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Julga-se que a Geografia não é mais do que uma disciplina
escolar e universitária, cuja função seria fornecer
elementos de uma descrição do mundo, dentro de uma concepção
desinteressada da cultura dita geral. Pois qual poderia ser a utilidade
daquelas estranhas frases soltas em alguns livros de Geografia, que é
necessário aprender nas escolas? Os maciços dos Alpes do
Norte, a altitude do Pico Everest, a densidade demográfica da Holanda,
a capital do Nepal etc. E os nossos pais e avós a lembrarem que
em seu tempo era necessário saber as capitais de todos os países
de certo continentes. Para que serve tudo isso? Uma disciplina "estupidificante"
mas, apesar de tudo simples, pois, como toda a gente sabe, "em Geografia
não há nada que perceber, é preciso é ter
memória, é só decorar".
ntigamente, talvez esta Geografia
tenha servido para qualquer coisa, mas, hoje, a televisão, as revistas,
os jornais não mostram melhor todos os países através
de notícias, e o cinema mostra melhor as paisagens? Mas, que diabo,
dirão todos os que não são geógrafos: a Geografia
não serve para nada!
toda a ciência ou saber
deve ser feito o seguinte questionamento: o processo científico
está ligado a uma história e deve ser analisado, por um
lado, na sua relação com as ideologias; por outro lado,
como prática ou como poder. Dizer antecipadamente que a Geografia
serve, antes de mais nada, para fazer a guerra, não implica que
sirva apenas para executar operações militares; ela serve
também para organizar os territórios, não só
como previsão de batalhas que se deverão travar contra tal
ou tal inimigo, mas também para melhor controlar os homens sobre
os quais os aparelhos de Estado exercem a sua autoridade. A Geografia
é, antes de mais nada, um saber estratégico intimamente
ligado a um conjunto de práticas políticas e militares e
são essas práticas que exigem a acumulação
articulada de informações extremamente variadas, à
primeira vista desconexas, de que não é possível
compreender a razão de ser, a importância, se nos mantivermos
dentro dos limites do saber pelo saber. São as práticas
estratégicas que fazem com que a Geografia seja necessária,
em primeiro lugar, aos que comandam os aparelhos de Estado.
Hoje, mais do que nunca, a Geografia serve, antes de mais nada, para fazer
a guerra. Pôr em prática novos métodos de guerra implica
uma análise extremamente precisa das combinações
geográficas, das relações entre os homens e das "condições
naturais" que é necessário destruir ou modificar para
tornar determinada região inabitável ou para levar a cabo
um genocídio. A Guerra do Vietnã fornece numerosas provas
de que a Geografia serve para fazer a guerra de maneira mais global. Um
dos mais célebres e mais dramáticos exemplos foi posto em
prática em 1965, 1966,1967 e sobretudo, em 1972, em um plano de
destruição sistemática da rede de diques que protegem
as planícies extremamente populosas do Vietnã do Norte.
A escolha do locais a bombardear resultou de um estudo geográfico
a vários níveis de análise espacial.
Adaptado de LACOSTE, Y. A Geografia - Isso Serve, em Primeiro Lugar, para
Fazer a Guerra. São Paulo, Papirus Editora, 1989, pp.21-30.
Retirado de: COIMBRA, Pedro e TIBÚRCIO, José Arnaldo. Geografia
- uma análise do espaço geográfico. São Paulo,
Harbra, 1995.
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