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A cidade é um ecossistema?
É polêmico afirmar que a cidade constitui um ecossistema,
pois, a rigor, é incorreto falar na existência de um ecossistema
urbano. Por quê? Porque, para existir um ecossistema, pressupõe-se
a existência de um ambiente em perfeito equilíbrio, formado
pela relação entre plantas, animais, clima e solo. Além
disso, a existência de um ecossistema implica também auto-suficiência
e, portanto, a existência de organismos produtores de matéria
e energia e a de consumidores e decompositores. Sendo assim, pode-se falar
apenas na existência de um sistema urbano, considerando que sistema
"é um conjunto de partes coordenadas entre si que concorrem
para alguma finalidade". A cidade não é um ecossistema,
mas forma um sistema especial. Ela é apenas uma etapa consumidora,
interferindo em vários ecossistemas, muitas vezes situados a milhares
de quilômetros de distância.
Estima-se que terra "consumida" por área urbana seja
pelo menos dez vezes maior que aquela efetivamente ocupada pela cidade.
Assemelhando-se a um ecossistema, a cidade consome matéria e energia
e gera subprodutos - resíduos sólidos (lixo), líquidos
(esgotos) e gasosos (fumaças e gases), mas apesar disso, não
recicla nada. Esse é seu grande problema, que é tanto mais
grave quanto maior for a cidade. As grandes aglomerações
urbano-industriais consomem incrível quantidade de energia e matérias-primas,
muito mais do que o necessário para sustentar suas populações.
Assim, também produzem toneladas e toneladas de subprodutos que,
não sendo reciclados, vão se acumulando no ar, no solo e
nas águas, causando uma série de desequilíbrios,
no meio ambiente. Alguns desses impactos ocorrem em escala local, ou seja,
no âmbito da própria cidade, outros em escala regional e
global, ou seja, extrapolando os limites da cidade.
POLUIÇÃO
O termo poluição deriva do latim Poluere, que significa
"sujar". Conclui-se, assim, que os romanos já poluíam
o meio ambiente. Não só os romanos, mas também os
gregos, os babilônicos, os chineses e todos os povos que os precederam.
Ou seja, desde que o homem surgiu na face da Terra, ele polui. Obviamente,
o problema se agravou, como também os vários outros tipos
de impacto ambiental, como resultado da expansão da sociedade de
consumo. Mas o que é exatamente poluir, "sujar"? Poluição
é qualquer alteração provocada no meio ambiente,
que pode ser um ecossistema natural ou agrário, um sistema urbano
ou até mesmo, em microescala, o interior de uma casa. Essas alterações
podem ser:
· inicialmente, apenas das proporções ou das características
de um dos elementos que formam o próprio meio. É o caso
do aumento da concentração de gás carbônico,
naturalmente presente na atmosfera;
· resultado da introdução de substâncias naturais,
porém estranhas, a determinados ecossistemas. É o caso do
despejo de matéria orgânica no leito de um rio ou do derrame
de petróleo bruto no mar;
· causadas pela introdução de substâncias artificiais
e, portanto, estranhas a qualquer ecossistema. Por exemplo: a deposição
de agrotóxicos no solo ou nas águas e de recipientes plásticos
no solo; o lançamento de elementos radiativos artificiais na atmosfera,
no solo, nas águas. Muitas vezes, esse tipo de poluição
causa também contaminação do meio ambiente, porque,
em geral, esses elementos não são biodegradáveis
e, muitas vezes, nem degradáveis.
POLUIÇÃO DO SOLO: O PROBLEMA DO LIXO SÓLIDO
Um dos problemas mais sérios que qualquer cidade enfrenta, mas
que é particularmente grave nas enormes aglomerações
urbano-industriais, é o do lixo sólido. Trata-se de um problema
inerente à cidade, devido ao seu papel dentro do fluxo de matéria
e energia no planeta. Como já foi dito no capítulo anterior,
a cidade é um sistema especial, que constitui apenas uma etapa
consumidora dentro desse fluxo e, portanto, interfere em vários
ecossistemas planetários. ssim,
a cidade processa uma incrível quantidade de matéria e energia,
além de toneladas e toneladas de dejetos que não são
metabolizados por ela. Os excedentes vão se acumulando cada vez
em maior escala, colocando a questão do lixo urbano como uma das
mais sérias a ser enfrentadas atualmente. Com a elevação
da população e, principalmente, com o estímulo dado
ao consumismo, o problema tende a se agravar. Somente os Estados Unidos
produzem cerca de 10 bilhões de toneladas de lixo sólido
por ano, o que representa uma produção per capita de 40
toneladas anuais de lixo (domiciliar e industrial). Para ter uma idéia
melhor das dimensões do problema.
PROBLEMAS DO LIXO
Tradicionalmente, onde há serviço de coleta, O lixo é
depositado em terrenos usados exclusivamente para esse fim, os chamados
lixões, que são depósitos a céu aberto, ou
então enterrado e compactado em aterros sanitários. Ambos
se localizam, em geral, na periferia dos grandes centros. Esses locais
sofrem graves impactos ambientais. É comum também o lixo
ser depositado em terrenos baldios. Essa prática é muito
comum nas grandes cidades do mundo subdesenvolvido, nos bairros onde não
há o serviço de coleta ou ele é ineficiente. O acúmulo
de lixo no solo traz uma série de problemas não somente
para alguns ecossistemas, mas também para a sociedade. Vejamos
os principais:
· proliferação de insetos (baratas, moscas) e ratos,
que podem transmitir várias doenças, tais como a peste bubônica,
a dengue, etc.;
· decomposição bacteriana da matéria orgânica
(a fração biodegradável do lixo, predominante nos
países subdesenvolvidos), que, além de gerar um mau cheiro
típico, produz um caldo escuro e ácido denominado chorume,
o qual, nos grandes lixões, infiltra-se no subsolo, contaminando
o lençol freático;
· contaminação do solo e das pessoas que manipulam
o lixo com produtos tóxicos;
· o acúmulo de materiais não-biodegradáveis.
lém disso, como conseqüência
de problemas sociais, os lixões tornaram-se palco de cenas que
mostram até que ponto pode chegar a degradação humana:
todos os dias, milhares de pessoas, os catadores de lixo, afluem para
os lixões em várias cidades do mundo subdesenvolvido, em
busca de restos de alimentos e de alguns objetos úteis para seu
miserável dia-a-dia. Acrescente-se, ainda, um problema de ordem
estética, pois o lixo torna a paisagem urbana feia e suja, causando
poluição visual.
Possíveis soluções para o problema do lixo
s soluções para
o problema do lixo urbano são várias, dependendo da fonte
produtora. No caso do lixo hospitalar, por exemplo, não há
outra saída a não ser a incineração, dada
a sua alta periculosidade por causa do risco de contaminação.
No entanto, os dejetos hospitalares, em muitos lugares, ainda são
lançados no meio do lixo comum.
Já no caso do lixo domiciliar há várias possibilidades,
inclusive em função do estágio econômico de
cada país. Para o lixo orgânico, predominante nos países
subdesenvolvidos, o ideal seria o retorno do solo, para servir como adubo
orgânico ou também para a produção de gás
metano resultante da fermentação anaeróbica, que
pode ser usado como combustível. E muitos países, foram
construídas usinas de compostagem para o processamento do lixo
orgânico destinado à produção de metano e de
adubo. No Brasil, como aproximadamente 70% do total do lixo domiciliar
é orgânico, essa é uma boa saída para o país.
Em muitos países da Europa Ocidental, o lixo orgânico (em
torno de 30% do total) é triturado e enviado pela pia ao esgoto.
Já para o lixo inorgânico, o ideal seria a coleta seletiva,
que possibilitaria a reciclagem de grande parte dos materiais contidos
no lixo domiciliar e industrial. Materiais como vidros, plásticos,
latas de alumínio e latão, papéis e vários
tipos de metais podem ser reciclados. Isso é feito de forma significativa
em países europeus e no Japão. Na França, 25% do
vidro é reciclado, chegando a 50% na Alemanha, na Dinamarca e na
Suécia. Ainda na França, recicla-se 3% do papel (excluindo
o lixo domiciliar, esse índice chega a 35%) e de 25 a 35% do ferro,
porém apenas 1% das garrafas plásticas. Veja que ainda são
índices muito baixos (o que dizer então dos países
subdesenvolvidos?).
Muitos países instalaram usinas de incineração do
lixo. Mas, a não ser que a energia Produzida seja utilizada para
algum fim, como no caso da França, que a utiliza para aquecimento
dos metrôs, essa é uma saída pouco racional em termos
ambientais, pois desperdiça grande quantidade de materiais e de
energia, além de poluir o ar.
grande dificuldade para um melhor
aproveitamento do lixo está exatamente na forma de coleta. Como
é sólido, o lixo tem de ser coletado por caminhões,
o que por si só já cria algumas dificuldades. É necessária
uma grande frota de veículos, o que, além de agravar os
problemas do trânsito nas grandes cidades, torna-se uma solução
cara para muitos países subdesenvolvidos. Para fazer uma coleta
seletiva, seria necessário maior número de coletas, o que
implicaria maior quantidade de veículos. Além disso, é
preciso que a sociedade se conscientize da importância da coleta
seletiva.
Cobrar isso de populações pobres, que mal têm onde
morar e o que comer, soa ridículo. Por isso, é mais difícil
o combate à poluição da pobreza, composta basicamente
de dejetos orgânicos. já no caso da poluição
da riqueza, mais variada e característica dos países desenvolvidos,
é mais fácil encaminhar soluções.
SENE, Eustáquio de, MOREIRA, João Carlos - Geografia Geral
e do Brasil - Espaço Geográfico e Globalização
- Scipione, São Paulo, 1998.
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