH W. H. ALEXANDER VON

(n. 14/9/1769 - m. 6/5/1859)

Ge�grafo, naturalista e explorador alem�o, nasceu em Berlim, mais conhecido pelas suas contribui��es a geologia, climatologia e oceanografia. Ainda jovem Humboldt foi apresentado a um grupo de intelectuais (entre os quais Moses Mendelssohn) pelo seu tutor. Em 1879 ele foi para a Universidade de Gottingen, aonde estudou arqueologia, f�sica e filosofia. O seu interesse por bot�nica e explora��es foi intensificado ao conhecer Georg Forster, que acabar� de voltar de uma viagem ao redor do mundo com o famoso Capit�o James Cook. Ap�s um ano Humboldt largou Gottingen para estudar geologia com A.G. Werner na escola de minas de Freiburg e depois veio a se tornar inspetor de minas do governo da Pr�ssia. Uma farta heran�a de sua m�e o permitiu se dedicar aos seus interesses por explora��o cient�fica.

Em 1799, Humboldt explorou durante 5 anos a Am�rica Latina, visitando pa�ses como Equador, Col�mbia, Venezuela, M�xico e Peru, al�m de parte da bacia amaz�nica. Durante esta viagem ele coletou muitos dados sobre clima, fauna, flora, astronomia, geologia e sobre o campo magn�tico da Terra. Durante sua estada no Peru fez precisas medi��es sobre uma corrente fria descoberta por ele que veio a ser chamada pelo seu nome e hoje � mais conhecida como Corrente do Peru. Ap�s uma breve estada nos Estados Unidos da Am�rica foi morar em Paris aonde ficou at� 1827, per�odo durante qual escreveu uma obra de 23 volumes com as descobertas feitas na viagem. Em 1827 viajou para Berlim e foi nomeado assessor do rei da Pr�ssia. Em 1829 por convite do Czar russo Nicolau I viajou aos Montes Urais e Sib�ria para fazer estudos geol�gicos e fisiogr�ficos.

O resto de sua vida foi dedicada a escrever sua principal obra intitulada 'Kosmos' na tentativa abrangente de descrever o universo como um todo e mostrar que tudo era interrelacionado. Humboldt foi o primeiro a mapear pontos isot�rmicos (linhas conectando pontos geogr�ficos de mesma temperatura) e impulsionando assim o estudo da climatologia.

RITTER, KARL

(n. 1779 - m.1859)

(tamb�m Carl Ritter)

Ge�grafo alem�o, conhecido como fundador da moderna ci�ncia da geografia. Ritter mostrou ao mundo o princ�pio da rela��o entre a superf�cie da Terra e a natureza e os seres humanos, era defensor constante do uso de todas as ci�ncias para o estudo da geografia. Foi professor de geografia na Universidade de Berlin de 1820 at� sua morte; seu mais importante trabalho, 'Die Erdkunde' (Ci�ncia da Terra, 19 volumes, 1817-1859), enfatizava a influ�ncia de fen�menos f�sicos na atividade humana.

 

RATZEL, FRIEDRICH

(n. 30/8/1844 - m. 9/8/1904)

Ge�grafo e etn�logo alem�o fundador da geografia pol�tica moderna (ou geopol�tica), o estudo da influ�ncia do ambiente na pol�tica de uma na��o ou sociedade. Dele originou-se o conceito de 'espa�o vivo' (Lebensraum), que se preocupa com a rela��o de grupos humanos com os espa�os do seu ambiente. Ele lecionou na Univesidade de Munique entre 1875 e 1886, e desta data at� sua morte foi professor de geografia da Universidade de Leipzig. Seu conceito de 'espa�o vivo' foi depois usado pelo Partido Nacional Socialista (Nazista) para justificar a expans�o germ�nica e a anexa��o de territ�rios que precedeu a segunda guerra mundial.

 

A Geografia a Guerra:

Julga-se que a Geografia n�o � mais do que uma disciplina escolar e universit�ria, cuja fun��o seria fornecer elementos de uma descri��o do mundo, dentro de uma concep��o desinteressada da cultura dita geral. Pois qual poderia ser a utilidade daquelas estranhas frases soltas em alguns livros de Geografia, que � necess�rio aprender nas escolas? Os maci�os dos Alpes do Norte, a altitude do Pico Everest, a densidade demogr�fica da Holanda, a capital do Nepal etc. E os nossos pais e av�s a lembrarem que em seu tempo era necess�rio saber as capitais de todos os pa�ses de certo continente. Para que serve tudo isso? Uma disciplina "estupidificante" mas, apesar de tudo, simples, pois, como toda a gente sabe, "em Geografia n�o h� nada que perceber, � preciso � ter mem�ria, � s� decorar".

Antigamente, talvez esta Geografia tenha servido para qualquer coisa, mas, hoje, a televis�o, as revistas, os jornais n�o mostram melhor todos os pa�ses atrav�s de not�cias, e o cinema mostra melhor as paisagens? Mas, que diabo, dir�o todos os que n�o s�o ge�grafos: a Geografia n�o serve para nada!

A toda a ci�ncia ou saber deve ser feito o seguinte questionamento: o processo cient�fico est� ligado a uma hist�ria e deve ser analisado, por um lado, na sua rela��o com as ideologias; por outro lado, como pr�tica ou como poder. Dizer antecipadamente que a Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra, n�o implica que sirva apenas para executar opera��es militares; ela serve tamb�m para organizar os territ�rios, n�o s� como previs�o de batalhas que se dever�o travar contra tal ou tal inimigo, mas tamb�m para melhor controlar os homens sobre os quais os aparelhos de Estado exercem a sua autoridade. A Geografia �, antes de mais nada, um saber estrat�gico intimamente ligado a um conjunto de pr�ticas pol�ticas e militares e s�o essas pr�ticas que exigem a acumula��o articulada de informa��es extremamente variadas, � primeira vista desconexas, de que n�o � poss�vel compreender a raz�o de ser, a import�ncia, se nos mantivermos dentro dos limites do saber pelo saber. S�o as pr�ticas estrat�gicas que fazem com que a Geografia seja necess�ria, em primeiro lugar, aos que comandam os aparelhos de Estado.

Hoje, mais do que nunca, a Geografia serve, antes de mais nada, para fazer a guerra. P�r em pr�tica novos m�todos de guerra implica uma an�lise extremamente precisa das combina��es geogr�ficas, das rela��es entre os homens e das "condi��es naturais" que � necess�rio destruir ou modificar para tornar determinada regi�o inabit�vel ou para levar a cabo um genoc�dio. A Guerra do Vietn� fornece numerosas provas de que a Geografia serve para fazer a guerra de maneira mais global. Um dos mais c�lebres e mais dram�ticos exemplos foi posto em pr�tica em 1965, 1966,1967 e sobretudo, em 1972, em um plano de destrui��o sistem�tica da rede de diques que protegem as plan�cies extremamente populosas do Vietn� do Norte. A escolha do locais a bombardear resultou de um estudo geogr�fico a v�rios n�veis de an�lise espacial.

Adaptado de LACOSTE, Y. A Geografia - Isso Serve, em Primeiro Lugar, para Fazer a Guerra. S�o Paulo, Papirus Editora, 1989, pp. 21-30.

Retirado de: COIMBRA, Pedro e TIB�RCIO, Jos� Arnaldo. Geografia - uma an�lise do espa�o geogr�fico. S�o Paulo, Harbra, 1995.

 

A NOVA ORDEM MUNDIAL:

Nos �ltimos anos o mundo sofreu grandes mudan�as. A Uni�o Sovi�tica, um dos dois pa�ses mais poderosos no s�culo XX, n�o existe mais. A antiga Iugosl�via viu-se esfacelada e ingressou numa guerra violenta. O mundo socialista, parece que est� chegando ao seu final, permanecendo somente alguns restos ou ru�nas. Como explicar todas essas altera��es no espa�o geogr�fico mundial?

Desde 1989 que os meios de comunica��o e o p�blico em geral "cobram" insistentemente dos professores de Geografia o "novo"' mapa-m�ndi, o mapeamento exato da realidade internacional. S� que isso � apenas um detalhe, uma apar�ncia: mais importante que mostra onde come�a a Cro�cia e onde termina a S�rvia, onde se localiza a Ucr�nia e onde fica o Casaquist�o, mais importante que saber a capital da Iugusl�via ou do Usbequist�o � compreender o porqu� das mudan�as. O fundamental � entender os processos, a din�mica da realidade, e n�o ficar memorizando os detalhes, mesmo porque estes �ltimos sempre mudam, sempre se alteram de uma maneira ou de outra, com um ritmo mais demorado ou mais r�pido.

N�o existe, portanto, o mapa-m�ndi exato, definitivo, aquele que � o �nico correto. Sempre ocorrem mudan�as nessa realidade, redefini��es de fronteiras, surgimento ou desaparecimento de Estados-na��es. A maior novidade destes �ltimos anos est� no ritmo acelerado dessas transforma��es, compar�vel em nosso s�culo somente �quela de 1939-45.

Para entendermos o novo mapa-m�ndi, � necess�rio, em primeiro lugar, estudar o sentido dessas mudan�as, as suas raz�es e as suas articula��es. Mais do que mudan�as cartogr�ficas, elas implicaram um novo ordenamento geopol�tico do mundo, uma nova correla��o de for�as internacionais .

Cabe, portanto, explicar por que o mundo mudou a partir de 1989, expondo como funcionava o mundo bipolar das �ltimas d�cadas e os motivos que levaram � sua crise, (...) e analisar os principais aspectos da nova ordem mundial - as contradi��es, o agravamento do racismo, a quest�o ambiental, a oposi��o entre o Norte e o Sul, os tr�s p�los ou centros da economia mundial...

Al�m de mostrar a ordena��o atual do mundo, � preciso uma discuss�o sobre o s�culo XXI e quais as chances de cada pa�s - e em particular do Brasil - de enfrentar a nova realidade internacional e prosseguir com seu processo de moderniza��o.

VESSENTINI, J. William. A nova ordem mundial. S�o Paulo, �tica, 1995. Livro do Professor

Geografia: ci�ncia do espa�o:

O que significa estudar geograficamente o mundo ou parte do mundo?

A Geografia se prop�e a algo mais que descrever paisagens, pois a simples descri��o n�o nos fornece elementos suficientes para uma compreens�o global daquilo que pretendemos conhecer geograficamente.

As paisagens que vemos s�o apenas manifesta��es aparentes das rela��es estabelecidas entre os muitos e variados integrantes do nosso planeta e at� mesmo do Universo.

Da energia do Sol � a��o dos bichos, das plantas, das �guas e dos ventos; dos movimentos executados pela Terra aos constantes deslocamentos verificados na crosta terrestre; das formas restritas e localizadas de atua��o das tribos ind�genas � planet�ria interven��o das modernas sociedades industriais n�o nos faltam din�micas e rela��es a serem investigadas.

Ir al�m das apar�ncias significa considerar que por tr�s de toda paisagem temos, necessariamente, uma din�mica particular que a determina, que a constr�i, que a mant�m com determinada apar�ncia, por exemplo, de floresta, de deserto, ou at� mesmo de cidade.

Estudar geograficamente o mundo, no todo ou em parte, � buscar entender como e por que as paisagens - sejam elas quais forem - apresentam as caracter�sticas que observamos. Ou seja, o que se busca � o entendimento do espa�o geogr�fico, que, dessa forma, deve ser entendida como algo que inclui n�o s� aquilo que vemos (paisagem), mas tamb�m os fatores determinantes da apar�ncia. Entre todas as din�micas de que resultam as diversas paisagens que se espalham pelo mundo, as impostas pelo ritmo e pelas necessidades das modernas sociedades industriais s�o hoje as mais presentes na quase totalidade das paisagens que venhamos a investigar.

Portanto, uma investiga��o de fato geogr�fica acerca do mundo atual deve, mais do que se ocupar de descri��es de realidades aparentes (paisagens), propor-se a investigar, principalmente, o modo pelo qual a sociedade produz o espa�o geogr�fico.

Para melhor compreens�o do que estamos dizendo, vamos considerar que qualquer pessoa � capaz de identificar um conhecido "cart�o-postal" do Brasil. Trata-se da cidade do Rio de Janeiro, da qual se v� a ba�a de Guanabara, o P�o de A��car, o Cristo Redentor, etc.

Se a investiga��o geogr�fica dessa paisagem se restringisse � descri��o dos elementos que a constituem, bastaria acrescentar mais alguns nomes � lista que iniciamos. Assim, mencionar�amos tamb�m os diversos tipos de constru��es e moradias, as praias, os v�rios tipos de embarca��es, as pistas asfaltadas, os carros, etc.

Mas, como dissemos, n�o basta fazer uma esp�cie de fotografia falada ou escrita das paisagens, pois o espa�o geogr�fico n�o se revela apenas na apar�ncia das coisas, mas sobretudo na investiga��o das raz�es que determinam essa apar�ncia.

E, para entendermos de fato esse espa�o, ou descobrirmos tais raz�es, ter�amos de necessariamente responder a muitas quest�es, tais como:

    • Por que exatamente neste local constru�ram-se tantos pr�dios e tantas avenidas? Para onde v�o ou de onde v�m essas embarca��es, esses carros, ou esses �nibus?

    • Por que a imagem do Cristo Redentor foi colocada num dos lugares mais altos da paisagem?

    • Por que a ba�a tem esse formato?

    • Como surgiram os morros em torno da ba�a?

    • Por que alguns dos morros t�m cobertura vegetal e outros n�o?

    • E as pessoas? Onde est�o, o que fazem, como vivem?

  • Ao responder a essas e a muitas outras quest�es que poder�amos formular a partir de uma simples observa��o atenta da paisagem, buscamos na verdade desvendar as din�micas respons�veis por cada um dos elementos aparentes que nos chamam a aten��o. Ou, em outras palavras, estar�amos desvendando o espa�o geogr�fico do qual esse cart�o-postal do Rio de Janeiro revela apenas a apar�ncia.

  • PEREIRA, Diamantino; SANTOS, Douglas e CARVALHO, Marcos de. Geografia: ci�ncia do espa�o - o espa�o mundial. S�o Paulo, Atual, 1993.

Geografia?

Estudar Geografia � uma forma de compreender o mundo em que vivemos. Por meio desse estudo, podemos entender melhor tanto o local em que moramos - seja uma cidade ou uma �rea rural - quanto o pa�s do qual fazemos parte, assim como os demais pa�ses da superf�cie terrestre. O campo de preocupa��es da Geografia diz respeito ao espa�o da sociedade humana, sobre o qual os homens e as mulheres vivem e, ao mesmo tempo, produzem modifica��es que o (re)constroem permanentemente. Ind�strias, cidades, agricultura, rios, solos, climas, popula��es: todos esses elementos - al�m de outros - constituem o espa�o geogr�fico, isto �, o meio ou realidade material onde a humanidade vive e do qual ela pr�pria � parte integrante. Tudo nesse espa�o depende do homem e da natureza. Esta �ltima � a fonte primeira de todo o real: a �gua, a madeira, o petr�leo, o ferro, o cimento, o asfalto e todas as outras coisas que existem nada mais s�o, no final das contas, do que aspectos da natureza.

  • Mas o homem reelabora esses elementos naturais ao fabricar os pl�sticos a partir do petr�leo, ao represar rios e construir usinas hidrel�tricas, ao aterrar p�ntanos e edificar cidades, ao inventar velozes avi�es para encurtar as dist�ncias, Assim, o espa�o geogr�fico n�o � apenas o local de morada da sociedade humana, mas principalmente uma realidade que � a cada momento (re) constru�da pela atividade do homem.

As modifica��es que a sociedade humana produz em seu espa�o s�o hoje mais intensas do que no passado. Tudo o que nos rodeia se transforma rapidamente. Com a interliga��o entre todas as partes do globo, com o desenvolvimento dos transportes e das comunica��es, passa a existir um mundo cada vez mais unit�rio. Pode-se dizer que, em n�vel planet�rio, h� uma �nica sociedade humana, embora seja uma sociedade plena de desigualdades e diversidades. Os "mundos" ou sociedades isoladas, que viviam sem manter rela��es com o restante da humanidade, cederam lugar ao espa�o global da sociedade moderna. Na atualidade n�o existe nenhum pa�s que n�o dependa dos demais, seja para o suprimento de parte das suas necessidades materiais, seja pela internacionaliza��o da tecnologia, da arte, dos valores, da cultura afinal. Um acontecimento importante - uma guerra civil, fortes geadas com perdas agr�colas, a inven��o de um novo tipo de computador, a descoberta de enormes jazidas petrol�feras, etc. - que ocorra numa parte qualquer da superf�cie terrestre provoca repercuss�es em todo o conjunto do globo. Muito do que acontece em �reas distantes acaba nos afetan-do de uma forma ou de outra, mesmo que n�o tenhamos consci�ncia disso. N�o vivemos mais em aldeias relativamente independentes, como nossos antepassados long�nquos, mas num mundo interdependente e no qual as transforma��es se sucedem numa velocidade acelerada.

Para nos posicionarmos inteligentemente frente a este mundo, temos de conhec�-lo bem. Para nele vivermos de forma consciente e cr�tica, devemos estudar os seus fundamentos, desvendar os seus mecanismos. Ser cidad�o pleno em nossa �poca significa antes de tudo estar integrado criticamente na sociedade, participando ativamente de suas transforma��es. Para isso devemos refletir sobre o nosso mundo, compreendendo-o do �mbito local at� o nacional e o planet�rio. E a Geografia � um instrumento indispens�vel para empreendermos essa reflex�o.

VESENTINI, J. Willian. Sociedade e Espa�o. S�o Paulo, �tica, 1993.

Espa�o geogr�fico?

Ao mesmo tempo em que o homem modifica a Natureza, ele cria um espa�o ou lugar para viver e garantir a sua exist�ncia.

Constr�i campos de cultivo (a agricultura), cidades, estradas, ind�strias, extrai da natureza minerais com os quais fabrica v�rios produtos de que necessita, cria gado e muitas outras coisas.

Os espa�os produzidos pelo homem recebem o nome de espa�os geogr�ficos.

Desse modo, podemos compreender que o espa�o geogr�fico inclui a Natureza e o homem.

NA PRODU��O OU CRIA��O DO ESPA�O GEOGR�FICO,

OS HOMENS RELACIONAM-SE ENTRE SI

a) Os ind�genas e a Natureza

Pode ser verificado, atrav�s da Hist�ria, que o homem � um produtor de espa�os geogr�ficos.

Ele transforma o espa�o terrestre segundo as suas necessidades e interesses, criando, assim, espa�os geogr�ficas. Observe, por exemplo, a Hist�ria do Brasil. Antes de o colonizador* ou conquistador portugu�s chegar ao Brasil e iniciar a explora��o dos recursos naturais e o povoamento do territ�rio, existia aqui uma Natureza primitiva (vegeta��o, rios, animais, solo etc.).

A Natureza n�o tinha sofrido ainda grande modifica��o pelo homem. Aqui viviam os ind�genas, os primeiros habitantes da terra, mas eles pouco tinham modificado a Natureza, por v�rias raz�es:

    • havia um n�mero pequeno de ind�genas em rela��o ao grande territ�rio;

    • utilizavam primitivos instrumentos de trabalho;

    • a organiza��o social e econ�mica era simples (voc� sabe que os homens organizam-se em grupos para garantir a reprodu��o da esp�cie e para produzir os seus meios de subsist�ncia) ;

    • os ind�genas eram coletores de produtos vegetais (frutos, ra�zes e folhas), pescadores,. ca�adores e poucas tribos praticavam ou conheciam a agricultura;

    • n�o existia, na sua organiza��o social e econ�mica, a propriedade individual, isto �, a Natureza e os seus recursos pertenciam a todos, e a produ��o obtida era repartida entre os membros da tribo; formavam, assim, uma sociedade igualit�ria (de iguais) ; as rela��es dos membros da tribo eram de coopera��o. Ainda, atualmente, os ind�genas que n�o foram aculturados * pelos brancos v�em a Natureza de forma diferente da maioria das pessoas "civilizadas ". Entendem que ele � fonte de recursos ou de vida. Respeitam-na. Ca�am ou pescam apenas o necess�rio para sua subsist�ncia. A Natureza n�o � vista por eles como fonte de lucro.

  • b) O espa�o n�o � de todos e sim de alguns

  • Quando o conquistador ou colonizador portugu�s chegou ao territ�rio brasileiro, ele come�ou a reconstruir ou criar o espa�o geogr�fico de forma diferente do espa�o criado pelos ind�genas.

  • Assim como para os ind�genas, o que interessava ao colonizador era tamb�m garantir a sua subsist�ncia.

Entretanto, a organiza��o social e econ�mica do colonizador era bem diferente da do ind�gena.

Enquanto entre os ind�genas n�o havia dinheiro, desejo de lucro, sentimento de propriedade individual ou de posse da terra ou de seus recursos, entre os colonizadores esses costumes j� existiam e foram introduzidos no Brasil, pois era assim que muitos pa�ses da Europa se organizavam.

Por causa de sua superioridade t�cnica, como, por exemplo, os armamentos que possu�am, come�aram a conquistar o espa�o. Tomaram as terras dos primitivos habitantes do Brasil (os ind�genas). Al�m disso, muitos destes foram expulsos para o interior do territ�rio ou ainda escravizados e/ou exterminados* em lutas ou atrav�s de cont�gios de doen�as.

Tendo a posse do espa�o e de sua gente, os colonizadores passaram a organiz�-lo ou recri�-lo, segundo as suas necessidades e interesses.

Derrubaram matas e introduziram o cultivo de produtos que, al�m de atender �s suas necessidades de subsist�ncia, se destinavam � exporta��o.

Mas nem todos os homens eram donos de terra ou do com�rcio. Havia os trabalhadores assalariados (que recebem um pagamento em dinheiro pelo seu trabalho) e os escravos negros, trazidos da �frica.

Os homens constru�ram, no territ�rio brasileiro, como em outros pa�ses do mundo, vilas, cidades, estradas, alteraram cursos de rios para a irriga��o de terras e para a produ��o de energia el�trica, e muitas outras coisas.

Alteraram o espa�o natural e produziram o espa�o geogr�fico.

Foi uma obra maravilhosa, de coragem, de dificuldades e de muito trabalho, mas que apresentou, por sua vez, grandes injusti�as e conflitos entre os homens. Por que isso ocorreu?

Porque, no ato de produ��o ou reconstru��o do espa�o geogr�fico, predominaram os interesses individuais e n�o os coletivos (de todos), como ocorre em muitas sociedades ind�genas. Uns tornaram-se possuidores de terras e dos instrumentos de produ��o( m�quinas, ferramentas, edif�cios etc.), e a grande maioria dos homens ficou apenas com a sua for�a de trabalho, for�a essa que � comprada por um sal�rio quase sempre insuficiente para subsistir.

Diante do que acabamos de expor, podemos concluir que o espa�o e os seus recursos n�o pertencem a todos os membros da sociedade que nele vivem, e sim a alguns.

E assim tem sido, at� os dias atuais, o aproveitamento econ�mico do espa�o terrestre e a constru��o do espa�o geogr�fico pelos homens.

O espa�o � organizado ou modificado segundo os interesses do grande capital (de grandes empresas ou grandes capitalistas, isto �, que possuem muito dinheiro). � o caso, por exemplo, do povoamento recente das Regi�es Norte e Centro-Oeste* do Brasil.

Os interesses do grande capitalista chocam-se com os interesses do pequeno agricultor, do garimpeiro, dos ind�genas e dos homens sem terra ou trabalhadores. Chocam-se tamb�m com a necessidade de se manter o equil�brio da natureza.

V�-se, ent�o, que o espa�o geogr�fico reflete ou reproduz a sociedade que nele vive e principalmente as rela��es que se estabelecem entre os homens na busca de sua subsist�ncia.

ADAS, Melhem. Geografia. S�o Paulo, Moderna, 1984, vol. 1, p. 68-70.


 

GLOBALIZA��O:

Introdu��o:

A express�o "globaliza��o" tem sido utilizada mais recentemente num sentido marcadamente ideol�gico, no qual assiste-se no mundo inteiro a um processo de integra��o econ�mica sob a �gide do neoliberalismo, caraterizado pelo predom�nio dos interesses financeiros, pela desregulamenta��o dos mercados, pelas privatiza��es das empresas estatais, e pelo abandono do estado de bem-estar social. Esta � uma das raz�es dos cr�ticos acusarem-na, a globaliza��o, de ser respons�vel pela intensifica��o da exclus�o social (com o aumento do n�mero de pobres e de desempregados) e de provocar crises econ�micas sucessivas, arruinando milhares de poupadores e de pequenos empreendimentos.

No texto que se segue n�o trataremos deste fen�meno no sentido ideol�gico mas sim no seu significado hist�rico. Demonstramos que o processo de globaliza��o (aqui entendido como integra��o e interdepend�ncia econ�mica) deita suas raizes h� muito tempo atr�s, no m�nimo h� 5 s�culos, passando desde ent�o por etapas diversas. Aqui o termo � empregado para fins espec�ficos de uma s�ntese hist�rica, bem distante das manipula��es ideologicas que possam ele sofrer. Portanto, para n�s, ele tem um significado mais profundo e n�o apenas propagand�stico.

As Economias-Mundo antes das Descobertas:

Antes de ter inicio a primeira fase da globaliza��o, os Continentes encontravam-se separados por intranspon�veis extens�es acidentadas de terra e de �guas, de oceanos e mares, que faziam com que a maioria dos povos e das culturas soubessem da exist�ncia uma das outras apenas por meio de lendas, com a do Preste Jo�o, ou imprecisos e imagin�rios relatos de viajantes, como o de Marco Polo. Cada povo vivia isolado dos demais, cada cultura era auto-suficiente. Nascia, vivia e morria no mesmo lugar, sem tomar conhecimento da exist�ncia dos outros.

At� o s�culo 15 identificamos 5 economias-mundo (� uma express�o de Fernand Braudel), totalmente autonomas, espalhadas pela Terra e que viviam separadas entre elas. A primeira delas, a da Europa, era composta pelas cidades italianas de G�nova, Veneza, Mil�o e Floren�a, que mantinham la�os comerciais e financeiros com o Mediterr�neo e o Levante onde possuiam importantes feitorias e bairros comerciais. Bem mais ao norte, na Fran�a setentrional, vamos encontrar outra �rea comercial significativa na regi�o de Flandres, formada pelas cidades de Lille, Bruges e Antu�rpia, vocacionadas para os neg�cios com o Mar do Norte. No Mar B�ltico entrava-se a Liga de Hansa, uma cooperativa de mais de 200 cidades mercantes lideradas por L�beck e Hamburgo, que mantinham um eixo comercial que ia de Novgorod, na R�ssia, at� Londres na Inglaterra.

No sudeste europeu, por ent�o, agoniza o com�rcio bizantino (que atuava no mar Egeu e no mar Negro), pressionado pela expans�o dos turcos que terminaram por ocupar a grande cidade em 1453, enquanto que a R�ssia via-se limitada pelos Canatos Mong�is que ocupavam boa parte do leste do pa�s.

Outra economia-mundo era formada pela China e regi�es tribut�rias como a pen�nsula coreana, a Indochina e a Mal�sia, e que s� se ligava com a �sia Central e o Ocidente atrav�s da rota da seda. O seu maior dinamismo econ�mico encontrava-se nas cidades do sul como Cant�o e do leste como Xangai, grande portos que faziam a fun��o de vasos comunicantes com os arquip�lagos do Mar da China.

A �ndia, por sua vez, gra�as a sua posi��o geogr�fica, traficava num raio econ�mico mais amplo. No noroeste, pelo Oceano �ndico e pelo Mar Vermelho, estabelecia rela��es com mercadores �rabes que tinham feitorias em Bombaim e outros portos da �ndia ocidental, enquanto que comerciantes malaios eram acolhidos do outro lado, em Calcut�. Seu imenso mercado de especiarias e tecidos finos era afamado, mas s� pouca coisa chegava ao Ocidente gra�as ao com�rcio com o Levante. Foi a celebra��o das suas riquezas que mais atraiu a cobi�a dos aventureiros europeus como o lusitano Vasco da Gama.

Subdividida pelo deserto do Saara numa �frica �rabe ao Norte, que ocupa uma faixa de terra a beira do Mediterr�neo e Vale do rio Nilo, com rela��es comerciais mais ou menos intensas com os portos europeus e, ao Sul, numa outra �frica, a �frica negra, isolada do mundo pelo deserto e pela floresta tropical, formava um outro planeta econ�mico totalmente a parte, voltado para si mesmo.

Por �ltimo, mas desconhecida das demais, encontrava-se aquela formada pelas civiliza��es pr�-colombianas, a Azteca no M�xico, a dos Maias no Yucatan e no istmo, e a Inca no Peru , organizadas ao redor do cultivo do milho e na elabora��o de tecidos, sendo elas auto-suficientes e sem interliga��es entre si, nem terrestres nem oce�nicas.

Durante milhares de anos elas desconheceram-se e nem imaginavam que algum dia poderiam estabelecer rela��es significativas. Se � certo que em suas bordas haviam escambo ou com�rcio, eles eram insignificantes. Portanto, numa longa perspectiva, pode-se dizer que a internacionaliza��o do com�rcio e a aproxima��o das culturas � um fen�meno recentissimo, datando dos �ltimos cinco s�culos, apenas 10% do tempo da hist�ria at� agora conhecida.

A primeira fase da Globaliza��o (1450-1850):

"Por mares nunca dantes navegados/.....Em perigos e guerra esfor�ados, mais do que prometia a for�a humana/ E entre gente remota edificaram/ Novo reino, que tanto sublimaram" - Lu�s de Cam�es - Os Lus�adas, Canto I, 1572.

H�, como em quase tudo que diz respeito � hist�ria, grande controv�rsia em estabelecer-se uma periodiza��o para estes cinco s�culos de integra��o econ�mica e cultural, que chamamos de globaliza��o, iniciados pela descoberta de uma rota mar�tima para as �ndias e pelas terras do Novo Mundo. Fr�d�ric Mauro, por exemplo, prefere separ�-lo em dois momentos, um que vai de 1492 at� 1792 (data quando, segundo ele, a Revolu��o Francesa e a Revolu��o Industrial fazem com que a Europa, que liderou o processo inicial da globaliza��o, voltou-se para resolver suas disputas e rivalidades), s� retomando a expans�o depois de 1870, quando amadureceram as novas t�cnicas de transporte e navega��o como a estrada-de-ferro e o navio � vapor.

No crit�rio por n�s adotado, consideramos que o processo de globaliza��o ou de economia-mundo capitalista como preferiu Immanuel Wallerstein, nunca se interrompeu. Se ocorreram momentos de menor intensidade, de contra��o, ela nunca chegou a cessar totalmente. De certo modo at� as grandes guerras mundiais de 1914-18 e de 1939-45, e antes delas a Guerra dos 7 anos (de 1756-1763), provocaram a intensifica��o da globaliza��o quando adotaram-se macro-estrat�gias militares para acossar os advers�rios, num mundo quase inteiramente transformado em campo de batalha. Basta recordar que soldados europeus, nas duas maiores guerras do s�culo 20, lutavam entre si no Oriente M�dio e na �frica, enquanto que tropas col�nias desembarcavam na Europa e marchavam para os campos de batalha nas plan�cies francesas enquanto que as marinhas europ�ias, americanas e japonesas se engalfinhavam em quase todos os mares do mundo.

Assim sendo, nos definimos pelas seguintes etapas: primeira fase da globaliza��o, ou primeira globaliza��o, dominada pela expans�o mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo europ�ia, a segunda fase, ou segunda globaliza��o, que vai de 1850 a 1950 caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista e, por �ltima, a globaliza��o propriamente dita, ou globaliza��o recente, acelerada a partir do colapso da URSS e a queda do muro de Berlim, de 1989 at� o presente.

Per�odos da Globaliza��o :

Data Per�odo Caracteriza��o

1450-1850 Primeira fase Expansionismo mercantilista

1850-1950 Segunda fase Industrial-imperialista-colonialista

p�s-1989 Globaliza��o recente Cibern�tica-tecnol�gica-associativa

 

A primeira globaliza��o, resultado da procura de uma rota mar�tima para as �ndias, assegurou o estabelecimento das primeiras feitorias comerciais europ�ias na �ndia, China e Jap�o, e, principalmente, abriu aos conquistadores europeus as terras do Novo Mundo. Feitos estes que Adam Smith, em sua vis�o euroc�ntrica, considerou os maiores em toda a hist�ria da humanidade. Enquanto as especiarias eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterd� e Londres, milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e, um bem menor n�mero de franceses, atravessaram o Atl�ntico para vir ocupar a Am�rica. Aqui formaram col�nias de explora��o, no sul da Am�rica do Norte, no Caribe e no Brasil, baseadas geralmente num s� produto (a��car, tabaco, caf�, min�rio, etc..) utilizando-se de m�o de obra escrava vinda da �frica ou mesmo ind�gena; ou col�nias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na Am�rica do Norte, baseadas na m�dia propriedade de explora��o familiar. Para atender as primeiras, as col�nias de explora��o, � que o brutal tr�fico negreiro tornou-se rotina, fazendo com que 11 milh�es de africanos (40% deles destinados ao Brasil) fossem transportados pelo Atl�ntico para labutar nas lavouras e nas minas.

Igualmente n�o deve-se omitir que ela promoveu uma espantosa expropria��o das terras ind�genas e no sufocamento ou destrui��o da sua cultura. Em quase toda a Am�rica ocorreu uma cat�strofe demogr�fica, devido aos maus tratos que a popula��o nativa sofreu e as doen�as e epidemias que os devastram, devido ao contato com os colonizadores europeus.

Nesta primeira fase estrutura-se um s�lido com�rcio triangular entre a Europa (fornecedora de manufaturas) �frica (que vende seus escravos) e Am�rica (que exporta produtos coloniais). A imensa expans�o deste mercado favorece os artes�os e os industriais emergentes da Europa que passam a contar com consumidores num raio bem mais vasto do que aquele abrigado nas suas cidades, enquanto que a importa��o de produtos coloniais faz ampliar as rela��es inter-europ�ias. Exemplo disso ocorre com o a��car cuja produ��o � confiada aos senhores de engenho brasileiros, mas que � transportado pelos lusos para os portos holandeses, onde l� se encarregam do seu refino e distribui��o.

Os principais portos europeus, americanos e africanos desta primeira globaliza��o encontram-se em Lisboa, Sevilha, C�diz, Londres, Liverpool, Bristol, Roterd�, Amsterd�, Le Havre, Toulouse, Salvador, Rio de Janeiro, Lima, Buenos Aires, Vera Cruz, Porto Belo, Havana, S�o Domingo, Lagos, Benin, Guin�, Luanda e Cidade do Cabo.

Politicamente, a primeira fase da globaliza��o se fez quase toda ela sob a �gide das monarquias absolutistas que concentram enorme poder e mobilizam os recursos econ�micos, militares e burocr�ticos, para manterem e expandirem seus imp�rios coloniais. Os principais desafios que enfrentam advinham das rivalidades entre elas, seja pelas disputas din�sticas-territoriais ou pela posse de novas col�nias no al�m mar, sem esquecer-se do enorme estragos que os cors�rios e piratas faziam, especialmente nos s�culos 16 e 17, contra os navios carregados de ouro e prata e produtos coloniais.

A doutrina econ�mica desta primeira fase foi o mercantilismo, adotado pela maioria das monarquias europ�ias para estimular o desenvolvimento da economia dos reinos. Ele compreendia numa complexa legisla��o que recorria a medidas protecionistas, incentivos fiscais e doa��o de monop�lios, para promover a prosperidade geral. A produ��o e distribui��o do com�rcio internacional era feita por mercadores privados e por grandes companhias comerciais (as Cias. inglesas e holandesas das �ndias Orientais e Ocidentais) e, em geral, eram controladas localmente por corpora��es de of�cio.

Todo o universo econ�mico destinava-se a um s� fim, entesourar, acumular riqueza. O poder de um reino era aferido pela quantidade de metal precioso (ouro, prata e j�ias preciosas) existente nos cofres reais. Para assegurar seu aumento o estado exercia um s�rio controle das importa��es e do com�rcio com as col�nias, sobre as quais exerciam o oligop�lio bilateral. (*)Esta pol�tica levou a que cada reino europeu terminasse por se transformar num imp�rio comercial, tendo col�nias e feitorias espalhadas pelo mundo todo ( os principais imp�rios coloniais foram o ingl�s, o espanhol, o portugu�s, o holand�s e o franc�s). Um dos s�mbolos desta �poca, a bolsa de valores de Amberes, consciente do que representava, tinha como justo lema a frase latina "Ad usum mercatorum cujusque gentis ac linguae", que ela servia aos mercadores de todas as l�nguas da terra.

(*) o oligop�lio bilateral � uma express�o que serve para descrever a situa��o de subordina��o em que as col�nias se encontravam perante as metr�poles. Al�m de estarem impedidas de negociarem com outros pa�ses, elas eram obrigadas a adquirir suas necessidades apenas com negociantes e mercadores metropolitanos bem como somente vender a eles o que produziam, desta forma a metr�pole ganhava ao vender e ao comprar.

A segunda fase da Globaliza��o (1850-1950):

"Por meio de sua explora��o do mercado mundial ,a burguesia deu um car�ter cosmopolita � produ��o e ao consumo em todos os pa�ses...As velhas industrias nacionais foram destru�das ou est�o-se destruindo-se dia a dia....Em lugar das antigas necessidades satisfeitas pela produ��o nacional, encontramos novas necessidades que querem para a sua satisfa��o os produtos das regi�es mais long�nquas e dos climas os mais diversos. Em lugar do antigo isolamento local...desenvolvem-se, em todas as dire��es, um interc�mbio e uma interdepend�ncia universais.." - Karl Marx - Manifesto Comunista, 1848

Os principais acontecimentos que marcam a transi��o da primeira fase da globaliza��o para a segunda d�o-se nos campos da t�cnica e da pol�tica. A partir do s�culo 18, a Inglaterra industrializa-se aceleradamente e, depois dela, a Fran�a, a B�lgica, a Alemanha e a It�lia. A m�quina � vapor � introduzida nos transportes terrestres (estradas-de-ferro) e mar�timos (barcos � vapor) Consequentemente esta nova �poca ser� regida pelos interesses da ind�stria e das finan�as, sua associada e, por vezes amplamenente dominante, e n�o mais das motiva��es din�sticas-mercant�s. Ser� a grande burguesia industrial e banc�ria, e n�o mais os administradores das corpora��es mercantis e os funcion�rios reais quem liderar� o processo. Esta interpenetra��o dos bancos com a industria, com tend�ncias ao monop�lio ou ao oligop�lio, fez com que o economista austr�aco Rudolf Hilferding a denominasse de "O Capital Financeiro" (Das Finanz kapital, titulo da sua obra publicado em 1910), considerando-a um fen�meno novo da economia-politica moderna. Lenin definiu-a como a etapa final do capitalismo, a etapa do imperialismo.

Luta ele - o capital financeiro - pela amplia��o dos mercados e pela obten��o de novas e diversas fontes de mat�rias primas. A doutrina econ�mica em que se baseia � a do capitalismo laissez-faire, um liberalismo radical inspirado nos fisiocratas franceses e apoiado pelos economistas ingleses Adam Smith e David Ricardo que advogavam a supera��o do Mercantilismo com suas pol�ticas arcaicas. Defendem o livre-cambismo na rela��es externas, mas em defesa das suas industrias internas continuam em geral protecionistas, como � o caso da pol�tica Hamiltoniana nos Estados Unidos e a da Alemanha Imperial e a do Jap�o(*).

A escravid�o que havia sido o grande esteio da primeira globaliza��o, tornou-se um impedimento ao progresso do consumo e, somada � crescente indigna��o que ela provoca, termina por ser abolida, primeiro em 1789 e definitivamente em 1848 ( no Brasil ela ainda ir� sobreviver at� 1888). Este segundo momento - segundo a orienta��o do que Hobson chamou de "a politica de uma minoria sem escr�pulos" -, ir� se caracterizar pela ocupa��o territorial de certas partes da �frica e da �sia, al�m de estimular o povoamento das terras semi-desocupadas da Austr�lia e da Nova Zel�ndia.

No campo da pol�tica a revolu��o americana de 1776 e a francesa de 1789, ir�o liberar enorme energia fazendo com que a busca da realiza��o pessoal termine por promover uma grande ascens�o social das massas. Logo depois, como resultado das Guerras Napole�nicas e da generalizada aboli��o da servid�o e outros impedimentos feudais, milh�es de europeus (calcula-se em 60 milh�es num s�culo) abandonam seus lares nacionais e emigram em massa para os Estados Unidos, Canad�, e para a Am�rica do Sul (Brasil, Argentina, Chile e Uruguai).

A posse de novas col�nias torna-se um ornamento na pol�tica das pot�ncias (s� a Gr�-Bretanha possui mais de 50, ocupando inclusive �reas antiecon�micas). O cobi�ado mercado chin�s finalmente � aberto pelo Tratado de Nanquim de 1842 e o Jap�o tamb�m � for�ado a abandonar a pol�tica de isolamento da �poca Tokugawa ao assinar um tratado com os americanos em 1853-4.

Cada uma das pot�ncias europ�ias rivaliza-se com as demais na luta pela hegemonia do mundo, ou como disse John Strachey: "lan�aram-se unanimemente, numa rivalidade feroz...para anexar o resto do mundo". O resultado � um acirramento da corrida imperialista e da pol�tica belicista que levar� os europeus � duas guerras mundiais, a de 1914-18 e a de 1939-45. Entrementes outros aspectos t�cnicos ajudam a globaliza��o: o trem e o barco � vapor encurtam as dist�ncias, o tel�grafo e , em seguida, o telefone, aproximam os continentes e os interesses ainda mais. E, principalmente depois do v�o transatl�ntico de Charles Lindbergh em 1927, a avia��o passa a ser mais um elemento que permite o mundo tornar-se menor.

Nestes cem anos da segunda fase da globaliza��o (1850-1950) os antigos imp�rios din�sticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas pot�ncias que existiam em 1914 (O Imp�rio brit�nico, o franc�s, o alem�o, o austro-h�ngaro, o italiano, o russo e o turco otomano) s� restam depois da 2� Guerra Mundial, as superpot�ncias: os Estados Unidos e a Uni�o Sovi�tica.

Feridas pelas guerras as metr�poles deram para desabar, obrigando-se a aceitar a liberta��o dos povos coloniais que formaram novas na��es. Mesmo assim, umas independentes e outras neocolonizadas, continuaram ligadas ao sistema internacional. Somam-se, no p�s-1945, os pa�ses do Terceiro Mundo rec�m independente (a �ndia � a primeira a obt�-la em 1947) �s na��es latino-americanas que conseguiram sua autonomia pol�tica entre 1810-25, ainda no final da primeira fase da globaliza��o. No entanto nem a descoloniza��o nem as revolu��es comunistas, a da R�ssia de 1917 e a da China de 1949, servir�o de entrave para que a mais longo prazo o processo de globaliza��o seja retomado.

(*) Os pa�ses industrializados defendem o livre-cambismo (o pre�o melhor vence) quando se sentem fortes, como foi o caso da Inglaterra nos s�culos 18 e 19 e hoje � a posi��o dominante dos E.U.A. Mas para aqueles que precisam criar sua pr�pria industria ou proteger a que est� ainda se afirmando, precisam recorrer � pol�tica protecionista com suas elevadas barreiras alfandeg�rias para evitar sua quebra.

A Globaliza��o recente (p�s-1989) :

"O conceito do direito mundial de cidadania n�o os protege (os povos) contra a agress�o e a guerra, mas a m�tua conviv�ncia e proveito os aproxima e une. O espirito comercial, incompat�vel com a guerra, se apodera tarde ou cedo dos povos. De todos os poderes subordinados � for�a do Estado, � o poder do dinheiro que inspira mais confian�a e por isto os Estados se v�m obrigados - n�o certamente por motivos morais- a fomentar a paz..." - I.Kant - A paz perp�tua, 1795

No decorrer do s�culo 20 tr�s grandes projetos de lideran�a da globaliza��o conflitaram-se entre si: o comunista, inaugurado com a Revolu��o bolchevique de 1917 e refor�ado pela revolu��o maoista na China em 1949; o da contra-revolu��o nazi-fascista que, em grande parte, foi uma poderosa rea��o direitista ao projeto comunista, surgido nos anos de 1919, na It�lia e na Alemanha, extendendo-se ao Jap�o, que foi esmagado no final da 2� Guerra Mundial, em 1945; e, finalmente, o projeto liberal-capitalista liderado pelos pa�ses anglo-sax�os, a Gr�-Bretanha e os Estados Unidos.

Num primeiro momento ocorreu a alian�a entre o liberalismo e o comunismo (em 1941-45) para a auto-defesa e, depois, a destrui��o do nazi-fascismo. Num segundo momento os vencedores, os EUA e a URSS, se desentenderam gerando a Guerra Fria (1947-1989), onde o liberalismo norte-americano rivalizou-se com o comunismo sovi�tico numa guerra ideol�gica mundial e numa competi��o armamentista e tecnol�gica que quase levou a humanidade a uma cat�strofe (a crise dos m�sseis de 1962).

Com a pol�tica da glasnost, adotada por Mikhail Gorbachov na URSS desde 1986, a Guerra Fria encerrou-se e os Estados Unidos proclamaram-se vencedores. O momento s�mbolo disto foi a derrubada do Muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989, acompanhada da retirada das tropas sovi�ticas da Alemanha reunificada e seguida da dissolu��o da URSS em 1991. A China comunista, por sua vez, que desde os anos 70 adotara as reformas visando sua moderniza��o, abriu-se em v�rias zonas especiais para a implanta��o de industrias multinacionais. A pol�tica de Deng Xiaoping de conciliar o investimento capitalista com o monop�lio do poder do partido comunista, esvaziou o regime do seu conte�do ideol�gico anterior. Desde ent�o s� restou hegem�nica no moderno sistema mundial a economia-mundo capitalista, n�o havendo nenhuma outra barreira a antepor-se � globaliza��o.

Chegamos desta forma a situa��o presente onde sobreviveu uma s� superpot�ncia mundial: os Estados Unidos. � a �nica que tem condi��es operacionais de realizar interven��es militares em qualquer canto do planeta (Kuwait em 1991, Haiti em 1994, Som�lia em 1996, Bosnia em 1997, etc..). Enquanto na segunda fase da globaliza��o vivia-se na esfera da libra esterlina, agora � a era do d�lar, enquanto que o idioma ingl�s tornou-se a l�ngua universal por excel�ncia. Pode-se at� afirmar que a globaliza��o recente nada mais � do que a americaniza��o do mundo.

Desequil�brios e perspectivas da globaliza��o:

O processo produtivo mundial � formado por um conjunto de umas 400-450 grandes corpora��es (a maioria delas produtora de autom�veis e ligada ao petr�leo e �s comunica��es) que t�m seus investimentos espalhados pelos 5 continentes. A nacionalidade delas � majoritariamente americana, japonesa, alem�, inglesa, francesa, su��a, italiana e holandesa. Portanto, pode-se afirmar sem erro que os pa�ses que assumiram o controle da primeira fase da globaliza��o (a de 1450-1850), apesar da descoloniza��o e dos desgastes das duas guerras mundiais, ainda continuam obtendo os frutos do que conquistaram no passado. A raz�o disso � que det�m o monop�lio da tecnologia e seus or�amentos, estatais e privados, dedicam imensas verbas para a ci�ncia pura e aplicada.

Politicamente a globaliza��o recente caracteriza-se pela crescente ado��o de regimes democr�ticos. Um levantamento indicou que 112 pa�ses integrantes da ONU, entre 182, podem ser apontados como seguidores (ainda que com v�rias restri��es) de pr�ticas democr�ticas, ou pelo menos, n�o s�o tiranias ou ditaduras. A t�tulo de exemplo lembramos que na Am�rica do Sul, na d�cada dos 70, somente a Venezuela e a Col�mbia mantinham regimes civis eleitos. Todos os demais pa�ses eram dominados por militares ( personalistas como no Chile, ou corporativos como no Brasil e Argentina).Enquanto que agora , nos finais dos noventa, n�o temos nenhuma ditadura na Am�rica do Sul. Neste processo de universaliza��o da democracia as barreiras discriminat�rias ru�ram uma a uma (fim da exclus�o motivada por sexo, ra�a, religi�o ou ideologia), acompanhado por uma sempre ascendente padroniza��o cultural e de consumo.

A ONU que deveria ser o embri�o de um governo mundial foi tolhida e paralisada pelos interesses e vetos das superpot�ncias durante a Guerra Fria. Em conseq��ncia dessa debilidade, formou-se uma esp�cie de estado-maior informal composto pelos dirigentes do G-7 (os EUA, a GB, a Alemanha, a Fran�a, o Canad�, a It�lia e o Jap�o), por vezes alargado para dez ou vinte e cinco, cujos encontros freq�entes t�m mais efeitos sobre a pol�tica e a economia do mundo em geral do que as assembl�ias da ONU.

Enquanto que no passado os instrumentos da integra��o foram a caravela, o gale�o, o barco � vela, o barco a vapor e o trem, seguidos do tel�grafo e do telefone, a globaliza��o recente se faz pelos sat�lites e pelos computadores ligados na Internet. Se antes ela martirizou africanos e ind�genas e explorou a classe oper�ria fabril, hoje utiliza-se do sat�lite, do rob� e da inform�tica, abandonando a antiga depend�ncia do bra�o em favor do c�rebro, elevando o padr�o de vida para patamares de sa�de, educa��o e cultura at� ent�o desconhecidos pela humanidade.

O dom�nio da tecnologia por um seleto grupo de pa�ses ricos, por�m, abriu um fosso com os demais, talvez o mais profundo em toda a hist�ria conhecida. Roma, quando imp�rio universal, era superior aos outros povos apenas na arte militar, na engenharia e no direito. Hoje os pa�ses-n�cleos da globaliza��o (os integrantes do G-7), distam, em qualquer campo do conhecimento, anos-luz dos pa�ses do Terceiro Mundo (*).

Ningu�m tem a resposta nem a solu��o para atenuar este abismo entre os ricos do Norte e os pobres do Sul que s� se ampliou. No entanto, � bom que se reconhe�a que tais diferen�as n�o resultam de um novo processo de espolia��o como os praticados anteriormente pelo colonialismo e pelo imperialismo, pois n�o implicaram numa domina��o pol�tica, havendo, bem ao contr�rio, uma aproxima��o e busca de interc�mbio e coopera��o.

(*) Quanto � exporta��o de produtos da vanguarda tecnol�gica (microeletr�nica, computadores, aeroespaciais, equipamento de telecomunica��es, m�quinas e rob�s, equipamento cient�fico de precis�o, medicina e biologia e qu�micos org�nicos), Os EUA s�o respons�veis por 20,7%; a Alemanha por 13,3%; o Jap�o por 12,6%; o Reino Unido por 6,2%, e a Fran�a por 3,0% , etc..logo apenas estes 5 pa�ses det�m 55,8% da exporta��o mundial delas.

Imagina-se que a Globaliza��o, seguindo o seu curso natural, ir� enfraquecer cada vez mais os estados-nacionais surgidos h� cinco s�culos atr�s, ou dar-lhes novas formas e fun��es, fazendo com que novas institui��es supranacionais gradativamente os substituam. Com a forma��o dos mercados regionais ou intercontinentais (Nafta, Unidade Europ�ia, Comunidade Econ�mica Independente [a ex-URSS], o Mercosul e o Jap�o com os tigres asi�ticos), e com a consequente interdepend�ncia entre eles, assentam-se as bases para os futuros governos transnacionais que, provavelmente, servir�o como unidades federativas de uma administra��o mundial a ser constitu�da. � bem prov�vel que ao findar o s�culo 21, talvez at� antes, a humanidade conhecer� por fim um governo universal, atingindo-se assim o sonho dos fil�sofos est�icos do homem cosmopolita, aquele que se sentir� em casa em qualquer parte da Terra.

Bibliografia:

Braudel, Fernand - Civiliza��o material, economia e capitalismo: s�culos XV-XVIII- Editora Martins Fontes, S�o Paulo, 1996, 3 vols.

Carrion, Raul K.M., Vizentini, Paulo G. - Globaliza��o, neoliberalismo, privatiza��es, Editora da Universidade, UFRGS, Porto Alegre, 1997

Chaunu, Pierre - Conquista y explotaci�n de los nuevos mundos - Editorial labor, Barcelona, 1973

Herkscher, Eli F. - La epoca mercantilista - Fondo de Cultura Econ�mica, Mexico, 1943

Kennedy, Paul - Preparando para o s�culo XXI - Editora Campus, Rio de Janeiro, 1993

Mauro, Fr�d�ric - La expansi�n europea ( 1600-1870) - Editorial Labor, Barcelona, 1968

Wallerstein, Immanuel - El sistema mundial, Siglo XXI editores, M�xico, 1984, vol I e II


GEOMORFOLOGIA:

A Geomorfologia � a parte da Geografia F�sica que se dedica � an�lise da g�nese e evolu��o do relevo terrestre.

A an�lise das formas de relevo pressup�e uma descri��o do modelado e uma considera��o dos complexos f�sicos e fisico-biol�gicos. Pressup�e ainda um conhecimento geol�gico razo�vel, bem como no��es sobre os processos morfoclim�ticos atuais e pret�ritos.

As divis�es da Geomorfologia:

A Geomorfologia Geral objetiva estudar as formas de relevo originadas pela intera��o dos processos end�genos e ex�genos estabelecendo m�todos de investiga��o e cartografia do relevo.

A Geomorfologia Regional analisa a disposi��o das grandes formas de relevo numa determinada regi�o, buscando compreender sobretudo a hist�ria evolutiva da compartimenta��o geomorfol�gica.

A Geomorfologia Aplicada visa � aplica��o dos conhecimentos para a solu��o dos problemas econ�micos ligados ao relevo.

A antiga divis�o estabelecida entre Geomorfologia Estrutural e Geomorfologia Clim�tica justifica-se, na atualidade, apenas para atender aos objetivos meramente did�ticos, haja vista que a Geomorfologia Geral a englobou.

O objeto de estudo da Geomorfologia:

O objeto de estudo da Geomorfologia � o relevo da superf�cie do planeta, em seus aspectos gen�ticos, cronol�gicos , morfol�gicos, morfom�tricos e din�micos. Esse objeto ocorre numa zona de contato entre entre a litosfera , a atmosfera e a biosfera. A por��o mais superficial da litosfera , palco dos fen�menos geomorfol�gicos, est� submetida �s a��es de for�as opostas desencadeadas em cada meio em que se encontram. Materializa-se , assim, a lei dial�tica da luta dos contr�rios, que permite descobrir as causas do eterno movimento e desenvolvimento do mundo natural.
O relevo terrestre corresponde ao conjunto de reentr�ncias e sali�ncias observadas na superf�cie do planeta, formado por in�meros processos. Esses processos podem ser provenientes do interior da Terra ( end�genos), englobando os movimentos tect�nicos as manifesta��es vulc�nicas , e das for�as externas � litosfera , mediante interfer�ncias dos fen�menos clim�ticos , da gravidade e da cobertura vegetal. O relevo terrestre � um dos mais importantes componentes do quadro natural. As suas peculiaridades condicionam a distribui��o dos solos , a vegeta��o e at� algumas possibilidades de aproveitamento dos recursos h�dricos.

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Hosted by www.Geocities.ws

1